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Mundo conturbado

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Neste espaço buscamos refletir sobre questões econômicas, sociais, políticas e culturais com o intuito de compreendermos os grandes desafios da sociedade contemporânea, ainda mais, quando percebemos que o mundo passa por momentos de grandes incertezas e de fortes instabilidades, novas tecnologias que podem gerar graves constrangimentos para o mundo do trabalho, alterações climáticas que podem modificar regiões e estruturas produtivas, conflitos militares que podem se espalhar para outras nações, tudo isso está afetando empresas, setores produtivos e os indivíduos.

O ano de 2026, nos traz grandes preocupações e receios em todas as regiões mundiais, invasões na América Latina, violências populares em ascensão no Irã, rusgas crescentes nas relações conflituosas entre as Coreias, ensaios militares nas cercanias entre China e Taiwan, confrontos nas fronteiras das nações, incremento da guerra Ucrânia e Rússia, aumento do imperialismo e do intervencionismo, agitações de produtores rurais na França contra o Acordo Mercosul/União Europeia, além das manifestações populares nos Estados Unidos, dentre outras, tudo evidenciando um momento de grandes incertezas e alterações geopolíticas que impactam em todas as regiões do globo.

Vivemos numa sociedade marcada por inúmeros conflitos econômicos e políticos que podem impulsionar variados confrontos militares, que estão levando os governos a reduzirem seus recursos orçamentários para atenderem os grupos mais fragilizados de sua população e, em contrapartida, estes mesmos governos estão aumentando os aportes monetários para os setores militares e para a indústria bélica, inflacionando os preços das ações de empresas de tecnologias ligadas a defesa e a indústria da guerra.

Estamos presenciando governos intervencionistas e Estados imperialistas a demostrarem seus poderes militar e bélico, espalhando os seus tentáculos de dominação para todas as regiões, intervindo fortemente em algumas nações, supostamente para defenderem a democracia, criando protetorados e dominando suas riquezas naturais e ameaçando outros países de uma possível intervenção militar, rasgando acordos assinados anteriormente, ridicularizando instituições multilaterais e mostrando que as leis estão sendo substituídas por um novo marco institucional, centrado na lei do mais forte, um verdadeiro retrocesso civilizacional.

Anteriormente, as intervenções eram motivadas pela posse dos recursos naturais, os produtos primários, notadamente alimentos, minerais e petróleo, na linguagem econômica estamos falando das chamadas commodities. Na contemporaneidade, os conflitos militares apresentam características parecidas, embora os recursos minerais estejam no radar das nações desenvolvidas, percebemos que os focos estão nas chamadas terras raras, minerais fundamentais para o desenvolvimento dos setores de tecnologia e também nas fontes de energias renováveis, as nações que não os possuem vão buscar nos países mais ricos destes minerais e suas energias sustentáveis, afinal, estes produtos são fundamentais para o crescimento e a consolidação econômica.

Na busca por estes produtos fundamentais para a economia do século XXI, muitos governos estão intervindo em outras nações, novamente, e de forma descarada, boicotando outras economias, financiando movimentos oposicionistas, pressionando governos, impondo tarifas elevadas e investindo fortemente na chamada guerra cultural para gerar desestabilização interna.

Historicamente, nações dependentes de produtos primários tiveram elites predatórias, que sempre atuaram como sócios menores de governos estrangeiros, garantindo seus lucros marginais e, com isso, entregavam suas nações para grupos externos. Tudo se mantém como anteriormente, desta forma, conseguimos entender que nosso subdesenvolvimento não é apenas econômico e político, mas antes disso, nosso subdesenvolvimento é moral e, principalmente, intelectual.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor Universitário.

Intervenções militares

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O ano de 2026 começou com grandes inquietações na sociedade internacional, a intervenção militar dos Estados Unidos na América Latina gerou instabilidades na economia internacional, impactando sobre o direito internacional, gerando incertezas em todas as regiões do mundo, depois da Venezuela qual nação será atacada militarmente pelo todo poderoso governo norte-americano? Alguns comentaristas e especialistas fazem apostas de que a próxima nação na mira norte-americana será a Groenlândia, outros acreditam que será Cuba e outros especialistas ainda fazem as apostas no México, na Colômbia e até mesmo o Irã.

Difícil responder esta questão, mas ao mesmo tempo, percebemos que as regras internacionais foram destruídas, reinando a lei da força, com isso, vamos viver, mais intensamente uma grande escalada militar, com aumentos gigantescos nos setores bélicos que podem levar os governos nacionais a reduzirem os dispêndios em políticas públicas para os grupos mais fragilizados das sociedades, impulsionando os desequilíbrios sociais e, para resolver essa situação, o remédio é mais repressão, mais violências internas e mais liberalização do porte de armas.

Vivemos numa sociedade global marcada pela escalada da violência militar generalizada, onde as regras multilaterais, construídas no pós-segunda guerra mundial (1945), estão sendo devastadas rapidamente, organismos multilaterais criados para melhorar a convivência entre as nações perderam espaço no cenário global. A Organização da Nações Unidas (ONU) perdeu relevância, a Organização Mundial do Comércio (OMC) se fragilizou e perdeu espaço no comércio internacional, acordos internacionais foram abandonados, desta forma, estamos caminhando a passos largos para um mundo sem regras, ou melhor, as regras serão definidas para as nações que tiverem poder para impor seus interesses militares imediatos, ao contrário, as outras nações, frágeis militarmente e dependentes tecnologicamente, se restringiriam a serem verdadeiros vassalos.

As intervenções militares impactam sobre toda a sociedade global, neste momento, os especialistas em geopolítica denunciam que, na contemporaneidade, o mundo apresenta mais de 130 conflitos militares, um número preocupante que impacta sobre todas as regiões do mundo, aumentando as imigrações, devastando a economia local, impulsionando os confrontos culturais e xenofobias.

Um estudo conduzido e publicado por especialistas da Universidade Estadual de Bridgewater (Massachusetts/Estados Unidos), no período entre 1776 e 2019, com grande concentração após a Guerra Fria, identificaram quase 400 intervenções militares (incluindo operações menores) dos Estados Unidos no mundo, corroborando que a intervenção atual norte-americana na América Latina e as ameaças em todas as regiões podem reviver tristes memórias de conflitos fratricidas, destruições generalizadas e violências políticas.

Ao rever a história e refletirmos sobre as intervenções militares dos Estados Unidos, precisamos evitar comentários favoráveis e apaixonados, acreditando que a intervenção militar tenderá a gerar liberdades e democracias nas nações invadidas, ainda é muito cedo e precisamos estudar e refletir sobre os impactos mais estruturados, vale a pena lembrar os casos do Iraque e Afeganistão, será que a intervenção norte-americana trouxe alívios e crescimento econômico para estes países?

No começo do século XX os povos invadidos foram os iraquianos e os afegãos, atualmente os venezuelanos estão na berlinda, quem será o próximo? Esperamos que nosso país não esteja na mira dos norte-americanos, afinal muitos indivíduos que apoiaram a invasão podem sentir na pele a violência gerada pelos invasores.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor Universitário.

Caos nacional

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Este artigo está sendo escrito no último dia de 2025, um ano de grandes alterações no cenário global, incremento dos conflitos econômicos entre nações, aumento dos confrontos militares em todas as regiões do globo e expectativas sobre o comportamento da economia brasileira, uns grupos apostando fortemente no caos generalizado, inflação em ascensão, aumento do desemprego, degradação da renda nacional, diminuição dos investimentos estrangeiros e uma devastação econômica. Será que essas previsões se concretizaram?

Depois de dois anos de crescimento econômico na casa dos 3% ao ano, 2023 e 2024, as expectativas dos grupos oposicionistas eram de uma retração econômica, neste ano de 2025 devemos confirmar um crescimento do produto interno bruto na casa dos 2,2%, garantindo um triênio de crescimento satisfatório, ainda mais numa sociedade internacional marcada por grandes instabilidades econômicas e variados conflitos políticos, gerando incertezas crescentes e vários conflitos militares que podem se espalhar para outras nações e culminar em conflitos generalizados.

Os dados econômicos nacionais deste ano são auspiciosos, apesar das taxas de juros escorchantes adotadas pela Autoridade Monetária, Banco Central, na casa dos 15% ao ano, o país conseguiu algum fôlego no crescimento econômico, melhorando substancialmente os indicadores sociais, com redução da pobreza extrema, aumento no emprego e, em contrapartida, redução do desemprego, além do incremento da renda nacional e a redução da inflação, tudo isso contribuiu, ativamente, para a movimentação econômica, que impulsionaram o consumo e a renda agregada.

Ao analisarmos os indicadores macroeconômicos, o contraste entre a expectativa e a realidade é notável. A projeção inicial deste ano da inflação (IPCA) era de 5,8%, mas o resultado efetivo deve fechar o ano de 2025 em 4,32%, abaixo das inúmeras previsões do mercado. Essa reversão demonstra um controle de preços mais eficaz do que o previsto, mesmo sabendo que as taxas de juros praticadas inviabilizam um crescimento mais consistente.

Outro indicador macroeconômico que mostrou grande resiliência da economia brasileira foi o Investimento Estrangeiro Direto (IEDs), ainda mais num ambiente externo marcado por grandes instabilidades, tarifaços, protecionismos e intervencionismos crescentes. Em 2024, o Brasil recebeu mais de US$ 74 bilhões de recursos externos e, em 2025, as estimativas mostram mais de US$ 84 bilhões, mostrando condições externas positivas e pujantes, além de mostrarem que a diversificação externa pode gerar grandes espaços de crescimentos econômico e comercial.

Recentemente, o relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) confirmou que menos de 2,5% da população brasileira estava em situação de subalimentação grave, resultado de políticas públicas focadas em combate à fome e insegurança alimentar, uma grande conquista da população brasileira e nos mostram que políticas públicas e sociais bem estruturadas e bem desenhadas podem gerar grandes benefícios para a sociedade.

Os indicadores macroeconômicos nos mostram avanços substanciais para a economia nacional, sabemos que os desafios macroeconômicos são gigantescos, nossa estrutura produtiva ainda carece de complexidade econômica, os empregos nacionais pagam salários reduzidos, a produtividade do trabalho é limitada, a estrutura tributária apresenta grandes distorções históricas, ricos pagam poucos impostos e a carga tributária se concentra na classe média e nos grupos mais precarizados. Os avanços são positivos, tímidos e poderiam ser maiores se os grupos políticos e econômicos se interessassem em defender os interesses da maioria e deixar de lado seus próprios interesses imediatos.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

Estado e Mercado

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Vivemos momentos interessantes, marcados por grandes rupturas e contradições, onde os agentes econômicos e produtivos se organizam para competir num ambiente centrado na competição e na concorrência, onde os mais capacitados sobrevivem, ganham musculatura, em detrimento daqueles que não conseguem aumentar sua capacidade produtiva e sua eficiência, ficando para trás literalmente, reestruturando suas estratégias de mercado, investindo mais em tecnologias e passando a criar novos instrumentos de sobrevivência.

Dentre as grandes transformações na sociedade global, destacamos as modificações no ambiente ideológico, uns grupos defendendo cabalmente a concorrência como instrumento de consolidação dos atores econômicos, por estas teorias as intervenções estatais eram vistas como desnecessárias, aumentariam os custos de oportunidades e gerariam novos constrangimentos na estrutura econômica, deixando de lado a criação de riquezas materiais e protegeriam os setores mais ineficientes da estrutura produtiva.

Os defensores dos méritos dos mercados desregulados defendiam a competição constante, a concorrência continuada traria grandes vantagens para os sistemas econômico e produtivo, os grandes defensores destas ideias eram os países ocidentais, notadamente a Inglaterra e os Estados Unidos, que espalharam para todos os poros da economia mundial as vantagens da competição constante, espalhando as ideias para as melhores universidades estrangeiras, criando e inaugurando institutos de pesquisas renomados e investindo milhões de dólares na formação de várias gerações de economistas, jornalistas, gestores, sociólogos e cientistas políticos para defenderem seus ideários, seus valores e seus interesses.

Do outro lado, encontramos defensores de ideias progressistas que defendiam a intervenção do Estado Nacional, acreditando que a atuação estatal seria fundamental para evitar as falhas do mercado, defendendo uma maior fiscalização dos excessos dos capitalistas e criando espaços para reduzir as desigualdades sociais criadas pelos mercados, garantindo oportunidades para todos os setores da comunidade, privilegiando os mais precarizados da sociedade, afinal, percebemos que vivemos numa das nações mais desiguais da comunidade internacional.

Estas teorias defendiam políticas públicas progressistas, defendendo protecionismo para os setores produtivos e investimentos governamentais para melhorar a convivência entre capital e trabalho, trazendo uma nova pauta para as discussões sociais e políticas, tais como mais investimentos em educação e em capital humano, maiores investimentos em escolas, ensino técnico e universidades e mais políticas públicas visando os interesses coletivos, além de defenderem maior tributação para os grupos mais privilegiados da sociedade, diminuição das isenções fiscais e tributárias, pautas rechaçadas pelos detentores do capital, que sempre pregaram e defenderam suas isenções fiscais que sempre garantiram seus interesses imediatos.

Neste momento, percebemos uma mudança substancial nas discussões na sociedade global, nações ocidentais ricas e desenvolvidas, além de industrializadas, passaram a defender mais protecionismos econômico e comercial, menor concorrência no ambiente produtivo internacional e, em contrapartida, nações anteriormente vistas como pobres e miseráveis, passaram a defender e estimular maior competição no comércio internacional. Países que rechaçavam a atuação dos governos nacionais e defendiam a concorrência global agora, clamam para a intervenção dos seus governos, pressionando seus governantes para defenderem seus interesses econômicos e produtivos, aceitando e estimulando a atuação militar e o uso da força bélica, como estamos vivenciando no ambiente global contemporâneo.

O mundo passa por grandes transformações estruturais, as ideologias estão em constantes movimentações, anteriormente as propostas eram ideológicas e coerentes, atualmente os interesses são puramente econômicos, neste cenário os escrúpulos inexistem, tudo se transformou em verdadeiros negócios, apenas…

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor Universitário.

Novos Protecionismos

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A economia internacional vem vivendo momentos de grandes transformações, os novos modelos econômicos estão alterando toda a estrutura produtiva, exigindo novos comportamentos, levando os governos a adotarem novas posturas para fortalecerem suas estruturas produtivas, protegendo seus empregos e defendendo seus interesses nacionais. Neste cenário, percebemos o crescimento do protecionismo, que cresce em todas as regiões do globo, gerando um verdadeiro desafio para os governos e os setores produtivos, levando grupos econômicos, que anteriormente criticavam a proteção estatal, a abraçarem e defender as políticas francamente protecionistas.

Poucas décadas atrás os agentes econômicos defendiam o processo de globalização como algo inevitável, levando os governos nacionais a abrirem suas estruturas econômicas e produtivas para atraírem novos atores externos como forma de sobrevivência, desta forma, nos anos 1990 foram marcados pela desnacionalização, abertura econômica e a privatização de empresas nacionais, acreditando que, com a venda de ativos governamentais, os novos proprietários impulsionariam o processo de desenvolvimento econômico, um grave equívoco, alienamos setores estratégicos, atraímos grandes conglomerados estrangeiros e passamos a aumentar a nossa dependência externa, desta forma, estamos pagando fortunas para acessar tecnologias estrangeiras.

A globalização estimulava fortemente a abertura econômica, a competição e a livre concorrência, motivadas pelo receituário neoliberal defendido pelas nações ocidentais que levaram seus setores produtivos a uma verdadeira encruzilhada, suas ideias não trouxeram os resultados esperados, ao contrário, na prática, os grandes ganhadores da era da globalização foram as nações asiáticas, notadamente a China, Coréia do Sul, dentre outras, que rechaçaram o receituário neoliberal e adotaram políticas muito diferentes, defendendo empresas nacionais, fortalecendo o papel do Estado Nacional como indutor do desenvolvimento e rechaçaram a entrada do capital estrangeiro especulativo, desta forma, as nações asiáticas foram as grandes ganhadoras da era da globalização e as nações desenvolvidas ocidentais que defendiam o pensamento liberal, perderam espaço no setor produtivo global, muitas delas sentem na pele uma forte desindustrialização precoce, que impacta na competitividade de suas estruturas produtivas.

Neste cenário, percebemos o incremento do protecionismo nas nações ocidentais, anteriormente defensoras da livre concorrência e da abertura econômica, agora buscam, notadamente o refúgio em ideias e pensamentos protecionistas e mercantilistas que rechaçavam anteriormente e, hipocritamente, passaram a adotar como forma de proteção de suas estruturas produtivas. Neste momento, percebemos o crescimento do fulgor protecionista norte-americano, buscando, abertamente, mostrar para a sociedade internacional o “America First”, gerando constrangimentos ideológicos, conflitos com outras nações e podendo levar a sociedade global a uma nova guerra.

Vivemos momentos de apreensão e instabilidades no cenário internacional, o protecionismo impacta sobre as estruturas econômica e produtiva gerando inimizades entre os povos e as nações, onde cada país busca seus interesses imediatos, seus ganhos monetários e financeiros, ativando ódios e ressentimentos, além de conflitos diplomáticos e agressões verbais, anteriormente esses conflitos levavam as nações a conversas e acordos mundiais para evitarem constrangimentos maiores, na atualidade, estes espaços de conversação e de discussão civilizada perderam força, levando os governos a fortes investimentos militares e gastos bélicos, postergando as conversas e resolvendo tudo na força e na ignorância. Nestas incertezas crescentes que dominam a sociedade global a América Latina sempre esteve distante dos grandes conflitos bélicos e militares, agora, percebemos que com os novos protecionismos estamos no centro dos grandes conflitos internacionais, infelizmente!

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor universitário.

Mundo pós Pandemia

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A sociedade internacional viveu momentos de mortes e destruições generalizadas pela recente pandemia que assolou a comunidade global, neste período milhões de pessoas perderam a vida, com graves constrangimentos sociais, degradações familiares, transformações estruturais, alterações crescentes do mundo do trabalho, incremento tecnológico e grandes incertezas. Essas mudanças estão em curso e as consequências são variadas, trazendo pontos positivos e negativos para toda a comunidade.

Neste período, as perguntas eram constantes, as respostas sempre foram insatisfatórias e os medos eram cada vez maiores, afinal quais são os impactos da pandemia para a sociedade internacional e quais são os setores que seriam afetados direta e indiretamente pela pandemia que assolava todas as regiões do mundo… As respostas ainda estão sendo construídas lentamente.

Depois que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o fim da pandemia, os dados são inconclusivos, uns acreditam em mais de 10 milhões de mortes, outras instituições acreditam em números mais elevados. Apesar de números muito elevados e assustadores, percebemos que a pandemia degradou muitas comunidades, famílias perderam vários integrantes, destruindo sonhos e aumentou as lembranças e as saudades de bilhões de pessoas, um momento de tristezas crescentes, desesperanças, medo e desajustes, além de ódios e ressentimentos generalizados e represados.

No mundo do trabalho, percebemos o incremento das tecnologias que passaram a transformar as relações entre capital e trabalho, onde o mercado passou a demandar mais trabalhadores com maiores qualificações, exigindo uma capacidade gerencial e comportamental dos profissionais. Os aplicativos passaram a ganhar espaço na sociedade e na estrutura econômica e produtiva, impulsionando negócios rentáveis e de perspectivas positivas, tais como Uber, Netflix e Airbnb, além dos bancos digitais, as cooperativas de créditos e as fintechs, que estão gerando uma verdadeira revolução no mercado de crédito, exigindo uma maior capacidade de fiscalização destes novos produtos financeiros e uma atuação mais sistemática das autoridades monetárias.

Muitos especialistas, acadêmicos e estudiosos da sociedade contemporânea acreditavam que o final da pandemia alteraria o comportamento dos seres humanos, afinal, neste período de incertezas sanitárias marcadas pelo medo de uma morte premente e precoce, poderiam gerar alterações nos valores dos indivíduos, reduzindo o imediatismo, o individualismo e o hedonismo, características nítidas da sociedade contemporânea. Infelizmente, passados anos do final da pandemia que devastou a sociedade internacional, os valores não foram alterados, a tão sonhada solidariedade, o respeito humano e os valores cristãos vêm perdendo espaço e os valores da acumulação capitalista estão dominando a sociedade global.

Nesta sociedade, percebemos que os valores da acumulação estão, cada vez mais dominando o cotidiano dos seres humanos, neste cenário, tudo se transforma em mercadorias, transformando as relações sociais em espaço de negócios ou negociatas, os setores governamentais estão sendo reduzidos e os espaços estão sendo abertos para negócios milionários para acomodar grupos poderosos e dotados de grande poder financeiros nacional e internacional, deixando de lado os interesses da comunidade e da população em prol da acumulação de poucos.

            A sociedade passa por momentos de apreensão e inquietação, a pandemia mobilizou as comunidades e destruíram os laços afetivos e emocionais, mas não teve força para alterar o comportamento dos seres humanos, cada vez mais ambicioso e imediatista, quem sabe, depois desta pandemia, outras catástrofes estão programadas para a comunidade global.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

Um Brasil e duas planilhas de gastos públicos, por Paulo Kliass

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Há uma cisão irracional. Cofres públicos são drenados pelo financismo: em um ano, país pagou quase R$ 1 trilhão em juros da dívida. Quando se trata da área social, vem o bombardeio midiático: “pauta bomba”, “irresponsabilidade fiscal”, “Brasil vai quebrar”… Paulo Kliass, OUTRAS PALAVRAS, 02/12/2025 A área econômica da Esplanada dos Ministérios sempre encheu a boca para se orgulhar de sua busca permanente pela austeridade fiscal. Desde antes da posse do terceiro mandato de Lula à frente da Presidência da República, o que se ouvia era o compromisso do futuro governo — que deveria marcar a ruptura com a direita e a extrema direita desde o golpe contra Dilma em 2016 — com a pauta ditada pelo financismo e pelos interesses da Faria Lima. bae.diggs dylan phoenix and Dentre tantos itens do conservadorismo econômico, ganhava destaque o engajamento com o objetivo de gerar recursos orçamentários para o pagamento de juros da dívida pública. Assim, de acordo com os cânones do manual do neoliberalismo internacional preconizado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), tal procedimento implicava a geração de superávit primário nas contas públicas. O próprio Lula emitia declarações ambíguas a esse respeito. Ao mesmo tempo em que prometia fazer mais e melhor do que nos dois primeiros mandatos, ele dizia antes das eleições de 2022, que: (…) “ninguém neste mundo demonstrou mais responsabilidade fiscal do que nós. O Brasil foi o único país do G20 que fez superávit primário durante os mandatos meu e da Dilma. Único do mundo” (…) [GN] Ora, não há razão alguma para um governo que se pretende progressista, com um pé de alguma forma ainda fincado no campo da esquerda, se vangloriar de ter realizado tanto superávit primário. E o pior de tudo é ainda considerar como virtude de orientação de programa governamental continuar desenvolvendo uma política econômica de inspiração neoliberal, ancorada na austeridade fiscal e no arrocho monetário. A título de exemplo, apenas durante os dois primeiros mandatos de Lula, o governo federal realizou uma despesa de R$ 2,6 trilhões para o pagamento de juros da dívida pública. Isso representou uma média de 4,5% do PIB com esse tipo de despesa orçamentária entre 2003 e 2010. Na verdade, esse tipo de dispêndio é a contrapartida do esforço para realizar superávit primário. Recorde de despesa com juros! Nunca antes da História deste país Mas o dramático é que o processo foi ainda mais agravado com o retorno de Lula ao Palácio do Planalto em 2023. O processo de comprometimento de recursos públicos com a esfera financeira foi aprofundado. De acordo com o mais recente Boletim de Estatísticas Fiscais do Banco Central (BC), a situação nunca esteve tão ruim. Como costuma afirmar o presidente, “nunca antes na História deste país” o setor público gastou tanto com uma despesa tão parasita e regressiva quanto no mês de outubro. De acordo com as informações exibidas no documento, naquele mês foram dispendidos R$ 114 bilhões com o pagamento de juros da dívida pública. Este foi o maior valor mensal da série histórica apurada pelo órgão. Este volume representou uma média de R$ 5 bi por cada um dos 23 dias úteis do mês. Uma loucura! Tanto mais impressionante se levarmos em conta o discurso do secretário-executivo do Ministério da Fazenda e dos órgãos da grande imprensa de forma geral quando o Senado Federal aprovou recentemente uma medida justa e necessária de regulamentar a aposentadoria especial para os agentes de saúde. A narrativa que se tentava impor era de uma “pauta bomba”, “irresponsabilidade fiscal” e por aí vai. Já o número dois de Fernando Haddad, Dario Durigan, saiu-se com bravatas e ameaças à decisão do Legislativo. (…) “Esse texto tem um impacto muito grande para os cofres públicos. É muito ruim do ponto de vista fiscal e não deveria avançar” (…) Assim, mais uma vez o ex-funcionário de uma das maiores empresas de big tech do mundo, a Meta (proprietária do WhatsApp), reverbera o pensamento conservador na condição de titular em exercício da pasta, uma vez que Haddad se encontrava em viagem ao exterior. Para ele, pouco importa se a determinação de conceder a aposentadoria especial a tais categorias já tenha sido estabelecida na própria Constituição. Ou seja, o Projeto de Lei Complementar PLP 185/2024 votado apenas regulamentava tal previsão. Além disso, não cabe na visão do economista de planilha a hipótese de que o projeto possa ser muito bom do ponto de vista de política social. Não! O único que importa para o olhar do financismo é a sua consequência fiscal. E ponto final. Pauta bomba são os juros! Algumas avaliações catastróficas estimavam o impacto da assim chamada “pauta bomba”, como “sendo de R$ 2,4 bi em 10 anos. Assim, teríamos um acréscimo de despesa orçamentária de R$ 2,4 bi a cada exercício por tal concessão às categorias que tanto ajudaram para impedir que os números da catástrofe da pandemia fossem ainda mais negativos. Não bastaram as 700 mil mortes provocadas em grande medida pela atitude criminosa de Bolsonaro, com seu combo de negacionismo e incompetência. Reconhecer a natureza de insalubridade e periculosidade das funções de tais categorias é uma medida de justiça social. O fato concreto é que os números do alarmismo não resistem a uma análise mais detalhada. O valor diário da despesa com juros em outubro equivale a dois anos do impacto da aposentadoria especial. Mas sobre isso ninguém fala em “pauta bomba”, em “gastança irresponsável” ou ameaças de quebra do Estado brasileiro. Para esse pessoal da Faria Lima, gastar a maior parte do orçamento público com o andar de cima é promover respeito aos contratos e assegurar credibilidade à política econômica. Já, por outro lado, fazer política pública dirigida à maioria da população, sob qualquer hipótese, teria o significado de romper o pacto da responsabilidade fiscal e deveria ser denunciado a todo instante como populismo e demagogia. Triste país, governado por uma elite tão obtusa quanto espoliadora! Além do recorde de valor mensal observado em outubro com as despesas financeiras para pagamento de juros da dívida pública, o mesmo Boletim do BC nos evidencia que estamos com outro valor máximo para a série histórica. Trata-se do acumulado dos últimos 12 meses para tal rubrica. Já alcançamos a marca de R$ 987 bi no período que vai de novembro de 2024 a outubro do presente ano. Além disso, houve um salto no que se refere à participação do volume pago de juros como proporção do PIB. Durante o primeiro biênio do terceiro mandato de Lula, o percentual subiu para uma média anual de 6,5%, um aumento de quase 50% em relação aos 4,5% do período 2003–2010. Caso a média do presente ano se mantenha, atingiremos 8,2% em dezembro. Ou seja, aqui está a verdadeira gastança irresponsável do orçamento público. Mas disso ninguém trata — nada de teto, limite ou contingenciamento nas despesas com juros. Que austeridade fiscal é essa? Assim, o que sobra da verborreia conservadora é que a narrativa da responsabilidade fiscal não se sustenta. O governo vem acumulando um déficit nominal anual superior a R$ 1 trilhão há um bom tempo. No entanto, a estratégia malandra de se prender apenas ao conceito de “primário” faz com que as despesas orçamentárias ditas financeiras não entrem no cálculo. Ora, que austeridade fiscal é essa? Mas que responsabilidade fiscal é essa? A retórica de defesa dos interesses do financismo bate no peito com orgulho quando se trata de ter a suposta “coragem” de cortar gastos em saúde, em assistência social, em educação, em previdência social, em segurança pública, em salários de servidores, dentre tantas outras rubricas. Mas é necessário recolocar o debate em seus termos. Afinal, as despesas com o pagamento de juros são tão orçamentárias quanto aquelas que se destinam ao pagamento do Benefício de Prestação Continuada (BPC). Os dispêndios financeiros são tão orçamentários quanto aqueles realizados com o pagamento das obrigações do Sistema Único de Saúde (SUS). Os gastos classificados como não-primários são tão orçamentários quanto aqueles que recebem o carimbo burocrático de primários. Tudo é uma questão de estabelecer prioridades. O governo elege o rigor com os gastos sociais para demonstrar seu compromisso com uma suposta “seriedade” no trato da coisa pública. Mas deixa correr solto o volume mastodôntico com juros. E o pior é que faz esse malabarismo retórico carregado de desonestidade política e intelectual. É preciso dizer alto e em bom som: não! O Brasil não está em equilíbrio fiscal, como pretende nos convencer o discurso oficialista. Estamos com déficit nominal superior a um trilhão de reais. E nem por isso o país vai quebrar ou estamos entrando na antessala do apocalipse. Apresentar esse tipo de resultado nas contas públicas não é tão problemático quanto nos faz crer o financismo de plantão. O que precisa ser revisto urgentemente é o foco enviesado em cortar, cortar e cortar apenas nas rubricas sociais e de investimento.

Contradições constantes

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Vivemos numa sociedade marcada por grandes contradições sociais, econômicas e políticas, nesta sociedade nos afogamos no consumo de produtos e mercadorias desnecessárias e supérfluas, gastamos fortunas monetárias para resolvermos problemas de nossa saúde física contraídas na busca crescente pelo entesouramento material, desenvolvemos produtos de alta complexidade tecnológica e não nos incomodamos quando concidadãos vivem na miséria e na indignidade e neste cenário de concorrência constante, criticamos o comportamento social centrado na busca frenética pela acumulação financeira e estimulamos uma postura marcada pelo individualismo e pelo imediatismo que dominam a sociedade contemporânea, transformando comportamentos e costumes cotidianos. Neste momento marcado pelo predomínio das redes sociais e das mídias digitais, os indivíduos se apresentam socialmente como detentores de uma vida perfeita, corpos esculturais e cheios de curvas sensuais, neste ambiente, as pessoas mostram suas virtudes físicas e intelectuais e, ao mesmo tempo, escondem uma realidade que apresenta grandes doses de desequilíbrios emocionais, recorrendo a usos constantes de antidepressivos, calmantes e ansiolíticos, como forma de combater desajustes estruturais da sociedade, evitando as tristezas e as desesperanças. Neste ambiente de constante competição, onde os valores são analisados pelos resultados imediatos, os ganhos monetários e financeiros ganham espaço, as empresas impõem metas mirabolantes, a concorrência no mercado de trabalho cresce de forma acelerada, transformando colegas de trabalho em verdadeiros competidores cruéis, onde os valores éticos e morais são deixados de lado e, muitas vezes, amigos perdem suas amizades e seus sentimentos de fraternidade são substituídos por mágoas, rancores e ressentimentos. Recentemente, presenciamos a chamada COP 30, um espaço de discussões internacionais, onde o centro das conversas e reflexões estavam no Meio Ambiente, no clima, nas florestas e na temperatura do Planeta Terra, onde encontramos variados grupos políticos se digladiando para se eximir das responsabilidades climáticas. Neste encontro, percebemos grupos poderosos negando as transformações climáticas, estimulando a degradação ambiental e defendendo os modelos econômicos dominantes, se esquecendo das consequências funestas que estão impactando todas as nações, principalmente os países subdesenvolvidos. Neste cenário de grandes problemas e desafios crescentes, percebemos movimentos negacionistas que ganham relevância na sociedade global, vistos como salvadores da pátria, por uma parte significativa da sociedade, responsáveis por propostas superficiais e limitadas, que postergam propostas estruturais e impedem a solução definitiva dos grandes problemas contemporâneos. Na verdade, devemos analisar profundamente e investigar com seriedade se estes grupos querem resolver realmente os problemas ou se alimentam destes desequilíbrios? Falamos constantemente em segurança pública, acreditando que este tema é um dos maiores problemas nacionais, para resolver esse imbróglio vendem ilusões constantes e simplificadas: aumento do encarceramento, aumento das chacinas policiais, fomentando a compra de armas da população, endurecimento das penas em cadeias dominadas por grupos criminosos, dentre outras inúmeras medidas que sempre foram adotadas e os resultados são sempre os mesmos, aumento do crime organizado, que saem dos morros e passam a se refugiar nos centros financeiros, violência urbana crescente, milícias ganhando espaços centrais em muitas comunidades e a fragilidade dos órgãos repressores, além disso, não podemos esquecer da corrupção, que cresce de forma acelerada e se espalha para todos os setores do Estado Nacional. Na sociedade contemporânea, os problemas crescem de forma acelerada, resolver tais problemas exigem maturidade, menos propagandas e menos bravatas. Ary Ramos da Silva Júnior, bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

O problema da esquerda é a Segurança? por Antonio Martins

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Tema voltou ao centro do debate político. Agora, muitos pensam que nele está a chave para a vitória – ou a derrota – de Lula em 2026. É um equívoco grave e há alternativas. Em especial, na disputa em torno das eleições para o Congresso Antonio Martins – OUTRAS PALAVRAS – 19/11/2025 A disputa eleitoral de 2026 promete eletrizar o país. O ano nem começou e o debate sobre as táticas políticas e eleitorais já está aquecido. No movimento mais recente, figuras destacadas entre a esquerda passaram a argumentar em favor da centralidade de um programa de Segurança Pública para Lula. Em vídeo, o ex-ministro José Dirceu alertou tanto para a urgência de ações contra o crime organizado quanto para a necessidade de elas respeitarem o Estado de direito, diferenciando-se das posições puramente repressoras do bolsonarismo. Renato Rovai, diretor da revista Fórum, foi além. Para ele, Lula deve criar uma secretaria de Segurança Pública diretamente vinculada à Presidência (portanto, autônoma em relação ao Ministério da Justiça) e colocá-la sob o comando de Ricardo Cappelli, ex-interventor da área no Distrito Federal (após a tentativa de golpe de 2023). Por sua vez, Cappelli, embora à frente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, tem comparecido às redes sociais para falar… de Segurança. Numa série de textos e vídeos, ele sustenta que, ao tratar do tema, a esquerda precisa combinar inteligência e planejamento com uso efetivo da força; que é preciso superar as “visões românticas” e recuperar os territórios hoje controlados por facções criminosas e milícias; e, finalmente, que “este é o último flanco que pode ameaçar 2026”. Há bases reais para esse frisson em torno da Segurança. Em toda a América Latina, do México ao Chile, a ultradireita identificou no tema um novo filão político e eleitoral — riquíssimo — a explorar. No Brasil, a tendência preencheu um vazio criado pelo declínio de Bolsonaro. Escancarou-se no final de outubro, quando o governo do Rio de Janeiro planejou e praticou um massacre contra as comunidades do Alemão e da Penha. Apesar das mais de 120 mortes e dos múltiplos sinais de selvageria da polícia, a chacina teve apoio majoritário da população, oprimida pelo controle que grupos armados exercem sobre vastas áreas das metrópoles. Por fim, há de fato entre a esquerda imensas lacunas teóricas e práticas a respeito do tema, visto em geral com preconceito e desenvolvido solitariamente por um pequeno grupo de pesquisadores. Superar este déficit é necessário e urgente. No entanto, esta ausência não será solucionada no curto espaço de tempo até as eleições. As tentativas de manipulação da ultradireita devem e podem ser neutralizadas. Mas transformar este movimento na estratégia principal da esquerda rumo às eleições seria cair numa cilada. Primeiro, porque significaria transferir o combate para o campo mais favorável ao adversário. Segundo, porque desviaria a atenção das enormes tarefas que ainda estão pendentes para que a candidatura Lula torne-se vencedora e — mais que isso — proponha um horizonte e um caminho para a reconstrução do país em novas bases. Desviar para a Segurança o centro da atividade e da reflexão política colocaria em grave risco a recuperação vivida pelo governo Lula nos últimos seis meses. A partir de junho, o Palácio do Planalto rompeu com a passividade diante das forças conservadoras, que havia adotado nos primeiros dois anos e meio de mandato. Emparedado no Congresso, retomou a bandeira da justiça tributária. Associou as resistências dos parlamentares à defesa dos privilégios das elites. Pouco mais tarde, pressionado pelo tarifaço de Donald Trump, respondeu altivamente, diferenciando-se das posturas submissas adotadas pelos governantes de blocos e países mais poderosos, como União Europeia e Japão. Os resultados foram rápidos e notáveis. A curva de popularidade do governo, que era negativa e piorava, inverteu-se. Lula 3 recuperou apoio dos setores que serão decisivos para dar-lhe impulso em 2026: as mulheres, os nordestinos, os mais pobres. Como consequência, a própria correlação de forças no Congresso inverteu-se, com o governo conquistando vitórias decisivas. Uma primeira mudança real no Imposto de Renda, que se arrastava há muitos anos na poeira dos escaninhos parlamentares e terá resultados sensíveis na renda da grande maioria das famílias, foi aprovada por unanimidade. Ao final de outubro, o cenário político e eleitoral para 2026 parecia invertido. Todas as pesquisas de opinião sinalizavam vitória relativamente folgada de Lula diante de qualquer um de seus adversários. Ocorre que o giro do governo limitou-se essencialmente, até o momento, ao plano da retórica — e aí está seu calcanhar-de-aquiles. Para que o novo ânimo social se consolide, o discurso que remete às injustiças históricas precisa materializar-se em mudanças sensíveis nas condições de vida e, mais adiante, na imagem de outro país possível. Isso não ocorreu. O desemprego é o mais baixo em muitos anos, mas as ocupações disponíveis são precárias, mal remuneradas e sem direitos. As calçadas estão coalhadas de sem-teto. A fila de espera por uma aposentadoria é maior do que foi no governo Bolsonaro. A reforma agrária está estancada. Não há sinais de reverter a regressão produtiva que, há 40 anos, reprimariza a economia e mantém o país cada vez mais distante das grandes transformações tecnológicas do século. Falta dinheiro para tudo: o novo discurso não demoveu nem Fernando Haddad, nem Lula, de seu compromisso com um “ajuste fiscal” e um “déficit zero” anacrônicos. No plano externo, o governo cogita oferecer, em troca de redução das tarifas de Trump, acesso dos EUA às terras raras brasileiras e parcerias com as big techs norte-americanas. É nessa brecha entre a retórica combativa e as condições de vida estagnadas no presente e no futuro que a direita pôde penetrar, com a pauta da Segurança. Seu discurso tem duas dimensões. Primeiro, apoderar-se do desejo de mudanças, apequenando-o (“Se a vida não muda, que pelo menos seja possível circular sem risco de vida e — principalmente — que a morte dos ‘malfeitores’ alivie a nossa dor”). Segundo, mudar a pauta. O imaginário coletivo precisa estar voltado para o medo, não para a luta contra as injustiças. Vistas as coisas em sua real dimensão, fica clara a arapuca de aceitar o combate nos termos propostos pela ultradireita. A resposta principal ao discurso do medo não pode ser tentar dirigi-lo, mas abrir as cortinas de outro país possível. O esforço pode começar pelas pautas que o próprio governo já diz ter encampado — mas hesita em concretizar. O fim da escala 6×1 e o passe livre nacional não podem se reduzir a jogadas de marketing pré-eleições. Precisam converter-se em metas de mobilização concreta. Movimentos da sociedade civil (onde se originaram) e governo (que parece disposto a abraçá-los) deveriam atuar juntos para promover manifestações, espalhar comitês pelo país, incluir as propostas na agenda do Congresso. Tensionar a agenda política em nome dos direitos sociais. Expor a diferença entre projetos. Fatos recentes, como a eleição de Zohran Mamdani à prefeitura de Nova York — com um programa avançado e milhares de ativistas nas ruas — mostram haver espaço para sacudir conjunturas adversas. É possível romper o marasmo de mobilizações, mesmo quando se apresentam propostas de mudança que contrariam a lógica neoliberal. Elas passam a ser vistas como viáveis pelo próprio senso comum, quando há algum esforço de politização — e não se teme contrariar interesses poderosos. Temas como o endividamento sufocante da população, os aluguéis submetidos à especulação imobiliária ou as contas de consumo escorchantes dos serviços públicos privatizados pedem para entrar na agenda de uma esquerda que não se conforme com os limites de uma vida submetida aos mercados. Num horizonte um pouco mais distante, o das transformações estruturais, pode-se suscitar a proposta muito contemporânea de garantia, pelo Estado, de trabalho digno para quem o reivindique. É um caminho tanto para reverter na prática as contrarreformas trabalhistas quanto para realizar as obras de infraestrutura necessárias para modernizar o país. Permite iniciar, por exemplo, a transformação urbanística das periferias, a construção de redes de transporte público que reduzam as horas perdidas nos deslocamentos nas metrópoles, a reconstrução da rede ferroviária brasileira ou a despoluição dos rios urbanos. A garantia de Segurança Pública aparece, neste contexto, como mais um direito indispensável, numa lógica de reconstrução nacional. Não se trata de postergar o debate do tema, nem de reduzir sua importância. Suas especificidades têm, é claro, de ser tratadas desde já. Pensadores como Luís Eduardo Soares têm construído há muitos anos, com base em experiências concretas de gestão, caminhos para agir. São abordagens orgânicas. Nelas, a Segurança surge como parte de um programa de transformações que pode conquistar o apoio das maiorias. Vão muito além de propor, como receita mágica para 2026, Lula 3 + Pulso Firme. A política brasileira reduziu-se tanto a marketing, nas últimas décadas, que a disputa de projetos parece às vezes nostálgica. O problema é agravado pela necessidade de derrotar a ultradireita. Ela se repetirá em 2026 e exigirá de novo a formação de uma frente ampla nas eleições majoritárias. Esta contingência não precisa paralisar quem enxerga os limites do jogo eleitoral existente. As eleições parlamentares oferecem uma brecha possível. Delas participarão centenas de candidatas e candidatos comprometidos com a transformação mais profunda do país. No momento, estão atomizados. Submetidos à lógica institucional, restringem-se a disputar os votos de seu eleitorado. O cenário mudará caso seja possível articular a tempo algo como uma Plataforma Popular. Se construída coletivamente, ela poderá apresentar à sociedade uma visão comum dos dramas do país e das transformações necessárias. Dará dimensão nacional a candidaturas que, de outra forma, poderiam passar despercebidas. Permitirá a elas participar da disputa contra a ultradireita sem se dissolver nas generalidades da Frente Amplíssima. Uma das piores características da nova cena política criada pelo pensamento único e pelas redes sociais é o apagamento das ideias de “projeto”, “futuro” e “horizonte”. Agora, cada última emergência (e elas não param de se suceder umas às outras) aparece como o único incêndio a apagar, aquilo a que todas as demais pautas devem se submeter — não importa a relevância estratégica que tenha. É possível reverter esta sentença — mesmo em termos tão urgentes como a Segurança Pública.

Argentina, um dominium norte-americano? por José Luís Fiori

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José Luís Fiori – A Terra é Redonda – 19/11/2025 A pergunta que persegue a Argentina não é se pagará sua dívida, mas até quando aceitará trocar sua soberania pelo eterno papel de vassalo financeiro 1. Desta vez, a “operação de salvatagem”[1] da Argentina foi feita ao estilo de Donald Trump, como se fosse um grande espetáculo midiático, envolvendo diretamente o presidente americano, seu secretário do Tesouro, Scott Bessent, e os representantes dos principais bancos credores da Argentina liderados por Jamie Dimon, CEO do JP Morgan Chase. No mês de setembro de 2025, a Argentina encontrava-se em situação pré-falimentar, sem recursos para pagar o serviço da sua dívida com os bancos internacionais e com o FMI. O valor do peso estava em queda livre, e previa-se a derrota do presidente Javier Milei nas eleições parlamentares do dia 26 de outubro, seguida de uma corrida contra o peso e uma explosão inflacionária. A comunidade financeira internacional já antecipava uma nova moratória da dívida externa argentina, criando pânico nos mercados financeiros internacionais, tanto em Wall Street como na City de Londres. Foi nesse contexto emergencial que Scott Bessent anunciou, no dia 15 de outubro, a intervenção direta do Tesouro Americano, comprando pesos numa operação de swap loan de US$ 20 bilhões,[2] para impedir o colapso da moeda “portenha” às vésperas das eleições parlamentares. E logo em seguida, no dia 22 de outubro, desembarcaram em Buenos Aires os representantes dos quatro maiores bancos americanos – J.P. Morgan Chase, Goldman Sachs, Bank of America e Citigroup –, incluindo o ex-primeiro-ministro inglês Tony Blair, que agora é uma figura de proa do J.P. Morgan Chase International.[3] Em poucas horas foi montado um pacote de ajuda privada de US$ 20 bilhões, totalizando um resgate de US$ 40 bilhões, desta vez sem a participação do FMI. Esse tipo de intervenção externa na economia argentina não é um fenômeno novo nem excepcional. Basta dizer que, desde os anos 1950 a Argentina já recorreu mais de 20 vezes à ajuda emergencial do FMI. E, hoje, a Argentina é o país que tem a maior dívida do mundo com o Fundo, à frente da Ucrânia, que aparece em segundo lugar, depois de três anos de guerra. Somando tudo, a Argentina recebeu nesses oitenta anos cerca de 35% do montante total de US$ 164 bilhões emprestados pelo FMI para todos seus clientes ao redor do mundo.[4] Entre 1976 e 1981, durante a última ditadura militar argentina, o ministro da economia Martinez de Hoz utilizou pela primeira vez a estratégia de fortalecimento artificial do peso frente ao dólar, como forma de legitimar o regime militar, dando aos argentinos um poder de compra internacional inflado. A política econômica do ministro Martinez de Hoz facilitou a especulação financeira e enriqueceu um setor da sociedade argentina, permitindo-lhe acumular dólares a baixo custo, deixando, entretanto, uma dívida externa que se tornou impagável depois do “choque” das taxas de juros de Paul Volcker em 1979, provocando uma crise econômica e uma escalada inflacionária que contribuíram decisivamente para a queda do governo de Reynaldo Bignone e o fim da ditadura militar, em dezembro de 1983. 2. Para enfrentar esta crise econômica, o então presidente do Banco Central da Argentina, Domingos Cavallo, transferiu a dívida privada para o Tesouro Nacional em 1982, enquanto sucessivas desvalorizações do peso fizeram com que a inflação doméstica e o dólar disparassem. Assim mesmo, o Estado só conseguiu cobrir parcialmente os juros da dívida alimentando ainda mais a inflação e o endividamento recorrendo a novos financiamentos externos. Seguiu-se o governo do presidente radical, Raul Alfonsin, e o fracasso do seu Plano Austral de combate à inflação, culminando com sua própria renúncia seis meses antes do fim do seu mandato, em 8 de julho de 1989. No início da década seguinte, o mesmo Domingo Cavallo, agora na condição de ministro da Economia do governo peronista de Carlos Menem, voltou à estratégia de fortalecimento artificial do peso, através da sua Lei da Convertibilidade, aprovada em 1991, que estabeleceu um câmbio fixo entre o peso e o dólar, e representou na prática a “dolarização” da economia argentina. Seu objetivo era conter a inflação, mas acabou causando, sete anos depois, uma nova explosão hiperinflacionária que levou ao colapso da economia argentina e a uma crise política sem precedentes. O novo presidente radical, Fernando de la Rua, eleito em 1999, renunciou em 2001, e em apenas duas semanas a Argentina teve cinco presidentes, seu sistema monetário se desintegrou e a sociedade argentina esteve à beira do caos. Para culminar, o presidente interino, Adolfo Rodrigues Sá, decretou – no dia 23 de dezembro de 2001 – a moratória da dívida argentina, dando um calote na “comunidade financeira internacional” de US$ 93 bilhões. Depois disto, durante o período dos governos peronistas de Nestor e Cristina Kirchner, entre 2003 e 2015, a Argentina conseguiu honrar o serviço da sua dívida externa, graças aos preços extraordinários das commodities argentinas no mercado internacional. Mas em 2018, o presidente conservador Mauricio Macri voltou ao FMI, e obteve um empréstimo de US$ 45 bilhões, o maior que já havia sido concedido em toda a história da instituição. Entre seus objetivos não declarados, estava a reeleição do próprio presidente Mauricio Macri em 2019, mas ele foi derrotado já no primeiro turno, e seu sucessor, o peronista Alberto Fernández, passou a maior parte do seu governo renegociando uma forma mais elástica de pagamento do serviço da dívida com o FMI. 3. O insucesso econômico de Alberto Fernández contribuiu diretamente para a vitória de Javier Milei nas eleições presidenciais de 2023, com sua proposta ultraliberal de “eliminação do Estado” e “dolarização da economia”, voltando uma vez mais à tese ortodoxa e neoliberal de que a inflação é uma consequência dos abusos da “elite política” e de sua gastança fiscal. Um ano e quatro meses depois da sua posse, em abril de 2024, Javier Milei bateu às portas do FMI, onde foi recebido com entusiasmo pela sua presidenta, Kristalina Georgieva, e recebeu mais um empréstimo de US$ 20 bilhões, sem que a Argentina tivesse conseguido pagar um centavo de sua dívida de US$ 45 bilhões contraída por Mauricio Macri em 2018. E agora, seis meses apenas depois dessa ida ao FMI, Javier Milei já teve que ser socorrido uma vez mais pela nova operação de salvatagem da Argentina, no valor de US$ 40 bilhões, organizada por Donald Trump, Scott Bessent e Jamie Dimon. Numa matéria de destaque no jornal The New York Times sobre a Argentina, dia 23 de outubro, o articulista se pergunta com um certo ceticismo sobre o que passará se, no ano de 2026, o governo argentino não tiver recursos – uma vez mais – para honrar seus novos compromissos? Nesse ponto, para responder com franqueza ao The New York Times, há que ter claro que a Argentina não pagará jamais a sua dívida externa. Não tem a menor condição de fazê-lo, mas este não é e nunca será um grande problema. O FMI e os bancos privados rolarão mil vezes o passivo internacional da Argentina, desde que seu governo siga a cartilha ortodoxa do FMI. Afinal, nem os bancos privados nem o FMI vivem das dívidas pagas; eles vivem das novas dívidas contraídas e do pagamento regular de seus juros e demais serviços. O sonho da oligarquia econômica e da elite política conservadora argentina sempre foi estabelecer uma “relação carnal”[5] com os Estados Unidos, transformando a Argentina em um dominium norte-americano, como foi o caso de Canadá, Austrália e Nova Zelândia com relação à Inglaterra – mesmo que a cada nova crise e “ajuste” ou “arrocho interno”, a sociedade argentina fique mais pobre e subdesenvolvida, coisa que a Argentina nunca foi no passado. De qualquer maneira, a grande questão que o The New York Times não se coloca é saber se os Estados Unidos – depois de Donald Trump – quererão assumir o custo de um dominium na América do Sul, ou preferirão apenas manter a Argentina na condição de um vassalo de segunda linha (como outros pequenos países, tipo Equador, El Salvador, Guatemala etc.) “rolando sua dívida” de tempos em tempos, desde que os argentinos se comportem bem, sejam obedientes e rezem pelo catecismo do FMI. Neste novo modelo de vassalagem, o país paga sua dívida com seus recursos mas segue endividado em dólares. José Luís Fiori é professor emérito da UFRJ. Autor, entre outros livros, de Uma teoria do poder global (Vozes). Notas [1] Expressão utilizada por Guido di Tella ao referir-se ao objetivo central de sala política externa, na condição de Chanceler do governo peronista de Carlos Menem, entre 1991 e 1999. [2] Nome técnico dado a um conjunto de providências a serem tomadas para um resgate e/ou manutenção da vida após um grande desastre. [3] Financial Times. Investors bet Argentina will devalue peso despite $40 bn USS rescue effort. 23 October 2025. [4] The New York Times International Edition. Staking taxpayer Money on Argentina.