Narcogarimpo, política e genocídio yanomami, por Camila Rocha

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Atividade ilegal é motor econômico em Roraima, e população local continuará a rejeitar pautas ambientais

Camila Rocha, Doutora em ciência política pela USP e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento.

Folha de São Paulo, 22/01/2024

As trágicas imagens do genocídio yanomami em Roraima muitas vezes vêm acompanhadas da figura do garimpeiro. Tidos por parte da imprensa e dos movimentos sociais como “maus elementos”, os garimpeiros são, em sua maioria, pessoas pobres, descendentes de migrantes nordestinos, que passaram a ocupar a região amazônica a partir das décadas de 1960 e 1970 com incentivo de governos militares.

Na época, o apoio estatal ao garimpo era explícito, tanto que, em 1969, foi construído em Boa Vista (RR) o Monumento ao Garimpeiro. Porém, com a demarcação de terras indígenas prevista pela Constituição de 1988, o garimpo se tornou ilegal em tais territórios, o que possibilitou o surgimento do narcogarimpo.

De acordo com o sociólogo Rodrigo Chagas, professor da UFRR (Universidade Federal de Roraima), o termo narcogarimpo é utilizado para enfatizar afinidades eletivas entre as atividades do narcotráfico e do garimpo. Segundo Chagas, há uma complexa rede de aeroportos e portos ilegais por onde trafegam drogas e minérios, e é comum que o ouro extraído dos territórios indígenas seja utilizado para lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas. Hoje, 59% da população da Amazônia Legal vive em municípios com forte presença de facções criminosas.

Vários jovens de Boa Vista, sem maiores perspectivas de futuro, são atraídos por promessas de aventura, poder e riqueza de forma análoga aos jovens de São Paulo e do Rio de Janeiro cooptados pelo crime. Exemplar nesse sentido é Antônio, garimpeiro de 20 anos, encontrado escondido na mata após uma ação do Ibama. Confrontados por repórteres da Folha, o jovem, que garimpa desde os 16 em terras indígenas, indaga: “Como eu vou viver com R$ 3.000 na cidade? Aqui eu posso ganhar R$ 20 mil por mês”.

A despeito dos inúmeros desastres causados pela extração de minérios na região amazônica, se tornou comum que políticos “defendam” os interesses de garimpeiros. Esse é o caso de Jair Bolsonaro, contumaz defensor dos garimpeiros. Nas eleições de 2022, 76% dos eleitores de Roraima votaram no capitão reformado. Lula saiu vitoriosos apenas no município indígena de Uiramutã, onde angariou 68% dos votos.

Além de conquistar eleitores, Bolsonaro procurou atrair o apoio de empresários. Roberto Katsuda, um dos principais revendedores de retroescavadeiras usadas em garimpos no Pará e em Roraima, recebeu das mãos do ex-presidente uma medalha de “imbrochável”. Logo após a “honraria”, Katsuda seria investigado pela CPI do 8 de janeiro por ter financiado atos golpistas, com base em relatórios da Abin.

A agência classifica Katsuda como “notório defensor de garimpos em áreas protegidas e um dos maiores articuladores políticos” do tema. Além dele, Enric Lauriano, outro empresário do garimpo, também foi listado pela Abin como financiador de manifestações golpistas no Pará e em Brasília e participou presencialmente do ato no dia 8 de janeiro.

Como bem aponta o sociólogo Rodrigo Chagas, não há solução de curto prazo para a tragédia em Roraima. Enquanto o narcogarimpo figurar como o principal motor econômico da região, a população local continuará a rejeitar pautas ambientais, celebrar empresários como Katsuda e Lauriano, apoiar políticos pró-garimpo e invisibilizar o genocídio yanomami.