Não há lugar para muro, por Gobetti e Orair.

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A escolha agora é simples: civilização ou barbárie

Folha de São Paulo – 08/10/2022

Sérgio Wulff Gobetti, Pesquisador e doutor em economia pela UnB

Rodrigo Octávio Orair, Economista, é pesquisador do Made-USP (Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades) e ex-diretor da Instituição Fiscal Independente do Senado Federal

Em artigo nesta Folha (“Em louvor do voto inútil”, 29/9), o economista Alexandre Schwartsman criticou o “voto útil” em Luiz Inácio Lula da Silva (PT), declarando que não o pretendia fazer nem no primeiro nem no segundo turno por não acreditar nas credenciais democráticas do Partido dos Trabalhadores. Partido dos Trabalhadores.

Sim, leitor, apesar de Lula e o PT terem governado o Brasil por 14 anos sem jamais ameaçar nossa democracia, Schwartsman pinça declarações sobre o chamado “controle social da mídia” e sobre a “mídia golpista” para tentar forjar uma falsa —e repugnante— equivalência entre o ex-presidente e Jair Bolsonaro (PL).

Repugnante porque nada se compara à crise institucional e ao clima de golpe criado pelo atual presidente da República. Nada se compara à sua falta de humanidade ao debochar das vítimas da Covid-19 e ao declarar admiração por um torturador da ditadura militar que tinha como um dos seus métodos abusar de mulheres em frente aos filhos.

Nada se compara ao desrespeito cotidiano com jornalistas, especialmente mulheres, e ao estímulo à violência física contra adversários.

Talvez Bolsonaro não tenha forças para transformar o Brasil numa ditadura ao velho estilo da década de 1960, mas poderá transformar nosso país num regime autoritário aos moldes da atual Hungria de Viktor Orbán. Lá, como aqui, a ultradireita cria um inimigo imaginário (o comunismo), monta uma estrutura de propaganda paralela (baseada em fake news), promove uma fusão entre religião e Estado e busca minar a credibilidade das demais instituições para justificar o aparelhamento do Judiciário e das forças policiais.

Isso já está ocorrendo no Brasil e poderá se agravar caso o campo democrático, da esquerda à direita, não se una para derrotar Bolsonaro. Corremos o risco inclusive de retrocesso civilizatório, com a destruição de valores iluministas que balizaram a construção da sociedade moderna, como vemos com a tentativa de intervir no ensino e oprimir minorias.

Lula já deu declarações infelizes? Sim. Já cometeu erros? Sim. Mas o petista jamais falaria que a Covid é uma “gripezinha”, incentivaria tratamento não comprovados cientificamente, debocharia de quem está sofrendo falta de ar ou diria que não vai vacinar os filhos, tendo o dever de dar o exemplo como presidente da República. Ademais, Lula é um conciliador nato, respeitado pelos maiores líderes da democracia ocidental. Tão conciliador que até mesmo Schwartsman, um liberal de direita, ocupou cargo de diretor do Banco Central durante seu governo.

Na economia, a tendência conciliadora se evidenciou numa preocupação (até excessiva) em não desagradar o mercado e na adoção de uma política bem pragmática, ao mesmo tempo em que buscava reduzir a pobreza por políticas de transferência de renda e aumento de salário mínimo —com efeito limitado sobre a redução da desigualdade, como mostraram estudos posteriores. Se for eleito, Lula precisará negociar para avançar na agenda de reformas (tributária e fiscal) e, por isso, já sinalizou que escolherá um ministro da Economia com capacidade de articulação política.

Em resumo, Lula e o PT têm feito ao longo da história movimentos de moderação, se deslocando da esquerda para o centro, enquanto parte da brasileira, ao contrário, se desloca para o extremo. Se isso não é razão suficiente para liberais como Schwartsman saírem do muro, talvez a explicação esteja na vergonha. Vergonha de reconhecer o erro de ter votado em 2018 num candidato que nunca escondeu seu caráter autoritário, embora fosse inimaginável que demonstrasse tanta crueldade e irresponsabilidade como vimos na pandemia.

Felizmente, muitas personalidades de centro ou de direita, críticos do PT, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). compreenderam a delicadeza do momento histórico que estamos vivendo. A escolha é simples: civilização ou barbárie.

Observação: a economia cresceu 4% em média ao ano sob comando de Lula, declinou para 2,3% no primeiro governo de Dilma Rousseff (PT) e estagnou em 0,07% ao ano de 2015 a 2022 —e Schwartsman insiste em atribuir a década perdida exclusivamente aos erros do PT.

Mas esse é um debate secundário diante da necessidade de união da luz contra as trevas. Vamos juntos, Alex, derrotar Bolsonaro.

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