Qual legado escravocrata cabe aos brancos?

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‘O Pacto da Branquitude’ explica como a escravidão é associada às vantagens da população branca

ANELISE GONÇALVES – FOLHA DE SÃO PAULO, 06/08/2022

A história da sociedade brasileira é inseparável da escravidão. Muito se fala sobre as consequências sofridas pela população negra, mas qual legado cabe aos brancos? Isto é o que Cida Bento busca responder em seu livro “O Pacto da Branquitude”.

Doutora em psicologia pela USP (Universidade de São Paulo) e colunista da Folha, a autora faz um apanhado do conhecimento adquirido ao longo de suas pesquisas no mestrado e no doutorado, de suas experiências profissionais na área de recursos humanos e de suas experiências pessoais.

Ela ressalta, nos dez capítulos, algo nítido que parece ser esquecido pelo Brasil: a escravidão e o racismo beneficiaram e continuam beneficiando pessoas brancas nas mais distintas esferas sociais.

Para construir seu argumento, Cida mobiliza em primeiro lugar a história. A autora afirma que antes do estabelecimento das rotas de comércio de escravos no contexto da colonização europeia, tanto a África quanto a Ásia eram regiões relativamente ricas e produtivas —diferentemente da Europa.

A chegada dos europeus e a dinâmica comercial estabelecida teve um impacto negativo nesses continentes, não só pela extração de recursos, mas também pela destruição das estruturas econômicas e sociais que existiam.

Com o trabalho duro sendo transferido para as colônias, países europeus experimentavam um período de desenvolvimento econômico. Isso beneficiava não somente as famílias ricas, que participavam diretamente da extração de riquezas, mas também as classes mais pobres (e brancas).

Segundo Cida, a noção de branquitude nasceu justamente nesse processo de colonização europeu. Conceitualmente, diz respeito à ideia de que a raça branca seria o padrão, e tudo o que foge dela seria o diferente, o “outro” do eu branco supostamente universal.

O pacto da branquitude, por sua vez, consiste nos acordos feitos para manter pessoas brancas em situação de privilégio e, ao mesmo tempo, higienizadas de todo o processo histórico e violento que o construiu.
Essa higienização se daria por justificar como uma questão de mérito os privilégios que pessoas brancas têm hoje nos âmbitos econômico, político e social. E não como fruto de centenas de anos de exploração de negros escravizados. Um exemplo é que a maioria de cargos de liderança são ocupados por pessoas brancas.

No caso do Brasil, país que sustenta o vergonhoso título de ser o que mais tempo permitiu a escravidão, as consequências desse processo se mesclam a praticamente todas as clivagens sociais, sejam elas de gênero ou classe.

Um exemplo dessa herança maldita é o trabalho doméstico, um resquício da dinâmica colonial que ainda funciona como sustento fundamental sobretudo para mulheres negras e pobres. O racismo se manifesta não apenas na cor e na renda, mas também nas práticas que envolvem a relação trabalhadora-empregador, ainda permeadas por práticas de submissão, desprezo e mesmo assédio.

Segundo um levantamento do Made/USP (Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades, da Universidade de São Paulo), os 705 mil homens brancos que fazem parte do 1% mais ricos do país têm renda maior que a de todas as 33 milhões de mulheres negras do Brasil.

Em março deste ano, a Folha mostrou que mudanças trabalhistas e culturais estão colocando em xeque a existência de cômodos específicos para empregados domésticos. No entanto, a autora afirma que a classe média e alta desaprova a formalização desse tipo de serviço e que ainda há muito a ser feito.

O livro trata sobre como os brancos pobres foram beneficiados pela escravidão no passado e nos dias atuais. Por mais que não participassem diretamente da extração das riquezas das colônias, eram beneficiados pelo desenvolvimento econômico que vinha delas. Além disso, o trabalho pesado era transferido para as colônias.

Os brancos pobres hoje seriam beneficiados pela narrativa da branquitude, que os favorece por serem mais propícios a serem escolhidos em entrevistas de emprego, por exemplo, por sua aparência.

Já a população negra não tem como ignorar a violência que permeia esse pacto. Cida relata no livro como sofreu, assim como seu pai, sua mãe e os sete irmãos, inúmeros episódios de racismo em seu cotidiano, seja na escola e no trabalho.

Ela conta que, quando trabalhava como recrutadora, selecionou uma vez duas mulheres negras para uma vaga de secretária. O cliente que oferecia a vaga respondeu com uma bronca.

Esses casos vão além da discriminação direta, e assumem também a forma do desconforto branco com a presença de negros com status hierárquico semelhante no ambiente corporativo. Aqui, a branquitude se revela para além do preconceito: ela é também uma forma de assegurar a soberania de um grupo, o branco. Eis o pacto.

Essa ideia é levada ao extremo —mas não ao absurdo, tendo em vista sua materialidade cotidiana— no longa “Medida Provisória”, primeiro filme dirigido por Lázaro Ramos. Na obra, o desconforto com a presença de negros é tão grande que o governo cria o projeto “Resgate-se Já”, em que paga esta parte da população para voltar para a África.

Ao mesclar as experiências pessoais com a argumentação histórica, Cida tira o racismo do campo teórico ou pessoal e trata dele como processo —em outras palavras, engrenagem estrutural que organiza a sociedade e molda individualidades.

“Pacto da Branquitude” é incisivo. Parte de uma premissa que parece ser esquecida, devolvendo a cor aos brancos e apontando as vantagens e desvantagens de cada parcela da população.

O livro ousa ao mostrar uma face brasileira que não queremos e não gostamos de ver, mas que é essencial caso queiramos avançar como sociedade.

O PACTO DA BRANQUITUDE
Autor Cida Bento; Editora Companhia das Letras; Preço R$ 39,90

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