Pragmatismo

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A economia vem passando por grandes transformações nas últimas décadas, com incremento da concorrência, investimentos crescentes em inovação, surgimento de novos modelos de negócios, oligopolização dos mercados, fragilização do mercado de trabalho, aumento das desigualdades sociais, conflitos entre nações e desesperanças crescentes, gerando novas relações entre os governos e os setores produtivos. Neste momento, muitas ideologias perderam espaço e o pragmatismo ganhou relevância na sociedade, norteando novas relações sociais e políticas entre os atores econômicos.

O mundo contemporâneo é muito mais complexo do que muitos economistas de mercado e de analistas neoliberais vislumbram, estes acreditam, ainda, na existência de conceitos ultrapassados como a concorrência perfeita e a mão invisível do mercado, pressupostos que perderam relevância e não auxiliam na compreensão dos grandes desafios do mundo global, centrados na competição, dos grandes oligopólios, das guerras comerciais e da integração entre Estados Nacionais e os mercados, buscando garantir novos espaços e novos modelos de negócios.

A sociedade do conhecimento prescinde da integração entre o mercado e o setor público, todas as nações que conseguiram se desenvolver, melhorando as condições de vida de suas populações, conseguindo acumular recursos e riquezas, melhorando a produtividade de seu capital humano, contaram com fortes investimentos públicos, recursos geopolíticos e diplomáticos estratégicos, bancos de desenvolvimento com taxas de juros atrativas, além de estímulos fiscais e financeiros para impulsionar a inovação e o espírito empreendedor, sem os recursos governamentais estratégicos, suas nações, hoje desenvolvidas, continuariam distantes do sonho do desenvolvimento econômico.

Muitos analistas do cenário internacional acreditam que estamos vivendo um novo modelo econômico, centrado no conhecimento, na ciência e na imaterialidade, levando os governos a investirem grandes recursos monetários e financeiros para garantirem o predomínio dos novos modelos de acumulação. Neste ambiente, percebemos conflitos crescentes nos mercados de semicondutores, os chamados chips, onde poucas nações conseguiram dominar este mercado altamente sofisticado, complexo e de grande rentabilidade. Nesta competição, percebemos países como os Estados Unidos, Taiwan, Coréia do Sul e China, além do Japão e Europa, concorrendo diretamente, dispendendo trilhões de dólares para garantir ganhos substanciais, além de seu poder geopolítico como forma de pressionar os competidores e angariar novas tecnologias.

Neste conflito, além de investirem trilhões de dólares de recursos para desenvolver novos produtos, os governos impedem a compra de empresas nacionais por grandes conglomerados externos, justificando suas decisões em interesses nacionais e estratégicos, além de atrair os melhores profissionais para desenvolver novas tecnologias, seduzindo seus melhores engenheiros com regalias imensuráveis e aportes gigantescos de recursos financeiros.
O mundo contemporâneo nos mostra um espaço de concorrência de grupos oligopolistas permeados pelo auxílio de seus respectivos governos nacionais, com isso, o sonho dos mercados autorregulados descritos pelos liberais nos parece um verdadeiro conto de fadas e, principalmente, muitos analistas acreditam neste conto de fadas moderno ou se vendem hipocritamente para aqueles que ganham com estas teorias ultrapassadas, mas garantem grandes ganhos monetários e financeiros.

Vivemos num mundo marcado por grandes transformações e grandes concorrências, o pragmatismo cresce de forma acelerada, os Estados Nacionais são essenciais como reguladores, fomentadores e planejadores, além de construtores de um ambiente institucional sólido e consistente, como fizeram as nações desenvolvidas, além de injetarem altas somas monetárias para alavancarem seu desenvolvimento econômico e tecnológico. O discurso liberal, utilizado pelas nações desenvolvidas, não se efetiva internamente. Enquanto muitos países em desenvolvimento estão privatizando setores estratégicos e desestruturando os preços internos, outras nações estão reestatizando empresas estratégicas. Novamente, duzentos anos depois, o Brasil caminha contra o gradiente…

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia Criativa, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no jornal Diário da Região, Caderno Economia, 14/09/2022.

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