Livro revela atuação da ditadura brasileira no golpe contra Allende

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Enquanto lia ‘O Brasil contra a Democracia’, o ronco dos gorilas ecoava de Brasília, ocupada pela xepa do regime militar

Karla Monteiro, Jornalista e escritora, publicou os livros “Karmatopia: Uma Viagem à Índia”, “Sob Pressão: A Rotina de Guerra de um Médico Brasileiro” (com Marcio Maranhão) e “Samuel Wainer: O Homem que Estava Lá”

Folha de São Paulo, 12/04/2022

No capítulo 13, intitulado 11 de setembro de 1973, meu queixo tremeu: o La Moneda sob intenso bombardeiro, Salvador Allende entrincheirado, a opção pelo suicídio. Quando já não mais podia resistir, o presidente do Chile, eleito democraticamente no pleito de 1970, apoia o maxilar na ponta do cano da AK-47 que Fidel Castro lhe presenteara e aperta o gatilho.

Nas últimas três semanas, mergulhei neste livro espetacular: “O Brasil contra a Democracia”, do jornalista Roberto Simon. Enquanto eu devorava as quase 500 páginas, de Brasília, a capital ocupada pela xepa do regime militar, chegavam-me roncos dos gorilas, celebrando o 31 de março. Aliás, os gorilas não merecem a associação. Mas era assim que os fardados traidores da democracia eram chamados no tempo retratado na obra.

Muito bem-documentado e muito bem-escrito, o livro de Simon nos planta na América do Sul das quarteladas, costurando com maestria a trama que conecta a ditadura brasileira a Washington, com Brasil e Estados Unidos atuando em paralelo para desestabilizar o Chile de Salvador Allende. Não satisfeita em aniquilar a liberdade em território nacional, a gorilada se esforçava para exportar barbárie para todo o Cone Sul.

A imagem cristalizada do Brasil cordeiro dos Estados Unidos tomba. Como nos demonstra o autor, o presidente Médici tinha suas próprias motivações. Além das questões de ideologia e geopolítica, o Chile dos anos 1970 era um ninho de “subversivos” brasileiros.

Entre esses, nomes notórios, como Darcy Ribeiro, Almino Afonso, José Serra, Carlos Minc. Para estender os tentáculos da repressão, tornava-se urgente golpear a “Cuba do Pacífico”.

A CIA NO CHILE
Por sua vez, o republicano Richard Nixon também encontrava-se incomodado com a ascensão de um socialista ao governo do Chile. A documentação que Simon amealhou nos arquivos americanos é riquíssima. Nas conversas de Nixon com seus assessores, a trama que, anos antes, derrubara Jango no Brasil, surge em frases casuais.

Por exemplo: “Walters é agressivo, criativo, impiedoso e teve muito a ver com o que aconteceu no Brasil em 1964”, comenta orgulhoso o presidente dos Estados Unidos, falando de Vernon Walters, adido militar na embaixada no Rio à época do golpe.

Em 1971, ao visitar a Casa Branca, Médici contou a Nixon que estava em contato com militares chilenos para apear Allende e previu que este desfecho não tardaria. De pronto, o presidente americano, atolado até o pescoço no Vietnã, ofereceu “dinheiro ou outra ajuda discreta”.

Antes mesmo de Allende ser eleito, na verdade, Henry Kissinger, conselheiro de Segurança Nacional e eminência parda da política externa do governo Richard Nixon, já havia decidido o destino de Allende. Na sua avaliação, os Estados Unidos não deveriam “ficar parados e ver um país virar comunista por causa da irresponsabilidade do seu próprio povo”.

“Nixon acreditava que, do México para baixo, apenas ditaduras eram realmente confiáveis e boas para os Estados Unidos. Regimes civis davam dores de cabeça”, escreveu o autor.

A IMPRENSA
Curiosas duas passagens de “O Brasil contra a Democracia” sobre o papel da imprensa brasileira nesta história. Em junho de 1973, na primeira tentativa de derrubar Allende, um cinegrafista argentino filmara a própria morte. Na cena encontrada no rolo de filmes, o militar aparecia apontando a pistola na direção da câmera, até apertar o gatilho.

Com as imagens correndo o mundo, o Globo resolveu dar uma forcinha aos golpistas, publicando uma entrevista em que um jornalista chileno atribuía o assassinato a allendistas. O diário de Roberto Marinho, notório apoiador da ditadura brasileira, só se esqueceu de avisar aos leitores que o jornalista em questão era partidário do Patria y Libertad, o mais notório grupo de extrema direita do Chile.

Na mão oposta, no dia seguinte ao famigerado 11 de setembro, o Jornal do Brasil saiu com uma capa histórica.

Proibido pela censura de dar manchete para o ocorrido no Chile, o saudoso Alberto Dines, então diretor de Redação, soltou uma edição sem manchete alguma. Pela primeira vez, uma primeira página sem título ganhava as bancas.

A obra de Roberto Simon é fundamental, inquietante, triste. Nos anos 1960-1970, a democracia brasileira fora a primeira a escorrer pelo ralo das conspirações que engolfavam a convulsionada América do Sul no auge da Guerra Fria.

Exatos 58 anos depois, o Brasil está de novo na vanguarda, sob ameaças abjetas dos gorilas aboletados no governo de Jair Bolsonaro, eleito após um longo e tenebroso processo de desestabilização. Fico imaginando o que os pesquisadores encontrarão nos arquivos daqui a meio século.

Gabriel Boric que se segure!

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