Repensando a Economia

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Vivemos num momento de grandes transformações de paradigmas, todas as bases que sustentavam a sociedade e moldavam as organizações econômicas, políticas e sociais estão sendo alteradas rapidamente, gerando preocupações, medos, ansiedades e desigualdades crescentes.

Neste cenário, percebemos uma sociedade marcada por grande competição entre os setores econômicos e pelo crescimento da concorrência entre pessoas e organizações, levando a um crescimento do individualismo, dos ganhos imediatos, pelos lucros estratosféricos e pela ostentação elevada, uma sociedade centrada na aparência e numa solidariedade artificial e calculada, centrada e dominada por imagens postadas nas redes sociais.

Diante dessa sociedade, percebemos que a economia se transformou num ambiente tóxico, centrado nos ganhos imediatos dos setores financeiros, angariando poder político e patrocínios nos círculos de alta influência, criando uma economia totalmente artificial e sem consistência, que se mostra incapaz de sobrevivência em momento de agitações sociais e crises econômicas constantes.

O cenário contemporâneo mostra as fragilidades da economia como ciência, que abandonou a produção e a geração de empregos decentes e enveredou pelos escaninhos da financeirização, pelos ganhos crescentes da especulação e pelas riquezas centradas em moedas digitais que criam bilionários de uma noite para o dia e, num momento seguinte, os transformam, novamente, em ex-bilionários, sem recursos, sem dignidades e sem esperanças.

Neste ambiente, percebemos que a economia brasileira caminha rapidamente pela estagnação estrutural, onde uma pequena parte acumula grandes somas de riquezas materiais, sem produzir, sem empregar, sem compartilhar e sem pagar tributos, garantindo espaços nas capas das revistas, contas bancárias polpudas, reservas em restaurantes de elite e, em contrapartida, se esquecem da situação de penúria e de indignidade de grande parte da população nacional que está na marginalidade, na degradação e na desesperança.

Muitos defendem o empreendedorismo nacional e a busca crescente pelos ideais da destruição criadora, conceitos criados e estruturados pelo economista austríaco Joseph Schumpeter, como forma de alavancar o crescimento e o desenvolvimento brasileiro.

Estas teorias são muito sedutoras e atraentes e buscam o crescimento econômico e a redução das desigualdades que perpassam a sociedade mas, antes de difundirmos estes pensamentos salvacionistas individuais, faz-se necessário, a construção de uma nova agenda de desenvolvimento, reduzindo as taxas de juros, melhorando o ensino nacional, diminuindo os desequilíbrios tributários que impactam fortemente sobre os “empreendedores” em detrimento dos grandes conglomerados que usufruem de isenções fiscais e estímulos financeiros que garantem alta rentabilidade, que na maioria das vezes, são canalizados para paraísos fiscais ou retornam para ganhos especulativos, garantindo lucros elevados e retorno para grupos de financistas sedentos de rendimentos elevados e sem compromissos com a nação e com o bem-estar da estrutura produtiva.

A economia nasceu para ser um instrumento para garantir que os recursos existentes na sociedade possam ser distribuídos para todos os indivíduos da coletividade, garantindo o mínimo necessário para a sobrevivência de todos os indivíduos, diante disso, percebemos que a Ciência Econômica não conseguiu cumprir seus compromissos na sua constituição, isso acontece porque, infelizmente, essa ciência foi apropriada pelos interesses imediatos dos setores mais poderosos da sociedade, transformando produtos materiais e imateriais em instrumentos de acumulação, uma verdadeira mercantilização, garantindo grandes somas de recursos financeiros para os donos do dinheiro e para os seus prepostos, que legitimam seus ganhos estratosféricos, garantindo lucros estravagantes, lucram com as deformações do setor público e, ao mesmo tempo, hipocritamente, defendendo a redução dos Estado Nacional. Neste ambiente, a redução do Estado na economia deve ser vista como uma verdadeira vitória de Pirro.

Ary Ramos da Silva Júnior, bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia Brasileira Contemporânea, Mestre e Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 08/06/2022.

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