Reindustrialização

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Ao refletirmos sobre o mundo contemporâneo, percebemos o crescimento das incertezas e das instabilidades que impactam todas as nações, gerando preocupações para as organizações, para os indivíduos e todos os grupos sociais. Neste ambiente, centrado nas volatilidades políticas, guerras crescentes, crises econômicas, possíveis pandemias, degradação do meio ambiente, desigualdades em ascensão e dependências externas crescentes, cabe a sociedade reconstruir os laços sociais e econômicos, buscando aproveitar, este momento de incertezas elevadas, reconstruirmos a estrutura industrial, reestruturando a indústria nacional e retomando seu papel no mercado internacional.

A pandemia quebrou várias cadeias produtivas que impactou fortemente os preços de inúmeros produtos comercializados, além disso, a guerra na Ucrânia e as sanções econômicas dos países ocidentais contribuíram negativamente para o crescimento da inflação, se espalhando para todas as regiões, gerando uma queda da renda dos trabalhadores, reduzindo o mercado interno e prejudicando os agentes econômicos que perceberam a queda de vendas e seus ganhos materiais, reduzindo investimentos produtivos e canalizando-os para os mercados financeiros.

Neste ambiente de escassez de insumos e dificuldades crescentes de obtenção de variados produtos que entram na confecção de outras mercadorias, os governos deveriam criar instrumentos diretos e indiretos para reconstruir os setores industriais, atuando como atores centrais, fomentando a indústria, aumentando os investimentos em capital humano, estimulando a ciência nacional, despejando recursos na pesquisa e nas universidades públicas, grande responsável pela pesquisa científica no Brasil, além de criarmos instituições sólidas e consistentes para as transformações que estão moldando a sociedade contemporânea.

A indústria brasileira foi construída no século passado e teve alguma relevância mundial, alcançando mais de 30% do produto interno bruto (PIB) e, atualmente, não passa de 10%. Neste cenário, percebemos a fragilização da indústria nacional, setor dotado de baixa complexidade econômica e, desta forma, estamos caminhando a passos largos para nos tornarmos um país produtor de produtos primários de baixo valor agregado e importador de tecnologias, de máquinas e de equipamentos industrializados de alta sofisticação, gerando pouco emprego qualificado e uma grande quantidade de trabalhadores precarizados, transformando engenheiros, advogados e demais profissionais capacitados em motoristas de aplicativos, num mercado altamente competitivo, com cargas elevadas de trabalho, sem proteção social e salários degradantes.

Um projeto integrado exige que todos os setores da sociedade se empenhem na reindustrialização da economia nacional, utilizando os bancos públicos de fomento para investimentos de longo prazo, garantindo recursos financeiros com taxas de juros atrativas, fomentando a integração entre empresas, fortalecendo os centros de pesquisas e universidades, protegendo os setores produtivos, exigindo retornos constantes e transparências, desenvolvendo a governança organizacional, conquistando mercados internacionais, priorizando seus mercados internos, os investimentos nacionais e garantindo a reconstrução da soberania nacional que, na atualidade, percebemos que essa autonomia está fortemente ameaçada, sem insumos, sem lideranças e dependendo de nações que priorizam seus interesses imediatos.

O projeto de reindustrialização pode contribuir ativamente para que produzamos internamente produtos que importamos, diminuindo a dependência externa, gerando empregos de qualidade e estimulando a educação, a ciência e a tecnologia que sempre foram negligenciadas e percebemos quanto estamos atrasados no cenário científico e tecnológico do mundo.

Embora percebamos que estamos num momento único para a sociedade nacional, a reindustrialização poderia abrir novos horizontes para a sociedade brasileira, retomando as esperanças da população, garantindo a reconstrução de setores industriais que perderam relevância nas décadas anteriores, investindo em capital humano e abrindo espaços para resolvermos, por completo, as dívidas históricas acumuladas pela nação, garantindo empregos decentes, salários dignos, saúde de qualidade e condições dignas para todos os brasileiros.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia Brasileira, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no jornal Diário da Região, Caderno Economia, 10/08/2022.

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