Caos nacional

0

Este artigo está sendo escrito no último dia de 2025, um ano de grandes alterações no cenário global, incremento dos conflitos econômicos entre nações, aumento dos confrontos militares em todas as regiões do globo e expectativas sobre o comportamento da economia brasileira, uns grupos apostando fortemente no caos generalizado, inflação em ascensão, aumento do desemprego, degradação da renda nacional, diminuição dos investimentos estrangeiros e uma devastação econômica. Será que essas previsões se concretizaram?

Depois de dois anos de crescimento econômico na casa dos 3% ao ano, 2023 e 2024, as expectativas dos grupos oposicionistas eram de uma retração econômica, neste ano de 2025 devemos confirmar um crescimento do produto interno bruto na casa dos 2,2%, garantindo um triênio de crescimento satisfatório, ainda mais numa sociedade internacional marcada por grandes instabilidades econômicas e variados conflitos políticos, gerando incertezas crescentes e vários conflitos militares que podem se espalhar para outras nações e culminar em conflitos generalizados.

Os dados econômicos nacionais deste ano são auspiciosos, apesar das taxas de juros escorchantes adotadas pela Autoridade Monetária, Banco Central, na casa dos 15% ao ano, o país conseguiu algum fôlego no crescimento econômico, melhorando substancialmente os indicadores sociais, com redução da pobreza extrema, aumento no emprego e, em contrapartida, redução do desemprego, além do incremento da renda nacional e a redução da inflação, tudo isso contribuiu, ativamente, para a movimentação econômica, que impulsionaram o consumo e a renda agregada.

Ao analisarmos os indicadores macroeconômicos, o contraste entre a expectativa e a realidade é notável. A projeção inicial deste ano da inflação (IPCA) era de 5,8%, mas o resultado efetivo deve fechar o ano de 2025 em 4,32%, abaixo das inúmeras previsões do mercado. Essa reversão demonstra um controle de preços mais eficaz do que o previsto, mesmo sabendo que as taxas de juros praticadas inviabilizam um crescimento mais consistente.

Outro indicador macroeconômico que mostrou grande resiliência da economia brasileira foi o Investimento Estrangeiro Direto (IEDs), ainda mais num ambiente externo marcado por grandes instabilidades, tarifaços, protecionismos e intervencionismos crescentes. Em 2024, o Brasil recebeu mais de US$ 74 bilhões de recursos externos e, em 2025, as estimativas mostram mais de US$ 84 bilhões, mostrando condições externas positivas e pujantes, além de mostrarem que a diversificação externa pode gerar grandes espaços de crescimentos econômico e comercial.

Recentemente, o relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) confirmou que menos de 2,5% da população brasileira estava em situação de subalimentação grave, resultado de políticas públicas focadas em combate à fome e insegurança alimentar, uma grande conquista da população brasileira e nos mostram que políticas públicas e sociais bem estruturadas e bem desenhadas podem gerar grandes benefícios para a sociedade.

Os indicadores macroeconômicos nos mostram avanços substanciais para a economia nacional, sabemos que os desafios macroeconômicos são gigantescos, nossa estrutura produtiva ainda carece de complexidade econômica, os empregos nacionais pagam salários reduzidos, a produtividade do trabalho é limitada, a estrutura tributária apresenta grandes distorções históricas, ricos pagam poucos impostos e a carga tributária se concentra na classe média e nos grupos mais precarizados. Os avanços são positivos, tímidos e poderiam ser maiores se os grupos políticos e econômicos se interessassem em defender os interesses da maioria e deixar de lado seus próprios interesses imediatos.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

Estado e Mercado

0

Vivemos momentos interessantes, marcados por grandes rupturas e contradições, onde os agentes econômicos e produtivos se organizam para competir num ambiente centrado na competição e na concorrência, onde os mais capacitados sobrevivem, ganham musculatura, em detrimento daqueles que não conseguem aumentar sua capacidade produtiva e sua eficiência, ficando para trás literalmente, reestruturando suas estratégias de mercado, investindo mais em tecnologias e passando a criar novos instrumentos de sobrevivência.

Dentre as grandes transformações na sociedade global, destacamos as modificações no ambiente ideológico, uns grupos defendendo cabalmente a concorrência como instrumento de consolidação dos atores econômicos, por estas teorias as intervenções estatais eram vistas como desnecessárias, aumentariam os custos de oportunidades e gerariam novos constrangimentos na estrutura econômica, deixando de lado a criação de riquezas materiais e protegeriam os setores mais ineficientes da estrutura produtiva.

Os defensores dos méritos dos mercados desregulados defendiam a competição constante, a concorrência continuada traria grandes vantagens para os sistemas econômico e produtivo, os grandes defensores destas ideias eram os países ocidentais, notadamente a Inglaterra e os Estados Unidos, que espalharam para todos os poros da economia mundial as vantagens da competição constante, espalhando as ideias para as melhores universidades estrangeiras, criando e inaugurando institutos de pesquisas renomados e investindo milhões de dólares na formação de várias gerações de economistas, jornalistas, gestores, sociólogos e cientistas políticos para defenderem seus ideários, seus valores e seus interesses.

Do outro lado, encontramos defensores de ideias progressistas que defendiam a intervenção do Estado Nacional, acreditando que a atuação estatal seria fundamental para evitar as falhas do mercado, defendendo uma maior fiscalização dos excessos dos capitalistas e criando espaços para reduzir as desigualdades sociais criadas pelos mercados, garantindo oportunidades para todos os setores da comunidade, privilegiando os mais precarizados da sociedade, afinal, percebemos que vivemos numa das nações mais desiguais da comunidade internacional.

Estas teorias defendiam políticas públicas progressistas, defendendo protecionismo para os setores produtivos e investimentos governamentais para melhorar a convivência entre capital e trabalho, trazendo uma nova pauta para as discussões sociais e políticas, tais como mais investimentos em educação e em capital humano, maiores investimentos em escolas, ensino técnico e universidades e mais políticas públicas visando os interesses coletivos, além de defenderem maior tributação para os grupos mais privilegiados da sociedade, diminuição das isenções fiscais e tributárias, pautas rechaçadas pelos detentores do capital, que sempre pregaram e defenderam suas isenções fiscais que sempre garantiram seus interesses imediatos.

Neste momento, percebemos uma mudança substancial nas discussões na sociedade global, nações ocidentais ricas e desenvolvidas, além de industrializadas, passaram a defender mais protecionismos econômico e comercial, menor concorrência no ambiente produtivo internacional e, em contrapartida, nações anteriormente vistas como pobres e miseráveis, passaram a defender e estimular maior competição no comércio internacional. Países que rechaçavam a atuação dos governos nacionais e defendiam a concorrência global agora, clamam para a intervenção dos seus governos, pressionando seus governantes para defenderem seus interesses econômicos e produtivos, aceitando e estimulando a atuação militar e o uso da força bélica, como estamos vivenciando no ambiente global contemporâneo.

O mundo passa por grandes transformações estruturais, as ideologias estão em constantes movimentações, anteriormente as propostas eram ideológicas e coerentes, atualmente os interesses são puramente econômicos, neste cenário os escrúpulos inexistem, tudo se transformou em verdadeiros negócios, apenas…

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor Universitário.

Novos Protecionismos

0

A economia internacional vem vivendo momentos de grandes transformações, os novos modelos econômicos estão alterando toda a estrutura produtiva, exigindo novos comportamentos, levando os governos a adotarem novas posturas para fortalecerem suas estruturas produtivas, protegendo seus empregos e defendendo seus interesses nacionais. Neste cenário, percebemos o crescimento do protecionismo, que cresce em todas as regiões do globo, gerando um verdadeiro desafio para os governos e os setores produtivos, levando grupos econômicos, que anteriormente criticavam a proteção estatal, a abraçarem e defender as políticas francamente protecionistas.

Poucas décadas atrás os agentes econômicos defendiam o processo de globalização como algo inevitável, levando os governos nacionais a abrirem suas estruturas econômicas e produtivas para atraírem novos atores externos como forma de sobrevivência, desta forma, nos anos 1990 foram marcados pela desnacionalização, abertura econômica e a privatização de empresas nacionais, acreditando que, com a venda de ativos governamentais, os novos proprietários impulsionariam o processo de desenvolvimento econômico, um grave equívoco, alienamos setores estratégicos, atraímos grandes conglomerados estrangeiros e passamos a aumentar a nossa dependência externa, desta forma, estamos pagando fortunas para acessar tecnologias estrangeiras.

A globalização estimulava fortemente a abertura econômica, a competição e a livre concorrência, motivadas pelo receituário neoliberal defendido pelas nações ocidentais que levaram seus setores produtivos a uma verdadeira encruzilhada, suas ideias não trouxeram os resultados esperados, ao contrário, na prática, os grandes ganhadores da era da globalização foram as nações asiáticas, notadamente a China, Coréia do Sul, dentre outras, que rechaçaram o receituário neoliberal e adotaram políticas muito diferentes, defendendo empresas nacionais, fortalecendo o papel do Estado Nacional como indutor do desenvolvimento e rechaçaram a entrada do capital estrangeiro especulativo, desta forma, as nações asiáticas foram as grandes ganhadoras da era da globalização e as nações desenvolvidas ocidentais que defendiam o pensamento liberal, perderam espaço no setor produtivo global, muitas delas sentem na pele uma forte desindustrialização precoce, que impacta na competitividade de suas estruturas produtivas.

Neste cenário, percebemos o incremento do protecionismo nas nações ocidentais, anteriormente defensoras da livre concorrência e da abertura econômica, agora buscam, notadamente o refúgio em ideias e pensamentos protecionistas e mercantilistas que rechaçavam anteriormente e, hipocritamente, passaram a adotar como forma de proteção de suas estruturas produtivas. Neste momento, percebemos o crescimento do fulgor protecionista norte-americano, buscando, abertamente, mostrar para a sociedade internacional o “America First”, gerando constrangimentos ideológicos, conflitos com outras nações e podendo levar a sociedade global a uma nova guerra.

Vivemos momentos de apreensão e instabilidades no cenário internacional, o protecionismo impacta sobre as estruturas econômica e produtiva gerando inimizades entre os povos e as nações, onde cada país busca seus interesses imediatos, seus ganhos monetários e financeiros, ativando ódios e ressentimentos, além de conflitos diplomáticos e agressões verbais, anteriormente esses conflitos levavam as nações a conversas e acordos mundiais para evitarem constrangimentos maiores, na atualidade, estes espaços de conversação e de discussão civilizada perderam força, levando os governos a fortes investimentos militares e gastos bélicos, postergando as conversas e resolvendo tudo na força e na ignorância. Nestas incertezas crescentes que dominam a sociedade global a América Latina sempre esteve distante dos grandes conflitos bélicos e militares, agora, percebemos que com os novos protecionismos estamos no centro dos grandes conflitos internacionais, infelizmente!

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor universitário.

Mundo pós Pandemia

0

A sociedade internacional viveu momentos de mortes e destruições generalizadas pela recente pandemia que assolou a comunidade global, neste período milhões de pessoas perderam a vida, com graves constrangimentos sociais, degradações familiares, transformações estruturais, alterações crescentes do mundo do trabalho, incremento tecnológico e grandes incertezas. Essas mudanças estão em curso e as consequências são variadas, trazendo pontos positivos e negativos para toda a comunidade.

Neste período, as perguntas eram constantes, as respostas sempre foram insatisfatórias e os medos eram cada vez maiores, afinal quais são os impactos da pandemia para a sociedade internacional e quais são os setores que seriam afetados direta e indiretamente pela pandemia que assolava todas as regiões do mundo… As respostas ainda estão sendo construídas lentamente.

Depois que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o fim da pandemia, os dados são inconclusivos, uns acreditam em mais de 10 milhões de mortes, outras instituições acreditam em números mais elevados. Apesar de números muito elevados e assustadores, percebemos que a pandemia degradou muitas comunidades, famílias perderam vários integrantes, destruindo sonhos e aumentou as lembranças e as saudades de bilhões de pessoas, um momento de tristezas crescentes, desesperanças, medo e desajustes, além de ódios e ressentimentos generalizados e represados.

No mundo do trabalho, percebemos o incremento das tecnologias que passaram a transformar as relações entre capital e trabalho, onde o mercado passou a demandar mais trabalhadores com maiores qualificações, exigindo uma capacidade gerencial e comportamental dos profissionais. Os aplicativos passaram a ganhar espaço na sociedade e na estrutura econômica e produtiva, impulsionando negócios rentáveis e de perspectivas positivas, tais como Uber, Netflix e Airbnb, além dos bancos digitais, as cooperativas de créditos e as fintechs, que estão gerando uma verdadeira revolução no mercado de crédito, exigindo uma maior capacidade de fiscalização destes novos produtos financeiros e uma atuação mais sistemática das autoridades monetárias.

Muitos especialistas, acadêmicos e estudiosos da sociedade contemporânea acreditavam que o final da pandemia alteraria o comportamento dos seres humanos, afinal, neste período de incertezas sanitárias marcadas pelo medo de uma morte premente e precoce, poderiam gerar alterações nos valores dos indivíduos, reduzindo o imediatismo, o individualismo e o hedonismo, características nítidas da sociedade contemporânea. Infelizmente, passados anos do final da pandemia que devastou a sociedade internacional, os valores não foram alterados, a tão sonhada solidariedade, o respeito humano e os valores cristãos vêm perdendo espaço e os valores da acumulação capitalista estão dominando a sociedade global.

Nesta sociedade, percebemos que os valores da acumulação estão, cada vez mais dominando o cotidiano dos seres humanos, neste cenário, tudo se transforma em mercadorias, transformando as relações sociais em espaço de negócios ou negociatas, os setores governamentais estão sendo reduzidos e os espaços estão sendo abertos para negócios milionários para acomodar grupos poderosos e dotados de grande poder financeiros nacional e internacional, deixando de lado os interesses da comunidade e da população em prol da acumulação de poucos.

            A sociedade passa por momentos de apreensão e inquietação, a pandemia mobilizou as comunidades e destruíram os laços afetivos e emocionais, mas não teve força para alterar o comportamento dos seres humanos, cada vez mais ambicioso e imediatista, quem sabe, depois desta pandemia, outras catástrofes estão programadas para a comunidade global.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

Um Brasil e duas planilhas de gastos públicos, por Paulo Kliass

0

Há uma cisão irracional. Cofres públicos são drenados pelo financismo: em um ano, país pagou quase R$ 1 trilhão em juros da dívida. Quando se trata da área social, vem o bombardeio midiático: “pauta bomba”, “irresponsabilidade fiscal”, “Brasil vai quebrar”…

Paulo Kliass, OUTRAS PALAVRAS, 02/12/2025

A área econômica da Esplanada dos Ministérios sempre encheu a boca para se orgulhar de sua busca permanente pela austeridade fiscal. Desde antes da posse do terceiro mandato de Lula à frente da Presidência da República, o que se ouvia era o compromisso do futuro governo — que deveria marcar a ruptura com a direita e a extrema direita desde o golpe contra Dilma em 2016 — com a pauta ditada pelo financismo e pelos interesses da Faria Lima. Dentre tantos itens do conservadorismo econômico, ganhava destaque o engajamento com o objetivo de gerar recursos orçamentários para o pagamento de juros da dívida pública. Assim, de acordo com os cânones do manual do neoliberalismo internacional preconizado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), tal procedimento implicava a geração de superávit primário nas contas públicas.

O próprio Lula emitia declarações ambíguas a esse respeito. Ao mesmo tempo em que prometia fazer mais e melhor do que nos dois primeiros mandatos, ele dizia antes das eleições de 2022, que:
(…) “ninguém neste mundo demonstrou mais responsabilidade fiscal do que nós. O Brasil foi o único país do G20 que fez superávit primário durante os mandatos meu e da Dilma. Único do mundo” (…) [GN]

Ora, não há razão alguma para um governo que se pretende progressista, com um pé de alguma forma ainda fincado no campo da esquerda, se vangloriar de ter realizado tanto superávit primário. E o pior de tudo é ainda considerar como virtude de orientação de programa governamental continuar desenvolvendo uma política econômica de inspiração neoliberal, ancorada na austeridade fiscal e no arrocho monetário. A título de exemplo, apenas durante os dois primeiros mandatos de Lula, o governo federal realizou uma despesa de R$ 2,6 trilhões para o pagamento de juros da dívida pública. Isso representou uma média de 4,5% do PIB com esse tipo de despesa orçamentária entre 2003 e 2010. Na verdade, esse tipo de dispêndio é a contrapartida do esforço para realizar superávit primário.

Recorde de despesa com juros! Nunca antes da História deste país
Mas o dramático é que o processo foi ainda mais agravado com o retorno de Lula ao Palácio do Planalto em 2023. O processo de comprometimento de recursos públicos com a esfera financeira foi aprofundado. De acordo com o mais recente Boletim de Estatísticas Fiscais do Banco Central (BC), a situação nunca esteve tão ruim. Como costuma afirmar o presidente, “nunca antes na História deste país” o setor público gastou tanto com uma despesa tão parasita e regressiva quanto no mês de outubro. De acordo com as informações exibidas no documento, naquele mês foram dispendidos R$ 114 bilhões com o pagamento de juros da dívida pública. Este foi o maior valor mensal da série histórica apurada pelo órgão.

Este volume representou uma média de R$ 5 bi por cada um dos 23 dias úteis do mês. Uma loucura! Tanto mais impressionante se levarmos em conta o discurso do secretário-executivo do Ministério da Fazenda e dos órgãos da grande imprensa de forma geral quando o Senado Federal aprovou recentemente uma medida justa e necessária de regulamentar a aposentadoria especial para os agentes de saúde. A narrativa que se tentava impor era de uma “pauta bomba”, “irresponsabilidade fiscal” e por aí vai. Já o número dois de Fernando Haddad, Dario Durigan, saiu-se com bravatas e ameaças à decisão do Legislativo.

(…) “Esse texto tem um impacto muito grande para os cofres públicos. É muito ruim do ponto de vista fiscal e não deveria avançar” (…)

Assim, mais uma vez o ex-funcionário de uma das maiores empresas de big tech do mundo, a Meta (proprietária do WhatsApp), reverbera o pensamento conservador na condição de titular em exercício da pasta, uma vez que Haddad se encontrava em viagem ao exterior. Para ele, pouco importa se a determinação de conceder a aposentadoria especial a tais categorias já tenha sido estabelecida na própria Constituição. Ou seja, o Projeto de Lei Complementar PLP 185/2024 votado apenas regulamentava tal previsão. Além disso, não cabe na visão do economista de planilha a hipótese de que o projeto possa ser muito bom do ponto de vista de política social. Não! O único que importa para o olhar do financismo é a sua consequência fiscal. E ponto final.

Pauta bomba são os juros!

Algumas avaliações catastróficas estimavam o impacto da assim chamada “pauta bomba”, como “sendo de R$ 2,4 bi em 10 anos. Assim, teríamos um acréscimo de despesa orçamentária de R$ 2,4 bi a cada exercício por tal concessão às categorias que tanto ajudaram para impedir que os números da catástrofe da pandemia fossem ainda mais negativos. Não bastaram as 700 mil mortes provocadas em grande medida pela atitude criminosa de Bolsonaro, com seu combo de negacionismo e incompetência. Reconhecer a natureza de insalubridade e periculosidade das funções de tais categorias é uma medida de justiça social.

O fato concreto é que os números do alarmismo não resistem a uma análise mais detalhada. O valor
diário da despesa com juros em outubro equivale a dois anos do impacto da aposentadoria especial. Mas sobre isso ninguém fala em “pauta bomba”, em “gastança irresponsável” ou ameaças de quebra do Estado brasileiro. Para esse pessoal da Faria Lima, gastar a maior parte do orçamento público com o andar de cima é promover respeito aos contratos e assegurar credibilidade à política econômica.

Já, por outro lado, fazer política pública dirigida à maioria da população, sob qualquer hipótese, teria o significado de romper o pacto da responsabilidade fiscal e deveria ser denunciado a todo instante como populismo e demagogia. Triste país, governado por uma elite tão obtusa quanto espoliadora!

Além do recorde de valor mensal observado em outubro com as despesas financeiras para pagamento de juros da dívida pública, o mesmo Boletim do BC nos evidencia que estamos com outro valor máximo para a série histórica. Trata-se do acumulado dos últimos 12 meses para tal rubrica. Já alcançamos a marca de R$ 987 bi no período que vai de novembro de 2024 a outubro do presente ano.

Além disso, houve um salto no que se refere à participação do volume pago de juros como proporção do PIB. Durante o primeiro biênio do terceiro mandato de Lula, o percentual subiu para uma média anual de 6,5%, um aumento de quase 50% em relação aos 4,5% do período 2003–2010. Caso a média do presente ano se mantenha, atingiremos 8,2% em dezembro. Ou seja, aqui está a verdadeira gastança irresponsável do orçamento público. Mas disso ninguém trata — nada de teto, limite ou contingenciamento nas despesas com juros.

Que austeridade fiscal é essa?

Assim, o que sobra da verborreia conservadora é que a narrativa da responsabilidade fiscal não se sustenta. O governo vem acumulando um déficit nominal anual superior a R$ 1 trilhão há um bom tempo. No entanto, a estratégia malandra de se prender apenas ao conceito de “primário” faz com que as despesas orçamentárias ditas financeiras não entrem no cálculo. Ora, que austeridade fiscal é essa? Mas que responsabilidade fiscal é essa? A retórica de defesa dos interesses do financismo bate no peito com orgulho quando se trata de ter a suposta “coragem” de cortar gastos em saúde, em assistência social, em educação, em previdência social, em segurança pública, em salários de servidores, dentre tantas outras rubricas.

Mas é necessário recolocar o debate em seus termos. Afinal, as despesas com o pagamento de juros são tão orçamentárias quanto aquelas que se destinam ao pagamento do Benefício de Prestação Continuada (BPC). Os dispêndios financeiros são tão orçamentários quanto aqueles realizados com o pagamento das obrigações do Sistema Único de Saúde (SUS). Os gastos classificados como não-primários são tão orçamentários quanto aqueles que recebem o carimbo burocrático de primários.

Tudo é uma questão de estabelecer prioridades. O governo elege o rigor com os gastos sociais para demonstrar seu compromisso com uma suposta “seriedade” no trato da coisa pública. Mas deixa correr solto o volume mastodôntico com juros. E o pior é que faz esse malabarismo retórico carregado de desonestidade política e intelectual.

É preciso dizer alto e em bom som: não! O Brasil não está em equilíbrio fiscal, como pretende nos convencer o discurso oficialista. Estamos com déficit nominal superior a um trilhão de reais. E nem por isso o país vai quebrar ou estamos entrando na antessala do apocalipse. Apresentar esse tipo de resultado nas contas públicas não é tão problemático quanto nos faz crer o financismo de plantão. O que precisa ser revisto urgentemente é o foco enviesado em cortar, cortar e cortar apenas nas rubricas sociais e de investimento.

Contradições constantes

0

Vivemos numa sociedade marcada por grandes contradições sociais, econômicas e políticas, nesta sociedade nos afogamos no consumo de produtos e mercadorias desnecessárias e supérfluas, gastamos fortunas monetárias para resolvermos problemas de nossa saúde física contraídas na busca crescente pelo entesouramento material, desenvolvemos produtos de alta complexidade tecnológica e não nos incomodamos quando concidadãos vivem na miséria e na indignidade e neste cenário de concorrência constante, criticamos o comportamento social centrado na busca frenética pela acumulação financeira e estimulamos uma postura marcada pelo individualismo e pelo imediatismo que dominam a sociedade contemporânea, transformando comportamentos e costumes cotidianos.

Neste momento marcado pelo predomínio das redes sociais e das mídias digitais, os indivíduos se apresentam socialmente como detentores de uma vida perfeita, corpos esculturais e cheios de curvas sensuais, neste ambiente, as pessoas mostram suas virtudes físicas e intelectuais e, ao mesmo tempo, escondem uma realidade que apresenta grandes doses de desequilíbrios emocionais, recorrendo a usos constantes de antidepressivos, calmantes e ansiolíticos, como forma de combater desajustes estruturais da sociedade, evitando as tristezas e as desesperanças.

Neste ambiente de constante competição, onde os valores são analisados pelos resultados imediatos, os ganhos monetários e financeiros ganham espaço, as empresas impõem metas mirabolantes, a concorrência no mercado de trabalho cresce de forma acelerada, transformando colegas de trabalho em verdadeiros competidores cruéis, onde os valores éticos e morais são deixados de lado e, muitas vezes, amigos perdem suas amizades e seus sentimentos de fraternidade são substituídos por mágoas, rancores e ressentimentos.

Recentemente, presenciamos a chamada COP 30, um espaço de discussões internacionais, onde o centro das conversas e reflexões estavam no Meio Ambiente, no clima, nas florestas e na temperatura do Planeta Terra, onde encontramos variados grupos políticos se digladiando para se eximir das responsabilidades climáticas. Neste encontro, percebemos grupos poderosos negando as transformações climáticas, estimulando a degradação ambiental e defendendo os modelos econômicos dominantes, se esquecendo das consequências funestas que estão impactando todas as nações, principalmente os países subdesenvolvidos.

Neste cenário de grandes problemas e desafios crescentes, percebemos movimentos negacionistas que ganham relevância na sociedade global, vistos como salvadores da pátria, por uma parte significativa da sociedade, responsáveis por propostas superficiais e limitadas, que postergam propostas estruturais e impedem a solução definitiva dos grandes problemas contemporâneos. Na verdade, devemos analisar profundamente e investigar com seriedade se estes grupos querem resolver realmente os problemas ou se alimentam destes desequilíbrios?

Falamos constantemente em segurança pública, acreditando que este tema é um dos maiores problemas nacionais, para resolver esse imbróglio vendem ilusões constantes e simplificadas: aumento do encarceramento, aumento das chacinas policiais, fomentando a compra de armas da população, endurecimento das penas em cadeias dominadas por grupos criminosos, dentre outras inúmeras medidas que sempre foram adotadas e os resultados são sempre os mesmos, aumento do crime organizado, que saem dos morros e passam a se refugiar nos centros financeiros, violência urbana crescente, milícias ganhando espaços centrais em muitas comunidades e a fragilidade dos órgãos repressores, além disso, não podemos esquecer da corrupção, que cresce de forma acelerada e se espalha para todos os setores do Estado Nacional. Na sociedade contemporânea, os problemas crescem de forma acelerada, resolver tais problemas exigem maturidade, menos propagandas e menos bravatas.

Ary Ramos da Silva Júnior, bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

O problema da esquerda é a Segurança? por Antonio Martins

0

Tema voltou ao centro do debate político. Agora, muitos pensam que nele está a chave para a vitória – ou a derrota – de Lula em 2026. É um equívoco grave e há alternativas. Em especial, na disputa em torno das eleições para o Congresso

Antonio Martins – OUTRAS PALAVRAS – 19/11/2025

A disputa eleitoral de 2026 promete eletrizar o país. O ano nem começou e o debate sobre as táticas políticas e eleitorais já está aquecido. No movimento mais recente, figuras destacadas entre a esquerda passaram a argumentar em favor da centralidade de um programa de Segurança Pública para Lula. Em vídeo, o ex-ministro José Dirceu alertou tanto para a urgência de ações contra o crime organizado quanto para a necessidade de elas respeitarem o Estado de direito, diferenciando-se das posições puramente repressoras do bolsonarismo.

Renato Rovai, diretor da revista Fórum, foi além. Para ele, Lula deve criar uma secretaria de Segurança Pública diretamente vinculada à Presidência (portanto, autônoma em relação ao Ministério da Justiça) e colocá-la sob o comando de Ricardo Cappelli, ex-interventor da área no Distrito Federal (após a tentativa de golpe de 2023). Por sua vez, Cappelli, embora à frente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, tem comparecido às redes sociais para falar… de Segurança. Numa série de textos e vídeos, ele sustenta que, ao tratar do tema, a esquerda precisa combinar inteligência e planejamento com uso efetivo da força; que é preciso superar as “visões românticas” e recuperar os territórios hoje controlados por facções criminosas e milícias; e, finalmente, que “este é o último flanco que pode ameaçar 2026”.

Há bases reais para esse frisson em torno da Segurança. Em toda a América Latina, do México ao Chile, a ultradireita identificou no tema um novo filão político e eleitoral — riquíssimo — a explorar. No Brasil, a tendência preencheu um vazio criado pelo declínio de Bolsonaro.

Escancarou-se no final de outubro, quando o governo do Rio de Janeiro planejou e praticou um massacre contra as comunidades do Alemão e da Penha. Apesar das mais de 120 mortes e dos múltiplos sinais de selvageria da polícia, a chacina teve apoio majoritário da população, oprimida pelo controle que grupos armados exercem sobre vastas áreas das metrópoles. Por fim, há de fato entre a esquerda imensas lacunas teóricas e práticas a respeito do tema, visto em geral com preconceito e desenvolvido solitariamente por um pequeno grupo de pesquisadores. Superar este déficit é necessário e urgente.

No entanto, esta ausência não será solucionada no curto espaço de tempo até as eleições. As tentativas de manipulação da ultradireita devem e podem ser neutralizadas. Mas transformar este movimento na estratégia principal da esquerda rumo às eleições seria cair numa cilada. Primeiro, porque significaria transferir o combate para o campo mais favorável ao adversário. Segundo, porque desviaria a atenção das enormes tarefas que ainda estão pendentes para que a candidatura Lula torne-se vencedora e — mais que isso — proponha um horizonte e um caminho para a reconstrução do país em novas bases.

Desviar para a Segurança o centro da atividade e da reflexão política colocaria em grave risco a recuperação vivida pelo governo Lula nos últimos seis meses. A partir de junho, o Palácio do Planalto rompeu com a passividade diante das forças conservadoras, que havia adotado nos primeiros dois anos e meio de mandato. Emparedado no Congresso, retomou a bandeira da justiça tributária. Associou as resistências dos parlamentares à defesa dos privilégios das elites. Pouco mais tarde, pressionado pelo tarifaço de Donald Trump, respondeu altivamente, diferenciando-se das posturas submissas adotadas pelos governantes de blocos e países mais poderosos, como União Europeia e Japão.

Os resultados foram rápidos e notáveis. A curva de popularidade do governo, que era negativa e piorava, inverteu-se. Lula 3 recuperou apoio dos setores que serão decisivos para dar-lhe impulso em 2026: as mulheres, os nordestinos, os mais pobres. Como consequência, a própria correlação de forças no Congresso inverteu-se, com o governo conquistando vitórias decisivas. Uma primeira mudança real no Imposto de Renda, que se arrastava há muitos anos na poeira dos escaninhos parlamentares e terá resultados sensíveis na renda da grande maioria das famílias, foi aprovada por unanimidade. Ao final de outubro, o cenário político e eleitoral para 2026 parecia invertido.

Todas as pesquisas de opinião sinalizavam vitória relativamente folgada de Lula diante de qualquer um de seus adversários.

Ocorre que o giro do governo limitou-se essencialmente, até o momento, ao plano da retórica — e aí está seu calcanhar-de-aquiles. Para que o novo ânimo social se consolide, o discurso que remete às injustiças históricas precisa materializar-se em mudanças sensíveis nas condições de vida e, mais adiante, na imagem de outro país possível. Isso não ocorreu. O desemprego é o mais baixo em muitos anos, mas as ocupações disponíveis são precárias, mal remuneradas e sem direitos.

As calçadas estão coalhadas de sem-teto. A fila de espera por uma aposentadoria é maior do que foi no governo Bolsonaro. A reforma agrária está estancada. Não há sinais de reverter a regressão produtiva que, há 40 anos, reprimariza a economia e mantém o país cada vez mais distante das grandes transformações tecnológicas do século. Falta dinheiro para tudo: o novo discurso não demoveu nem Fernando Haddad, nem Lula, de seu compromisso com um “ajuste fiscal” e um “déficit zero” anacrônicos. No plano externo, o governo cogita oferecer, em troca de redução das tarifas de Trump, acesso dos EUA às terras raras brasileiras e parcerias com as big techs norte-americanas.

É nessa brecha entre a retórica combativa e as condições de vida estagnadas no presente e no futuro que a direita pôde penetrar, com a pauta da Segurança. Seu discurso tem duas dimensões. Primeiro, apoderar-se do desejo de mudanças, apequenando-o (“Se a vida não muda, que pelo menos seja possível circular sem risco de vida e — principalmente — que a morte dos ‘malfeitores’ alivie a nossa dor”). Segundo, mudar a pauta. O imaginário coletivo precisa estar voltado para o medo, não para a luta contra as injustiças.

Vistas as coisas em sua real dimensão, fica clara a arapuca de aceitar o combate nos termos propostos pela ultradireita. A resposta principal ao discurso do medo não pode ser tentar dirigi-lo, mas abrir as cortinas de outro país possível. O esforço pode começar pelas pautas que o próprio governo já diz ter encampado — mas hesita em concretizar. O fim da escala 6×1 e o passe livre nacional não podem se reduzir a jogadas de marketing pré-eleições. Precisam converter-se em metas de mobilização concreta. Movimentos da sociedade civil (onde se originaram) e governo (que parece disposto a abraçá-los) deveriam atuar juntos para promover manifestações, espalhar comitês pelo país, incluir as propostas na agenda do Congresso. Tensionar a agenda política em nome dos direitos sociais. Expor a diferença entre projetos.

Fatos recentes, como a eleição de Zohran Mamdani à prefeitura de Nova York — com um programa avançado e milhares de ativistas nas ruas — mostram haver espaço para sacudir conjunturas adversas. É possível romper o marasmo de mobilizações, mesmo quando se apresentam propostas de mudança que contrariam a lógica neoliberal. Elas passam a ser vistas como viáveis pelo próprio senso comum, quando há algum esforço de politização — e não se teme contrariar interesses poderosos. Temas como o endividamento sufocante da população, os aluguéis submetidos à especulação imobiliária ou as contas de consumo escorchantes dos serviços públicos privatizados pedem para entrar na agenda de uma esquerda que não se conforme com os limites de uma vida submetida aos mercados.

Num horizonte um pouco mais distante, o das transformações estruturais, pode-se suscitar a proposta muito contemporânea de garantia, pelo Estado, de trabalho digno para quem o reivindique.

É um caminho tanto para reverter na prática as contrarreformas trabalhistas quanto para realizar as obras de infraestrutura necessárias para modernizar o país. Permite iniciar, por exemplo, a transformação urbanística das periferias, a construção de redes de transporte público que reduzam as horas perdidas nos deslocamentos nas metrópoles, a reconstrução da rede ferroviária brasileira ou a despoluição dos rios urbanos.

A garantia de Segurança Pública aparece, neste contexto, como mais um direito indispensável, numa lógica de reconstrução nacional. Não se trata de postergar o debate do tema, nem de reduzir sua importância. Suas especificidades têm, é claro, de ser tratadas desde já. Pensadores como Luís Eduardo Soares têm construído há muitos anos, com base em experiências concretas de gestão, caminhos para agir. São abordagens orgânicas. Nelas, a Segurança surge como parte de um programa de transformações que pode conquistar o apoio das maiorias. Vão muito além de propor, como receita mágica para 2026, Lula 3 + Pulso Firme.

A política brasileira reduziu-se tanto a marketing, nas últimas décadas, que a disputa de projetos parece às vezes nostálgica. O problema é agravado pela necessidade de derrotar a ultradireita. Ela se repetirá em 2026 e exigirá de novo a formação de uma frente ampla nas eleições majoritárias.

Esta contingência não precisa paralisar quem enxerga os limites do jogo eleitoral existente. As eleições parlamentares oferecem uma brecha possível. Delas participarão centenas de candidatas e candidatos comprometidos com a transformação mais profunda do país. No momento, estão atomizados. Submetidos à lógica institucional, restringem-se a disputar os votos de seu eleitorado.

O cenário mudará caso seja possível articular a tempo algo como uma Plataforma Popular. Se construída coletivamente, ela poderá apresentar à sociedade uma visão comum dos dramas do país e das transformações necessárias. Dará dimensão nacional a candidaturas que, de outra forma, poderiam passar despercebidas. Permitirá a elas participar da disputa contra a ultradireita sem se dissolver nas generalidades da Frente Amplíssima.

Uma das piores características da nova cena política criada pelo pensamento único e pelas redes sociais é o apagamento das ideias de “projeto”, “futuro” e “horizonte”. Agora, cada última emergência (e elas não param de se suceder umas às outras) aparece como o único incêndio a apagar, aquilo a que todas as demais pautas devem se submeter — não importa a relevância estratégica que tenha. É possível reverter esta sentença — mesmo em termos tão urgentes como a Segurança Pública.

Argentina, um dominium norte-americano? por José Luís Fiori

0

José Luís Fiori – A Terra é Redonda – 19/11/2025

A pergunta que persegue a Argentina não é se pagará sua dívida, mas até quando aceitará trocar sua soberania pelo eterno papel de vassalo financeiro

1.
Desta vez, a “operação de salvatagem”[1] da Argentina foi feita ao estilo de Donald Trump, como se fosse um grande espetáculo midiático, envolvendo diretamente o presidente americano, seu secretário do Tesouro, Scott Bessent, e os representantes dos principais bancos credores da Argentina liderados por Jamie Dimon, CEO do JP Morgan Chase.

No mês de setembro de 2025, a Argentina encontrava-se em situação pré-falimentar, sem recursos para pagar o serviço da sua dívida com os bancos internacionais e com o FMI. O valor do peso estava em queda livre, e previa-se a derrota do presidente Javier Milei nas eleições parlamentares do dia 26 de outubro, seguida de uma corrida contra o peso e uma explosão inflacionária.

A comunidade financeira internacional já antecipava uma nova moratória da dívida externa argentina, criando pânico nos mercados financeiros internacionais, tanto em Wall Street como na City de Londres. Foi nesse contexto emergencial que Scott Bessent anunciou, no dia 15 de outubro, a intervenção direta do Tesouro Americano, comprando pesos numa operação de swap loan de US$ 20 bilhões,[2] para impedir o colapso da moeda “portenha” às vésperas das eleições parlamentares. E logo em seguida, no dia 22 de outubro, desembarcaram em Buenos Aires os representantes dos quatro maiores bancos americanos – J.P. Morgan Chase, Goldman Sachs, Bank of America e Citigroup –, incluindo o ex-primeiro-ministro inglês Tony Blair, que agora é uma figura de proa do J.P. Morgan Chase International.[3]

Em poucas horas foi montado um pacote de ajuda privada de US$ 20 bilhões, totalizando um resgate de US$ 40 bilhões, desta vez sem a participação do FMI. Esse tipo de intervenção externa na economia argentina não é um fenômeno novo nem excepcional. Basta dizer que, desde os anos 1950 a Argentina já recorreu mais de 20 vezes à ajuda emergencial do FMI. E, hoje, a Argentina é o país que tem a maior dívida do mundo com o Fundo, à frente da Ucrânia, que aparece em segundo lugar, depois de três anos de guerra.

Somando tudo, a Argentina recebeu nesses oitenta anos cerca de 35% do montante total de US$ 164 bilhões emprestados pelo FMI para todos seus clientes ao redor do mundo.[4] Entre 1976 e 1981, durante a última ditadura militar argentina, o ministro da economia Martinez de Hoz utilizou pela primeira vez a estratégia de fortalecimento artificial do peso frente ao dólar, como forma de legitimar o regime militar, dando aos argentinos um poder de compra internacional inflado.

A política econômica do ministro Martinez de Hoz facilitou a especulação financeira e enriqueceu um setor da sociedade argentina, permitindo-lhe acumular dólares a baixo custo, deixando, entretanto, uma dívida externa que se tornou impagável depois do “choque” das taxas de juros de Paul Volcker em 1979, provocando uma crise econômica e uma escalada inflacionária que contribuíram decisivamente para a queda do governo de Reynaldo Bignone e o fim da ditadura militar, em dezembro de 1983.

2.
Para enfrentar esta crise econômica, o então presidente do Banco Central da Argentina, Domingos Cavallo, transferiu a dívida privada para o Tesouro Nacional em 1982, enquanto sucessivas desvalorizações do peso fizeram com que a inflação doméstica e o dólar disparassem. Assim mesmo, o Estado só conseguiu cobrir parcialmente os juros da dívida alimentando ainda mais a inflação e o endividamento recorrendo a novos financiamentos externos.

Seguiu-se o governo do presidente radical, Raul Alfonsin, e o fracasso do seu Plano Austral de combate à inflação, culminando com sua própria renúncia seis meses antes do fim do seu mandato, em 8 de julho de 1989. No início da década seguinte, o mesmo Domingo Cavallo, agora na condição de ministro da Economia do governo peronista de Carlos Menem, voltou à estratégia de fortalecimento artificial do peso, através da sua Lei da Convertibilidade, aprovada em 1991, que estabeleceu um câmbio fixo entre o peso e o dólar, e representou na prática a “dolarização” da economia argentina.

Seu objetivo era conter a inflação, mas acabou causando, sete anos depois, uma nova explosão hiperinflacionária que levou ao colapso da economia argentina e a uma crise política sem precedentes. O novo presidente radical, Fernando de la Rua, eleito em 1999, renunciou em 2001, e em apenas duas semanas a Argentina teve cinco presidentes, seu sistema monetário se desintegrou e a sociedade argentina esteve à beira do caos.

Para culminar, o presidente interino, Adolfo Rodrigues Sá, decretou – no dia 23 de dezembro de 2001 – a moratória da dívida argentina, dando um calote na “comunidade financeira internacional” de US$ 93 bilhões. Depois disto, durante o período dos governos peronistas de Nestor e Cristina Kirchner, entre 2003 e 2015, a Argentina conseguiu honrar o serviço da sua dívida externa, graças aos preços extraordinários das commodities argentinas no mercado internacional.

Mas em 2018, o presidente conservador Mauricio Macri voltou ao FMI, e obteve um empréstimo de US$ 45 bilhões, o maior que já havia sido concedido em toda a história da instituição. Entre seus objetivos não declarados, estava a reeleição do próprio presidente Mauricio Macri em 2019, mas ele foi derrotado já no primeiro turno, e seu sucessor, o peronista Alberto Fernández, passou a maior parte do seu governo renegociando uma forma mais elástica de pagamento do serviço da dívida com o FMI.

3.
O insucesso econômico de Alberto Fernández contribuiu diretamente para a vitória de Javier Milei nas eleições presidenciais de 2023, com sua proposta ultraliberal de “eliminação do Estado” e “dolarização da economia”, voltando uma vez mais à tese ortodoxa e neoliberal de que a inflação é uma consequência dos abusos da “elite política” e de sua gastança fiscal.

Um ano e quatro meses depois da sua posse, em abril de 2024, Javier Milei bateu às portas do FMI, onde foi recebido com entusiasmo pela sua presidenta, Kristalina Georgieva, e recebeu mais um empréstimo de US$ 20 bilhões, sem que a Argentina tivesse conseguido pagar um centavo de sua dívida de US$ 45 bilhões contraída por Mauricio Macri em 2018. E agora, seis meses apenas depois dessa ida ao FMI, Javier Milei já teve que ser socorrido uma vez mais pela nova operação de salvatagem da Argentina, no valor de US$ 40 bilhões, organizada por Donald Trump, Scott Bessent e Jamie Dimon.

Numa matéria de destaque no jornal The New York Times sobre a Argentina, dia 23 de outubro, o articulista se pergunta com um certo ceticismo sobre o que passará se, no ano de 2026, o governo argentino não tiver recursos – uma vez mais – para honrar seus novos compromissos? Nesse ponto, para responder com franqueza ao The New York Times, há que ter claro que a Argentina não pagará jamais a sua dívida externa. Não tem a menor condição de fazê-lo, mas este não é e nunca será um grande problema.

O FMI e os bancos privados rolarão mil vezes o passivo internacional da Argentina, desde que seu governo siga a cartilha ortodoxa do FMI. Afinal, nem os bancos privados nem o FMI vivem das dívidas pagas; eles vivem das novas dívidas contraídas e do pagamento regular de seus juros e demais serviços.

O sonho da oligarquia econômica e da elite política conservadora argentina sempre foi estabelecer uma “relação carnal”[5] com os Estados Unidos, transformando a Argentina em um dominium norte-americano, como foi o caso de Canadá, Austrália e Nova Zelândia com relação à Inglaterra – mesmo que a cada nova crise e “ajuste” ou “arrocho interno”, a sociedade argentina fique mais pobre e subdesenvolvida, coisa que a Argentina nunca foi no passado.

De qualquer maneira, a grande questão que o The New York Times não se coloca é saber se os Estados Unidos – depois de Donald Trump – quererão assumir o custo de um dominium na América do Sul, ou preferirão apenas manter a Argentina na condição de um vassalo de segunda linha (como outros pequenos países, tipo Equador, El Salvador, Guatemala etc.) “rolando sua dívida” de tempos em tempos, desde que os argentinos se comportem bem, sejam obedientes e rezem pelo catecismo do FMI. Neste novo modelo de vassalagem, o país paga sua dívida com seus recursos mas segue endividado em dólares.

José Luís Fiori é professor emérito da UFRJ. Autor, entre outros livros, de Uma teoria do poder global (Vozes).

Notas
[1] Expressão utilizada por Guido di Tella ao referir-se ao objetivo central de sala política externa, na condição de Chanceler do governo peronista de Carlos Menem, entre 1991 e 1999.

[2] Nome técnico dado a um conjunto de providências a serem tomadas para um resgate e/ou manutenção da vida após um grande desastre.

[3] Financial Times. Investors bet Argentina will devalue peso despite $40 bn USS rescue effort. 23 October 2025.

[4] The New York Times International Edition. Staking taxpayer Money on Argentina.

América Latina na berlinda

0

As transformações econômicas e geopolíticas em curso na sociedade internacional estão alterando todas as estruturas sociais e políticas, gerando novos movimentos protecionistas, aumentando a concorrência entre os atores econômicos, incrementando os conflitos militares e ameaças de guerras constantes, levando nações desenvolvidas a aumentarem as pressões econômicas e políticas, com ameaças de uso de forças e movimentos geopolíticos que podem gerar novos constrangimentos no cenário global.

Neste momento, percebemos que a América Latina vem ganhando espaço nas discussões geopolíticas internacionais, onde os grandes atores políticos globais estão aumentando as pressões econômicas, buscando uma aproximação geopolítica como forma de dominar as variadas riquezas minerais da região, com isso, objetivando garantir acesso aos recursos naturais que caracterizam a América Latina, cuja história mostra, claramente, uma região que se caracterizou pela extração de recursos que sempre serviram de espaço de acumulação para os países ricos, riquezas estas que contribuíram imensamente para financiar os setores industriais europeus e deixando, para os povos nativos, rastros de exploração, degradação e corrupção.

Desde a colonização latino-americana, os países da região foram fortemente dominados pelas potências hegemônicas, interessadas em suas variadas riquezas naturais, inicialmente seus colonizadores originais, Portugal e Espanha, depois a Inglaterra, pioneira da Revolução Industrial, cujas riquezas extraídas da região impulsionaram o desenvolvimento do setor Industrial, fazendo com que os ingleses dominassem a sociedade global até o começo do século XX.

Posteriormente, depois da segunda guerra mundial, os Estados Unidos da América assumiram a hegemonia global e passaram a fortalecer seu poder na América Latina, cuja dominação começou com a chamada Doutrina Monroe, onde os norte-americanos passaram a dominar as mentes e os corações das elites locais, expandindo seu poderio econômico, trazendo empresas multinacionais, gerando empregos, difundindo os filmes de Hollywood e a visão de mundo estadunidense, exportando o modelo fordista e taylorista e garantindo ganhos substanciais para suas corporações.

No começo do século XXI, depois dos atentados terroristas, os norte-americanos se afastaram da América Latina e fincaram os pés nos países do Oriente Médio, levando guerras, violências e destruições constantes. Neste momento, os espaços passaram a ser ocupados por outras nações, aumentando o comércio e a integração entre a China e os países da região, levando os chineses a se tornarem o maior parceiro comercial da América Latina, comprando empresas, aumentando os investimentos externos e gerando novos focos de ciúme e preocupação geopolíticas, levando o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, a dizer: “Vamos recuperar nosso quintal.

Neste ambiente, conseguimos compreender a relevância da América latina no mundo contemporâneo, as nações desenvolvidas buscam na região novos espaços de acumulação, explorar as riquezas naturais e enriquecer uma pequena parte da população e deixando rastros de desigualdade e devastação. Essa situação de pilhagem constante sempre existiu na região, a exploração externa faz parte da trajetória dos países da América Latina e, ao mesmo tempo, precisamos destacar o papel das elites econômicas internas destes países, que sempre se associaram com os exploradores externos, se transformando em sócios secundários desta exploração, restringindo os espaços de desenvolvimento nacional, cultuando valores dos exploradores, defendendo hipocritamente interesses externos, levantando bandeiras externas e acreditando verdadeiramente serem nacionalistas e democratas.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor Universitário.

Financeirização e redistribuição da riqueza Marcio Pochmann

0

Marcio Pochmann – A Terra é Redonda – 17/11/2025

A financeirização, ao esvaziar a estrutura produtiva, não gera apenas desigualdade, mas um terreno fértil para o retorno trágico do fanatismo religioso e do banditismo social como respostas patológicas a uma massa sobrante sem destino

1.
Pela segunda vez na história republicana, o processo de financeirização contamina a economia e a sociedade brasileira. Decorrente da adesão do país ao Consenso de Washington a partir de 1990, a economia dominada pelas finanças se instalou e ganhou forma, passando a reconfigurar profundamente a infraestrutura econômica, a estrutura social e a superestrutura nacional.

Do ponto de vista da composição da produção, os impactos nos estados da federação têm sido diversos. Nas economias regionais que se encontravam mais vinculadas à industrialização, especialmente nas regiões litorâneas, os prejuízos têm sido os mais perceptíveis.

No estado de São Paulo, por exemplo, o mais industrializado do país, a sua participação relativa no Produto Interno Bruto (PIB) tem sido de queda desde a década de 1980. No ano de 2023, por exemplo, o peso relativo do estado de São Paulo foi quase 22% inferior ao alcançado no auge da industrialização ocorrido na década de 1970.

Em contrapartida, os estados mais identificados com o modelo primário-exportador que aparecem com mais força no interior do país registram significativa elevação na participação do PIB nacional. O conjunto dos estados pertencentes à Região Norte e ao Centro-Oeste tiveram aumentado o seu peso relativo no PIB nacional em 2,9 vezes e 2,7 vezes, respectivamente, entre as décadas de 1970 e 2020.

O movimento republicano que colocou fim ao regime monárquico (1822-1889) não conseguiu se desvencilhar do processo de financeirização herdado originalmente da Guerra do Paraguai (1865-1870). O rentismo na República Velha se caracterizou pela dominância de uma parcela da elite econômica, majoritariamente agrária, que utilizou o seu poder político para manipular o aparato estatal e as políticas econômicas a fim de assegurar rendas e lucros com base em privilégios e intervenções de mercado, e não na produtividade ou no desenvolvimento de novas atividades produtivas.

Em grande medida atendeu inicialmente à decadência dos cafeicultores fluminenses que direcionavam suas fortunas para as atividades financeiras, sustentando o endividamento estatal, sobretudo dependente de recursos externos. Em função disso, o centro econômico e financeiro daquela época representado pelo Rio de Janeiro perdeu posição relativa no PIB nacional. Entre as décadas de 1890 e 1930, por exemplo, o Rio de Janeiro diminuiu em cerca de 25% no valor da produção nacional.

Em mais de três décadas de hegemonia neoliberal rentista, o Brasil assiste ao fortalecimento de uma frente ampla de forças política que parece operar de forma interligada na corrosão democrática da Nova República. Algo equivalente também aconteceu durante o domínio liberal rentista na República Velha diante do capitalismo nascente.

2.
De certa forma, o rentismo, o fanatismo religioso e o banditismo social, identificados como fenômenos próprios da doutrina tanto liberal no passado com a neoliberal no presente, sustentam-se na minimização da atuação do Estado. Com a desregulação pública, os mercados passam a conviver com a pressão que decorre de atividades que até então estavam impossibilitadas de funcionar, com a presença de formas ilegais, inclusive provenientes do crime organizado e outras iniciativas.

Em geral, o rentismo na financeirização permite a obtenção de renda a partir da mera propriedade de ativos como imóveis, ações ou títulos financeiros que pagam juros, sem que exista a necessidade de trabalho ou da produção de valor adicional. No período de alta do custo de vida como nas décadas de 1980 e início de 1990, o controle inflacionário pelo Plano Real, impôs juros elevadíssimos para atrair capital e valorizar os ativos financeiros, sendo acompanhado até os dias de hoje pela enorme valorização cambial.

A combinação de juros elevados com o real valorizado contribui para o desmoronamento da estrutura produtiva complexa, integrada e diversificada até então existente. Com isso, a maior dependência de importações de mercadorias de maior valor agregado tornou mais central, tendo a desindustrialização fortalecido a convivência com a financeirização.

Sem perspectivas de um futuro melhor, massas sociais sobrantes buscam se adaptar às alternativas possibilitadas pelo enfraquecimento estatal. Emergem, a partir de então, os fenômenos do fanatismo religioso e banditismo social. Na República Velha, o fanatismo religioso, ou mais precisamente o messianismo, foi uma resposta popular à miséria e ao descaso do Estado nas regiões rurais, assim como o banditismo social se tornou outra manifestação da exclusão e da luta pela sobrevivência em um ambiente de profunda desigualdade.

Neste primeiro quarto do século XXI, o fanatismo religioso e o banditismo social retornaram patrocinados pela ruína da sociedade urbana e industrial imposta pelo receituário neoliberal.

Esse terreno fértil para uma espécie de “coronelismo religioso”, especialmente nos grandes centros urbanos aponta em quem votar com base em crenças, corrompendo o processo político democrático assentado na intolerância, no discurso de ódio e na perseguição de minorias.

Também no caso do banditismo social, a criminalidade encontra no contexto social da reprodução da pobreza, desigualdade e inoperância do Estado a fertilidade para a sua expansão. O crime organizado, por exemplo, pode até ser visto por parte da população como heróis ou justiceiros, atuando à margem da lei quando parte do Estado é associado à ausência, corrupção ou a opressão que se generaliza diante da falta de perspectivas para ascensão das massas sociais excluídas.

Esses fenômenos, em vez de serem meros subprodutos, retroalimentam-se e desafiam a consolidação da democracia na Nova República. Nos anos de 1930, a implantação do projeto nacional desenvolvimentista projetou a construção de uma nova sociedade urbana e industrial frente ao pauperismo econômico e à imobilidade social da antiga Era Agrária.

Para o segundo quarto do século XXI, o avanço da Era Digital está a demandar um novo projeto nacional de desenvolvimento. Do contrário, a presença de uma massa social sobrante e sem destino tende a potencializar ainda mais assentadas na frente política dos interesses do rentismo, fanatismo religioso e banditismo social.

Marcio Pochmann, professor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Autor, entre outros livros, de Novos horizontes do Brasil na quarta transformação estrutural (Editora da Unicamp).

Derrite contra a Polícia Federal, por Elio Gaspari

0

Elio Gaspari, Jornalista, autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles “A Ditadura Encurralada”.

Folha de São Paulo, 16/11/2025.

Se Guilherme Derrite fosse um transeunte laçado na praça dos Três Poderes para redigir um projeto de combate ao crime organizado, teria sido compreensível a barafunda que ele produziu com as várias versões de seu relatório para o projeto de lei contra as facções criminosas.

Infelizmente, Derrite é um veterano policial e secretário de Segurança do governador Tarcísio de Freitas, possível candidato a presidente da República. Mais: Derrite é um deputado federal e provável candidato ao Senado em nome do que seria um desejo do eleitorado por mais segurança. Foi laçado pelo presidente da Câmara, deputado Hugo Motta, para relatar o projeto de lei contra as facções criminosas.

Com quatro versões, Derrite produziu um monstrengo, revelador dos interesses estabelecidos na máquina da segurança do país.

Tome-se como exemplo a limitação que Derrite quis impor à Polícia Federal. Seu primeiro relatório estabelecia que a PF só poderia investigar depois de ter havido uma solicitação do governador do estado. Gracinha. Existem crimes federais, como o tráfico de armas e de drogas, mas a PF dependeria de uma licença dos governadores.

Se esse sistema existisse nos Estados Unidos do século passado, teriam continuado as execuções de ativistas que lutavam contra a bandidagem racista de estados do Sul. Quem viu o filme “Mississippi Burning” sabe do que se trata. A bandidagem racista operava com o apoio de governadores, juízes e policiais. Foi a Polícia Federal quem desarmou as tramas.

Lá, a Federal chama-se Federal Bureau of Investigation, o FBI. Foi dirigido de 1924 a 1972, quando morreu, por J. (de John) Edgar Hoover. Sujeito detestável, grampeava inimigos, chantageava políticos e presidentes. Solteirão misógino, foi um mau exemplo, mas criou uma instituição robusta e honesta (à sua maneira). Hoover foi um mau exemplo, mas criou e protegeu uma instituição exemplar.

Com esse nome, a Polícia Federal brasileira surgiu em 1967. Desde então, ela se tornou, de longe, a mais respeitada instituição policial do país. Derrite queria que ela pedisse licença aos governos estaduais para desempenhar suas funções. O deputado-secretário é capitão da reserva da PM paulista, onde fez fama na tropa de elite da Rota.

O Primeiro Comando da Capital operava sua rede de postos gasolina, empresas e fintechs de São Paulo há décadas. Graças à Operação Carbono Oculto, do Ministério Público e da Polícia Federal, parte dessa máquina foi desmontada, isso sem um só tiro. A Operação Escudo da polícia de Tarcísio e Derrite matou 28 pessoas num só mês de 2023. Quase todos pretos pobres e moradores da periferia.
Com sua proposta de emasculação da Polícia Federal, Derrite mostrou que, enquanto o crime está organizado, o Governo de São Paulo tornou-se, na melhor das hipóteses, uma bagunça.

Jornalismo enviesado, por Hélio Schwartsman

0

Hélio Schwartsman, Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de “Pensando Bem…”

Folha de São Paulo, 15/11/2025.

A BBC fez mau jornalismo ao editar de forma enviesada duas falas diferentes de Donald Trump, dando a falsa impressão de que ele fez um apelo direto por ações violentas no dia da invasão do Capitólio, em 2021. A história já custou os cargos a dois figurões da emissora e poderá deixar uma conta salgada para o contribuinte britânico. O Agente Laranja ameaça processar a BBC cobrando uma indenização de US$ 1 bilhão.

O jornalismo, por tentar rascunhar a história em tempo real, é uma atividade mais afeita a erros do que ocupações que lidam com tarefas repetitivas e mais facilmente “protocolizáveis”, como cirurgias ou transporte aéreo. O problema não é tanto errar, mas errar sempre em direção ao mesmo lado nas questões politicamente carregadas.

O relatório interno que apontou o erro no caso de Trump também identificou vieses nas coberturas da BBC sobre Gaza e pessoas trans. O que fazer? Parte do problema é que diferentes profissões atraem diferentes públicos. É comum ver uma maior concentração de esquerdistas em atividades como jornalismo e na academia e de direitistas em carreira militar ou no mercado financeiro.
É um processo de autosseleção a partir de traços de personalidade e gostos. Não vejo muito o que possa ser feito para contrapor-se a isso. Para piorar, vivemos uma época moralista, que recompensa socialmente o engajamento e a militância.

O caminho que me parece factível é criar uma cultura que distinga claramente a esfera pessoal, na qual a militância é legítima, da profissional, que precisa pautar-se por rigor técnico e afastamento de posições preconcebidas.

A preocupação de repórteres e editores quando preparam textos para publicação deve ser a de informar seus leitores e não transformar o mundo. Precisam também desenvolver uma espécie de paranoia profissional, perguntando-se o tempo todo se não se deixaram levar por suas preferências e acabaram cruzando alguma linha vermelha.

O jornalismo profissional, para cumprir sua missão, precisa ser diferente das redes sociais.

Segurança não é só repressão, por Oscar Vilhena Vieira

0

Oscar Vilhena Vieira, Professor da FGV Direito SP, mestre em direito pela Universidade Columbia (EUA) e doutor em ciência política pela USP. Autor de “Constituição e sua Reserva de Justiça” (Martins Fontes, 2023)

Folha de São Paulo, 15/11/2025

A Câmara dos Deputados ofereceu nesta semana mais um espetáculo de irresponsabilidade política e desprezo pelo destino de milhões de brasileiros submetidos cotidianamente à tirania do crime organizado.

O despreparo do deputado indicado para a tarefa de relatar a proposta do chamado Marco Legal do Combate ao Crime Organizado ficou patente pelas sucessivas e contraditórias versões dos relatórios apresentadas ao longo da semana. Até restringir a competência da Polícia Federal para investigar o crime organizado aventou-se, sabe-se lá com que objetivo.

Um dos paradoxos das políticas de segurança, como destacado por Theo Dias e Carolina Ricardo em recente artigo nesta Folha, é que a ineficácia de políticas estritamente repressivas apenas aumenta a demanda por mais repressão, criando um enorme mercado para o populismo penal.

A experiência do Rio de Janeiro é uma expressão desse ciclo vicioso, que precisa ser rapidamente interrompido. A repressão, quando praticada à margem da lei, apenas agrava o problema. Quando devidamente conduzida, em conformidade com os princípios do Estado de Direito e associada a outras políticas públicas, é parte essencial do enfrentamento de organizações criminosas.

Nas últimas décadas, diversas experiências na Itália e na Colômbia, bem como nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Pernambuco e Minas Gerais e em cidades como Nova York, nos oferecem um importante repertório de políticas exitosas de combate ao crime organizado e controle da criminalidade violenta.

Em vez de respostas legislativas meramente simbólicas ou espetáculos sangrentos e ineficazes, precisamos capacitar e fortalecer as instituições de aplicação das leis, coordenar melhor suas ações e integrar as políticas de segurança às demais políticas públicas que dificultem ao crime se espraiar pelo tecido social e se alojar no poder político e no sistema econômico.

Três são os pilares dessas políticas exitosas que deveriam estar ocupando os esforços daqueles efetivamente preocupados em enfrentar o crime e não apenas em se beneficiar eleitoralmente do medo por ele criado.

Recuperação dos territórios dominados pelo crime organizado, que devem ser imediatamente ocupados pelo Estado. Os criminosos precisam ser presos. Como as experiências de Bogotá e Medellín indicam, a reurbanização e revitalização das áreas dominadas pelo crime são indispensáveis para devolver dignidade e expectativa de desenvolvimento para as comunidades. O Estado precisa se fazer presente para prover ordem, justiça e bem-estar.

Profissionalização e qualificação do sistema de Justiça e das diversas agências de aplicação da lei, com ênfase para mecanismos de inteligência. Não apenas inteligência policial, mas também financeira. É o que foi feito na Itália por meio da criação de uma Agência Nacional Anticrime. É necessário seguir o dinheiro no espaço digital. O Brasil precisa rever sua obtusa regra de sigilo bancário, que apenas favorece a infiltração do crime no sistema financeiro e em outros setores da economia formal. Combater a corrupção é uma pré-condição para combater o crime organizado.

Por fim, é necessário integrar e coordenar todas essas atividades. Esse é um trabalho politicamente desafiador e administrativamente complexo, especialmente num país com estrutura federativa e imerso em forte polarização política. Talvez Geraldo Alckmin seja a pessoa talhada para a tarefa. Político com perfil mais conservador, num governo progressista, protagonizou, ao lado de Mário Covas, a mais bem-sucedida redução de homicídios na história no Brasil.

Da China, com inveja, por Paulo Nogueira Batista Júnior

0

Paulo Nogueira Batista Júnior – A Terra é Redonda – 14//11/2025.

O despertar chinês ensina que a verdadeira soberania nasce de um projeto próprio: rejeitar receitas alheias para construir, com pragmatismo e orgulho civilizatório, um palco onde o Estado conduz e os agentes atuam

Uma frase atribuída a Napoleão Bonaparte correu o mundo: “Quando a China despertar, o mundo estremecerá”. Bem, a China está totalmente acordada e os demais países, especialmente o Ocidente, e dentro do Ocidente especialmente os Estados Unidos, não sabem como lidar com o desafio que ela representa. No Ocidente, a China e, em menor medida, a Rússia são vistas com grande preocupação, como rivais poderosos, pelo eixo Atlântico Norte.

Há dois tipos de inveja, leitor ou leitora. A maligna, que é a dos EUA e da Europa, leva-os a tentar barrar o progresso da China o tempo todo. A benigna admira esse progresso e quer, dentro do possível, e mutatis mutandi, aprender com os chineses e incorporar elementos do processo que eles vêm seguindo. Estou aproveitando uma viagem pela China, de onde escrevo, para conhecer um pouco mais este grande país.

Otto von Bismarck dizia: “Não aprendo com a experiência – apenas com a dos outros”. Os chineses são fiéis seguidores dessa máxima, ainda que talvez não tenham ouvido falar dela. Os chineses aprenderam, por exemplo, com a experiência latino-americana, infelizmente de forma negativa. Ou seja, observando nossos erros estratégicos, viram o que não fazer.

Se pudesse resumir a questão em uma frase, diria: a China, ao contrário da América Latina, ignorou solenemente as recomendações do assim-chamado Consenso de Washington. Pensou por conta própria e construiu com grande sucesso as suas próprias soluções, adaptadas às circunstâncias nacionais. Copiou quando conveniente, inovou sempre que necessário.

Antes de prosseguir no comentário sobre o bem-sucedido modelo chinês, duas rápidas ressalvas. Primeira: não tenho a pretensão de conhecer em profundidade um país tão complexo e tão diferente do nosso, em uma viagem de algumas semanas. É verdade que vivi por mais de dois anos em Xangai, quando fui vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (mais conhecido como Banco dos BRICS), hoje comandado pela ex-presidente Dilma Roussef.

Mas já se vão oito anos desde que deixei o banco e a China mudou muito desde então. Além disso, na época em que morei aqui, estava tão envolvido na criação do novo banco multilateral, um projeto ambicioso dos BRICS, que tive menos tempo do que queria para me familiarizar com as singularidades de um país que, como escreveu Henry Kissinger, não é uma nação, mas uma civilização em si mesma.
Segunda ressalva: a admiração pela performance da China não deve nos impedir de ver as dificuldades que o país enfrenta. Destaco rapidamente alguns dos principais desafios macroeconômicos e políticos, sem pretender, claro, exaurir a questão.

Um deles é a desaceleração do crescimento da economia, decorrente de certa perda de dinamismo das exportações e do investimento. O protecionismo contra a China cresceu, estreitando ou mesmo fechando mercados importantes, nos Estados Unidos e na Europa principalmente, e ameaçando estreitar outros. Em alguns setores da economia chinesa, houve investimentos em excesso, resultando em capacidade ociosa, que a China não consegue mais direcionar para mercados estrangeiros com a facilidade de antes.

Essa desaceleração da economia cobra o seu preço em termos de mercado de trabalho. A alta taxa de desemprego entre os jovens, por exemplo, constitui um problema social e político de primeira ordem. Além disso, o consumo agregado ainda é muito baixo, o que reflete várias dificuldades que a população vivencia e que, se não forem enfrentados, podem corroer o apoio ao governo. Entre as razões que limitam o consumo privado estão as insuficiências do sistema de aposentadoria e dos serviços de saúde.

O governo chinês está plenamente consciente do problema e procura melhorar os sistemas nacionais de previdência e saúde. Com o envelhecimento da população, entretanto, o problema se torna mais grave, pois aumenta a demanda por aposentadorias, pensões, serviços médicos e remédios.
Por isso, as pessoas continuam poupando muito para tentar garantir o padrão de vida na idade avançada. Assim, não é fácil alcançar o objetivo do governo, já antigo, de aumentar o mercado de consumo e tornar a economia chinesa menos dependente do dinamismo das exportações.
O sucesso extraordinário da China nos últimos 40 anos

Essas ressalvas parecem verdadeiras, mas não obscurecem o fato básico – a China despertou no final do século XX e não voltará mais ao sono profundo de outras épocas históricas. O modelo econômico chinês tem sido extraordinariamente bem-sucedido e não é bem compreendido no resto do mundo.
Como caracterizá-lo de forma sintética? Talvez começando pelo que ele não é. Não se trata de uma economia de mercado pura e simples, ou seja, não é um sistema capitalista clássico ou tradicional.

Não cabe nem mesmo designá-lo como “capitalismo de Estado”, como se faz com frequência nos meios ocidentais, tanto acadêmicos como jornalísticos. O Estado tem presença tão avassaladora na economia e na sociedade que essa expressão se revela enganosa. Note-se que, ao adotá-la, credita-se indevidamente ao capitalismo, ainda que “de Estado”, mérito que ele não teve e não tem pelo sucesso da China.

Também está claro que o modelo chinês iniciado por Deng Xiao Ping em 1979 é bem diferente dos modelos soviéticos e chineses do tempo da economia centralmente planificada. O que se buscou na China foi reestruturar a economia, abrindo espaço para o mercado e o setor privado, sem repetir, porém, os erros cometidos por Mikhail Gorbachev, nos anos 1980, com a Perestroika (reestruturação econômica) e a Glasnost (liberalização política).

O que fez (e não fez) a China, com base em uma avaliação cuidadosa da trajetória da União Soviética na sua década final e da Rússia nos anos 1990? Duas coisas, basicamente. Primeira: a Perestroika chinesa foi muito mais cautelosa e gradual. Não houve, como na Rússia, tratamento de choque na economia, privatizações em massa e liberalização abrupta. A abertura econômica foi feita passo-a-passo, sem desmontar as estruturas estatais e mantendo o controle sobre os setores estratégicos da economia.

Segunda coisa: não houve Glasnost na China. O Partido Comunista Chinês permanece como partido único, todo-poderoso, com grande influência na sociedade e na economia. Existem bilionários e empresários privados poderosos, mas na China eles não se criam. Eles não têm papel político e não se lhes permite dominar as políticas públicas.

Um cenário totalmente diferente do que se vê, por exemplo, nos Estados Unidos, onde os donos do dinheiro são donos do poder, convertendo a chamada democracia em uma plutocracia (o governo dos endinheirados).

Outro dado importante: o combate à corrupção assume proporções ferozes na China e atinge quando necessário figuras proeminentes e poderosas. Diferentemente do que ocorre nos Estados Unidos e em muitos outros países, os bilionários chineses têm muita dificuldade de comprar políticos e funcionários. Não se estabelece, portanto, uma cleptocracia (o governo dos ladrões).

Também não se estabelece a kakistocracia (o governo dos piores), típica dos Estados Unidos e da Europa. No Ocidente, o sistema político obedece em geral a uma lógica de seleção adversa que premia os mais medíocres e os menos comprometidos com o interesse público. Quem tiver dúvida sobre isso, que passe em revista os líderes políticos atuais e recentes nos Estados Unidos e na Europa. Ou que considere, outro exemplo, a classe política brasileira.

Na China, impera um sistema fechado em que as lideranças são selecionadas com base no mérito. Uma meritocracia, portanto. Imperfeita, como se pode imaginar, mas suficiente para afastar o risco de que se forme uma kakistocracia.

Os chineses são seres humanos, claro, e enfrentam também a necessidade de lutar contra a dominação dos super-ricos, a corrupção e a mediocridade. Mas eles têm sido mais bem-sucedidos do que o resto do mundo em enfrentar esses desafios “humanos, humanos demais”, como diria Friedrich Nietzsche.
O modelo chinês

O que é então o modelo chinês? Vamos dar voz aos próprios chineses. Eles caracterizam o seu modelo como “socialismo com características chinesas”. Usam sintomaticamente o termo “socialismo” no lugar do “comunismo” soviético ou maoísta.

E porque dizem “com características chinesas”? É que aqui as forças de mercado têm grande peso, mas operam dentro um quadro estritamente controlado pelo Estado e pelas agências e instituições estatais. Uma máxima popular na China, citada pelo professor Wen Yi em debate do qual participei aqui em Xangai, reflete bem isso: “o Estado arma o palco e os agentes econômicos atuam”.

Dois exemplos, explicados em “apertada síntese”, como dizem os advogados. O sistema bancário da China é quase totalmente dominado por bancos estatais. Aqui não existem Bradescos, Itaús ou Santanders. Os chineses não conhecem e nem querem conhecer esse tipo de instituição. O setor bancário é estratégico do ponto de vista macroeconômico e sempre ficou sob domínio de bancos públicos. Por outro lado, um aspecto importante é que, dentro das regras estabelecidas pelo governo e pelo banco central, esses bancos estatais competem entre si, o que favorece maior eficiência.

Outro exemplo crucial. A estabilidade da economia chinesa repousa sobre uma conta de capitais fechada, vale dizer pela aplicação rigorosa de controles sobre a entrada e saída de capitais. Houve certo afrouxamento dos controles no passado mais recente, mas a China continua relutante em expor a sua economia aos surtos de entrada e saída de capitais que tanto mal fazem na América Latina.

Esse foi um dos muitos pontos em que a China fez ouvidos de mercador às recomendações do Consenso de Washington. Aprenderam com nossa experiência infeliz, dentro do espírito de Bismarck. Se tivessem se pautado pelos conselhos ocidentais, não teriam chegado aonde chegaram.
A continuidade na civilização milenar da China

Para terminar, algumas observações sobre uma singularidade da China que é crucial, mas infelizmente inimitável. Raramente se leva na devida conta, que a história milenar da China é marcada por uma extraordinária continuidade. A maior parte das outras civilizações antigas dos vários continentes não tiveram a longa e ininterrupta duração, de quatro ou cinco milênios, que caracteriza a civilização chinesa.

Os egípcios têm uma relação remota, para não dizer fictícia, com o Egito dos faraós e suas pirâmides. Os gregos atuais pouco têm a ver com a Grécia antiga. Os italianos de hoje pouco têm a ver com o Império Romano. Os astecas e incas foram totalmente obliterados pela Espanha. A Rússia também tem uma civilização contínua, mas da ordem de 1000 anos.

A China é um caso muito especial. Sofreu, ao longo de milênios, diversas turbulências, invasões, guerras externas, guerras civis, mas conseguiu, apesar disso, preservar um fio cultural condutor. Isso se reflete em alguns aspectos da trajetória chinesa que são, a meu ver, centrais para entender o sucesso do país.

Um deles é o respeito, mais do que isso veneração pelos antepassados e pelas tradições históricas. Esse respeito à tradição não bloqueia, entretanto, a inovação e a criatividade das novas gerações. A busca do novo, ao contrário, é omnipresente, mas não implica descartar o passado.
Mesmo um revolucionário marxista radical, como Mao Zedong, citava com frequência os pensadores clássicos da China como Lao Tse e Sun Tzu. Considerava a obra principal deste último, A Arte da Guerra, quase como um segundo manifesto comunista. Por seu turno, quando o maoísmo foi superado por Deng Xiao Ping e seus sucessores até o atual líder, Xi Jinping, não houve rejeição total da figura de Mao. Ela aparece até hoje em todas as notas de dinheiro. Suas obras são lidas e circulam amplamente.

Compare-se com o Brasil. Nós não respeitamos e, muitas vezes, sequer conhecemos nosso passado. Essa ignorância alimenta a tendência a depreciar sistematicamente a nossa história. E esse é um entre muitos fatores a derrubar a nossa autoestima.

Oscar Wilde dizia: “Self-love is the beginning of a long life romance” (o amor próprio é o começo de um romance para toda a vida). Esse amor-próprio é central para o sucesso individual e nacional. Os chineses têm isso em abundância. Mas, veja bem, leitor ou leitora: amor-próprio, e não desprezo pelos outros; orgulho, não vaidade ou arrogância; respeito por si mesmo e sua família imediata, sim, mas sem cair no individualismo egoísta tão típico das sociedades ocidentais.

Por esses e outros motivos, precisamos estudar mais a China e aumentar nossas interações com os chineses. Vale o esforço de superar as barreiras linguísticas, culturais e geográficas. Sem cair na imitação servil, levando sempre em conta as nossas condições históricas e políticas, podemos aprender muito com eles.

Paulo Nogueira Batista Jr. é economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS. Autor, entre outros livros, de Estilhaços (Contracorrente).

Uma alternativa ao neoliberalismo, por Emir Sader

0

Emir Sader – A Terra é Redonda – 12/11/2025

O fracasso comprovado do modelo neoliberal na América Latina projeta a região como o epicentro da disputa hegemônica do século XXI, redefinindo os parâmetros políticos e ideológicos globais

1.
O modelo neoliberal fracassou na América Latina. O único país que o mantem, ainda assim promovendo uma crise social nunca vista no pais, com concentração de renda e exclusão social enormes, é a Argentina de Javier Milei.

Nos outros países a recessão que provocou favoreceu a eleição de governos anti-neoliberais em grande parte dos outros países do continente, entre eles o Brasil, o México, a Colômbia, a Venezuela, o Uruguai, Honduras.

No entanto, o neoliberalismo continua sendo predominante no mundo, marcando o período histórico atual. Mesmo em países com governos anti-neoliberais, a presença do capital financeiro, sob sua modalidade especulativa, continua predominante.

A América Latina á a única região do mundo com governos anti-neoliberais, tornando-se assim o epicentro das principais lutas no mundo contemporâneo. Não por acaso então é o continente que projetou os mais importantes lideres políticos do século XXI, entre eles Lula, Hugo Chavez, Rafael Correa, Nestor e Cristina Kirchner, Lopes Obrador e Claudia Sheinbaum, Evo Morales, Pepe Mujica entre outros.

Assim, a disputa hegemônica no século XXI se dá entre o neoliberalismo e o antineoliberalismo. O neoliberalismo continua dando os parâmetros gerais políticos e ideológicos no novo século.
Depois da ultima década do século XX, eminentemente neoliberal, o novo século trouxe o protagonismo das forças anti-neoliberais. Na segunda década do século XXI, o Brasil e o México aparecem como os governos mais consolidados na nova perspectiva, enquanto a Argentina, isolada, busca resgatar politicas neoliberais.

Uma disputa que marca toda a primeira metade do século XXI, de cujo desenlace dependerá o futuro da América Latina, o epicentro das lutas antineoliberais. É também por essa razão que um líder brasileiro como Lula pode se projetar como o principal personagem político da esquerda em escala mundial. Porque ele pode apresentar uma alternativa concreta e vitoriosa frente ao neoliberalismo.

2.
Enquanto a outra característica marcante deste século é o declínio da hegemonia norte-americana, depois de ter reinado, de forma soberana, no século XX. Uma decadência que se estende para a Europa, aliada estratégica dos Estados Unidos. Um continente que, depois de dar os contornos ideológicos para grande parte do mundo, ficou prisioneira do seu eurocentrismo, no momento em que a Ásia, especialmente a China, reapareciam com força.

Por essa razão também que eu considero Peter Frankopan, inglês, como o primeiro grande historiador do século XXI. Sua obra se inicia justamente com a crítica do eurocentrismo, reivindicando o papel especial da China, que havia sido a potência mais importante do mundo, até que a Inglaterra introduziu o consumo do ópio naquele pais, levando-o à decadência.

Um processo do qual a China renasce, de novo, como a maior potência econômica do mundo no século XXI. E protagoniza, junto ao poderio militar da Rússia e a presença de outros países emergentes, como o Brasil, a África do Sul, a Indonésia, entre tantos outros hoje, os Brics, que se tornou o fenômeno político mais importante do século XXI.

A disputa hegemônica no plano político se dá então, neste século, entre a hegemonia declinante do bloco liderado pelos Estados Unidos, e a aliança entre a China, a Rússia, o Brasil e outros aliados. Dessa disputa e de seu desfecho depende o futuro da humanidade ao longo de todo o século XXI.

Emir Sader é professor aposentado do departamento de sociologia da USP. Autor, entre outros livros, de A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana (Boitempo).

Inovação e desenvolvimento

0

Numa sociedade marcada por grandes competições entre os agentes econômicos e produtivos, onde os atores buscam manter seus espaços e consolidar novos ganhos monetários e financeiros, a chave do sucesso se concentra na chamada inovação, instrumento central para alcançar o desenvolvimento econômico e melhorar as condições sociais e políticas.

Numa rápida retrospectiva do desenvolvimento econômico, todas as nações que conseguiram construir uma sociedade mais igualitária, marcadas pelas instituições políticas sólidas e consistentes, tiveram, em sua trajetória política marcada pelo fomento da inovação e o fortalecimento do empreendedorismo, angariando nossos espaços produtivos, com melhoras nos setores produtivos, enriquecimento da população, transparência crescente e maior respeitabilidade no cenário internacional.

As nações desenvolvidas construíram uma sociedade marcada pela inovação, conseguindo construir um ambiente ousado e cheio de novidades, criando políticas ativas e fomentando os setores educacionais, garantindo recursos monetários para melhorar o ambiente escolar, fortes investimentos em capital humano, capacitações constantes dos trabalhadores, taxas de juros reduzidas, estímulos crescentes em ciências, pesquisas e tecnologias e, principalmente, uma política que fortalecesse o pensamento científico, instrumento central para a construção de espaços de inovação e de empreendedorismo.

Um dos economistas mais importantes para compreendermos a importância da inovação, foi o austríaco Joseph Schumpeter, responsável pela publicação do livro “Capitalismo, socialismo e Democracia” onde destacou a chamada destruição criativa, responsável pelas grandes transformações tecnológicas da sociedade global, uma verdadeira revolução que destroem os modelos econômicos e produtivos existentes e constroem novos modelos de negócios, revolucionando as sociedades, criando novas oportunidades e, ao mesmo tempo, criem novos desafios e incertezas.

O economista austríaco Joseph Schumpeter nos mostra a importância da inovação, que contribui para a criação de novos produtos, bens ou mercadorias, gerando novos espaços de investimentos produtivos, que serve para movimentar todo o sistema econômico, gerando novos empregos, aumentando a renda agregada e garantindo novas oportunidades, novas perspectivas e mudando realidades.
As nações que conseguiram construir novos espaços de inovação e de empreendedorismo fizeram grandes investimentos em capital humano, um forte aporte na construção de um ambiente de inovação constante, reflexões críticas, questionamentos variados, inquietações crescentes e estímulos diversos para atrair pessoas e organizações empreendedoras. A educação é fundamental para a criação deste cenário de inovação, a construção de um projeto educacional consistente que dialoga francamente com a comunidade, com os setores produtivos e a sociedade civil, garantindo para que todos os setores chancelem o projeto e participem ativamente na estratégia de desenvolvimento.

Inúmeros países conseguiram consolidar espaços de crescimento econômico e produtivo através de fortes investimentos em inovação, melhorando as condições de vida da população, tais como o Japão, a Coréia do Sul, a China, dentre outros. Todas estas nações tiveram em comum, a capacidade de eleger a educação como o instrumento central para o desenvolvimento econômico, para isso, foi necessário a construção de um consenso interno, garantindo fontes sólidas de investimentos, uma valorização dos profissionais da educação, criando estímulos crescentes para atrair para a docência os melhores quadros da sociedade. O caminho do desenvolvimento econômico é espinhoso, cheio de desafios e turbulências, muitas nações menores que o Brasil conseguiram alcançar seu desenvolvimento e se transformaram em grandes potências tecnológicas, chegou a hora de seguirmos os bons exemplos de desenvolvimento econômico e deixarmos de lado ideologias ultrapassadas e reacionárias que servem para aprofundar nosso subdesenvolvimento.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

Dívida e juros: Quatro décadas de um beco sem saída, por José Álvaro de Lima Cardoso

0

Da hiperinflação nos anos 1990 às crises internacionais do fim do século e de 2008, passando pelo golpe e até os dias de hoje, a economia brasileira ostenta juros absurdos. País alimenta ciclo perverso, engorda rentismo e se mantém eternamente vulnerável.

José Álvaro de Lima Cardoso – OUTRAS PALAVRAS – 12/11/2025

Os anos 1980 e meados dos 1990 marcam um período em que a dívida pública se tornou uma espécie de refém da hiperinflação. O Brasil enfrentava inflação acelerada — especialmente após os choques de preço do petróleo na década de 1970 — e a dívida pública era financiada através de instrumentos de curtíssimo prazo, com forte indexação à taxa básica de juros e, frequentemente, às variações do câmbio.

Esta combinação era guiada por uma lógica perversa: quando a inflação disparava, os juros subiam para contê-la, o que automaticamente aumentava o custo de rolagem da dívida. Diferentemente dos dias atuais, a inflação realmente era muito alta: no ano de 1993, por exemplo, que precedeu o ano de implementação do Plano Real, a inflação chegou a 2.477,15%, medida pelo IPCA-IBGE. Com o processo de indexação, a dívida pública tornou-se um mecanismo de transmissão de instabilidade para toda a economia.

A inflação galopante inviabilizava fazer planejamento de médio e longo prazos. Com inflação que, em alguns períodos, chegou a 1,5% ao dia, as empresas se limitavam a tentar proteger o valor do seu capital. Havia um tipo de aplicação financeira, por exemplo, chamada de overnight (da noite para o dia), com prazo de apenas um dia útil, com rentabilidade equivalente as taxas de juros diárias, extremamente altas para acompanhar a inflação. Nesse contexto, as empresas maiores, os ricos, e a classe média, conseguiam preservar seu capital de forma relativamente segura, mas o grosso da população ficava à mercê da queda contínua e rápida do seu poder aquisitivo. A superinflação funcionava como uma espécie de mecanismo extra de exploração dos trabalhadores. Nesse ambiente, a dívida pública consumia recursos que tirava do sistema a capacidade de investir na produção e no aumento da produtividade. A dívida tinha que ser constantemente refinanciada a taxas crescentes, consumindo recursos públicos através dos juros elevados e protegendo os detentores dos títulos públicos.

Com a chegada do Plano Real, em 1994, que fixou a taxa de câmbio (política que foi mantida até 1999), a dívida continuou indexada ao dólar. Para estabilizar a inflação através de uma âncora cambial, foi necessário aceitar uma dívida mais cara. Entre 1995 e 1998, a taxa média de juros real (Selic menos a inflação) foi de aproximadamente 22% ao ano. No período de 1995 e 1998 a taxa chegou a aproximadamente 30% ao ano. Nesse período a taxa de juros real brasileira era a mais alta do mundo em termos reais. Em 1999, a taxa de juros chegou a 45% ao ano em termos nominais, para uma IPCA-IBGE de 8,94%. Ou seja, o país tinha uma taxa de juros reais de 36%., o que tornava quase impossível o investimento produtivo. Na realidade, era uma combinação de política macroeconômica para matar qualquer ambição de crescimento econômico.

Em 18 de janeiro de 1999 o governo anunciou a adoção do câmbio flutuante. Até então, o Brasil operava com uma âncora cambial, ou seja, o regime de câmbio fixo. Em função dessa mudança, o preço do dólar disparou. No início de janeiro a moeda estava cotada em torno de R$ 1,20 e, ao final do mês, tinha chegado a R$ 2,10, uma desvalorização do real de cerca de 75% em poucos dias. No início de março de 1999, a cotação chegou a R$ 2,20, representando uma desvalorização acumulada de mais de 83%. Esse período ficou conhecido como a “maxidesvalorização de 1999” e teve reflexos muito significativos na inflação e na economia geral do país.

A transição para o câmbio flutuante no Brasil em janeiro de 1999 foi decorrência de uma crise econômica brutal ao nível internacional – que arrastou as economias mais frágeis – assim como dos problemas estruturais da economia brasileira. O país estava enfrentando grande fuga de capitais, decorrentes da Crise Russa de 1998, que gerou pânico nos mercados globais. Investidores internacionais retiraram recursos de economias atrasadas, com medo de um efeito dominó e o Brasil era uma das economias mais expostas ao contágio. Um sintoma da doença foi o comportamento das reservas internacionais brasileiras, que despencaram de US$ 74 bilhões em julho de 1998 para US$ 42 bilhões em janeiro de 1999 (7,6% do PIB). Nesse período a capacidade do Brasil em termos de reservas era muito pequena. Para efeitos comparativos, atualmente o país possui US$ 346,4 bilhões de reservas, cerca de 15% do PIB

O regime de câmbio fixo (ou âncora cambial) do Plano Real, que mantinha o dólar artificialmente controlado, tornou-se insustentável porque o país tinha um grande déficit nas transações externas e a dívida externa crescia continuamente, porque o país precisava tomar dólares emprestados para manter a cotação fixa. Como os especuladores apostavam que o real seria inevitavelmente desvalorizado a qualquer momento, havia uma fuga de capitais, que aumentou a pressão sobre as reservas. O Banco Central tinha que injetar dólares o tempo todo na economia para defender a paridade, sustentáculo do Plano Real.

A adoção do câmbio flutuante em janeiro de 1999 aumentou o peso da dívida externa em reais, decorrente da apreciação do dólar. A dívida interna, por sua vez, cresceu expressivamente em função de juros reais extorsivos, que ultrapassavam 30%, visando financiar o déficit fiscal e manter a estabilidade da moeda, a qualquer custo. Esses juros reais visavam manter o controle da inflação e a confiança na moeda, ingrediente fundamental do regime cambial, baseado, até janeiro de 1999, na paridade com o dólar. Um dos efeitos desses juros foi o crescimento da dívida pública em relação ao PIB, que passou de 17,6% em 1994, para 31,7% em 1998, praticamente dobrando em 4 anos.

No período 2003 a 2013, a dívida pública entrou em fase de alívio relativo. Este período reuniu três fatores, de rara convergência, que aliviaram o peso da dívida pública:
1. Crescimento econômico razoável (média pouco acima de 3% ao ano)
2. Termos de troca favoráveis (preços de commodities em alta, em função da demanda chinesa)
3. Superávits primários robustos

Apesar da reunião destes fatores a dívida pública fechou o período apontado um pouco acima do que iniciou, em relação ao PIB, chegando a 63,2% em 2013. Este alívio momentâneo com os gastos com a dívida, deve ser bastante relativizado. Mesmo com toda a confluência positiva de fatores apontada acima, os gastos com serviço da pública em 2013 correspondeu a 8,3% do PIB, ou seja, o sistema da dívida permaneceu intacto. Para efeitos comparativos o Brasil gastou no mesmo ano 7,5% do PIB com a previdência. Neste mesmo ano, cerca de 42% do orçamento federal foi destinado ao pagamento dos serviços da dívida pública.

O fato é que, por condições econômicas muito excepcionais, foi possível compatibilizar durante um curto período, os gastos com a dívida pública, com um modesto ciclo de crescimento. Obviamente este alívio era estruturalmente muito frágil. Dependia de preços de commodities que o Brasil não controlava e de crescimento econômico que não era robusto o suficiente. O peso da dívida caiu um pouco por conta de fatores externos, que de certa forma encobriam problemas estruturais, como baixa taxa de investimentos, pobreza, desemprego e os próprios gastos com a dívida. Quando as condições externas mudaram, especialmente a partir da crise de 2008, a dívida voltaria a subir rapidamente: a razão entre dívida e PIB, que em 2008 chegou a 47,7%, em 2013 já estava em 63,2%.

A partir de 2014, já em um cenário de franca operação do golpe de 2016, os indicadores desabam. Os preços das commodities em 2013 dão os primeiros sinais de desaceleração. O ano de 2014 pode ser considerado um ano de virada: cai abruptamente preços de minério de ferro, petróleo, soja e outras commodities exportadas pelo Brasil, com efeitos em cascata na economia brasileira. Há uma queda das receitas públicas: redução de arrecadação de impostos sobre exportações; diminuição de royalties e participações especiais do pré-sal. A taxa de desemprego saltou de cerca de 5% em 2014 para 11% em 2016. Neste quadro há a deterioração da dívida pública: com a desaceleração do crescimento aumenta a razão dívida/PIB, chegando em 2015 a 74%.

A crise é amplificada, em função do peso da dívida pública. Cai a receita pública, o PIB recua, juros aumentam em função do aumento do risco-país; juros mais altos exigem mais superávits primários para pagar os serviços da dívida, são feitos cortes em investimentos públicos e sociais, o que aumenta a recessão. É um ciclo perverso que se retroalimenta: recessão → elevação da dívida → cortes de gastos → recessão mais profunda. E assim por diante. As crescentes obrigações com a dívida, cada vez mais dão a tônica nas decisões de política pública. Os juros reais elevados durante este período, em torno de 5%, quase sempre o mais alto do mundo no período, representavam menos recursos para saúde, educação e desenvolvimento. Os países imperialistas em geral, operavam com taxas de juros reais próximas de zero ou negativas nesse período, o que destacava ainda mais a posição do Brasil como líder em juros reais mundiais.

Em 2023, o novo arcabouço fiscal substitui o teto de gastos, implantado pelo governo golpista de Michel Temer, que vigorava desde 1º de janeiro de 2017. Como sempre, o novo arcabouço manteve a lógica de todos os planos fiscais das últimas décadas. Criou uma fórmula de controle dos gastos primários, procurando manter o superávit nesses gastos, mas sem nenhuma medida voltada para o fulcro do problema, que são os gastos com a dívida. A partir de 2023, a dívida volta a subir, ainda que moderadamente, em função dos juros reais extremamente elevados e baixo crescimento da economia.

A economia brasileira nesse período, como até agora, é prisioneira da política de manter juros lá em cima, supostamente para controlar a inflação. Essa política impede investimentos e reduzem o crescimento. Essa combinação de política macroeconômica, que é a mesma, com nuances, independentemente do governo nas últimas décadas, conduz o país a um beco sem saída: os juros são aumentados para manter inflação sob controle, mas juros altos impedem investimento, reduzem crescimento, e com isso, impedem que a dívida caia em relação ao PIB. É um beco sem saída para o país como um todo, mas uma situação maravilhosa para quem ganha muito dinheiro com o ciclo especulativo que se forma a partir dele.

A observação da trajetória completa da dívida nas últimas décadas, revela um padrão, que é comum a todos os períodos, independentemente do ciclo econômico que esteja vigorando: sempre que há choques econômicos de todo tipo (inflação, câmbio, crise financeiras globais), há uma deterioração no quadro da dívida pública, e a resposta é sempre direcionada para os gastos primários que, em princípio, nada têm a ver com a dívida. Não são os gastos primários que deterioram a relação dívida/PIB, e sim a própria elevação dos juros, ou o baixo crescimento da economia. As ações de combate aos gastos primários, cortes de gastos sociais, redução do investimento público não só não resolvem o problema, como deterioram ainda mais a situação e tornam a economia ainda mais vulnerável aos choques futuros.

Longe de ser uma variável econômica dependente, os gastos com a dívida pública no Brasil, e o conjunto de medidas que são tomadas para garantir a normalidade do fluxo desses gastos, impedem o enfrentamento de problemas centrais da economia brasileira: vulnerabilidade a choques externos, fragilidade da base produtiva e desindustrialização e baixa taxa de investimentos. O mais impressionante nesse processo é que, independentemente da posição política dos governos, todos atacaram o problema fiscal exclusivamente sob a ótica dos gastos primários, mantendo intocado os lucros de banqueiros e especuladores.

Sofrimento individual tomou lugar do conflito de classe, diz sociólogo francês

0

Folha de São Paulo, 09/11/2025

Ricardo Henriques, Economista, superintendente executivo do Instituto Unibanco, professor associado da Fundação Dom Cabral e presidente do Conselho da Anistia Internacional Brasil

[RESUMO] Em diálogo com o economista Ricardo Henriques, o sociólogo francês François Dubet analisa o papel do ressentimento e das múltiplas desigualdades que sustentam uma nova economia moral, o que levou à ascensão da extrema direita em diversos países, tema de seu livro “O Tempo das Paixões Tristes”. Embora hoje sobrem motivos para pessimismo, ainda há espaço para esperança em redes de solidariedade locais.

Nascido na sociedade industrial, mas atento às transformações do presente, o sociólogo francês François Dubet tem se dedicado a entender como as desigualdades sociais fragmentam identidades coletivas e transformam injustiças em sofrimentos individuais.

Essa nova economia moral enfraquece as lutas comuns e alimenta o populismo e o iliberalismo. No livro “O tempo das Paixões Tristes” (2019, editora Vestígio), Dubet analisa de que maneiras esse cenário impulsionou o ressentimento e a ascensão da extrema direita.

Seis anos depois, diante da escalada de violência e negacionismo nos EUA, ele reafirma a importância da convivência, das experiências locais e da construção de um novo pacto civilizatório. Nesta entrevista para a Folha, Dubet alerta: “Eu detesto as ideias radicais, elas têm consequências radicais e não correspondem à experiência das pessoas”.

Ao revisitar sua formação, Dubet reconhece que aprendeu sociologia em um tempo marcado pelos conflitos de classe. É nesse contexto que evoca a coruja de Minerva, símbolo da sabedoria que só alça voo ao entardecer, quando os acontecimentos já podem ser compreendidos com alguma distância.

Em “O Tempo das Paixões Tristes”, a expressão “paixão triste” é inspirada em Spinoza, e você descreve os climas emocionais das sociedades contemporâneas. Quais as características de nossa época você mais valoriza neste livro e como pensa as paixões tristes da sociedade contemporânea?

Preciso começar com uma confissão: nasci na sociedade industrial. Era leitor de Marx, Durkheim e Weber. Escrevi alguns livros com Alain Touraine. Vivi em uma sociedade na qual os problemas eram percebidos em termos de conflitos de classe, que organizavam a esquerda e a direita com representações do futuro.

Na França, pensamos nessas categorias por muito tempo, até os anos 1980. Aliás, como sempre, é quando a esquerda chega ao poder que seu mundo começa a desmoronar. É a coruja de Minerva. Aprendi sociologia assim e por muito tempo pensei nessas categorias.

O que aconteceu? As desigualdades de classe permaneceram, claro. Mas não são mais, do meu ponto de vista, estruturadas em volta das classes sociais. Ou seja, as pessoas não dizem mais: “nós, os trabalhadores”, “eles, os patrões”. Elas dizem “eu”. “Eu” sou desigual em função do meu diploma, das minhas origens, do meu gênero, da minha sexualidade, do lugar onde moro.

Há uma espécie de individualização das desigualdades. O que, aliás, faz com que a consciência de classe não resista mais ao desprezo de classe.

Então esta é a primeira transformação: o capitalismo desigual, brutal, que de certa forma destrói as classes sociais —não a classe dirigente, obviamente—, atomizou as classes sociais.

A segunda evolução é que, até os anos 1980, quando você falava de desigualdades aos atores sociais, eles respondiam e pensavam imediatamente nas grandes desigualdades, isto é, as desigualdades no trabalho, na renda, nas condições de vida.

A justiça social é a redução das desigualdades de condições. É fazer com que os trabalhadores sejam menos pobres, e os ricos, menos ricos.

Atualmente, se eu perguntar o que é justiça social na França, e mais ainda nos Estados Unidos, as pessoas dizem que é a luta contra as discriminações: se você é homem, mulher, homossexual, branco, negro, uma pessoa da cidade ou do campo etc. A desigualdade de chances de acesso aos recursos é percebida como a desigualdade principal.

E isso tem consequências. Quando você pensa em termos de desigualdades sociais, pode pronunciar a famosa frase “Proletários de todos os países, uni-vos”, temos todos os interesses em comum. Mas ao pensar em termos de discriminação, todos temos interesses contraditórios.

Temos uma cena de conflitos que se reunia em torno de uma consciência coletiva e que hoje explodiu, gerando ressentimentos. O conflito social à la Marx ou Weber é substituído pela ideia de que somos vítimas dos outros.

Há esse efeito sobre a subjetividade dos indivíduos de regimes de desigualdades múltiplas, como você chama. Se essa especificidade do mundo contemporâneo foi muito bem para o velho mundo civilizado, como isso repercute na construção da fraternidade e da solidariedade? Você tem uma reflexão sobre a gramática política da ação coletiva. Como pensa essa construção dos vínculos de solidariedade, de ação coletiva?

É muito complexo. Se eu raciocinar no quadro europeu, a fraternidade era a nação, com seu aspecto positivo (“eu gosto das pessoas que são como eu, que falam a mesma língua e que têm a mesma cultura, a mesma história’) e negativo, que é o nacionalismo (“eu detesto aqueles que não são como eu”).

Acreditava-se que a França, por exemplo, era um Estado nacional, uma burguesia nacional e uma cultura nacional. Não era verdade. Hoje todo mundo sabe muito bem que a burguesia francesa não é nacional. Que o Estado é extremamente fraco. E que a cultura está invadida pela cultura de massa, pelo mercado e pela guerra das identidades.

Nos anos 1970 e 1980, na França, diziam que um imigrante italiano ou português seria um futuro trabalhador francês. Hoje, os filhos dos imigrantes votam na extrema direita porque detestam os novos imigrantes que vêm de ainda mais longe.

Considero como um dos grandes problemas o fato de questões como fraternidade e identidade terem sido abandonados por intelectuais de esquerda para serem apropriados pela direita e extrema direita.

Quando há sucesso dos partidos de extrema direita na França, a esquerda diz que são racistas e fascistas. Evidentemente, são racistas e fascistas. Mas eles levantam uma questão: o que temos em comum? Ora, as únicas forças políticas que respondem a isso hoje são a direita e a extrema direita.

Quando escrevi sobre isso em 2019, não estava muito seguro de mim. Mas agora, com Trump, estou totalmente seguro. Porque é pior do que aquilo que havíamos imaginado.

A questão que nos é colocada para a esquerda mundial é: somos capazes de dizer o que temos em comum? O que temos em comum para que uns aceitem sacrifícios pelos outros? O que temos em comum para reconhecer a identidade dos outros sem sermos ameaçados?

Se não tivermos a sensação de algo em comum, as diferenças culturais tornam-se ameaças.
É nesse quadro que é possível identificar a intencionalidade de desconstrução do sentido de comum à sociedade e a imposição de visões que, por vezes, negam o próprio valor da ciência. Os métodos de Trump diante dos ataques às universidades, aos museus, ao Departamento de Educação, e sua ação neste domínio de violência contra as pessoas, sobretudo os progressistas, procuram simultaneamente negar o que lhe incomoda no campo dos valores e da ciência e impor uma visão particular (e diria excêntrica) do mundo que deveria ser compartilhada como o comum.

Há um ano eu jamais teria imaginado isso. Um presidente dos Estados Unidos que busca liquidar universidades, que tem comportamentos xenofóbicos e racistas… enfim, nunca teria imaginado.

E o problema é que Trump não é um conservador autoritário, ele é ultraliberal. É em nome do declínio da autoridade que temos essa violência. Ele diz: “vocês não vão se submeter à autoridade dos sábios, vocês não vão se submeter à autoridade dos especialistas”.

É uma escala de decadência contínua: não nos libertamos do desprezo senão desprezando os outros, ao dizer que não sou eu quem merece ser desprezado, são os outros.

Qual o caminho para produzirmos uma certa esperança?

Penso que a esperança é um dever. Acho que ainda existem coisas que funcionam. Por exemplo, redes de solidariedade: há uma vida associativa muito intensa e, pelo menos no caso francês, a vida social local é muito mais positiva do que a imagem nacional. As pessoas organizam festas, se ajudam. Então, não é verdade que todo mundo é dominado pelo ressentimento.

A segunda coisa, acho que seria preciso dar toda a importância ao trabalho. O que a força do movimento operário fez, de fato, foi dar dignidade aos trabalhadores.

Hoje existe na França um sindicato que tenta fazer isso, mas que ainda assim busca reconstruir uma dignidade a partir da qualidade do trabalho, do sentido de utilidade do trabalho.

Quando houve a pandemia da Covid e o confinamento, todo mundo descobriu que os motoristas de caminhão, as pessoas que recolhem o lixo e as caixas de supermercado eram pessoas formidáveis e indispensáveis. Bem, desde então já esquecemos disso.

Isso aconteceu da mesma forma aqui.

Sim. Parece-me que a ideia é a necessidade de redefinir o que é comum, tentar redefini-lo fora das categorias nacionalistas.
Acredito que é preciso revalorizar o trabalho, repensar a educação. Mas a experiência histórica mostra que isso não acontecerá em três semanas. E é verdade que é muito difícil resistir a uma espécie de pessimismo. Mas com certeza, entre nós, neste momento, deixamos o pessimismo de lado.

Os jovens também sonham com um futuro, não? Como você pensa em projetar uma visão para que os adultos, que viveram em outros momentos, possam construir isso? Não está relacionado ao teletrabalho fútil, mas ao futuro. Como garantir esse pertencimento? Como projetar futuros possíveis e desejáveis? Existe o risco de um pessimismo, de surgir um niilismo enorme, não?

A gente ficaria paralisado aqui se não pudéssemos projetar um futuro. Você me diz que, por ora, é muito difícil não ser pessimista.

Mas, para mim, é quase uma visão moral. Eu observo que muitas pessoas não se deixam levar: na França, há uma crise da educação, mas há muitos professores que fazem um trabalho formidável. Constato que o hospital não funciona muito bem, mas o pessoal é incrível.

Constato que a vida política, em geral, é um tanto catastrófica, mas a maioria dos franceses acha que o prefeito de sua cidade faz um trabalho formidável, seja de direita ou de esquerda; aliás, isso não é muito importante.

Na prática, o que se desfaz não é tanto a realidade da vida social. O que se desfaz são as representações da vida social.

Eu acredito que as razões para ter esperança hoje são os que dizem “eu atuo onde estou, localmente, na minha instituição de ensino, com meus alunos, no meu hospital, no meu município, com meu pequeno clube de futebol”. Enfim, em tudo que cria uma sociedade. Do local para o global.

Na França, os políticos de esquerda ou passam para o populismo de esquerda, ou nada dizem, ou dizem “não podemos dizer nada”. Então, acrescenta-se a esse sentimento de crise o fato de termos um Estado-providência extremamente complexo, relativamente eficiente, porém é um Estado ilegível, incompreensível, o que faz com que todos tenham a sensação de estarem sendo roubados pelo sistema.

Devemos tornar o Estado-providência legível, para que cada um entenda o que paga e o que recebe.
Você sustenta que a Justiça deve estar atenta às condições reais de vida. Como pensa que podemos inspirar não apenas a educação, mas políticas públicas mais inclusivas?

Eu sou favorável a compromissos de justiça. Quero dizer com isso que uma sociedade de pura liberdade é a sociedade libertária, é um mundo selvagem absoluto. Uma sociedade de pura igualdade, já conhecemos isso, é o stalinismo, é a China de Mao Tsé-tung; se não houver liberdade, não há igualdade. Uma sociedade puramente meritocrática é uma sociedade darwiniana. Ou seja, os melhores vencem, e os outros perdem.

A boa sociedade é aquela que combina, que faz com que a liberdade, a igualdade e o mérito se combinem de maneira moderada. É por isso que detesto as ideias radicais, elas têm consequências radicais e não correspondem à experiência das pessoas.

Minha hipótese é que nos Estados Unidos, na Alemanha, na Grã-Bretanha, na França, na Itália, o voto da extrema direita é o voto das pessoas que falharam na escola. É o voto antielite, de ressentimento, é o voto contra os mais pobres. Portanto, se você considera que a igualdade de chances meritocrática é um sistema um pouco darwiniano, os vencidos se vingam.

E, mesmo assim, é terrível. Não consigo me livrar da imagem da entronização de Trump, que para mim foi o choque. Trump está cercado por todos os bilionários do planeta e fala em nome dos pobres. Os pobres encontraram nesse homem a expressão de seu ressentimento contra os formados, as elites. É realmente inacreditável.

A nuance que você propõe, equilibrar o mérito entre os plurais, é central para uma estratégia que reconheça as desigualdades, mas também promova equidade, equilibrando mérito, liberdade e igualdade. Talvez estejamos falando de caminhos para a esperança. Na Assembleia Mundial da Anistia Internacional deste ano, Ammar Dweik, diretor-geral da Comissão Independente de Direitos Humanos da Palestina, fez uma conferência contundente sobre a situação de Gaza. Falou com lucidez impressionante em meio às dores na região. Terminou dizendo que, apesar da fome e do horror, os palestinos continuarão ensinando amor aos filhos, plantando oliveiras e escrevendo poemas. Foi um testemunho de resistência e esperança de quem decidiu não morrer.

Nem todos sobreviveram, mas aqueles que sobreviveram decidiram que não morreriam. Penso muitas vezes em São Tomás, que diz que a virtude essencial é a esperança. E nestes tempos é preciso ter esperança. É exatamente o que diz seu amigo palestino, seja o que for que aconteça, é preciso ter esperança, não se deve mais esperar pelo fim.

Os dois lados da dívida pública, por Samuel Pessoa

0

Samuel Pessoa, Pesquisador do BTG Pactual e do FGV IBRE e doutor em economia.

Folha de São Paulo, 09/11/2025.

No caderno de fim de semana do jornal Valor Econômico da semana passada, o economista André Lara Resende (ALR) nos lembrou que a dívida pública tem dois lados. É um passivo do setor público, mas é riqueza, ativo, para o setor privado. Qualquer plano de consolidação fiscal que pretenda reduzir o endividamento público precisa se lembrar dessa dualidade.

Se o setor público pretende promover uma consolidação fiscal que irá reduzir o endividamento de um país, cabe a questão: essa ação será um equilíbrio do ponto de vista dos detentores da dívida pública? Há o desejo, por parte do setor privado, de reduzir seu carregamento de dívida pública?

Há sociedades que são muito poupadoras. O excesso de poupança estrutural do setor privado faz com que essas sociedades experimentem permanentemente uma situação de excesso de oferta sobre a demanda. Há uma pressão deflacionária permanente. Nesse caso, o setor público precisa incorrer em déficits permanentes para ocupar o espaço de demanda que o setor privado não ocupa.

O aumento do endividamento financia a demanda pública necessária para manter e economia a pleno emprego e compensar a carência de demanda do setor privado. Tecnicamente, diz-se que o setor público tem a função de demandante residual no mercado de bens e serviços.

Na coluna de 18 de maio do ano passado, mostrei que a dívida pública do Japão era de 252% do PIB em 2023. Os juros reais para o período dos 23 anos anteriores foram negativos em 0,3%, e a inflação, positiva em 0,4%, ambas as taxas anualizadas.

A taxa de poupança do Japão nos mesmos 23 anos foi de incríveis 28% do PIB, apesar do envelhecimento da população.

De sorte que o setor privado carrega nos seus portfólios os 252% do PIB de dívida pública e ainda sobram 80% do PIB para acumular no exterior: o setor privado japonês tem 80% do PIB de ativos contra não residentes. De fato, nesses 23 anos o Japão apresentou superávit de transações correntes de 2,9% do PIB!

Ou seja, o Japão é um caso que descreve bem o fenômeno descrito por ALR em sua coluna. Se o governo japonês quiser proceder a uma forte consolidação fiscal, gerará uma recessão. Haverá carência de demanda agregada, os juros nominais serão zero, e a economia entrará em uma espiral deflacionária. A taxa de desemprego elevar-se-á.

Certamente essa não é a situação da economia brasileira. Nos 23 anos terminados em 2023, a taxa real de juros foi de 5,1%, e a inflação, de 6,5%, já considerando a taxa anualizada.

A taxa média de poupança no período foi de ridículos 16,2% do PIB, e houve déficit nas contas externas de 2,1% do PIB. A consequência é que, em vez de termos ativos no exterior, temos passivos no valor de 39% do PIB.

A expressão de que no Brasil o setor privado não está muito disposto a carregar quantidades expressivas de dívida pública é dada, olhando a dinâmica das quantidades, pelo fato de termos acumulado um passivo contra o resto do mundo —se houvesse uma situação de forte demanda por ativos, acumularíamos no exterior—, e, olhando a dinâmica dos preços, pelo fato de a taxa de juros reais ser muito elevada.

Assim, para o Brasil, se houvesse uma fada que reduzisse fortemente o endividamento público, haveria uma força na direção de redução das taxas de juros domésticas.

Quais as causas da riqueza das nações? por Marcos Lisboa

0

Marcos Lisboa, Economista, ex-presidente do Insper e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (2003-2005, governo Lula).

Folha de São Paulo, 09/11/2025

Nos últimos 250 anos, houve uma revolução na vida cotidiana. Até o fim do século 19, a expectativa de vida nos países mais ricos era perto de 40 anos. A cesta de consumo de uma pessoa de renda média nesses países custaria cerca de R$ 10 por dia em valores atuais.
Pouco mais de dois séculos depois, a expectativa de vida dobrou nas principais economias e a renda por habitante multiplicou cerca de 50 vezes, em alguns casos ainda mais.

Estudar as causas desse fenômeno foi um dos temas fundadores da economia. Nos últimos 30 anos, houve avanços nessa agenda de pesquisa, que resultaram em vários Prêmios Nobel de Economia, inclusive o deste ano, conferida a Joel Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt.

O desenvolvimento ocorreu nos diversos países, mas de forma desigual. Ele se inicia na Inglaterra e na Holanda no fim do século 18, se espalha pelos Estados Unidos, depois na Europa ocidental do Norte e, mais tarde, na América Latina. O restante da Europa e o sudoeste da Ásia tiveram desempenho impressionante desde 1990.

Robert Fogel, Nobel de 1993, e Angus Deaton, Nobel de 2015, mostram como os avanços são impressionantes, porém esse processo não é homogêneo, nem linear. No começo do século 19, por exemplo, parte da população urbana da Inglaterra apresentou indícios de perda da qualidade de vida, com redução da altura média e aumento dos índices de mortalidade.

A imensa migração dos campos para as cidades e a falta de políticas públicas resultaram nessa piora temporária.

Em algumas décadas, o quadro se reverteu. Os salários começaram a aumentar com a produtividade e se iniciou um aumento da expectativa de vida, de perto de 50 anos em 1900 para mais de 60 anos em 1930.

Avanços desmedidos, mas com alguns retrocessos localizados, continuaram no último século.

Esse processo foi reforçado por reformas na política pública. O fim do século 19 inicia uma agenda de seguridade social, de políticas de segurança e de meio ambiente, entre outras.

O desenvolvimento das técnicas de estimação de impacto e a construção de grandes bases de dados nos últimos 30 anos têm permitido avanços na pesquisa em economia sobre temas como educação, discriminação e crescimento, entre outros.

Amory Gethin, com uma imensa base de dados global e metodologia inovadora, identificou que, de 1980 a 2019, a educação contribuiu com cerca de 50% do crescimento, 70% do aumento de renda dos 20% mais pobres e 40% da queda da extrema pobreza.

O desenho das regras da política pública e do funcionamento dos mercados é igualmente fundamental para explicar o crescimento. Instituições importam, como sistematizam Daron Acemoglu, Simon Johnson e James Robinson, vencedores do Nobel do ano passado.

As sutilezas de como o sistema Judiciário é desenhado, as normas dos mercados de crédito, as regras de comércio exterior e a regulação dos setores de infraestrutura, por exemplo, estão associadas ao desempenho relativo dos países.

Nos anos 1980, Paul Romer, Nobel de 2018, desenvolveu modelos que contribuíram para analisar o problema. Parte essencial do desenvolvimento econômico decorre de inovações que resultam em aumentos de produtividade.

Ideias bem-sucedidas geram ganhos persistentes porque são não rivais. A mesma descoberta pode ser utilizada simultaneamente por muitos agentes e gerar retornos crescentes de escala: pode-se produzir mais com a mesma quantidade de insumos.

No começo dos anos 1990, Aghion e Howitt desenvolveram um modelo sofisticado para analisar a interação entre concorrência, inovação e crescimento.

O eixo é simples: mercados e concorrência, conhecido desde Karl Marx. As inovações bem-sucedidas de gestão, de tecnologia e de produtos permitem ganhos extraordinários para os seus responsáveis, o que incentiva a criatividade e o empreendedorismo. O resultado são as transformações frequentes a que assistimos no cotidiano.

Os detalhes dessa história, contudo, são sutis. Firmas bem-sucedidas por vezes tentam bloquear o surgimento de competidores, o que restringe a inovação. As regras para garantir o funcionamento adequado de diversos setores são complexas.

Para agravar, as formas de intervenção da política pública dependem das circunstâncias, como as características da tecnologia ou do acesso à informação.

Em “The Power of Creative Destruction” (O Poder da Destruição Criativa)”, Aghion e coautores sistematizam os imensos benefícios da concorrência e da inovação para os ganhos de produtividade e os desafios da política pública para garantir um processo saudável de concorrência e de inovação.

Mokyr foi o Prêmio Nobel mais inesperado e merecido. Seu monumental trabalho em história econômica documenta o papel das ideias nos mercados e na política. Uma concorrência permanente de interesses diversos, abordagens alternativas.

Ao contrário do maniqueísmo usual, nem sempre as ideias refletem interesses, nem sempre os grupos mais fortes acabam por dominar o debate. No enfrentamento de ideias, as negociações na política resultam em escolhas das regras, por vezes bem-sucedidas, outras não.

O mesmo ocorre com as inovações nos mercados. Ao contrário da visão usual, por exemplo, de uma Revolução Industrial, houve um processo com muitas inovações, com, por exemplo, centenas de patentes apenas para a máquina a vapor ao longo de décadas.

As primeiras máquinas não eram muito melhores do que os processos tradicionais. Seguidas inovações foram aperfeiçoando-as e as gerações sucessivas foram, lentamente, aprendendo a utilizar a nova tecnologia, que se transformava continuamente.

O mesmo processo ocorreu na agricultura inglesa nos séculos 16 e 17, com aumento da produção de trigo por hectare. Ele continua a ocorrer nas mais diversas atividades produtivas, como os ganhos de produtividade do nosso agronegócio ou nas inovações em medicamentos no resto do mundo. A interação entre concorrência, adequadas políticas públicas e ciência transforma nosso cotidiano.

Em “The Enlightened Economy”, Mokyr conta com detalhes a longa e profunda transformação que começou na Inglaterra, nas ideias, nas instituições e na economia que terminaram por transformar o mundo.