O anti-intelectual, por Angela Alonso.

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Olavo de Carvalho não produziu conhecimento e fugiu do escrutínio acadêmico ao se auto intitular filósofo

Angela Alonso, Professora de sociologia da USP e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento

Folha de São Paulo, 28/01/2022

Mario Amato ameaçou: 800 mil empresários deixariam o país se Lula ganhasse a eleição. Lula ganhou, Amato (o ex-presidente da FIESP que achou a ministra Dorothea Werneck “inteligente, apesar de ser mulher”) ficou. Quem partiu, em 2005, foi outro antipetista, Olavo de Carvalho, que há tempos esmurrava “esquerdismos” intelectual, político, moral, aglutinados como “marxismo cultural”.

Fixou-se na pátria do liberalismo e lá viveu confortável, entre rifles e uísques. Não por agasalho do livre mercado. Lastreou-se em prata brasileira, oriunda dos pagadores das “aulas” do “professor”.

Foi, assim, como “professor” e “intelectual” que o presidente, filhos e partidários se referiram ao morto nesta semana, em posts reverentes. E até com luto oficial, negado aos outros milhares de mortos pela epidemia que Carvalho minimizou.

Que o bolsonarismo o defina como “filósofo”, “professor”, “intelectual” é uma coisa, que a imprensa reproduza os termos sem aspas, é bem outra. Rigorosamente, Carvalho nunca foi nada disso.

Na acepção contemporânea, filósofo ou professor remetem ao ensino formal. É quem tem diploma na área, conferido por instituição reconhecida. Carvalho nunca concluiu curso em universidade. Trata-se de um formalismo, pois há tanto gente diplomada ignorante, como gênios sem canudo. Contudo, é, ao menos em parte, prevenção contra charlatanismo.

Garante que seu portador sofreu o escrutínio de pares, do qual Carvalho escapou.

Pode-se dizer que era filósofo autodidata. Mas, segundo quem? Autoproclamar-se é insuficiente. É preciso o reconhecimento por uma comunidade produtora de conhecimento. Carvalho nunca compôs corpus de universidade, onde se garante o princípio basilar do conhecimento: a intersubjetividade. Na rotina universitária não há trabalho, em nenhum estágio da carreira, que não passe pela avaliação interpares.

Não basta enunciar uma tese, é preciso discuti-la com quem estuda mesmo assunto, submeter-se às ponderações acerca da estrutura da argumentação, dos procedimentos, da demonstração. Passar de palpite a conhecimento exige aguentar estes açoites. Carvalho nunca se submeteu a eles.

Tampouco foi intelectual para além do sentido rebaixado do termo, de difusor de ideias. Nunca produziu obra aglutinando conhecimento original. Escreveu basicamente na imprensa —inclusive no Globo e nesta Folha— pílulas de polêmica e idiossincrasia, destilando o ressentimento com a esquerda que nutrem ex-esquerdistas desiludidos. Nisso padeceu de falta de originalidade.

A comunidade acadêmica jamais o reconheceu porque nunca produziu conhecimento, produziu opinião. Nisso foi mestre, reconhecido por outra comunidade, a que professa seus valores.

Seus escritos compõem um lamento azedo e malcriado contra o que via como decadência civilizacional e corrupção moral, resultantes da democratização social, cultural, étnica, política acelerada por governos de esquerda. Textos cujo cerne é o antimodernismo e a defesa das hierarquias tradicionais. Por aí se entende seu fascínio sobre os bolsonaristas.

Carvalho achou neles um séquito. Aliás, seu treino no esoterismo tradicionalista explica a capacidade de ascender a guru de um culto. O portador execrava o epíteto, mas lhe assenta bem. A vida intelectual exige o antidogmatismo, a dúvida acerca das próprias crenças. Já a religião pede a fé. Por isso, seus cultuadores não desaparecerão com ele. Seguirão tão anti-intelectuais quanto seu guia.

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