Líderes empresariais precisam ter melhor atuação política, por Martin Wolf.

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Goste-se ou não, eles são atores poderosos em nossa frágil política democrática e na tomada de decisões global

Martin Wolf, Comentarista-chefe de economia no Financial Times, doutor em economia pela London School of Economics.

Folha de São Paulo, 19/01/2022

Nós no mundo ocidental enfrentamos duas crises: um colapso na confiança em nosso sistema político democrático e uma ameaça ambiental planetária. A primeira exige a renovação de um objetivo comum no país. A segunda exige não só objetivo comum no país, mas um objetivo global compartilhado. São coisas que as empresas não podem oferecer. É preciso ter uma política eficaz. Uma grande pergunta é se as empresas conseguirão promover as soluções políticas necessárias ou apenas vão criar problemas políticos.

Um pequeno raio de luz sobre a política vem de um relatório divulgado nesta terça-feira (18) pelo Centro para o Futuro da Democracia, em Cambridge, intitulado “O Grande Reinício”. Ele conclui, a partir de pesquisas de opinião feitas em 27 países, incluindo todas as democracias ocidentais, que a pandemia reforçou a confiança no governo e prejudicou de modo significativo a credibilidade dos populistas. Mas até agora não aumentou o apoio à democracia. Isso é pelo menos moderadamente encorajador. A confiança no governo é uma condição necessária para a ação, especialmente quando significa sacrifício, como no caso do meio ambiente.

Uma grande questão, entretanto, é onde se encaixam as empresas. Essa é uma pergunta especialmente apropriada a se fazer nesta semana, quando se realiza, embora virtualmente, o Fórum Econômico Mundial, organização que reúne líderes empresariais globais.

As empresas operam dentro de um sistema: o capitalismo de mercado. Esse sistema é globalmente predominante hoje, pelo menos no campo econômico. Isso é verdade até mesmo na China atual. A essência do capitalismo é a concorrência.

Isso tem implicações profundas: entidades que competem em busca de lucro são basicamente amorais, mesmo que sejam cumpridoras da lei. Elas não farão facilmente coisas que não sejam rentáveis, por mais que sejam socialmente desejáveis, ou se recusarão a fazer coisas que são rentáveis, embora socialmente indesejáveis. Se algumas tentarem fazer alguma dessas coisas, as outras as tirarão da concorrência. Seus acionistas também podem se rebelar.

Ser ou fingir ser virtuoso pode trazer benefícios para uma companhia. Mas outras podem se sair bem apenas sendo mais baratas. A sociedade —nos níveis local, nacional e global— precisa criar a estrutura em que essas empresas atuam. Isso se aplica a todas as dimensões —lei trabalhista, seguridade social, políticas regionais, regulamentação financeira, políticas de concorrência, políticas de inovação, apoio à pesquisa fundamental, reação a emergências, meio ambiente e assim por diante.

O que isso pode significar é o tema de uma edição recente da Oxford Review of Economic Policy sobre capitalismo, que contém ensaios que realizam uma análise desafiadora da economia do capitalismo contemporâneo. De modo crucial, as suposições sob as quais o capitalismo evoluiu nas últimas décadas são questionáveis e tiveram alguns resultados altamente perversos. Esse é um volume realmente importante (do qual também participei).

Especialmente importantes são os ensaios de Anat Admati, de Stanford, e de Martin Hellwig, do Instituto Max Planck.

Ambos consideram o papel dos líderes empresariais como vozes influentes, mas com interesses próprios, em definir as políticas públicas no direito empresarial, leis da concorrência, regulamentação financeira, regulamentação ambiental e muitas outras áreas. O resultado, sugerem eles e outros autores, foi o surgimento de um sistema de extração de renda oportunista que cria riscos não asseguráveis para a maioria e vastas recompensas para uns poucos.

Isso por sua vez teve um grande papel em minar a confiança na democracia e aumentar o apoio aos populistas.

Crucialmente, isso destrói a ideia ingênua de que é possível separar o papel das empresas que maximizam os lucros do da política ao definir as “regras do jogo”, como Milton Friedman recomendou famosamente. As empresas podem usar sua influência para estabelecer as regras do jogo sob as quais poderão então atuar. Não é a única voz, é claro, mas é uma com bons recursos e influente, particularmente nos Estados Unidos, o mais importante país ocidental.

Os resultados são uma forma de capitalismo que, apesar de toda a sua indubitável superioridade econômica sobre sistemas alternativos, cria uma distribuição altamente desigual de recompensas e transfere riscos não administráveis para pessoas comuns. O resultado foi a política atual de nervosismo e raiva. A crise financeira de 2007-2012 teve um grande papel ao fomentar esse nervosismo e essa raiva, enquanto dezenas de milhões de pessoas inocentes sofriam e as instituições cujo comportamento causou a implosão eram salvas. É certamente por isso que os populistas de direita, notadamente Donald Trump, acabaram substituindo conservadores mais tradicionais.

Hoje, porém, a pandemia criou uma oportunidade para uma política de competência e objetivo comum. Isso nos dá pelo menos uma chance de agir melhor.

Acredito que exista uma tese para a reforma substancial de nossa forma de capitalismo, ao mesmo tempo preservando sua essência de inovação e concorrência. Isso não seria inédito. A criação da companhia de responsabilidade limitada com capital em ações já foi uma inovação altamente polêmica. Hoje, entretanto, a maior questão, na minha opinião, é a relação entre empresas, sociedade e política.

Assim, aqui vão perguntas que eu acho que os líderes empresariais envolvidos com o FEM deveriam fazer a si mesmos:

O que eu, como indivíduo influente, líder empresarial e membro de organizações empresariais, estou fazendo para aumentar a capacidade do meu país e do mundo de tomar decisões sensatas no interesse de todos? Estou principalmente fazendo lobby por impostos e tratamento regulatório especiais para nosso próprio benefício, ou estou apoiando a ação política e atividades que vão unir as pessoas do meu país dividido? Estou preparado para pagar os impostos que nosso sucesso torna justificáveis, ou estou explorando cada brecha que me permite enviar lucros para paraísos fiscais que em nada contribuíram para o nosso sucesso? O que eu, minha empresa e as organizações de que faço parte estamos fazendo para desencorajar os danos online, a corrupção, a lavagem de dinheiro e outras formas de atividade perigosa e até criminosa? O que estou fazendo para apoiar leis que exigirão prestação de contas de organizações empresariais vilãs e seus líderes? E, principalmente, o que estou fazendo para reforçar os sistemas políticos dos quais depende o sucesso da ação coletiva?

A pandemia trouxe muitas lições. Mas talvez a mais importante seja o que pode ser feito se as capacidades das empresas privadas se unirem a recursos públicos para alcançar objetivos urgentes. É isso o que torna a história da vacina tão animadora (e a reação dos antivacinas tão deprimente); líderes empresariais são pessoas racionais encarregadas de instituições importantes. Eles precisam avaliar a necessidade de reforçar nossa capacidade de tomar decisões coletivas de forma sensata. Gostem ou não, eles são atores poderosos em nossa frágil política democrática, e também na tomada de decisões global. Eles precisam levar esse papel a sério e exercê-lo de modo decente e responsável. Apesar de toda a retórica que ouvimos, ainda não é o que vemos.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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