Milton Santos, morto há 20 anos, nos convida a construir uma outra globalização, por Itamar Vieira Júnior.

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Geógrafo apontou caminhos para um projeto humanitário que se contraponha ao poder totalitário do dinheiro

Itamar Vieira Júnior, geógrafo e escritor, autor de “Torto Arado”

Folha de São Paulo, 25/06/2021.

Há 20 anos, Milton Santos, um dos maiores pensadores brasileiros do século 20, nos deixava.
Nascido em 1926 no município de Brotas de Macaúbas, região da Chapada Diamantina, Santos migrou com a família para Salvador ainda na infância, onde concluiu o ensino fundamental e ingressou no curso de direito da Universidade Federal da Bahia.

Embora tenha se tornado bacharel, Santos se sentia vocacionado mesmo para a pesquisa e o ensino da geografia, sua grande paixão, o que fez com que se tornasse professor do colégio municipal de Ilhéus. Lá, passou a colaborar como correspondente do jornal A Tarde, de Salvador, atividade da qual nunca se afastou em definitivo, tendo inclusive escrito regularmente para esta Folha.

De volta à capital, tornou-se professor da Universidade Católica e, pouco tempo depois, seguiu para seu doutoramento em Estrasburgo, na França, sob a orientação do geógrafo Jean Tricart.

De volta ao Brasil, fundou o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais. Continuou atuando como professor, pesquisador e jornalista. Perseguido após o golpe de 1964, Santos foi preso por subversão e logo depois se exilou na França, tornando-se professor de algumas universidades do país —Toulouse, Bordeaux, Sorbonne—, além de outras nas Américas e na África, como MIT, Toronto, Columbia, Stanford e Dar es Salaam.

Em Dar es Salaam, pôde estabelecer um contraponto à sua formação predominantemente europeia, deixando-se influenciar por grandes pensadores do pós-colonialismo e incorporando ao seu pensamento marxista perspectivas do socialismo africano, alicerçado em valores caros ao continente, como o coletivismo, o humanismo e a sociabilidade.

Essa influência surgiu com força em seus escritos que interpretavam os desafios da descolonização e do neocolonialismo.

Milton Santos foi um dos grandes expoentes da renovação da geografia no final da década de 1970. Seu livro “Por uma Geografia Nova” contribuiu de forma definitiva para as bases da renovação crítica metodológica e epistemológica da disciplina.

A partir de então, aprofundou ainda mais seus estudos epistêmicos em livros como “O Espaço do Cidadão”, “A Natureza do Espaço”, “Espaço e Método”, “Metamorfose do Espaço Habitado”, na mesma medida em que avançava em sua análise para a compreensão do Brasil e do mundo em desenvolvimento ante os processos de globalização cada vez mais radicais e que têm ampliado, sobretudo, as desigualdades de forma jamais vista na história. Em 1994, foi agraciado com o Prêmio Internacional Vautrin Lud, considerado o Nobel da geografia.

A obra de Milton Santos é o reflexo de seu pensamento humanístico, crítico, político e solidário. Em “Por uma Outra Globalização”, publicado um ano antes de sua morte, Santos ilumina com suas reflexões os fenômenos sociais e econômicos de nosso tempo. Com sua análise acurada, ele anteviu a possibilidade de uma outra globalização, quiçá solidária, nascida das camadas mais desfavorecidas da sociedade.

Nesse livro, ele se antecipa no tempo ao descrever o poder totalitário do dinheiro, da monetização dos afetos e de um mundo cada vez mais subjugado pelo imperativo da informação. Mas, além de refletir sobre a “globalização perversa” ou “globalitarismo” que nos é imposto, Santos nos convida a construir uma outra globalização, como projeto humanitário a se contrapor às normas hegemônicas e predatórias das grandes corporações e dos Estados nacionais.

Assim como Milton Santos, estudei na Universidade Federal da Bahia, onde segui da graduação à pós-graduação. Logo após sua morte, Maria Auxiliadora da Silva, professora da universidade, e a viúva de Santos, Marie-Hélène, resgataram um antigo desejo dele: subsidiar a formação de alunos carentes.

Com recursos próprios, a família Santos tornou real esse propósito e, desde então, tem colaborado com a formação de estudantes de baixa renda através de bolsas de iniciação científica que levam o seu nome, projeto já institucionalizado pela universidade e que em 2022 completa 20 anos.

Foi assim que me tornei o primeiro “bolsista Milton Santos”, fato fundamental para que pudesse prosseguir com meus estudos universitários e que contribuiu, sem nenhuma dúvida, para minha formação superior. Hoje, já são dezenas de alunos egressos do mesmo programa, e nesse gesto altruísta podemos entrever a práxis de uma cidadania solidária.

Em um país de pouca memória, haveremos sempre de contar e recontar as histórias dos nossos, daqueles que não apenas sonharam com um lugar mais justo e humano, mas também se dedicaram a apontar os caminhos para alcançá-lo.

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