Visão Sistêmica

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A sociedade vem passando por inúmeras transformações em todas as áreas e setores, exigindo dos agentes econômicos e políticos uma análise mais sistêmica dos grandes problemas nacionais, evitando visões centradas apenas em questões conjunturais e se esquecendo de uma reflexão estruturada e consistente. Sem esta análise, os gestores se concentram em análises imediatas e se esquecem de análises mais estratégicas sobre os rumos das sociedades, querem medidas que tragam ganhos substanciais rapidamente e se esquecem que as grandes alterações devem ser construídas de forma consistente e estruturada.

No mundo contemporâneo, um dos maiores desafios para os gestores públicos, intelectuais e formadores de políticas governamentais é enxergar os problemas da sociedade de forma mais sistêmica. A grande maioria destes gestores percebem apenas um dos lados do processo, deixando de lado outros eixos desta equação, diante disso, as políticas adotadas acabam gerando desajustes na sociedade, faltando uma visão sistêmica e estruturada sobre o comportamento da coletividade.

Nesta visão limitada, percebemos que as medidas apenas visam uma resolução imediata, resolvendo parcialmente o problema e posteriormente, percebemos que o desafio fica ainda maior, os desajustes são mais intensos e as medidas necessárias exigem políticas maiores e mais efetivas. Muitos gestores defendem medidas de austeridade e redução dos benefícios sociais acreditando que, desta forma, com estas medidas a economia vai se recuperar e voltar ao tão sonhado crescimento econômico e esquecem que o sistema econômico é muito mais complexo e dinâmico do que muitos gestores acreditam. Menos investimentos na economia geram menos empregos, diminuição do consumo, redução das vendas e dos lucros dos agentes produtivos, levando a economia a comportamentos recessivos.

A sociedade brasileira durante séculos conviveu com iniquidades sociais, políticas e econômicas, gerando uma sociedade marcada por grandes pulsões de pobrezas e de indignidades, onde uma pequena parcela da sociedade vive envolta nas benesses da tecnologia, enquanto uma parte convive com trabalhos precários, recursos financeiros limitados, educação de baixa qualidade e grandes dificuldades de sobrevivência.

Nesta sociedade, chegamos num momento marcado por tantas iniquidades que se não conseguirmos, enquanto sociedade, adotar políticas mais equilibradas e inclusivas, com distribuição mais equânimes dos recursos econômicos para todos os grupos socais, com trabalhos mais dignos e decentes, percebendo uma grande convulsão social, contrariando, como destacou o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, de que o povo brasileiro é cordial.

Vivemos uma sociedade marcada por grandes degradações econômicas, sociais e políticas, caminhando a passos largos a um processo de ruptura e de convulsão social. Os sinais desta degradação são nítidos e a pandemia deixa mais clara esta situação. Recentemente percebemos o incremento da desindustrialização, com isso, estamos perdendo empresas, investimentos para a geração de emprego e renda e reduzindo as perspectivas positivas para a coletividade. O mundo se transforma muito rapidamente, exigindo das sociedades investimentos em pesquisa e capital humano, em redução das desigualdades sociais e aumento das oportunidades para todos os grupos sociais. Vivemos num momento de grandes desafios e, ao mesmo tempo, de novas oportunidades, exigindo lideranças capacitadas e conscientes das potencialidades. Sem estas diretrizes, o país tende a acumular mais uma década perdida com a degradação dos indicadores sociais, com violências, exclusões e novas convulsões sociais, cujas consequências são inevitáveis e assustadoras.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Mestre e Doutor em Sociologia e Professor Universitário. Artigo publicado do Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 27/01/2021.

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