O risco das commodities, por Clésio Andrade.

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China cria condições para plantar, minerar, produzir e transportar o que quiser

Clésio Andrade, Empresário e ex-presidente da CNT (Confederação Nacional do Transporte), foi vice-governador de Minas Gerais (2003-06) e ex-senador pelo MDB (2011-14)

Folha de São Paulo, 01/02/2022

Cada movimento que a China faz gera uma onda que atinge a economia global. Para o Brasil, qualquer mudança nas importações chinesas pode se tornar um tsunami.

O gigante asiático compra quase todo o minério de ferro que produzimos e é o maior consumidor de commodities agrícolas brasileiras. Se a demanda chinesa cresce, o Brasil vende mais e a nossa economia agradece; mas, quando eles compram menos, logo sentimos os reflexos negativos.

Um exemplo é a queda de mais de 40% nos preços do minério de ferro em 2021. A justificativa imediata é a desaceleração da economia chinesa que, afetada por uma grave crise energética, reduziu a produção de aço. Mas o pano de fundo é complexo e mais perigoso para o Brasil. A China, que já usa sua força para controlar os preços do minério, agora está trabalhando para se tornar menos depende do mercado externo da matéria-prima do aço.

Hoje, os chineses já respondem por mais de 50% do minério de ferro produzido no mundo, mas o consumo deles é tão alto que compram quase 70% da produção mundial. Brasil e Austrália lideram as vendas, mas isso pode mudar. Um sinal é o investimento que a China vem fazendo em suas minas no exterior, especialmente na Guiné, no Peru e na própria Austrália.

Na agricultura, a onda chinesa também inspira atenção. Nos últimos 12 meses, os custos de produção de commodities, como milho, soja e café, entre outras, subiram 52,01%, segundo a FAO, organismo da ONU que monitora a oferta e distribuição de alimentos no mundo. Um dos grandes motivos deste aumento foi a decisão da China de reduzir a oferta de fertilizantes no mercado global, o que elevou os preços desses insumos em mais de 300% nos últimos quatro anos.

O Brasil não produz fertilizantes suficientes para atender a nossa produção, mas este não é o nosso único problema no mercado global de commodities agrícolas.

A meta do governo chinês é tornar o país autossuficiente em produtos agrícolas básicos até 2025 para garantir a segurança alimentar de sua população de 1,4 bilhão de pessoas. Soja, arroz, trigo, carne, frango e ovos são alguns dos produtos que os chineses querem produzir no mesmo volume da demanda interna.

Alguns setores já sentem os efeitos dessa decisão. Nos últimos meses, as exportações de carne suína brasileira para a China caíram cerca de 50%, e os preços baixaram em torno de 17%.

Outra estratégia chinesa é investir em infraestrutura na África e países mais próximos, onde pode produzir ou controlar a produção de alimentos. Não é à toa que eles construíram ou modernizaram 10 mil quilômetros de ferrovias e quase 100 mil quilômetros de rodovias em países africanos nos últimos anos.

A China está criando condições para plantar, minerar e produzir o que quiser e transportar tudo em ferrovias moderníssimas a uma velocidade média de 300 km/h.

Os planos da China desafiam as bases da globalização. De um lado, o país desglobaliza, ao investir em produção própria de commodities agrícolas e minerais; de outro, busca hegemonia ao realizar investimentos maciços em infraestrutura em outros países e continentes com o objetivo de conectar Ásia, Oriente Médio, África e Europa, tendo como principal objetivo fortalecer suas exportações para o mundo.

Esse cenário desafiador está afetando o agronegócio e a economia brasileira de forma inédita.

Precisamos de alternativas para contornar a escassez de fertilizantes e os aumentos de custos —não apenas desses produtos, mas de todos os insumos agrícolas. Por outro lado, precisamos de planejamento e estratégia para enfrentarmos um mercado em constante transformação.

Enfim, como seremos o celeiro do mundo se não investimos em nossa matéria-prima básica, que são os fertilizantes? O Brasil poderia ser autossuficiente, mas não se move nesse sentido. Também precisamos buscar novos mercados para nossas commodities agrícolas e minerais.

O governo brasileiro precisa pensar no futuro. Além de garantir a segurança alimentar de nossa população, não pode negligenciar os problemas que afetam o agronegócio, a grande força que sustenta a economia nacional, produz riquezas, gera empregos e garante o sustento de milhões de famílias.

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