O agronegócio e o futuro do Brasil, por José Reinaldo Lopes.

0
244

Sucesso econômico do agronegócio não pode justificar dilapidação do patrimônio ambiental do Brasil

José Reinaldo Lopes, Jornalista especializado em biologia e arqueologia, autor de “1499: O Brasil Antes de Cabral”.

Folha de São Paulo, 10/07/2022.

Um espectro ronda o futuro do Brasil: o espectro do agronegócio.

É, eu sei que vai ter gente querendo me enfiar numa camisa de força por escrever um negócio desses. Para usar o arremedo de inglês aportuguesado que hoje é a língua franca do mundo do marketing, o agronegócio é o popular “case (pronuncia-se ‘kêize’) de sucesso”. Conseguiu enfiar na cabeça de muita gente a ideia de que é o pilar da saúde econômica do país; que respeita o meio ambiente; que alimenta o Brasil, o mundo, quiçá até os famélicos da galáxia de Andrômeda.

Bem, mais ou menos. Seria mais intelectualmente honesto definir boa parte do agronegócio brasileiro não como “produtor de alimentos”, mas como produtor de insumos para a indústria alimentícia (e também para outros setores da indústria).

Ué, mas não é a mesma coisa? Não quando se considera, por exemplo, que apenas a soja corresponde a cerca de metade da safra anual de grãos do país nos últimos anos (o milho ocupa um distante segundo lugar). Caso o leitor não tenha reparado, quase ninguém come soja no Brasil, e nem uma dieta baseada exclusivamente em pastéis de feira para metade da população seria capaz de consumir tanto óleo de soja assim. Quanto ao milho, também seria impossível usar como alimento as quantidades astronômicas do grão que saem dos nossos campos.

A conta só fecha graças à demanda para a exportação desses cultivos, e ao fato de que eles são particularmente fáceis de transformar em insumos para a indústria, basicamente se metamorfoseando em porcari… Digo, em “alimentos industrializados” (capriche nas aspas) e aditivos de todo tipo. Comida mesmo, comida de verdade —arroz, feijão, frutas, legumes, verduras— é um negócio que ocupa escalões muito mais baixos no ranking do que produzimos.

Frequentemente vem de pequenas propriedades, e não das fazendas industriais geridas com suposta eficiência e modernidade pelos capitães do agronegócio.

Tudo isso ajuda a explicar por que “o país que alimenta o mundo” tem tanta gente passando fome neste momento. Longe de mim querer culpar o agronegócio por fazer bem aquilo que ele foi criado para fazer, ou seja, dar lucro. Mas cabe à sociedade estabelecer limites quando a busca por lucro deixa de encher a barriga de quem precisa.

E isso se torna ainda mais urgente num cenário em que os recursos hídricos e o solo, sem os quais não há agronegócio que aguente no longo prazo, estão se tornando agudamente frágeis graças à crise climática.

As cenas distópicas do interior de São Paulo em 2021, com tempestades de terra engolindo municípios onde a agricultura industrial basicamente faz o que quer há décadas, deveriam ter desmontado de vez a quimera do “case de sucesso”. Se o agronegócio brasileiro quer mesmo mostrar seu apego à racionalidade e à missão de alimentar as pessoas, precisa começar a ouvir a ciência e abandonar a ilusão de que pode se expandir indefinidamente com boi e soja em cima dos escombros da biodiversidade.

É preciso achar outro caminho, tanto em solo caipira quanto na Amazônia. Do contrário, o ciclo que combina o enriquecimento de poucos com a fome de muitos não será quebrado.

DEIXAR RESPOSTA

Por favor digite seu comentaário
Digite seu nome