Seria importante ter BNDES mais atuante, diz economista-chefe da Fiesp

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Para Igor Rocha, banco é positivo em projetos de infraestrutura, mas deixa de atuar em crédito a pequenas e médias

FOLHA DE SÃO PAULO, 14/05/2022 – JOANA CUNHA

SÃO PAULO

O economista-chefe da Fiesp, Igor Rocha, avalia que é hora de o BNDES crescer no crédito a pequenas e médias empresas.

“No momento que tem uma taxa de juros chegando aí para 13%, e uma demanda extremamente deprimida, as condições de crédito estão muito delicadas. Seria, sim, importante ter um BNDES mais atuante”, diz.

Segundo o economista, que assumiu o posto na entidade neste ano, a Fiesp já se posicionou sobre juros e não vai ficar comentando ata de Copom.

O sr., que chegou na Fiesp há alguns meses, como pensa o caminho para a indústria resgatar protagonismo? Cheguei há três meses. De fato, a questão industrial está com o ambiente muito mais favorável para o debate.

Internacionalmente, a pauta da indústria está colocada como central para a retomada das economias, sobretudo, conectada à sustentabilidade. E o Brasil não pode ficar fora dessa agenda. A indústria tem sofrido, há décadas, com o processo de desindustrialização.

Tem que retomar a discussão sobre novas bases, modernas, conectando com a questão da sustentabilidade para a transição dos setores de média e alta tecnologia, tanto do ponto de vista da produção quanto comércio exterior. E tem questões chave, como infraestrutura, educação, aumento da produtividade, descarbonização.

Considerando os impactos de pandemia e guerra, tem algo que o governo poderia fazer, oferecer mais benefícios para impulsionar crescimento? Acaba sendo muito complicado pensar dessa forma. Qualquer coisa que a gente fizer neste momento, calcado no que pode ser feito agora, são medidas paliativas, de curto prazo. Eu acho que o fundamental, se pensarmos em recuperar o setor industrial, é refletir sobre questões estruturais, que precisam estar calcadas, e aí é o grande destaque, no planejamento, na recuperação do planejamento da economia brasileira. O Brasil deixou de planejar.

O planejamento foi muito demonizado por equívocos de interpretação. Famílias planejam, empresas planejam. Estado brasileiro também precisa planejar. E neste planejamento, o desenvolvimento do setor industrial é central, conectado, obviamente, à questão da infraestrutura, que é condição fundamental, embora não suficiente, para o crescimento. Mas sem dúvida, é fundamental aos setores produtivos e ao agronegócio também.

E o crédito? O BNDES tem sido eficiente para liberar financiamento? O BNDES tem um corpo técnico fantástico historicamente, tanto que tem atuado de forma muito positiva na elaboração de projetos de infraestrutura, que tem sido importante para o país. Mas tem, por outro lado, deixado muito de atuar no crédito para as empresas, sobretudo pequenas e médias. Embora caiba destacar, Pronampe e todo o arcabouço que o governo fez durante a crise com os
fundos garantidores. Foi muito importante para dar o amparo a essas empresas.

Mas no momento que tem uma taxa de juros chegando aí, vamos arredondar, para 13%, e uma demanda extremamente deprimida, as condições de crédito estão muito delicadas. Seria, sim, importante ter um BNDES mais atuante, não só do ponto de vista da disponibilização de crédito ou de funding. Mas sim de esse crédito chegar efetivamente na ponta para essas empresas que precisam, porque a gente tem essa dificuldade de o crédito chegar para a pequena e para a média.

E como vai a agenda de divulgação de indicadores da Fiesp e os posicionamentos? Logo depois que a nova gestão, de Josué Gomes da Silva, assumiu a Fiesp neste ano, vocês publicaram um comunicado duro sobre alta dos juros, em fevereiro, mas depois parou. Qual é a orientação? Foi uma intenção de mostrar: o posicionamento da Fiesp é este. A Fiesp não vai ficar comentando ata de Copom, no sentido de que a Fiesp vai se preocupar com questões estruturais e não conjunturais.

Hoje, a gente precisa discutir no Brasil é como recuperar investimento. O que a gente viu nos últimos anos acontecendo no Brasil, e aí eu não estou falando de instituição A, B ou C, mas no Brasil, eram analistas econômicos fazendo comentários do tipo: “olha, a dívida pública piorou, olha, melhorou, o juro subiu tanto, caiu tanto”. E aí?

O que isso, de fato, implica do ponto de vista de crescimento? A Fiesp está muito voltada agora para essa reflexão estrutural.

Por isso estamos nesse debate muito proveitoso com a Febraban [Federação Brasileira de Bancos, que abriu um grupo de trabalho com a Fiesp sobre os juros] para ver medidas que podem ser tomadas, ações, para que tenhamos, estruturalmente, um juro mais baixo na economia brasileira. E que beneficie o acesso das empresas ao crédito e, consequentemente, tenha um resultado positivo para o crescimento da economia.

As propostas da Fiesp para os candidatos da eleição deste ano estão prontas? Está em fase de elaboração. Estamos discutindo. Vai ter o processo institucional que acontece em todas as eleições. A Fiesp é um ator relevante no diálogo. Esse documento de propostas será elaborado via nossos conselhos superiores.

E quais serão os pontos de destaque? Tem a reforma tributária, com certeza, que deve figurar como central. Uma reforma ampla e isonômica. Não se trata de nenhuma benesse, mas de ser igual para todos os setores da economia.

Também deverá estar no documento a importância do investimento público, que, de fato, chegou a níveis complicados nos últimos anos.

Raio-x
Doutor pela University of Cambridge e membro do Sidney Sussex College e da Cambridge Society for Social and Economic Development, no Reino Unido. Tem mestrado em economia pela Unicamp, e graduação em ciências econômicas pela PUC-SP. Foi diretor de economia da Abdib e hoje é o economista-chefe da Fiesp

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