Morte e vida da pequena empresa no pós-pandemia

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Gigantes do varejo monopolizam como nunca as vendas e arruinam milhões de empreendedores. Mas cresce tendência oposta: o consumo consciente e local, oportunidade para recuperar economia, caso haja políticas públicas robustas…

Outras Palavras

Miriam Duailibi e Sérgio Miletto – 16/06/2021.

Não há mais dúvida que o mundo mudou radicalmente nos últimos dois anos.

A pandemia, o medo do contágio e a consequente necessidade de distanciamento social aceleraram dramaticamente os processos de automação que estavam em curso inicial ou em gestação.
Pequenas indústrias, empresas de serviço e comércio tiveram que rapidamente se adaptar para não fechar as portas.

A explosão dos Market Places

Grandes marcas do varejo como o Magazine Luiza e as Americanas além de investirem fortemente em plataformas de internet para escoar seus produtos, se transformaram, a exemplo da Amazon e Mercado Livre, em Market Places, ou seja, enormes mercados virtuais onde pequenos produtores, distribuidores e comerciantes expõe e vendem seus produtos.

Grupos de investidores criaram plataformas como a Enjoei.com onde os próprios consumidores criam suas vitrines de roupas de marcas caras e objetos preciosos seminovos que são oferecidos aos clientes de todo o país.

Muitas são as vantagens que este novo tipo de comércio pode oferecer aos pequenos e micros: a possibilidade de uso de plataformas já existentes, a garantia de recebimento do valor de venda, a divulgação de sua marca, o sistema de entrega rápida, entre outros.

No entanto, o custo para usufruir deste espaço e suas vantagens pode ser muito alto e até mesmo impeditivo. A comissão cobrada a cada venda, a necessidade de manter estoque, a obrigatoriedade da entrega no prazo, os preços que devem ser baixos para serem competitivos exigem altos investimentos e capital de giro, ativos que quase nunca a pequena e a microempresa possuem.

As vendas online

As redes de supermercados, farmácias, material de construção, até mesmo hortifrúti e panificadoras sofisticaram seus produtos, aceleraram suas vendas online, entrega rápida sem custo e ofertas imbatíveis.

Este novo jeito de comprar e vender fez do comércio local sua maior vítima. Com apenas um celular ligado à internet, consumidores dos mais longínquos cantos do Brasil podem comprar diretamente dos distantes Market Places e das grandes redes sem sair de sua casa.

Se antes a proximidade impelia a escolha, especialmente nos grandes centros urbanos onde a locomoção é demorada e cara, com a popularização da internet este fator não importa mais.

O pequeno produtor, a papelaria da esquina, o mercadinho, a confecção, a pequena quitanda, a lanchonete, o distribuidor de bebidas do bairro, o restaurante de comida caseira da quadra, nenhum deles consegue competir em preço, estética, prazo de entrega e divulgação com os grandes.

Às dificuldades financeiras se sobrepõe a falta de conhecimento tecnológico para lidar com este novo mundo que chegou tão rapidamente.

Sem contar com nenhuma reserva de mercado, como em outros países que delimitam áreas onde as grandes redes não podem entrar para preservar as micro e pequenas empresas; sem acesso ao crédito e ao financiamento; sem familiaridade com a automação, milhares de micro e pequenas empresas fecham as portas diariamente.

O papel do Estado

O papel do Estado no fortalecimento das micro e pequenas empresas como grande gerador de emprego e renda é de extrema importância. Entre as medidas mais efetivas estão as Compras Públicas. Embora exista legislação garantindo o acesso do setor aos editais públicos nem sempre isto se dá, seja por desconhecimento da Lei, por inoperância ou despreparo da área técnica e jurídica ou ainda por preconceito dos entes públicos.

Enquanto os governos e o parlamento se mantêm alheios ou pouco operantes quanto à questão, o desalento e até mesmo a fome atingem as famílias brasileiras.

Os números

Segundo o relatório da Global Entrepreneurship Monitor 2020 – pesquisa realizada no país pelo Sebrae em parceria com o Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBPQ) – 10 milhões de empreendedores, em sua maioria mulheres, fecharam suas empresas durante a pandemia.

Apenas o chamado empreendedorismo por necessidade, como citamos em artigo anterior em Outras Palavras, continua crescendo alavancado pelo desemprego e pela precarização do trabalho.
Novas oportunidades

É preciso ressaltar que existe um rol de oportunidades para pequenos e micros na chamada economia circular, de baixo carbono, sustentável, comércio justo, que se apresentam como um novo paradigma global.

Trata-se da tendência mundial de reforçar os pequenos negócios que respeitam as relações justas de trabalho, utilizam matérias-primas de baixo impacto, reduzam o consumo de água, energia e materiais, minimizam a geração de resíduos e reciclam os que foram produzidos, que se associam em redes, consórcios, sociedades de propósito específico – SPE – para comprar, vender, divulgar.

Produzir e consumir localmente é um mote que deve se firmar também em nosso país devido à extrema necessidade de enfrentar a crise climática, o desemprego e a desigualdade social.

As micro e pequenas empresas sempre se destacaram como grandes geradoras de emprego, em tempos de automação este papel se torna ainda mais importante. Pelo seu porte são ágeis e capazes de efetuar as adequações necessárias em sua operação de forma rápida e segura.

Para que elas possam fazer parte e até protagonizar a nova economia, as diferentes esferas governamentais e as instituições de apoio ao setor precisam elaborar massivos programas de capacitação dos micros e pequenos empreendedores

Por outro lado, o setor necessita compreender a importância de se organizar, se associar, se mobilizar e ter representatividade forte para exigir políticas públicas de incentivo, capacitação, disponibilização de tecnologia e recursos para que possam sustentar suas famílias com dignidade, gerar trabalho qualificado e contribuir com o desenvolvimento sustentável, justo e equitativo do país.

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