Conflitos monetários

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A economia internacional vem passando por momentos de grandes tensões econômicas e movimentações geopolíticas, onde os conflitos se disseminam para todas as regiões do mundo, gerando instabilidades nos preços, criando inseguranças institucionais e violências generalizadas.

Neste cenário, percebemos os conflitos militares e as intervenções na soberania de inúmeras nações e muitos desconhecem que, por trás deste ambiente de confrontos cotidianos, percebemos uma verdadeira guerra monetária entre os países, buscando hegemonias e dominações, um conflito que impacta todos os povos, alterando as estruturas produtivas e criando embaraços econômicos e produtivos.

Todos sabemos que a moeda dominante da economia internacional é o dólar norte-americano, este poder monetário foi imposto pelos Estados Unidos no pós-segunda guerra mundial, onde seu poderio econômico e sua força política eram evidentes e inquestionáveis, forçando as outras economias a aceitarem o dólar como a moeda reserva global, diante disso, as nações passaram a acumular a moeda norte-americana, acumular recursos e, desta forma, participar das trocas mundiais.

Como os Estados Unidos eram a maior econômica mundial, responsável por grande parte da indústria global os laços comerciais cresciam de forma acelerada, os empréstimos estrangeiros eram feitos em dólares, os investimentos externos diretos eram em moeda norte-americana, os fluxos financeiros eram dominados pelos dólares e, desta forma, esta nação passou a acumular um poder pouco visto na sociedade internacional, tudo isso levou o Ministro das Finanças da França, Giscard d”Estaing, no governo do  general De Gaulle a cunhar a expressão privilégio exorbitante, para definir o grande poder baseado no domínio monetário dos Estados Unidos.

No começo de 1974 foi assinado o acordo entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita, conhecido mundialmente de “petrodólar”, estabelecendo, com isso, que o reino passaria a vender petróleo exclusivamente em dólares americanos, garantindo a hegemonia da moeda e financiando o tesouro dos EUA, em troca, os norte-americanos passaram a oferecer segurança militar e apoio técnico, ampliando a construção de bases militares e fortalecendo os laços políticos e econômicos.

Em junho de 2024, a Arábia Saudita optou por não renovar o acordo original de 50 anos, abrindo espaço para vendas em outras moedas (como yuan ou euro), sinalizando uma nova estratégia econômica e financeira dos sauditas, gerando uma verdadeira revolução nos meios de pagamentos.

Nas últimas décadas, percebemos movimentos de fragilização do dólar como moeda global, a ascensão econômica da Ásia, o fortalecimento dos Brics que passaram a negociar com suas respectivas moedas, além da perda de confiança na moeda norte-americana, alto endividamento americano, riscos geopolíticos, guerras comerciais e sanções contra vários parceiros, tudo isso, contribuiu imensamente para que outras nações passassem a buscar alternativas ao dólar norte-americano, iniciando um movimento que vem sendo chamado de desdolarização, com isso, os bancos centrais de outros países estão comprando ouro e reduzindo as exposição à moeda norte-americana.

Vivemos um momento de conflitos variados, as guerras em curso na sociedade global não têm nada a ver com a defesa de povos oprimidos por governos autoritários e reacionários, os conflitos em curso na sociedade contemporânea estão ligados ao poder econômico, a capacidade de controlar o petróleo e a manutenção da hegemonia do dólar como a moeda internacional, afinal, como disse o ministro francês, os norte-americanos não vão renunciar seu privilégio exorbitante.

Ary Ramos da Silva Júnior, bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

Ary Ramos
Ary Ramos
Doutor em Sociologia (Unesp)

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