Onde está o mérito? por Michael França.

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Resultados obtidos por uma pessoa estão correlacionados com o local de nascimento

Michael França Ciclista, doutor em teoria econômica pela Universidade de São Paulo; foi pesquisador visitante na Universidade Columbia e é pesquisador do Insper.

Folha de São Paulo, 28/12/2021

Existe uma intensificação em torno do debate relacionado à meritocracia. No contexto americano, isso não se limita a um grupo ideológico. A discussão atravessa todo o espectro político. Sai da esquerda até chegar à direita.

Se por um lado premiar as pessoas pelo talento, esforço e desempenho tem seus aspectos positivos, por outro um sistema que não procure lidar com as diferenças nas trajetórias individuais na obtenção de resultados pode discriminar sistematicamente os menos favorecidos.

O dinheiro e as conexões facilitam o progresso daqueles que nasceram com melhores condições financeiras e os impulsionam na escalada da hierarquia social. Estudos têm demonstrado que os resultados alcançados por uma pessoa estão altamente correlacionados com o local do seu nascimento.

Indivíduos com piores origens socioeconômicas têm cada vez mais dificuldade para competir com aqueles oriundos da elite. Enquanto as famílias de alta renda costumam deixar consideráveis legados para as futuras gerações e investem pesadamente na formação de seus filhos, as mais desfavorecidas não têm a mesma disponibilidade de recursos e podem apresentar baixo interesse nesse tipo de investimento.

Educação pública de qualidade é uma saída. Porém, existem limites para o que ela pode fazer. Os progressos educacionais têm vários impactos positivos, como por exemplo, permitir maior acesso a bons empregos e melhorar a produtividade.

Entretanto, a riqueza herdada dos pais pode ter mais impacto na acumulação de capital e manutenção do poder intergeracional do que os ganhos gerados no mercado de trabalho. A contínua passagem de vantagens para os descendentes acaba deixando pouco espaço no topo para aqueles que não nasceram com boas condições financeiras.

Na sociedade brasileira, a transmissão do status socioeconômico da família ocorre de maneira quase automática. No entanto, a construção de uma economia mais competitiva e de uma sociedade mais próspera requer que haja maior mobilidade social.

As pessoas deveriam prosperar de acordo com seus esforços e não amplamente amparadas pela influência familiar. Apesar de revolucionária, essa ideia é difícil de ser colocada em prática em lugares com grandes desigualdades sociais.

Na teoria, muitos gostariam de ter um país mais justo e sem pobreza. Na prática, o brasileiro “cordial” tende achar que o grupo favorecido é sempre o outro. Apesar do desafio, é necessário avançar em reformas estruturais no funcionamento do Estado e encarar de frente a batalha para diminuir os privilégios herdados.

Em um país conservador, sempre há muitas resistências às mudanças. Contudo, a consciência social a respeito das desigualdades de oportunidades tem aumentado. Os avanços na educação foram abaixo do ideal nas últimas décadas, mas permitiram a ascensão de vozes antes excluídas.

Velhas narrativas estão sendo contestadas. Novas surgiram. O futuro tende a ser caracterizado por muita agitação social. Deste modo, continuar com a reprodução do status quo poderá não ser mais facilmente tolerado. Assim, espero.

Esse texto foi uma síntese de algumas discussões que procurei realizar nesse primeiro ano como colunista. Agradeço às leitoras e aos leitores que me acompanharam até aqui. Todas as críticas, sugestões e apoios estão sendo fundamentais para o desenvolvimento do trabalho.

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