Medos contemporâneos, assassinatos e violência no país do futuro

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Depois do assassinato brutal e selvagem da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, a sociedade percebeu que estamos mesmo vivendo num mundo cada vez mais agressivo, violento, covarde e sem perspectivas de melhoras imediatas, um mundo onde o salve se quem puder é a grande regra de organização social e quem pode mais chora menos, estes clichês expressam bem os medos que povoam o imaginário da população, com isso corremos o risco de eleger um salvador da pátria que nos acolherá e resolverá todos os problemas do Brasil, um dom Sebastião recém chegado da batalha para nos libertar.
A violência da sociedade brasileira esta atrelada a alma dos indivíduos, corroendo os ideais e transformando os valores e gerando uma ética própria, a ética da malandragem, onde todos aqueles que agem de forma ética são vistos como idiotas, se o certo é transgredir as regras e levar vantagem em tudo, ser honesto é um grave erro, um equívoco imperdoável, como nos disse certa vez o grande jurista Rui Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a de ter vergonha de ser honesto”.
A violência, a corrupção e a impunidade andam de mãos dadas, vivemos em um país onde a justiça tem pouca efetividade, a impunidade reina nas classes mais aquinhoadas, as penitenciárias estão lotadas de pobres, negros e prostitutas enquanto os barões vivem num mundo nababesco, onde o luxo com o dinheiro alheio é a regra e os vassalos continuam mendigando pelas migalhas do sistema.
Vivemos numa sociedade marcada por grandes discussões e intolerâncias, se defendo uma ideia contraria a sua, sou visto como ignorante e, com isso, sou defenestrado nas redes sociais, se me insurjo contra o pensamento contrário sou atrasado e retrógrado, criamos estereótipos e colocamos os outros dentro como se estivéssemos organizando produtos em uma fábrica de enlatados, o resultado direto disso tudo é uma grande violência emocional, social e, em muitos casos até física.
Enquanto a Receita Federal e seus congêneres estaduais desenvolvem técnicas avançadas e modernas para coibir sonegação dos grupos das classes média e baixa, as classes dominantes possuem isenções variadas que garantem aos grupos dominantes o pagamento reduzido de impostos e os ganhos crescentes que fazem seus patrimônios crescerem de forma acelerada, recentemente descobriu-se que os seis homens mais ricos do país possuem uma fortuna maior que a renda de 100 milhões de brasileiros, uma situação insustentável e de dar inveja aos maiores empreendedores do mundo, quanto empreendedorismo.
De outro lado encontramos um déficit habitacional de mais de 6 milhões de residências, uma economia com taxas de desemprego de mais de 12 milhões de pessoas, isso sem falar dos grupos que se encontram em trabalhos degradantes e em condições de informalidades, um exército de mais de 10 milhões de pessoas, um país a beira de um conflito social, onde o luxo contrasta com a miséria e os privilégios de uns convivem com a pobreza e a miséria de outros, uma situação que beira a insustentabilidade e o caos.
A morte da vereadora da cidade do Rio de Janeiro contrasta com a morte da juíza Patrícia Acioly, estas duas mulheres ousaram se insurgir contra as inequidades reinantes no Brasil e foram mortas com requintes de crueldade, seus ideias estão vivos na mente de poucos, muitos vão as ruas, fazem movimentação, gritam frases de ordem, reclamam da classe política e se insurgem contra tudo e contra todos e se esquecem que a grande transformação se dá no intimo de cada um, não teremos transformação efetiva se não construirmos pontes para as pessoas, precisamos conversar, dialogar, respeitar as diferenças e as diversidades e precisamos fugir das críticas destrutivas que pululam nas redes sociais e servem como instrumentos de destruição e difusão da dor e da indigência moral e espiritual, o mundo atual precisa construir pontes mas, ainda continuamos a nos enganar e construindo muros, segregação, ódio, ressentimento e degradação, com isso, estamos colhendo dor e sofrimento, afinal colhemos aquilo que plantamos e cultivamos, como nos foi dito a muitos milênios.
O assassinato da vereadora Marielle Franco que, por hora, emociona o país, tende a ser esquecido muito rapidamente, todos aqueles que se colocam na condição de auxílio e ajuda aos que sofrem, muito brevemente estarão longes e distantes, isto porque a vida é intensa e os compromissos assumidos são esquecidos, não honramos mais as nossas palavras, não mais acreditamos em nossos compromissos e não mais acreditamos no ser humano, o resultado disso tudo já esta a vista de todos, uma sociedade carcomida pela corrupção, pelos desmandos e pela degradação, triste fim para um pais que desde Stefan Zweig era conhecido como o país do futuro.

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