O futuro da nova direita brasileira, por Camila Rocha

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Recondução de Bolsonaro ao poder seria fatal

Camila Rocha Cientista política, é autora de ‘Menos Marx, Mais Mises – O Liberalismo e a Nova Direita no Brasil’ (editora Todavia) e co-autora de ‘The Bolsonaro Paradox – The Public Sphere and Right Wing Counterpublicity in Contemporary Brazil’ (Springer-Nature, 2021).

Folha de São Paulo, 08/08/2021

Ainda é frequente no debate público brasileiro igualar fenômenos políticos como extrema direita, fascismo, direita radical e nova direita. Outro lugar-comum é destacar semelhanças entre o Brasil e outros países, ou entre tempos diferentes, sem maiores mediações. No entanto, deixar de reconhecer especificidades, tons de cinza e novidades neste campo do espectro político não apenas é um equívoco acadêmico, mas político. E, nesse sentido, nomes importam.

Em 2015, em meio a uma pesquisa documental junto ao Instituto Liberal, fundado na metade dos anos 1980 no Rio de Janeiro, me deparei com um novo fenômeno. Acidentalmente descobri que integrantes do instituto, assim como vários de seus conhecidos, participavam de discussões em antigos fóruns de internet em meio ao primeiro governo Lula (PT).

A despeito das muitas divergências existentes entre grupos e tendências diversas, que abrangiam de anarcocapitalistas a monarquistas, havia um “ar de família” que remetia a um novo “ecossistema” em formação, nas palavras do jornalista Lucas Berlanza, atual presidente do instituto. Uma “nova direita” emergia, turbinada pela reeleição de Dilma Rousseff (PT) e pelas manifestações que demandavam seu impedimento. Porém, a nova força política se consolidou de fato apenas com as eleições de 2018, quando vários de seus membros foram alçados à política institucional, seja por meio do voto, seja por indicação política de quem se elegeu.

Sua principal novidade em relação à direita tradicional é o desejo de romper com o pacto democrático de 1988. Se desde a redemocratização a direita tradicional vem atuando, em maior ou menor grau, dentro dos marcos estabelecidos pelo pacto (Constituição de 1988 + presidencialismo de coalizão), a intenção da nova direita é substituir seu substrato progressista, oriundo de algumas vitórias de grupos oprimidos e movimentos sociais, por uma combinação entre conservadorismo programático e radicalismo de mercado, sintetizado no mote “privatiza tudo’”. Porém, se seus fins são radicais, os meios não o são. O ranço com a ditadura militar, associado a uma herança autoritária e a um estatismo pós-Castelo Branco, é frequente entre seus integrantes. Mas em seu caminho havia Jair Bolsonaro.

O apoio à extrema direita no segundo turno das eleições de 2018 foi justificado pelo pragmatismo e por uma sinalização favorável às principais pautas da nova direita. Nas palavras de um de seus integrantes, sabia-se do “risco janista”, mas a maioria optou por pagar para ver. Hoje o balanço da gestão iniciada em 2019 ainda é alvo de discussões. Por um lado lamenta-se que as esperadas grandes privatizações não vieram. Outros entendem que o saldo não é tão negativo. Ainda que a pandemia tenha “tumultuado o meio de campo”, haveria sinais de recuperação econômica, o governo estaria inaugurando obras paradas há muito tempo e a vacinação só não seria mais rápida por conta da grande concorrência e porque apenas um país seria produtor dos insumos.

A despeito disso, a vontade de se desassociar do bolsonarismo não é minoritária. Várias lideranças apoiaram recentemente o impedimento do presidente. E, mesmo quem prefere aguardar as eleições de 2022, aposta em uma terceira via —ainda que não publicamente, dado que muitos partidos e políticos continuam “fechados com Bolsonaro”.

O desembarque se justificaria, para além das discordâncias em relação à condução (ou falta dela) da pandemia, por conta do estilo político do capitão reformado, tido como “histriônico”; da ausência de espaço para a pluralidade e as dissonâncias existentes no campo das direitas; e do comportamento de parte das Forças Armadas, que estaria “bolsonarizada”.

Diante das diversas possibilidades existentes até o presente, apenas um cenário político seria de fato fatal para a nova direita em 2022: a permanência de Bolsonaro no poder. No mais, caso a nova direita pretenda manter o nome e, como afirmou uma de suas lideranças anos atrás, continuar a conquistar corações e mentes, ficam as palavras de um assessor político que contribuiu com este artigo: “A nova direita agora precisa se reorganizar. Voltar para um trabalho que não deveria ter interrompido e retornar à penetração de base: igrejas, bairros, associações, universidade e opinião pública”.

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