Uma comunidade de 8 bilhões, por Marcia Castro.

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Ásia, América Latina e África têm a chance de maximizar seu capital humano futuro

Marcia Castro, Professora de demografia e chefe do Departamento de Saúde Global e População da Escola de Saúde Pública de Harvard.

Folha de São Paulo, 14 novembro 2022

Segundo estimativa da ONU, a população mundial chegará a 8 bilhões no próximo dia 15. Isso acontece 12 anos após a marca de 7 bilhões ter sido alcançada e a estimativa é que em 15 anos, 2037, mais 1 bilhão seja adicionado.
Apesar da tendência de aumento populacional nos próximos anos, a taxa de crescimento global é a menor desde 1950.

Ainda que o crescimento esperado deva continuar em queda, uma grande parcela jovem da população, em idade reprodutiva, contribuirá para cerca de dois terços do crescimento populacional até 2050. Oito países contribuirão com mais da metade desse crescimento, enquanto alguns países da Europa terão redução populacional no período.

Isso deixa claro que essa comunidade global de 8 bilhões enfrenta desafios e oportunidades demográficas distintas. Países da Ásia, da América Latina e da África têm a chance de investir em sua população jovem a fim de maximizar o capital humano futuro e, portanto, o crescimento. O Brasil se enquadra nessa categoria.

Já os países de alta renda, mais envelhecidos, têm na migração internacional uma opção para compensar o futuro declínio populacional. Entretanto, esse é um tema polêmico dada a xenofobia que tem sido observada, por exemplo, em alguns países da Europa e a baixa popularidade de governantes que apoiam a abertura de fronteiras.

No Estados Unidos, grandes cidades, como Nova York, tiveram redução de população em 2021 devido a migração para cidades menores. Ainda não é possível afirmar se esse êxodo, que se iniciou durante a pandemia, será ou não de curto prazo.

Devido à pandemia de Covid-19, a maioria dos países teve redução na expectativa de vida ao nascer (Austrália e Nova Zelândia são exceções). Ásia e América Latina tiveram as maiores reduções. A estimativa é que em três anos, no máximo, países retomem a trajetória de ganhos de expectativa de vida pré-pandemia.

A discussão desses e tantos outros desafios demográficos precisa considerar o contexto climático atual. O progresso em reduzir a emissão de gases de efeito estufa tem sido lento, muito abaixo da meta estabelecida pelo Acordo de Paris. A Conferência Mundial do Clima (COP27), que termina dia 18, deve trazer novas resoluções e compromissos mundiais e o posicionamento do Brasil na COP 27 será de suma importância, após quatro anos de retrocessos na gestão ambiental.

Nos anos 1970, o padrão demográfico era visto por alguns como uma bomba populacional. A bomba agora é outra: climática. Sem uma mudança nos padrões de produção, consumo e desmatamento, áreas do planeta deixarão de ser habitáveis, e todos sofrerão com os efeitos do aquecimento.

Eventos climáticos extremos já são a principal causa de deslocamentos internos não voluntários, mais de 23 milhões de pessoas em 2021. Populações vivendo em condições de vulnerabilidade tendem a ser mais afetadas. No contexto brasileiro, dados recentes do Mapbiomas mostram as condições adversas do crescimento urbano nos últimos 37 anos, com expansão de favelas (principalmente na Amazônia), grande parte em áreas de risco. Isso favorece desastres como o que ocorreu em Petrópolis, no início do ano.

Em outubro, o desmatamento na Amazônia foi o mais alto desde 2015, mantendo o crescimento acelerado observado durante a gestão do atual governo (tópico que já abordei nesta coluna). Reverter esse cenário deve ser, com certeza, uma das prioridades do novo governo.

Nessa grande comunidade de 8 bilhões, discussões sobre tendências populacionais futuras precisam estar aliadas as questões climáticas. Afinal, de nada vale ter um tamanho populacional ideal em um planeta sem condições sustentáveis à vida humana.