Mundo Líquido

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O mundo vive momentos de grandes transformações, os paradigmas que sustentaram a sociedade em décadas anteriores estão em crise, alterando as estruturas que sempre foram vistas como fundamentais para a organização da comunidade, levando as famílias a modificações constantes, os relacionamentos foram chacoalhados, o mundo do trabalho sofre agitações constantes, as religiões também passam por agitações e os mercados passam a dominar as sociedades, impondo valores, sentimentos e ganhos imediatos. Com essas transformações estruturais em curso na sociedade, percebemos preocupações crescentes, novas ansiedades e o incremento dos ressentimentos, criando inseguranças, medos e agressividades que nos parecem cada vez mais evidentes.

O sociólogo polonês Zygmunt Baumann, famoso intelectual da sociedade contemporânea, cunhou a expressão mundo líquido, para definir uma sociedade que se compraz com a superficialidade, no mundo atual tudo é líquido. Os amores e os sentimentos na contemporaneidade escorrem pelas mãos, os modelos mais intensos de relacionamentos foram deixados para trás, o medo dominou as relações cotidianas, não queremos nos frustrar com os relacionamentos mais intensos e verdadeiros, pois eles podem nos causar dores íntimas, frustrações sinceras, decepções violentas, além de criar mágoas e constrangimentos.

Nesta sociedade do século XXI vivemos o drama do individualismo, depois da hegemonia do pensamento liberal em que o indivíduo é visto como se sobrepondo ao coletivo, percebemos que este indivíduo cunhado pelas teorias liberais se encontra em crise profunda, esta crise se manifesta numa intensa solidão e desesperança. Estamos mergulhados num mundo em que não mais confiamos no futuro, as bases da democracia estão solapadas, os modelos de liberdade clássica estão ameaçados e o ser humano amedrontado e infeliz, a crise da modernidade é, antes de mais nada, a crise dos indivíduos.

A lógica econômica se sobrepõe a todas as outras lógicas da sociedade contemporânea, acreditamos que pensamos e agimos como o homem econômico, julgamos nossas ações como racionais, nosso trabalho se dá envolto em contas e cálculos intensos de ganhos e perdas, no campo religioso buscamos maximizar nossas oferendas e trocas com o divino. Nossos relacionamentos são colocados na ponta do lápis e maximizamos nossos prazeres e buscamos reduzir, e até acabar, com nossas dores e as frustrações, somos seres quase racionais que nos julgamos reflexivos e racionais, mero autoengano.

As grandes mudanças contemporâneas estão criando novos modelos de organização de famílias, os modelos tradicionais estão sendo substituídos por novos paradigmas, o modelo clássico baseado em um casamento tradicional está sendo substituído em ritmo acelerado por vários modelos diferentes. Vivemos numa sociedade marcada por várias formas de amores e de relacionamentos, tudo isto gera, na coletividade, novos medos, fomentando instabilidades e incertezas crescentes que abrem espaços para patologias sociais que se manifestam com o incremento do xenofobismo, da intolerância e dos sectarismos, que alimentam as violências que degradam a sociedade.

A pandemia nos trouxe novas oportunidades para reconstruirmos os laços sociais que foram fragilizados e degradados anteriormente, além de contribuirmos para a reconstrução de novos valores morais calcados na ética da solidariedade, colocando os seres humanos no centro da civilização, deixando de lados os interesses imediatistas e valorizando os avanços científicos e tecnológicos como instrumento de melhoramento da qualidade de vida dos indivíduos, evitando as contradições que crescem de forma acelerada no mundo contemporâneo, combatendo formas degradantes de acumulação, valorizando o meio ambiente, garantindo emprego e remuneração decentes, com isso, reduzimos os espaços de degradação da dignidade dos seres humanos e contribuímos para a reconstrução da esperança e da solidariedade.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração. Especialista em Sociologia do Trabalho e Exclusão Social (Unyleya), Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no jornal Diário da Região, Caderno Economia, 25/05/2022.

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