Vivemos um momento preocupante para toda a comunidade global, somos bombardeados por um marketing agressivo, imagens e propagandas nas mídias tradicionais e nas redes sociais que estimulam, abertamente, o consumo constante e deliberado, nossos desejos de consumo e de acumulação material extrapolam as vontades individuais e se espalham para o mundo digital, gerando uma busca crescente pelo consumo, neste momento é imprescindível mostrar a compra, não é apenas adquirir o produto, precisamos expor nossa aquisição e mostrar que somos bem sucedidos.
A ascensão social sempre foi um dos maiores objetivos dos indivíduos, que motivava toda a família para a melhor escolha profissional. Anteriormente os grupos mais fragilizados economicamente buscavam essa ascensão através do estudo, qualificação profissional e a carreira era o centro das decisões mais estratégicas para os cidadãos, as escolhas corretas culminariam em empregos sólidos e com maior remuneração, melhorando as condições de vida e um futuro mais consistente para toda a família.
O setor público sempre foi um espaço de ascensão social, onde profissionais liberais se preparavam para prestar os melhores concursos públicos, com isso, muitos alunos se encantavam com as áreas do direito que abriam novas oportunidades de carreira e valorização profissional. Muitos estudantes foram atraídos para a docência, se formaram como professores ou profissionais do ensino, sonhando com a estabilidade financeira, realização pessoal, benefícios sociais e melhores condições de aposentadoria.
Nos últimos trinta anos, percebemos uma redução substancial dos concursos públicos, o Estado vem passando por um emagrecimento sistemático, cargos estão sendo extintos, setores estão passando por transformações estruturais, ainda mais, percebemos um movimento crescente de terceirização de atividades profissionais e o incremento das parcerias públicas e privadas, gerando empregos precarizados e degradados, sem estabilidade, menores benefícios, cargas excessivas de trabalho, metas absurdas e preocupações crescentes com a saúde mental.
A ascensão do neoliberalismo nos anos 1990 elegeu o Estado como o grande responsável pelas desigualdades econômica e social, para resolver esse desequilíbrio, a ideologia dominante impôs uma forte reestruturação econômica e produtiva, acelerando a venda de estatais, redução dos cargos governamentais e carreiras públicas e acelerando a abertura econômica, tudo isso impactou as estruturas produtivas, o Estado empregador foi reduzido e o setor privado passou a ser o grande motor da geração de empregos nacionais.
A ascensão social perdeu espaço na sociedade contemporânea, os setores que ascendem são, na maioria, os grupos que nasceram em condições diferenciadas, grupos sociais oriundos de famílias abonadas financeiramente, dotadas de grande influência política, desta forma, a ascensão social pelo esforço e pela dedicação perderam espaço na comunidade. O estudo, que sempre foi visto como o farol da construção da cidadania e da melhora econômica, perdeu espaço e, em muitos casos, percebemos nas redes sociais o culto da ignorância, do despreparo intelectual e a desfaçatez moral.
Neste ambiente marcado por grandes instabilidades e incertezas crescentes, a ascensão social nos parece uma grande ilusão para uma parte substancial da sociedade global, desta forma, percebemos uma democracia disfuncional, que aceita conviver livremente, lado a lado, bilionários detentores da grande riqueza mundial e, uma grande maioria de pobres e miseráveis. Estamos chegando, a passos largos, no momento em que, a ascensão social, se restringirá ao nascimento, ao sobrenome e ao poder financeiro. Onde está a tão chamada meritocracia?
Ary Ramos da Silva Júnior, bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

