Negacionismo na academia, por George Matsas

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Fecham-se os olhos diante de ‘questões mais urgentes’

Folha de São Paulo, 11/12/2021.

George Matsas, Professor do Instituto de Física Teórica da Unesp e membro titular da Academia de Ciência do Estado de São Paulo

Em níveis globais, a varíola foi erradicada, e a Aids, controlada. Para dar exemplo mais próximo a nós, segundo dados do IBGE, a expectativa de vida de brasileiros e brasileiras aumentou 30 anos em seis décadas. Portanto, diante destes e de tantos outros avanços científicos, é incompreensível que ainda haja negacionistas no mundo.

Ainda mais incompreensível (e tremendamente escandaloso) é o fato de eles grassarem por vielas escuras da academia.

Por mais incrível que pareça, a academia abriga negacionistas do aquecimento global, da eficiência das vacinas, da evolução das espécies e de sabe-se lá mais o quê. Isso seria anedótico não fosse o fato de que as universidades públicas são sustentadas pela sociedade para serem santuários da lógica e da razão.

No Brasil, argumentos sussurrados nos corredores da academia alegam que o acionamento dos comitês de ética para denunciar negacionistas —cujo papel se assemelha ao de uma quinta-coluna — poderia ser visto como “caça às bruxas”.

Afirmações descabidas, sem dúvida. Afinal, a Inquisição teve origem em preconceitos e crendices, não no pensamento racional.

Outro sofismo diversionista: comparar sanções de comitês de ética —órgãos democraticamente eleitos— a censuras arbitrárias decretadas por regimes ditatoriais. A liberdade acadêmica não é passaporte para negar a própria missão da universidade, e a academia não tem o direito de fechar os olhos para isso.

Então, o que explicaria a inação da academia?

Em primeiro lugar, o salário dos negacionistas não é pago pelos demais acadêmicos —ah, sim, porque a primeira coisa que qualquer um faria se descobrisse que a pessoa que pensou ter contratado como contador é, na verdade, um estelionatário seria demiti-la por justa causa.

Assim, não impactando no bolso destes, nem prejudicando a própria carreira e a de colegas, parece sempre conveniente recorrer a um lugar-comum: há outras questões mais urgentes. Ora, sempre há! No Brasil, autocrítica é matéria rara, e a academia, onde ela deveria ser exercida por dever de ofício, não é exceção. Em segundo lugar, há o instinto de corporativismo. A história tem mostrado que não é fácil lutar contra ele.

Como consequência do corporativismo, a academia é rápida em criticar cortes de verbas, usando o discurso coerente de que isso vai prejudicar a sociedade no curto e médio prazo. Também é ágil, por meios de suas sociedades representativas e profissionais, em criticar malfeitorias de outras instituições, corrupção na administração pública e maus políticos, por exemplo.

Mas é lenta em cortar na própria carne, por mais que isso seja igualmente necessário para defender a sociedade, a qual ela alega ser sua prioridade. Isso não está certo.

A permissividade da academia diante da existência de negacionistas confessos em suas fileiras é irracional do ponto de vista lógico e inaceitável do ponto de vista ético.

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