O que está ocorrendo no Peru? por Sylvia Colombo

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Ingovernabilidade do país reside no desmonte dos partidos, vendidos ou alugados a grupos de interesse

Sylvia Colombo – Folha de São Paulo, 21/01/2023

Como se não bastasse o drama político e econômico que vive Lima no último mês, na última semana nos chocamos com as chamas que saíam de um antigo casarão colonial, dando conta de um desastre arquitetônico que se desenha trágico em uma das mais antigas e belas cidades da América do Sul.

Não se trata de mero detalhe. Como sempre, a história aparece para explicar alguns eventos do presente. Lima não foi construída para receber a população camponesa em fúria que decidiu “tomá-la” na última semana. Ao contrário, foi levantada para escondê-la. Por praticamente todos os séculos da história peruana, o campo era o lugar do indígena, do branco pobre, do afroperuano.

Enquanto isso, as exuberantes praças e os gloriosos palacetes limenhos, exuberantes possessões do Império Hispânico, estavam ali para os olhos dos que vinham da Europa visitar uma das capitais mais ricas do Novo Mundo. Se estiver em Lima, ligue a TV num noticiário ou numa novela e dificilmente verá uma apresentadora indígena ou uma atriz afroperuana num papel “comum”.

A “tomada de Lima” mostrou que, entre as demandas veiculadas pelos atores políticos —novas eleições, Constituinte, reforma do sistema político e tributária—, há também a do reconhecimento da diversidade do país, pelo fim do racismo e da desigualdade. Enfim, por maior representatividade social e política.

É por isso que os manifestantes insistem na restituição de Pedro Castillo, não tanto porque o consideram um “bom” ou “mau” presidente, mas porque a sensação que eles têm é que foram enganados por alguma artimanha constitucional que levou ao afastamento, outra vez, de um verdadeiro representante do povo.

Será difícil resolver essa equação de modo institucional. Afinal, o que Castillo tentou foi um autogolpe, uma artimanha fora das regras do jogo. Daí a transitar a uma posição de mártir, suas chances são parcas.

Para isso, conta com sua curta biografia e alguns símbolos: o fato de vir dos rincões do país, de pertencer a uma família camponesa e “rondera”, ou seja, que participava das rondas campesinas, uma polícia civil, na época do conflito com o Sendero Luminoso, e ser professor.

O principal culpado pela frágil institucionalidade do Peru hoje é o fujimorismo. Foi durante aqueles anos ditatoriais (1990-2000), quando opositores foram perseguidos, grupos atuantes da sociedade, destruídos, e lideranças políticas e estudantis importantes desapareceram, que o sistema de partidos se foi.

É comum escutar o comentário de que o sistema de governo é o que faz do Peru um país ingovernável.

Não creio que resida aí o problema, mas no fato de já não haver partidos, no desmonte das siglas e na venda ou aluguel delas a grupos de interesse. Reestruturar partidos e espaços de debate, envolver grupos que representam os distintos matizes sociais e voltar a debater o Peru pode ser um bom início.

Por ora, o atual Congresso se encheu de gente que não quer fazer política, mas defender pequenos negócios em suas regiões. O acordo para sair dessa crise deve se dar por meio de um Parlamento que escute as ruas. Se não for assim, de fato, fica fácil entender por que essa população tem todo o direito de ir a Lima e perguntar, afinal, o que esses políticos pretendem fazer com o país?

Sylvia Colombo, Correspondente em Buenos Aires, foi editora da Ilustrada e participou do programa Knight-Wallace da Universidade de Michigan.

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