O desafio dos sem-escola, por Renata Cafardo.

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Problema da evasão escolar, que já era sério antes, passa longe da atenção do governo

Renata Cafardo, O Estado de S. Paulo – 06/02/2021

Entre os prejuízos já tão enumerados da falta de escola durante o ano passado, há um que permanece invisível aos olhos da sociedade que ainda briga para abrir ou não a escola. Há meninos e meninas, de todas as idades, que deixaram a escola em 2020 e nunca mais vão voltar se ninguém correr atrás deles. Claro, isso infelizmente já acontecia antes da pandemia, mas os primeiros indicadores mostram que, como se previa, piorou.

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, a Pnad feita durante a pandemia, indicam o número assustador de 1,3 milhão de crianças e adolescentes que não estavam frequentando a escola – presencial ou remota – em outubro.

Isso representa 3,8% da população entre 6 e 17 anos. Pré-pandemia, era quase a metade, 2%. Além deles, outros 4 milhões não tiveram acesso a nenhuma atividade escolar. Com isso, 5,5 milhões de brasileiros de 6 a 17 anos não têm seu direito à educação preservado. Ou seja, não têm escola.

Para eles, a discussão sobre abrir ou não escola importa apenas se, quando aberta, alguém estiver disposto a procurá-lo e levá-lo de volta. Porque está claro que, enquanto fechada, nada foi feito para isso em muitos lugares. Os maiores índices são no Norte e Nordeste do País. O Estado mais crítico é Roraima, com 15% das crianças e adolescentes nessa situação. Em São Paulo, são 4%.

Esses dados estão em relatório recente do Unicef, organização que há tempos se dedica a ir atrás dessas crianças, com um programa da chamada busca ativa. Municípios e Estados inscritos podem acessar uma plataforma onde são colocados os dados das crianças fora da escola. Técnicos batem de porta em porta, sobem na bicicleta ou no jegue, atrás de quem não apareceu mais para estudar. Em 2020, conseguiram que 80 mil fossem rematriculados, 35 mil durante a pandemia.

O Unicef ensina que o trabalho não é apenas da educação. Isso porque os motivos de deixar a escola não têm necessariamente a ver com uma educação de má qualidade. O que leva crianças e adolescentes são o trabalho infantil, o abuso sexual, a violência dentro de casa ou na própria escola, a falta de transporte, a gravidez precoce. Por isso, cidades dispostas a não deixar seus pequenos cidadãos para trás precisam unir Saúde, Educação e Assistência Social para buscá-los e convencê-los a voltar.

Gestores precisam olhar para o problema como prioridade. As matrículas para 2021 já foram feitas, muitas escolas já estão reabrindo, todos devem se preocupar com cada um que não apareceu. Como já era esperado, não há qualquer olhar federal para o problema. O Ministério da Educação não fala em evasão escolar na pandemia.

Mas, mesmo em meio à confusão de pós-eleição do presidente da Câmara, deputados da bancada da educação – Tábata Amaral (PDT-SP), Idilvan Alencar (PDT-CE), Professor Israel Batista (PV-DF), Pedro Cunha Lima (PSDB-PB), entre outros – apresentaram semana passada um projeto de lei que prevê uma bolsa para adolescentes pobres que continuarem estudando.

A ideia é pagar R$ 500 a quem concluir o 1.º ano do ensino médio, R$ 600 para o que terminar o 2.º e R$ 700 no fim do 3.º. Os que tivessem nota acima na média no Enem ganhariam um pouco mais. Segundo Tábata, o foco é no adolescente porque os índices de evasão já são altíssimos nessa etapa. O benefício seria incorporado ao Bolsa Família e atingiria 4 milhões de jovens.

Como diz a deputada, a auto estima do adolescente não anda bem. Ele não acredita que a educação vai levá-lo a algum lugar. Mas, com certeza, há um destino melhor para quem não deixa a escola. Com mais dinheiro, melhor emprego, mais saúde, mais anos de vida. É preciso repetir isso sempre, para que excluídos não continuem cada vez mais excluídos.

É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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