Negociação e soberania

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Vivemos um momento de apreensão crescente, neste instante, percebemos novas oportunidades, novas prioridades e novos desafios que podem mudar os rumos nacionais e internacionais. Neste ambiente, precisamos de sobriedade, visão estratégica e grande ousadia, sob pena de continuar e perpetuar nossas deficiências e se nos acomodarmos com a mediocridade que permeia a sociedade, naturalizando com o crescimento da fome, da exclusão social e da degradação dos indicadores negativos que crescem cotidianamente.

Na sociedade global, percebemos os confrontos entre os dois grandes atores da economia internacional, EUA X China, onde alguns analistas acreditam que rumamos para uma nova guerra fria, criando constrangimentos, preocupações e alinhamentos imediatos. Neste cenário, precisamos definir os rumos que, como país soberano e independente, devemos trilhar neste conflito que está se aproximando nos próximos anos, alterando comportamentos, adotando providências urgentes, atuação geopolítica e conscientização de todos os atores internos, sob pena de perdermos espaços no novo cenário global, marcados pela concorrência entre todos os atores nacionais e internacionais.

O mundo pós pandemia aprofundará a concorrência entre os atores econômicos, buscando solidificar suas estruturas produtivas, garantindo a capacidade de novas tecnologias e fortalecendo seus setores internos, criando espaços de desenvolvimento de tecnologias e criando instrumentos para reduzir a dependência de outras nações. A pandemia nos trouxe inúmeros legados, onde destacamos a busca crescente de autonomia tecnológica, todos os países que abriram mão de sua estrutura produtiva e de seu fortalecimento industrial tiveram fortes dificuldades para adquirir tecnologias para suprir as necessidades de suas populações. O Brasil é um exemplo claro, anteriormente éramos pioneiros em alguns desenvolvimentos científico e tecnológico, participávamos em consórcios internacionais e, atualmente, perdemos a relevância no mercado internacional, perdermos a relevância no cenário internacional e mostramos mais dependentes, mais fragilizados e mais subalternos dos interesses dos grandes atores externos.

Neste ambiente de ampla competição, os gestores públicos devem construir instrumentos para melhorar seus indicadores científicos e tecnológicos, fortalecendo as parcerias com os maiores atores internacionais e utilizando sua capacidade de negociação, buscando transferências tecnológicas e estimulando a construção de setores intensivos nacionais, valorizando os produtos nacionais e reconstruindo as indústrias nacionais. Neste ambiente, devemos negociar novos espaços internos de desenvolvimento, exigindo dos países desenvolvidos que se interessarem pelo mercado brasileiro, fortalecendo as negociações com os grandes conglomerados externos e uma forte contrapartida de tecnologias que contribuíssem para o incremento da ciência nacional, garantindo novos espaços no comércio internacional e diminuindo a dependência dos setores agroexportadores de baixo valor agregado. Os países que conseguiram alçar novos espaços de desenvolvimento econômico, anteriormente adotaram fortes investimentos na educação, na formação de capital humano e em grandes dispêndios em ciência e tecnologia e, ao mesmo tempo, construíram instrumentos de planejamento do Estado, garantindo proteção, compras internas, aumento da produtividade e o ganho de mercados externos, aumentando sua participação no comércio internacional e no incremento da complexidade econômica, deixando a dependência de produtos primários de baixo valor agregado e a construção de setores intensivos em tecnologia e em conhecimento.

Os embates entre as maiores economias crescem, exigindo uma diplomacia profissional, defendendo os interesses nacionais e utilizando os interesses e os desejos do mercado nacional como instrumento de construção de contrapartidas. O ambiente internacional está alterando rapidamente, desde a crise de 2008, da ascensão chinesa e da pandemia, a atuação do Estado cresce de forma acelerada. Neste ambiente, a Europa, os Estados Unidos e os países asiáticos perceberam a importância do Estado para reconstruir suas sociedades, infelizmente no Brasil insistimos em discussões ultrapassadas, desnecessárias e equivocadas.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia,06/10/2021.

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