Paulo Freire é decente e democrático, nunca silenciaria quem dele discordasse, por Cortella.

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Há pessoas que, de propósito, distorcem o repertório freiriano com o objetivo de desqualificar sua relevância na educação contemporânea

Mario Sergio Cortella Filósofo, com doutorado em educação pela PUC-SP, sob a orientação de Paulo Freire, de quem foi chefe de Gabinete e a quem substituiu no cargo de secretário municipal de Educação de São Paulo (1991-1992)

Folha de São Paulo, 19/09/2021

Paulo Freire é uma pessoa decente!

A prática vivencial e o patrimônio cultural que nos legou justifica o tempo verbal no presente, e assim precisa ser, pois não há como aquilatar o legado de uma pessoa como ele e supor que este fique somente na memória do pretérito, em vez de também impregnar, como de fato ocorre, a história do presente e os desdobramentos vindouros.

De novo: Paulo Freire é uma pessoa decente! E o é exatamente por não ter procurado edificar suas práticas e concepções a partir do logro da boa-fé de outras pessoas, ou acolhido o embuste no qual assumisse como da própria autoria o que estivesse na lavra de outrem, ou da intenção do ludibrio que conduzisse ao engodo gerador de vantagens exclusivistas, ou, ainda, da promoção do engano intencional que levasse alguém a compreender de modo equivocado o que deveria ser assimilável de forma transparente, para manter este alguém sob seu domínio.

Paulo Freire é um intelectual honesto! E, assim, se agora presencialmente conosco estivesse, não repudiaria —como jamais o fez— objeções e discordâncias ao seu trabalho, desde que fundamentadas em argumentações sinceras e contraposições idôneas, que expusessem com suportes e embasamentos verídicos os eventuais deslizes, desacertos e lapsos nos quais pudesse ter incorrido.

Um intelectual honesto de fato não entende como ofensa o que pode ser uma contribuição para refinamento e correção do que elabora, mas de maneira alguma se submete à dissolução do que propugna apenas por encontrar desaprovação, especialmente porque essa desaprovação pode ser oriunda justamente da correta compreensão e, daí, o repúdio.

Paulo Freire encontra mais denegação por parte de quem o entende muito bem, com as decorrências políticas que seu ideário implica, do que por parte de quem pouco o conhece e que em certos momentos é maldosamente induzido à burla.

Uma parte dos que dele discordam o faz virtuosamente, assumindo com sinceridade as divergências de caminhos e suas resultantes, em um jeito escrupuloso. Contudo, há outra parte que, de propósito, distorce o repertório freiriano, com o objetivo de desqualificar a relevância expressiva deste —mundo afora— na educação contemporânea, e, além disso, pretende ardilosamente imputar a ele a composição das mazelas e penúrias da educação nacional.

Este ponto, o da distorção, é tão relevante para demonstrar o papel da trapaça na intenção de desabilitar a proeminência de Paulo Freire, que vale trazer dois exemplos concretos.

Uma das contribuições mais eminentes que ele fez à filosofia da educação contemporânea é ter adensado a compreensão de que nenhuma pessoa é capaz de somente ensinar, assim como não há nenhuma que seja capaz de somente aprender; em outras palavras, todas e todos, de algum modo e em circunstâncias variadas, somos educadores e educandos uns dos outros, em meios às nossas vivências, convivências e relacionamentos, o que exclui a possibilidade de haver, de um lado, somente néscios discentes e, do outro, somente sábios docentes. Essa condição não suprime nem a tarefa e nem o lugar de quem tem responsabilidade de formar, mas requer que quem o faça leve em conta, inclusive como alavanca de aperfeiçoamento recíproco, que quem está em formação não chega sem algo saber, e quem exerce o ensino não sabe tudo.

Ora, um dos subtítulos internos de sua obra mais merecidamente afamada, “Pedagogia do Oprimido”, é: “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. Porém, se excluirmos (como na burla feita por minoria furiosa) o que vem após a sentença inicial, recortando do conjunto da ideia só o ponto de partida, ficaria “ninguém educa ninguém”, o que não somente distorce o sentido real (ninguém apenas educa, ninguém é apenas educado) como, além de tudo, sugere ter Paulo Freire depreciado o ato educativo e o ofício de quem o faz!

Outro exemplo, mais usual, é sobre a afirmação por ele feita, em muitas de suas obras, de a Educação ser um igualmente um ato político. Isto é, todo ato pedagógico —porque não é neutro e influencia, interfere, colabora ou prejudica uma comunidade — é similarmente um ato político. É claro que Paulo Freire está fazendo referência à política na acepção clássica grega, como sendo a maneira como coletivamente organizamos nossa vida comum, coabitada na pólis, na interrelação entre o privado e o público, assemelhado aos que os latinos chamaram de civitas, como cidade, chegando entre nós ao termo cidadania.

Em momento algum Paulo Freire indicou que o ato pedagógico, a educação, deva ser partidária, ou doutrinária, ou proselitista, ou catequética. Ao contrário! Se assim o fosse, e defendesse a manipulação, teria demolido o cerne da sua filosofia que é o ato pedagógico ser fomentador, para cada pessoa e para todas as pessoas, de uma consciência livre, com a educação como prática da liberdade e uma pedagogia da esperança e da autonomia.

Por isso, Paulo Freire é uma pessoa democrática! Nunca procuraria silenciar quem dele discordasse, calando a dissensão, impondo o pensamento único, excluindo a condição de fazer do diálogo a presença da mutualidade do proveito, no lugar de construir uma argumentação que pudesse ser suficiente para convencer (e não vencer!).

Como pessoa decente, intelectualmente honesta e democrática, ele permanece entusiasmando a lapidação do que chamou também de “inédito viável”, aquilo que ainda não é (por isso, inédito) mas pode ser (por isso, viável).

E qual é esse inédito viável entranhado no percurso de Paulo Freire? Vida boa, para todas e todos, em qualquer lugar e época, e, como, diria ele, cheia de boniteza!

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