Nova década perdida

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O final de 2020 marcou o término da segunda década do século XXI, um período marcado por inúmeras crises políticas e econômicas, com repercussões negativas para grande parte da sociedade, levando trabalhadores a perda de algumas conquistas históricas sociais, o incremento da instabilidade gerada pela pandemia que assola a comunidade internacional, o aumento no desemprego, o endividamento das nações e das desesperanças.

No caso brasileiro, percebemos que a sociedade vem passando por grandes instabilidades e reduzido crescimento econômico nos últimos quarenta anos, saindo de um momento de euforia no período entre os anos 1930 e 1980, que colocou o país dentre as economias que mais cresciam no cenário global, elevando o país entre as 10 maiores economias do mundo. Este cenário se transformou desde o começo dos anos 1980, motivados pelos desajustes econômicos, gerados pelo crescimento da inflação e o aumento na dívida externa, além de grandes conflitos políticos não resolvidos, condenando o país a grandes instabilidades políticas, desindustrialização, aumento da pobreza e da exclusão social.

A década atual (2011-2020) está sendo a pior em termos de crescimento econômico dos últimos 120 anos, período pior do que os anos 1980, conhecido na literatura econômica como “década perdida”. Observando os dados industriais do IBGE, percebe-se que, atualmente, a indústria está 15% abaixo de 2011, gerando uma queda do contingente empregado neste setor. A pior consequência deste período de fraqueza da atividade econômica é o alto desemprego e a situação do mercado de trabalho, com dezenas de milhões de brasileiros numa situação de vulnerabilidade social, com impacto sobre a recuperação econômica e piora das condições sociais.

Neste período de quase quarentas anos o Brasil passou por grandes instabilidades econômicas, moratória, hiperinflação, movimentos sociais, inúmeros planos econômicos, endividamentos públicos, crises cambiais, dois impeachments, inúmeras crises políticas, degradações da democracia, operações de combate a corrupção, rivalidades políticas, ativismo judicial, dentre outras. Neste ambiente de crises constantes, onde os grupos sociais se degradam uns aos outros, onde os grupos econômicos criticam a atuação do Estado Nacional e, ao mesmo tempo, constantemente batem nas portas deste mesmo Estado para angariar proteção e a manutenção dos seus privilégios.

Neste ambiente nos esquecemos dos conceitos de desenvolvimento econômico, centrados no planejamento e na supervisão governamental, onde todos os grupos econômicos devem dar sua contribuição, com a integração do Estado e do Mercado, sem rivalidades e degradações, trabalhando juntos e de forma integrada, cada um desempenhando seus papéis. Como foi feito por todos os países que conseguiram alçar suas estruturas econômicas a patamares mais elevados, melhorando as condições sociais da população, aperfeiçoando os serviços públicos para todos os grupos sociais, garantindo saúde, educação e segurança para todos os cidadãos, não apenas aos poucos grupos privilegiados.

Num ambiente marcado pelo crescimento da competição e da concorrência entre os agentes econômicos, onde o desenvolvimento prescinde de novos atores econômicos centrados em novas indústrias, baseados em conhecimento, em pesquisa científica e tecnologia, onde o capital humano se transformou no grande ativo da sociedade contemporânea. Neste ambiente, todas as nações que negligenciarem estes ativos intangíveis, deixando de lado o conhecimento, as pesquisas científicas e as universidades, ficarão mais atrasados nesta competição global, inviabilizando o desenvolvimento econômico, empobrecendo a sociedade e condenando a população a momentos sombrios para toda a coletividade.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre e Doutor em Sociologia/Unesp Araraquara, Professor Universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 13/01/2021.

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