Keynes volta a galope, Hayek no limbo da história por André Motta Araujo

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Jornal GGN, 03/04/2020

A História é fruto das grandes crises, dos cataclismas religiosos, bélicos, sanitários, da luta pelo poder, das ondas migratórias, das fomes provocadas por fenômenos naturais, fatores incontroláveis, gigantescos, muito maiores que ciclos econômicos naturais, processos menores apesar de aparentarem serem protagonistas da História.

O que é a China de hoje senão a expressão geopolítica produzida pela Revolução Comunista de 1949, que unificou um país até então dilacerado por senhores regionais, os “warlords” de Chiang Kai Shek roubando até o último grão de arroz dos camponeses? Os grandes cataclismas moldam a História e por causa, e gerado por eles, nascem gigantes com um Lord Keynes, que salvou a economia mundial nos anos 30. Parece que as crises criam seus grandes homens, produzidos antes, mas revelados pela crise.

KEYNES, UM HUMANISTA

Ao contrário do espirito mesquinho e pequeno de Hayek, apostando uma ideologia econômica em um vício do ser humano, a ganância, Keynes não tinha ideologia, pensava e agia de acordo com as circunstâncias, podia ser conservador e no momento seguinte ser heterodoxo inovador, depois voltando a ser ortodoxo mas sempre com inteligência, o Keynes do New Deal era um criativo de ideias novas e, em 1944, em Bretton Woods, inventou a catedral da ortodoxia econômica, o Fundo Monetário Internacional.

Como o costureiro capaz de desenhar vestidos longos para as grandes damas e na semana seguinte produzir uma coleção “pret a porter” ou o pianista clássico que também sabe tocar bossa nova, Keynes fazia parte das MENTES ECLÉTICAS, as únicas que representam a inteligência natural do ser humano. Os cérebros com ideias fixas, como os neoliberais de Hayek, não são inteligentes, são meros crentes de uma ideologia congelada no tempo e que nunca foi valiosa e muito menos é universal, uma receitinha que serve em algumas épocas e em alguns territórios, descartável quando aparecem os cataclismas como o vírus e as guerras dilacerantes.

Como o mundo pode aceitar pela boca de Mrs.Thatcher um sistema econômico baseado em DEFEITO do ser humano, um modelo baseado na ganância?

O homem deve visar seu aperfeiçoamento moral e não seu pecado como se esse fosse qualidade. O neoliberalismo é um mecanismo vicioso, mau na essência, porque não é lastreado no humanismo e na solidariedade, é calçado na ambição egoísta, apresentada como virtude, uma torção intelectual inaceitável, o que é ruim não pode virar bom.

A fragilidade moral do neoliberalismo é seu buraco no caso, no limite o excesso de ganância afunda o barco, todos não podem ser gananciosos ao mesmo tempo. O neoliberalismo é um aleijão social e moral que no fim de cada ciclo gera uma crise que, além de financeira, é também moral, provocada pelos excessos do egoísmo de mercado.

PENSAMENTO ECONÔMICO IDEOLÓGICO É UM CONTRASSENSO HISTÓRICO

Friedrich von Hayek, cientista político austríaco criou a ideologia do “mercado” como antídoto contra as tiranias que geraram a Segunda Grande Guerra. Em 1944 fundou a Sociedade do Monte Pelerin e publicou o livro-base O CAMINHO DA SERVIDÃO, bíblia dos avôs dos atuais neoliberais, movimento dos anos 70 lastreado em Hayek e apresentado como ideário contra o Estado Social Democrata Europeu. O grande defeito desse conjunto de ideias que formam a IDEOLOGIA DO LIVRE MERCADO é que não prevê crises.

Com crises tanto financeiras, como as de 2008, como epidêmicas, como a atual ou com guerras de todos os calibres, a ideologia neoliberal não funciona. E não funciona porque o ferramental da grande política, onde se insere uma política econômica, NÃO TEM IDEOLOGIA, depende das circunstâncias. Essa foi a grande visão de Keynes.

É infantil alguém pretender operar a economia a partir de uma ideologia universal, que serve para todas as geografias físicas e humanas, para todos os contextos políticos e sociais, a gestão da economia depende do território, de tipologia humana e social, do nível de educação, da índole do povo, cada contexto um tipo de política.

Keynes não foi o único grande pensador eclético em economia. Hjalmar Schacht, economista alemão era tão eclético quanto Keynes, mas queimou sua biografia ao servir ao nazismo como Ministro da Economia do Terceiro Reich. O mesmo cérebro era ultra ortodoxo ao liquidar com a hiperinflação alemã de 1923, um trabalho brilhante que serviu de base ao Plano Real brasileiro e foi ultra heterodoxo ao criar os mecanismos monetários para tirar a Alemanha da recessão em 1933, muito antes dos EUA, de um desemprego de 40% em 1933 chegou a pleno emprego em 1936, financiando sem dificuldades a recuperação da indústria alemã e o enorme rearmamento do Reich.

Processado em Nuremberg, Schacht foi absolvido e teve uma terceira e bem sucedida carreira de consultor econômico para países.  Que contraste desses grandes cérebros com um medíocre Hayek, cozinheiro de um prato só, propondo um sistema que inevitavelmente produz crises, como as de 2008, a serem resolvidas pelo mesmo Estado que ele propõe reduzir.

A CRISE DO NEOLIBERALISMO É ANTERIOR AO CORONAVÍRUS

A “economia de mercado” já estava em crise mundial antes do Coronavírus. A absurda concentração de renda e riqueza provocada pelo encolhimento das políticas públicas, a liberdade licenciosa para os “mercados” operarem contra o interesse geral da sociedade, caso das FUSÕES de empresas onde só ganham os acionistas e perdem todos os demais interessados, dos consumidores aos empregados, enquanto executivos nadam em bônus indecentes, banqueiros faturam comissões sobre riqueza papel fictícia e advogados jogam na mesa faturas de milhões de dólares, a sociedade é quem paga a conta como perdedora nesse processo.

O Coronavírus apenas apressará a liquidação desse modelo vicioso reciclado por Hayek e repaginado por Mrs.Thatcher e o Presidente Reagan, país do modelo renascido nos anos 7O. Nada disso sobreviverá após o Coronavírus porque agora volta com toda a força o Estado para refazer os estragos antigos e novos, da crise do modelo e da crise da saúde.

Pascácios neoliberais acham que tudo volta ao normal depois da crise sanitária. Ledo engano. A operação keynesiana nos países ricos e suas vertentes nos emergentes vai mudar a geografia do dinheiro e contas serão apresentadas.

O derrame de liquidez a partir dos EUA vai provocar mudanças nos canais mundiais do dinheiro, para o bem ou para o mal. Modelos serão revistos, nasce um novo mundo.

Mais do que nunca, como no pós-guerra de 1945, os Estados serão demandados para resolver monumentais crises sociais e econômicas, adeus neoliberais, fiquem na saudade.

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