Mais esforço por ciência e tecnologia, por Benito Salomão.

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Políticas têm papel crucial para determinar sucesso ou fracasso das nações

Benito Salomão, Doutor em economia, é economista chefe da Gladius Research

Folha de São Paulo, 16/05/2022

Embora nem sempre esteja claro, a razão de existir da economia enquanto área específica do conhecimento científico é a investigação sobre a trajetória de prosperidade dos países. Esta foi a preocupação de Adam Smith quando publicou o clássico “A Riqueza das Nações”, em 1776, e continua sendo a preocupação de grandes expoentes da ciência contemporânea, como Robert Solow, Robert Lucas, Paul Romer e Daron Acemoglu.

Existe hoje uma ampla literatura capaz de diagnosticar os fatores que levam um país a romper (ou não) o horizonte da renda média e tornar-se uma nação de alta renda. No passado recente, durante algumas décadas, alguns autores propuseram a chamada hipótese da convergência. Grosso modo, a hipótese da convergência pressupõe um país na fronteira da renda per capita e que a tendência dos países abaixo desta fronteira seria convergir para ela. Mais recentemente, a evidência empírica apontou que a convergência da renda per capita dos países mais pobres em direção aos ricos não se verificou. Ao contrário, houve divergência.

O Brasil, durante algumas décadas, foi tido como um país promissor nesse aspecto. As quase cinco décadas de longo crescimento econômico, entre os anos 1930 e 1980, causaram enorme esperança de que, no futuro, pudéssemos nos posicionar entre os países desenvolvidos. Isso, no entanto, foi interrompido, apesar dos avanços nas áreas econômica, social e institucional verificados a partir dos anos 1990.

Vale aqui frisar esses avanços. O Brasil fez parte do trabalho necessário em direção à renda mais alta: 1 – tornou-se uma economia industrial e diversificada; 2 – tornou-se uma sociedade urbana; 3 – tornou-se um país macroeconomicamente estável, apesar de fricções fiscais e monetárias de curto prazo; e 4 – realizou um dos maiores programas mundiais de inclusão e assistência social, além da universalização de serviços públicos.

Apesar de todo o esforço, o país não foi capaz de romper a faixa da renda média. Pior ainda, começou a década de 2010, segundo o Banco Mundial, com uma renda per capita de US$ 15 mil por ano e terminou, em 2020, com US$ 14,8 mil. A economia dos Estados Unidos, nossa referência de ponto de convergência, saltou de US$ 49,8 mil para US$ 63,6 mil neste mesmo período.

Voltando à literatura, em modelos de crescimento endógeno como os de Paul Romer, a política de desenvolvimento científico e tecnológico tem papel crucial para determinar o sucesso ou fracasso das nações na convergência para os países de renda alta. Esse foi o esforço da Coreia do Sul, cujo governo gasta hoje, segundo a Unesco, cerca de 4,5% do PIB em ciência e tecnologia. Esforço significante faz o governo da China, empenhando 2,1% do PIB, ou o dos Estados Unidos, gastando 2,8%, enquanto o Brasil investe 1,1% na mesma rubrica.

Embora as restrições fiscais deixem claras as dificuldades, o Brasil precisa se esforçar em ao menos dobrar o seu gasto em ciência e tecnologia nos próximos anos, sob pena de continuar acumulando décadas perdidas pela frente.

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