Quantas esquerdas há na América Latina? por Sylvia Colombo

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SYLVIA COLOMBO – FOLHA DE SÃO PAULO – 09/11/2022

BUENOS AIRES Com tanta paixão, esse esporte de tentar prever se a América Latina vai para a esquerda ou para a direita a cada eleição parece só ocorrer por aqui. Não vejo analistas gastarem tanto tempo e tinta para concluir, discordar ou lacrar que a Europa irá mais para a direita com a chegada de Rish Sunak na Downing Street, ou se a América do Norte é mais ou menos progressista com Trudeau/Biden/AMLO, uma tríade tão variada que poderia estar espalhada pelo mundo, ou que a Oceania ou a Escandinávia vivem ondas conservadoras ou progressistas a cada troca de governo em seus países.

No fundo, eu acho graça. E, obviamente não sou só eu quem se incomoda com análises de países feitas assim, “em baciada”. O mapa que ilustra este texto, anônimo, que viralizou nas redes depois da vitória de Lula no Brasil, no último dia 30, provavelmente foi realizado também por alguém cansado dos clichês sobre “mudanças de maré” e “viradas do xadrez político da região”, que se espalham em tempos de mudança de governo. Não que esse tipo de abordagem não tenha utilidade, ao contrário, traçar paralelos, ver pontos em comum relacionados ao contexto regional e mundial são exercícios intelectuais importantes de se fazer. Levados realmente a sério, podem até a conduzir a um intercâmbio de políticas públicas de êxito de um país para o outro. Mas o certo é que, nos últimos tempos, apenas parece alimentar os grandes reducionismos que depois são utilizados para armar campanhas eleitorais rasas, na forma daqueles coros que ouvimos por aí nesses tempos, de que tal país vai virar a Venezuela, que o outro vai virar a Argentina, que tal político deveria se mudar para Cuba ou para o Afeganistão.

Mas vamos para o mapa que, divertidamente, nos mostra que peras, definitivamente, não são o mesmo que maçãs. Ele circulou antes nas redes, mas foi divulgado e analisado pelo excelente newsletter Latin American Risk Report, assinada diariamente por James Bosworth. Quem curte América Latina deve segui-lo. É um serviço pago, mas essencial para latino-americanistas, que traz excelentes análises diárias da região, além de dicas de leitura todas as sextas-feiras.

Primeiro, vamos para a parte engraçada. Temos a esquerda cor-de-rosa, ou seja, não tão extrema, onde estão, a partir do último dia 30, o Brasil e a Colômbia. O Chile também é uma esquerda cor-de-rosa, mas com um detalhe, seria uma esquerda fã de Taylor Swift, jovem e moderna. Outra que é cor-de-rosa, mas em que há conflito latente entre o próprio governo é a da Bolívia, em que “uma esquerda má e velha persegue o atual governo detrás das cenas” _fala-se da rixa da eterna necessidade de intervir no governo do presidente Luís Arce por parte do por parte ex-mandatário, Evo Morales.

Também figuram aí o Peru, com sua esquerda conservadora, quase por um fio, mas já há mais de um ano nessa condição, o México, também conservador e com estilo populista único de esquerda autoritária e, por fim, ditaduras puro-sangue, como Venezuela, Cuba e Nicarágua. Ah, sim, os “chatos e centro-direitistas” Paraguai e Equador.

A cereja do bolo é ter uma categoria apenas para o Uruguai. Embora o país seja governado atualmente pela centro-direita, não deixa de ser um farol de igualitarismo, da institucionalidade, da garantia de direitos civis e identitários.

Tudo acima descrito é tema aberto para debate e discussão. Mas o coração da mensagem me parece claro e acertado. Cada país é um país, cada contexto é um contexto. Se Petro sente que deve priorizar soluções para um fim do conflito diferentes de seus antecessores, é porque a violência histórica que vive a Colômbia é fruto de sua própria trajetória. Se os indígenas peruanos representados por Pedro Castillo têm esses valores e esse modo de atuar é porque apenas o Peru viveu uma experiência de nacionalismo indigenista com embates e mesmo guerras fratricidas. Se a Venezuela vive uma crise humanitária por conta da ditadura chavista, esta também é fruto de um desenrolar histórico particular, de um país rico e desigual, no qual estão no poder, neste momento, figuras de muito pouca preocupação social e grandes alianças com o crime organizado, diferentemente do que representava Hugo Chávez em seus inícios.

Quer ver algo mais específico de um país que a eterna crise argentina? Na verdade, é fora de cabimento metê-la num mapa de países de esquerda. E o mapa acerta muito em sua descrição: “se autodescreve como de esquerda, mas na verdade trata-se de uma espécie de teoria do caos econômico”. Nada a opor.

E o Uruguai, bem, o Uruguai tem uma história de que se orgulhar, e líderes do passado a quem devem render agradecimentos até hoje, como Battle & Ordónez. Não seria possível, tampouco, colocá-lo em associação com nenhum outro em termos de modelo de Estado.

O mapa é uma piada, mas ri de nós mesmos e de nossas explicações sobre o mundo e a região em que vivemos, mas que mal conhecemos. Na verdade, levado à sério, é um convite a uma maior reflexão sobre o que significa estarmos todos na mesma região, que contatos e intercâmbios são válidos, quais indesejáveis, e porque, mude o que mudar em termos de gestões, certas idiossincracias não se exportam.