Menos China e mais EUA no GPS da economia, por Marcos Vasconcellos.

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Parece um bom momento para repensar a ‘diversificação geográfica’ do seu dinheiro

Marcos Vasconcellos, Jornalista, assessor de investimentos e fundador do Monitor do Mercado

Folha de São Paulo, 04/12/2023

Todo o mundo se acostumou com uma China cujo PIB (Produto Interno Bruto) cresceu mais de 6% anualmente desde 1991. Até 2015, aliás, eram mais de 7% ao ano. Agora, é hora de recalcular a rota da economia mundial pensando que o termo “crescimento chinês” pode não ser mais a mesma hipérbole de antes.

Os analistas do Goldman Sachs, gigante global dos investimentos, apontaram na semana passada que trabalham com a perspectiva de que a China se estabilize com um crescimento anual de 4%. O que não seria pouco para outros players.

De 2010 até hoje, o Brasil só cresceu mais de 4% duas vezes (2010 e 2021). Os Estados Unidos, só uma vez (2021).

O setor imobiliário é grande pilar no aquecimento da economia chines, mas uma crise imobiliária gigantesca (o caso da Evergrande foi a ponta do iceberg) detonou o sistema financeiro.

O governo comunista —centralizador, por definição— usa o seu controle para tentar aquecer o mercado. O gigante asiático possui cidades-fantasma, criadas para inflar a demanda da construção civil, mas sem que haja gente interessada em morar nelas (vale a pena gastar uns minutos no YouTube, aliás, para conhecer as impressionantes construções abandonadas).

No mercado primário —o de lançamentos—, o governo chinês está acostumado a controlar desde a fixação de preços de terras até o controle das vendas das incorporadoras.

O governo não tem tanto poder, entretanto, sobre o chamado mercado secundário, ou seja, quando a transação é feita entre pessoas. E agora o país trabalha para conter cerca de US$ 8,4 trilhões em dívidas pendentes de hipotecas e de incorporadoras.

Enquanto eles descobrem como lidar com o novo problema, a economia local segue travada, e os preços das commodities, como aço e petróleo, sofrem. Neste ano, o preço do petróleo tipo Brent já caiu mais de 7,5%. O aço longo é vendido, hoje, por 85% do valor de janeiro.

Mas o dinheiro segue as leis da física e não pode simplesmente desaparecer. Ele muda de mãos. Os dados da EPFR, empresa que monitora o fluxo do dinheiro em fundos por todo o mundo, mostram que os fundos transnacionais chegaram à marca de US$ 70 bilhões em ativos nos EUA, em novembro, enquanto na China, depois de terem esbarrado nos US$ 20 bilhões em maio, hoje estão perto de zero.

O crescimento do PIB dos EUA acima do chamado consenso de mercado explica em parte esse movimento, enquanto a China ainda tenta achar o passo para o novo ritmo da música.

A Bolsa brasileira segue com a representatividade econômica de uma gota nesse oceano financeiro, mas, a depender do quanto a sua carteira de investimentos depende da exportação para a China, parece um bom momento para repensar a “diversificação geográfica” do seu dinheiro.