Recuperação da Economia em K

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A recuperação brasileira é um dos maiores anseios da sociedade brasileira, sem recuperação das atividades econômicas os agentes econômicos não conseguem criar cenários consistentes, gerando novos investimentos produtivos, aumentando o emprego, melhorando os indicadores de renda e salário, dinamizando a produção e abrindo espaço para perspectivas mais positivas, numa sociedade que passa por grande desagregação na estrutura produtiva e indicadores sociais e políticos sofríveis.

Vivemos uma verdadeira tempestade perfeita, fomos vitimados por graves crises concomitantes, desde a degradação gerada pela pandemia, desestruturação das cadeias produtivas com impactos sobre o aumento do desemprego e redução da renda agregada, além de graves conflitos institucionais entre os poderes e fortes pressões inflacionárias, acrescentamos ainda os riscos de apagão energético, com aumento dos preços da energia, penalizando os setores produtivos e impactando fortemente sobre os grupos mais fragilizados.

O cenário que estamos presenciando nos gera preocupações crescentes, medos de conflitos institucionais, descontrole dos preços e limitações da recuperação econômica, postergando a melhora do ambiente econômico, retomando os investimentos produtivos e criando as perspectivas na melhoria dos indicadores sociais.

Neste ambiente percebemos muitos analistas destacando que a economia tende a se recuperar em V, ou seja, depois de forte retração econômica, a recuperação atual tende a ser rápida e consolidada, melhorando os indicadores macroeconômicos. Infelizmente estas análises estão se mostrando limitadas, a recuperação ocorre lentamente, os indicadores positivos são localizados e o cenário econômico é frágil, carecendo de investimentos públicos e a ausência de planejamento econômico. Percebemos que estamos vivendo uma recuperação em K, ou seja, uma recuperação limitada e desigual, onde os grupos de cima ganham mais em detrimento dos grupos mais fragilizados, uns poucos grupos ganham mais e outros perdem cada vez mais, contribuindo para o crescimento da desigualdade, gerando conflitos distributivos e instabilidades social e política.

Vivemos num momento de boom das commodities, ou seja, os preços dos produtos primários estão em alta no mercado internacional, elevando os ganhos para os setores ligados ao agronegócio, mesmo assim, este boom de compras externas não está estimulando a recuperação econômica, além de desvalorizar o câmbio, elevando os preços internos, com fortes impactos na inflação e redução da renda agregada.

No começo do século, o boom das commodities se caracterizou pelo crescimento da economia, gerando estabilidade e ganhos substanciais para os setores produtivos, melhorando os indicadores macroeconômicos, valorizando o câmbio, reduzindo a inflação, aumentando o emprego, a renda dos trabalhadores e dinamizando os setores produtivos.

Naquele momento, o boom de commodities foi associado a políticas públicas efetivas de inclusão social, aumento dos salários, incremento do crédito e elevação dos investimentos públicos em setores de infraestrutura, gerando aumento no emprego, melhora na renda e estímulo ao consumo e, em contrapartida, mais produção e melhora nos indicadores macroeconômicos. Atualmente, percebemos o incremento das commodities e, infelizmente, os resultados positivos não estão aparecendo, as vendas externas do agronegócio crescem, os lucros crescem rapidamente, garantindo melhorias na arrecadação pública e o enriquecimento de setores agroexportadores, mas a recuperação não acontece.

A recuperação econômica prescinde de instrumentos efetivos do Estado, estamos num momento de oportunidades crescentes geradas pelo boom das commodities, precisamos construir políticas públicas para aumentar a renda e os salários da população, concedendo crédito para a população e retomando os investimentos públicos, que atualmente são os menores em décadas. Sem estas políticas ativas e consistentes do Estado, a recuperação em K se efetivará, gerando ganhos crescentes para uma minoria e perdas crescentes para a maioria da população.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 01/09/2021.

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