O socialismo do século 21, por Elias Jabbour.

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Experiência chinesa exibe novas e superiores formas de planificação econômica

Elias Jabbour, Professor da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCE-Uerj), é autor, ao lado de Alberto Gabriele, de “China – O Socialismo do Século XXI” (ed. Boitempo, 2021)

Folha de São Paulo, 20/12/2021

Alguns dados espantam. Neste exato momento cerca de 2 milhões de engenheiros e economistas estão trabalhando freneticamente em algum órgão público chinês com a missão que vai além de elaborar e executar projetos. Sobre seus ombros repousam as tarefas de assegurar autossuficiência tecnológica ao país e, de forma simultânea, garantir que 13 milhões de empregos urbanos sejam criados todos os anos. Além de uma clara combinação entre ciência e arte, trata-se de um interessante retrato de uma engenharia social de novo tipo.

Essa engenharia social pode ser observada como uma nova classe de formações econômico-sociais que emerge na China com o advento das reformas econômicas de 1978, momento aquele em que as reformas rurais levaram o socialismo chinês a se reinventar através de instituições de mercado. Desde então, mercado e plano na China são parte de uma totalidade, não opostos que se repelem. Nossas pesquisas apontam que a dinâmica deste “socialismo de mercado” é baseada em ondas de inovações institucionais que levaram, por exemplo, à formação de um poderoso núcleo produtivo e financeiro de caráter público (96 grandes conglomerados empresariais estatais sob coordenação da Sasac—sigla em inglês para Comissão de Supervisão e Administração de Ativos Estatais do Conselho de Estado— e cerca de 30 bancos de desenvolvimento). Um pujante setor privado não passa de ancilar e receptor dos efeitos de encadeamento gerados pelo core estatal da economia.

Duas questões ao debate: existe na história algum país que sob os cuidados de seu Estado nacional está o papel de coordenar a execução de milhares de projetos simultaneamente, desde uma ponte até grandes plataformas do nível de um computador quântico? Seria alguma heresia afirmar que nenhuma democracia ocidental que tenha a economia baseada na propriedade privada seja capaz de realizar algo próximo ao que os chineses estão realizando? Às duas questões a resposta é não. O poder político do Partido Comunista e a hegemonia da propriedade pública sobre a grande produção são a explicação mais plausível à capacidade do Estado chinês de entregar o que promete. Inclui-se neste pacote histórico o enfrentamento às grandes contradições surgidas como resultado de seu processo de desenvolvimento.

Não interessa a ninguém esconder os problemas sociais e ambientais chineses, diga-se de passagem. Afinal, não seria o processo de desenvolvimento algo caracterizado por saltos, de um ponto de desequilíbrio a outro?

Nesse sentido, o que seria o “socialismo do século 21”? O conceito se manifesta do movimento real. Ou seja, a forma histórica que emerge da experiência chinesa é um mix entre uma democracia não liberal e o surgimento de novas e superiores formas de planificação econômica. À disposição dos citados 2 milhões de profissionais estão inovações tecnológicas disruptivas como o 5G, o big data, a inteligência artificial.

Nunca, em nenhum momento da história humana, as condições à construção consciente do futuro estiveram presentes em um mesmo lugar.

O fim da pobreza extrema, a melhoria constante das condições de vida de seu povo e ambiciosos planos em matéria de redução de emissões de carbono expressam uma forma histórica caraterizada pela transformação da razão em instrumento de governo. Eis a forma histórica sintetizada na experiência chinesa: o socialismo do século 21, expressão embrionária de um projeto emancipatório e civilizacional, em sua forma histórica mais completa. Uma sociedade amplamente guiada pela ciência.

Nesse aspecto, o socialismo enquanto “razão no comando” é interessante contraponto ao irracionalismo por trás da ascensão da extrema direita justamente no coração da civilização ocidental, supostamente “superior”.

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