Possível recessão global

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O século XXI está nos trazendo grandes instabilidades e incertezas que desestruturam a sociedade, espalhando medos e ansiedades que crescem em todas as regiões, intensificando os conflitos sociais, políticos e econômicos, exigindo dos Estados Nacionais mais consistência e a busca de novos consensos e buscando políticas públicas mais ousadas e que reduzam o crescimento da desigualdade que crassa na sociedade global.

Depois da crise internacional de 2008 que desestruturou os sistemas financeiros nacionais e internacionais e exigiram dos governos a adoção de políticas efetivas de socialização dos custos como forma de proteger os grandes conglomerados e evitar, que muitas organizações fossem a bancarrota. Nos últimos anos, a pandemia contribuiu negativamente para desagregar acordos internacionais e trouxe grandes custos físicos e humanos e, com milhões de mortes e desequilíbrios gritantes. Somando aos fenômenos anteriores que contribuem para degradar os cenários econômicos, o conflito militar entre ucranianos e russos tendem a elevar a temperatura internacional, prejudicando os investimentos, aumentando o protecionismo e reduzindo os fluxos de comércio internacional, além de contribuir para a elevação dos preços globais e reduzindo a renda das populações, degradando as condições sociais da população, aumentando o xenofobismo e os conflitos culturais e religiosos.

Depois de uma severa crise gerada pela pandemia, que está reorientando as nações, criando novos desafios e abrindo espaços para novas oportunidades, a sociedade global precisa construir novos consensos, criando instrumentos de solidariedade e empatia, estimulando a tão combalida democracia e a construção de uma agenda que proteja os grupos sociais mais fragilizados, respeitando suas manifestações culturais e aprofundando todos os canais de participação social, política e econômica.

A guerra na Ucrânia está fragilizando as estruturas de poder global, criando novos embates entre as nações, revivendo rivalidades históricas, espalhando desagregações e estimulando o crescimento de políticas protecionistas, priorizando seus interesses imediatos e deixando de lado a solidariedade que contribuiu, anteriormente, para a construção de um ambiente centrado no progresso social, no crescimento econômico e na estabilidade política no pós-segunda guerra mundial.

Neste ambiente percebemos perspectivas crescentes de recessão global nos próximos meses, com baixo investimento produtivo, redução dos empregos, aumento do endividamento dos governos e das famílias, com isso, postergamos a recuperação da renda da população e o crescimento da fome. Destacamos ainda a elevação dos custos energéticos, o incremento dos preços dos combustíveis e dos alimentos que impactam diretamente sobre as sociedades, num ambiente de grandes incertezas que reduzem os investimentos produtivos e passam a exigir das nações políticas públicas e sociais mais consistentes.

Internamente, percebemos grandes incertezas na condução da política econômica, o cenário fiscal é preocupante e marcado por grandes instabilidades, contribuindo negativamente para a chegada dos investimentos estrangeiros, além disso, destacamos que as taxas elevadas de juros, que visam o controle dos preços e impedir a escalada inflacionária, reduzindo os investimentos governamentais, aumentando a insegurança alimentar, fomentando a fome e a exclusão social. Neste cenário de degradação econômica, a atuação do governo é premente e imprescindível, retomando os investimentos produtivos, aumentando a progressividade tributária, investindo em pesquisas científicas, aumentando os dispêndios em educação, aumentando a transparência da coisa pública, melhorando os recursos para a saúde e reestruturando políticas públicas.

A comunidade internacional já percebeu a necessidade de novos estímulos fiscais e investimentos governamentais como forma de reativar o sistema econômico e produtivo e, infelizmente, ainda estamos discutindo questões secundárias, ultrapassadas e rudimentares, degradando as instituições de regulação do Estado Nacional, devastando as riquezas naturais e nos esforçando para sermos um verdadeiro pária internacional.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia Criativa (Unyleya), Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no jornal Diário da Região, Caderno Economia, 06/07/2022.