Martin Wolf: ‘Democracias e autocracias passarão a entrar em conflito’

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Em entrevista, o comentarista-chefe de economia do jornal Financial Times avalia ser inevitável uma divisão do mundo em dois blocos

Entrevista com Martin Wolf, comentarista-chefe de economia do ‘Financial Times’

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo – 20/03/2022

A globalização atingiu seu pico e começa, agora, a regredir, sobretudo com o impacto da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, avalia o comentarista-chefe de economia do jornal Financial Times, Martin Wolf. Diante desse cenário, é inevitável que o mundo se divida em dois blocos – um liderado por Europa e EUA e outro, por China e Rússia. “Começamos a nos mover para uma era de conflitos geopolíticos entre democracias e autocracias. E isso pode durar bastante tempo.”

Para Wolf, o Brasil deverá ser um dos menos afetados por esse novo panorama. “Pelo tamanho e por suas exportações, o País será capaz de continuar comercializando com ambos os lados.” O comentarista diz ainda que o destino do Brasil depende apenas das decisões feitas por sua população e diz se preocupar com as opções de candidatos à Presidência. “Gostaria de ver um líder mais jovem, competente, que diz a verdade aos brasileiros e tenta uni-los para usar o imenso potencial que o Brasil tem.”

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Comparação com anos 70
É razoável imaginar que o choque energético e seu impacto econômico serão um pouco menores, porque a intensidade do uso do petróleo diminuiu. Parece improvável que a inflação suba tanto quanto naquela época. Mas temos um novo elemento: a alta no preço dos alimentos. Assim, para países importadores de alimentos e de energia, pode ser pior do que nos anos 1970. Não está claro quanto tempo esse choque inflacionário vai durar, e não sabemos qual será o impacto financeiro.

Na última vez, países como o Brasil foram incentivados a tomar emprestado dinheiro para gerenciar o problema do preço do petróleo. Isso levou à crise da dívida dos anos 80. Não estamos vendo nada disso por enquanto. Devo adicionar que essa guerra é mais preocupante do que qualquer coisa que aconteceu nos anos 70. Para mim, o uso de armas nucleares parece mais perigoso agora. De qualquer modo, tenho certeza de que veremos mudanças geopolíticas e geoeconômicas decorrentes da guerra nos próximos 10 ou 15 anos que agora não conseguimos antecipar.

Estagflação
O mais óbvio para mudar essa tendência de estagflação é reverter a alta do preço da energia e dos alimentos, que já vínhamos vendo e que se acelerou na guerra. Para isso, a guerra teria de acabar e as sanções teriam de ser retiradas. Além disso, as restrições na produção de energia, que já existiam antes da guerra, teriam de ser superadas. Isso teria de incluir a aceitação, pelos europeus, da dependência do gás e do petróleo russos indefinidamente. Acho que nada disso é provável. Para mim, parece claro que a estagflação – a combinação de crescimento fraco, se não recessão, com inflação alta – durará pelo menos dois anos. E tem uma boa probabilidade, devido a uma segunda rodada de efeitos, que se prolongue mais.

Globalização
A abertura da economia em todo o mundo, isto é, a tendência para o comércio crescer mais rápido que o PIB mundial, foi uma força poderosa entre 1980 e a crise de 2008. A maior parte dos países foi afetada por isso em um grau significativo. O Brasil, pouco, mas, na Ásia, a globalização foi incrível. Desde 2008, nós não ‘desglobalizamos’, mas o comércio internacional deixou de crescer mais rápido do que o PIB global. Isso aconteceu em parte porque o ritmo de crescimento das importações chinesas diminuiu, mas também porque a globalização das redes de fornecimento atingiu um grau meio exaustivo, dado que a política de liberação do comércio meio que parou. O último grande evento da liberação do comércio global foi a entrada da China na OMC há 21 anos. Aí, é claro, a crise de 2008 desacelerou a globalização financeira. Houve um enorme aumento da detenção transfronteiriça de ativos financeiros. O investimento estrangeiro direto continuou, mas não cresceu como antes. Isso em parte por causa do choque da crise financeira e, em parte, nos últimos sete anos, porque cresceu a tensão entre o Ocidente e a China.

A China é o principal ator no processo de globalização, e a relação comércio internacional e PIB da China está diminuindo desde 2008, porque negócios, pessoas e governos estão se tornando mais desconfiados uns dos outros. A disposição para se envolver no comércio internacional e criar cadeias internacionais de suprimentos, principalmente na China, diminuiu. Finalmente, tivemos a covid, que também foi um choque para as cadeias de fornecimento. Já bem antes da guerra, o processo de globalização está mais lento, se não parado. Se você considerar tudo isso, atingimos o pico da globalização, e isso está diminuindo. Agora temos a guerra. Guerras aumentam a ideia de que precisamos de autonomia estratégica e de estar assegurados de redes de fornecimentos.

Rússia e China
A Rússia não é um país muito importante economicamente, exceto pelas commodities. Mas a China tem apoiado a Rússia. Isso está tornando europeus e americanos mais hostis do que antes. A maior mudança será na Europa, porque os americanos já eram hostis. Na Europa, vinha havendo um comprometimento para a abertura de fronteiras. Os europeus acreditam que o comércio internacional seja uma base para a paz. Os alemães, principalmente, acreditavam que o comércio com a China era lucrativo e geopoliticamente frutífero, assim como eram suas crenças com a Rússia em relação à energia. Isso começou a ser questionado no último ano.

Os europeus estão mais preocupados com a propriedade chinesa de negócios europeus e a propriedade intelectual chinesa. A agressão russa, os consequentes embargos e a indicação dos chineses de que o apoio à Rússia é inevitável vão deixar a Europa desconfiada em relação à China. Esse processo está reforçando os laços entre os EUA e a Europa, fortalecendo a Otan. Não vejo uma harmonia ocidental tão grande desde o começo dos anos 80. Por isso, acho que haverá uma ‘desglobalização’ entre os países ocidentais e a Rússia e a China. Haverá dois blocos emergindo, um ocidental-central e outro de países próximos à China e à Rússia. Os outros países terão de decidir como vão manter relações comerciais. A maioria vai querer uma boa relação com ambos. O Brasil vai querer isso por razões comerciais, preservando sua autonomia. Vai ser uma confusão. Mas começamos a nos mover para uma era de conflitos geopolíticos entre democracias e autocracias. E isso pode durar bastante tempo e ser muito profundo.

Brasil
O Brasil deve ser uma das economias menos afetadas por esse cenário. É um país grande, que está longe dos atores principais. O país mais próximo é os EUA, e os EUA não vão interferir diretamente no Brasil. A China também não.

Pelo tamanho e por suas exportações, o País será capaz de continuar comercializando relativamente livre com ambos os lados. O Brasil nunca se tornou um país muito globalizado, sua economia industrial tem sido pouco dinâmica e pouco integrada. Minha visão sempre foi a de que 90% do que determina o sucesso do Brasil são as decisões feitas pelos brasileiros: a qualidade de seus líderes.

Há, porém, alguns perigos que o Brasil tem de evitar. O setor financeiro pode ficar instável. As empresas não devem se endividar em dólar. O Brasil precisa preservar a estabilidade monetária, não permitir que se escorregue para a inflação. O País tem ido bem nessa área, mas não sei quanto isso vai durar com o populismo. E, claro, o Brasil precisa de uma liderança melhor. Não acho que exista dúvida em relação a isso e me preocupo com os candidatos à Presidência.

Futuro governo
Esperaria que um novo governo Lula fosse melhor do que um novo governo Bolsonaro, que acho que é o pior que um governo consegue ser. Bom, claramente pode ser ainda pior, como um governo Putin. Nos primeiros anos do Lula, acreditei que ele estava fazendo basicamente tudo certo. Acho que as pessoas ficaram muito confiantes em relação a isso. E ele não fez o suficiente. Não tenho a mesma esperança que tinha por Lula há 20 anos. Gostaria de ver um líder jovem, com as ideias certas, competente, que diz a verdade aos brasileiros e tenta uni-los para usar o imenso potencial que o Brasil tem.

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