Projeto Nacional

0
118

A pandemia desnudou as desigualdades crescentes da sociedade global, mostrando que os seres humanos se comprazem com o imediatismo, buscam as riquezas degradando o meio ambiente e acreditam que a tecnologia é a solução dos mais variados problemas da coletividade, estimulando os investimentos em tecnologia sem humanismo, sem solidariedade e sem empatia, o mundo caminha a passos largos para a degradação, a incivilidade e a mediocridade.

Neste ambiente, percebemos que a sociedade brasileira passa por um momento de grandes desagregações, as taxas de miséria e de exclusão social crescem de forma acelerada, a inflação propaga para todos os grupos sociais e impacta fortemente para os setores mais fragilizados, os preços dos combustíveis aumentam sem dar trégua, fragilizando os setores que acreditaram que a solução do momento é a difusão dos aplicativos. Neste momento, os preços de todas as cadeias produtivas crescem de forma acelerada, com isso, os trabalhadores perdem renda e são levados a aceitarem cargas excessivas de trabalho, criando transtornos e dores crescentes, síndromes de burnout, depressão e problemas psiquiátricos.

O ambiente exige a reconstrução nacional, estamos nos aproximando de duzentos anos de independência e os resultados são preocupantes, necessitamos de liderança e precisamos, urgentemente, de um projeto nacional e construir um ambiente saudável para imaginar o futuro desta nação, deixando de lado os interesses mesquinhos e imediatos, buscando as bases do progresso material e emocional, se afastando do caos e da ingovernabilidade.

O século XX trouxe grande crescimento econômico para o Brasil, tivemos problemas e muitos equívocos como todas as nações. Erramos em alguns setores fundamentais e acertamos em outros, os resultados gerais foram positivos, saindo de uma situação intermediária no cenário internacional e nos tornamos uma das dez maiores economias do mundo. Naquele momento, o Brasil recebia delegações de vários países do mundo que queriam entender o rápido crescimento do país, éramos vistos como exemplo no mercado internacional, sociedade pujante e dotada de forte potencial de crescimento e de desenvolvimento econômico.

Infelizmente, atualmente perdemos este potencial de crescimento, desde os anos 80 entramos num ambiente de mediocridade, estabilizamos nossa moeda e controlamos a inflação, desenhamos políticas públicas exitosas e crescemos internamente e recebemos elogios internacionais. Desde 2015, perdemos o dinamismo na economia global, passamos a sermos vistos como uma preocupação e nossas perspectivas futuras são sombrias.

O momento pressupõe liderança, organização política e competência de todos os atores econômicos e políticos, construindo um espaço de conversação onde todos os grupos sociais devem participar, intensificando as discussões democráticas, construindo projetos nacionais, repensando o papel do Estado Nacional, estimulando a atuação dos setores privados como atores dos investimentos produtivos e da geração de emprego e de renda. Neste momento de grande instabilidade econômica, pandemia e polarização crescente, precisamos aprofundar a democracia, os valores republicanos e os sentidos da civilização.

Não criaremos um país sem reconstruirmos os laços de solidariedade, sem nos revoltarmos com as condições indignas de trabalho e de sobrevivência que é a realidade de uma parte crescente da sociedade nacional. Precisamos compreender que o século XXI prescinde de capital humano qualificado, escolas e universidades bem estruturados, salários dignos e condições de trabalho decentes, tudo isso, pressupõem recursos elevados que se reverterá em uma política fiscal centrada em tributos equilibrados, onde os grupos que auferem mais rendas devem pagar mais em detrimento dos mais pobres, uma estrutura tributária deve ser progressiva para toda a coletividade, sem vencermos estes entraves, a sociedade brasileira tende a repetir os dados preocupantes e perspectivas sombrias.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 22/09/2021.

DEIXAR RESPOSTA

Por favor digite seu comentaário
Digite seu nome