Os invisíveis

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A pandemia está mostrando as marcas das violências que existem na sociedade brasileira, o incremento das desigualdades sociais, o crescimento do desemprego, as desilusões mais íntimas e o aumento dos chamados invisíveis, pessoas que sobrevivem em situação de degradação social, pessoas vivendo nas ruas, comendo alimentos estragados e sem condições sanitárias dignas. Vivemos uma verdadeira contradição, de um lado uma grande parte da população em péssimas condições de vida e, de outro lado, um país marcado por riquezas incalculáveis, espaço geográfico e meio ambiente exuberantes. Vivemos num país que se destaca como o celeiro do mundo, responsável pela produção de grande quantidade de alimentos, alimentando uma parte substancial da população global, mas que mantém, ainda e recorrentemente, uma grande leva de cidadãos na fome e na indignidade.

Os invisíveis brasileiros estão sem ocupação, estão longe dos centros financeiros e dos condomínios de luxo, são pessoas que se alimentam de forma precária, pessoas desesperançadas que percebem do Estado apenas as mãos da repressão, recebendo educação e saúde degradadas, se utilizando de postinhos cheios e sucateados, pessoas esquecidas por uma elite degradada e predatória e uma classe política que se lembra da população mais carente nos momentos eleitorais, fazendo promessas e criando um universo paralelo, distante da maior parte da população. Nesta invisibilidade brasileira destacamos mais de 38 milhões de pessoas, contingente cada vez mais distante do desenvolvimento econômico. Neste momento, estamos cada vez mais próximos dos pelotões intermediários do desenvolvimento, atualmente os dados nos mostram que caímos para 12® lugar dentre as maiores economias do mundo.

A pandemia desmascarou a desigualdade brasileira, muitas pessoas estão acreditando que somos pobres e miseráveis, ledo engano, somos um país rico e dotado de grandes riquezas naturais e uma população empreendedora, somos dotados de sonhos e carecemos de oportunidades. Necessitamos de investimentos públicos em todos os rincões do país, educação de qualidade, estimulando as habilidades socioemocionais, fomentando o pensamento crítico, a diversidade, o respeito pela ciência e pela pesquisa científica.

Precisamos investir na construção de uma sociedade melhor e mais solidária, não apenas a poucos afortunados, dotados de sobrenomes pomposos e heranças garantidas e investimentos improdutivos. Precisamos garantir recursos públicos para os grupos mais fragilizados e garantir serviços para os mais vulneráveis, sabemos que os recursos são escassos, mas para os grupos econômicos os recursos sempre aparecem e aumentam seus lucros e enriquecem seus detentores. Na pandemia percebemos que os grandes desafios deste país são políticos, num mundo marcado pelo desenvolvimento tecnológico e da era da informação, percebemos que para superar as dificuldades precisamos construir um consenso em prol da vida e da solidariedade, deixando os interesses mesquinhos e pensarmos nos grupos mais degradados.

Neste momento estamos próximos de uma convulsão social, as mortes se sucedem em escalas colossais, os pobres e os miseráveis crescem de forma acelerada. A revista Fortune, publicada recentemente, destacou o crescimento do número de bilionários brasileiros, que cresceram de 45 para 65 pessoas, em plena pandemia seus patrimônios cresceram, ao mesmo tempo em que o país ruma para sermos um pária mundial, sem vacinas, sem alimentos, sem perspectivas e sem governos.

A pandemia exige decisões emergenciais, a crise econômica desagregou as cadeias produtivas, levando muitas indústrias a interromperem sua produção. Neste momento, precisamos reconstruir os laços sociais, incrementando o emprego, estimulando os investimentos produtivos e retomando a economia, sem estes, dificilmente conseguiremos nos reconstruir como nação, num momento de desalento, indignidade e desesperança.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Especialista em Economia, Mestre, Doutor em Sociologia/Unesp e Professor Universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 14/04/2021.

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