Recuperação ameaçada

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A pandemia gerou graves constrangimentos na sociedade global, afetando comportamentos, alterando hábitos, crises econômicas, desemprego em ascensão, desesperanças e perspectivas preocupantes, levando os governos a atuações mais intensas em seus sistemas econômicos e produtivos, injetando recursos, protegendo setores, aumentando os investimentos em políticas sociais, retomando planejamento e políticas intervencionistas.

Diante deste ambiente, muitos analistas econômicos, defendiam a tese de que a economia brasileira estava em recuperação, construindo uma narrativa de que o pior teria ficado para trás. A recuperação era vista como sólida e consistente, motivando os investimentos, a geração de empregos e perspectivas de melhorias no incremento da renda, dos salários e do consumo. Infelizmente, as perspectivas positivas estão se mostrando exageradas e a recuperação econômica está se mostrando fraca e limitada.

O cenário do segundo semestre vai ficando turvo para a economia brasileira diante do crescimento de múltiplos riscos: inflação persistente, seca histórica que compromete o abastecimento de energia elétrica e do agronegócio, altas de juros e desarranjo fiscal somado à deterioração do ambiente político e institucional. A recuperação em V tão alardeada pelos integrantes da equipe econômica nos parece bastante distante da realidade do país, com graves constrangimentos para o equilíbrio político, social e institucional.

A recuperação econômica, depois de uma queda elevada no ano passado, pressupõe uma política consistente e organizada, onde os setores econômicos precisam de um ambiente centrado na confiança e no aumento da credibilidade, criando os consensos necessários e imprescindíveis para que os investimentos produtivos voltem a estimular o crescimento econômico. Sem investimentos produtivos não teremos recuperação econômica.

Falar em recuperação econômica com quase 15 milhões de desempregados, 6 milhões de desalentados e 20 milhões de subempregados é uma temeridade e uma verdadeira irresponsabilidade, contribuindo para criar uma narrativa inconsistente que não tem lastro na realidade. O combate ao desemprego deve ser visto como uma prioridade nacional, a geração de emprego prescinde de investimentos em obras públicas e centrados na economia verde e, infelizmente, as discussões se concentram em políticas para reduzir os benefícios sociais que estimulam empregos degradados e a diminuição da renda do trabalhador que contribui para este cenário de desalento e desesperança.

Destacamos ainda o crescimento da inflação que levou o governo a aumentar as taxas de juros na economia, cujos impactos são negativos sobre a renda da população, diminuindo os investimentos produtivos e elevando as dívidas das famílias. Tudo isso contribuiu enormemente para a degradação econômica e fragiliza o discurso da recuperação da economia, que esconde inoperância e a ausência de um projeto nacional consistente.

As contas públicas sempre geraram instabilidades na economia brasileira, no começo do ano muitas previsões de especialistas era que caminhávamos para uma escalada na dívida pública. A relação dívida/PIB se reduziu, gerando expectativas positivas, mas isso não ocorreu por alguma reforma fiscal, a reversão aconteceu em decorrência do incremento da inflação que escondeu parte do problema e, posteriormente, voltará a aparecer quando a inflação diminuir.

Para contribuir negativamente, a crise de energia e a variante Delta geram mais incertezas e instabilidades, impactando sobre a recuperação econômica, afastando investimentos internos e estrangeiros e postergando a construção de um ciclo de crescimento econômico. Nos países avançados, a recuperação econômica está centrada em dois elementos fundamentais: a vacinação, com a economia voltando a um nível de normalidade e estímulos fiscais. Sem estas medidas efetivas de incentivos econômicos e do incremento da imunização, a economia brasileira não conseguirá se reerguer, o cenário permanecerá instável e as narrativas de recuperação se mostrarão cada vez mais reduzidas e limitadas.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor Universitário. Artigo publicado no Jornal da Região, Caderno Economia, 11/08/2021.

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