Brasil NÃO é dos brasileiros, por Michael França

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Loteria do nascimento define quem será forasteiro dentro das próprias terras

Michael França, Ciclista, vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico, economista pela USP e pesquisador do Insper. Foi visiting scholar nas universidades de Columbia e Stanford. Folha de São Paulo, 05/08/2025

Nascer em uma família rica ainda é um dos maiores determinantes para continuar tendo riqueza material no futuro. Não porque essas pessoas, ou ao menos parte delas, não trabalhem duro. Mas porque o jogo da vida começou a pavimentar seus caminhos antes que seus pés tocassem a estrada. Agora, veja bem. A narrativa de vencer por conta própria é bonita. Todos nós queremos acreditar que, com esforço e dedicação, podemos alcançar nossos objetivos. Essa é uma crença poderosa e necessária. Mas ela não pode alimentar uma mentira reconfortante. Porque, se fecharmos os olhos para o terreno desigual onde tantos brasileiros começam a vida, não estaremos apenas traindo o ideal de justiça. Estaremos adiando o dia em que o Brasil se tornará a grande nação que deveria ser. O país, como está moldado hoje, é uma fábrica de destruição não só do potencial humano como também de seu próprio povo. Nenhum país consegue crescer de forma sustentada quando sua população está presa em um sistema de castas disfarçado de instituições livres. Nenhuma economia será forte se continuar impedindo que grande parte das capacidades de seu povo se realize. Meu novo livro busca sintetizar, em uma linguagem acessível, parte desse nosso drama. A obra “A Loteria do Nascimento”, escrita em parceria com o sociólogo Fillipi Nascimento, tem um subtítulo tão provocador quanto a própria obra: “Filha do porteiro termina a universidade, mas não alcança o filho do rico”. O argumento central é que educação não basta. Há uma engrenagem social e econômica hereditária que favorece os mesmos de sempre, sempre. E, se quisermos construir um Brasil à altura de suas promessas, precisamos quebrar essa engrenagem. Esse livro não é um manifesto contra as elites. Ele é um chamado à consciência. Ele não prega ressentimento. Ele propõe responsabilidade. E isso é o que líderes de verdade fazem. Nós encaramos os fatos com coragem. Nós reconhecemos as falhas do presente, mas trabalhamos por um futuro diferente. Eu acredito. E acredito com força. Acredito que nossa realidade pode mudar. Mas a mudança só vem quando cada um de nós entende que tem responsabilidades individuais e coletivas. E que não dá mais para aceitar um país onde o destino de milhões está escrito antes mesmo de aprenderem a escrever o próprio nome. Essa é a nossa missão. Abrir caminhos. Destruir as divisões. Esvaziar as trincheiras que nos separam. Desfazer heranças que aprisionam. Garantir que a determinação seja recompensada, não sufocada. Que a loteria do nascimento não determine o tamanho dos sonhos. Que o Brasil seja mais do que uma promessa para poucos e se torne, de fato, um lar para todos. E, para isso, não precisamos acender um holofote. Precisamos, apenas, que cada um de nós, onde quer que esteja, acenda a sua pequena luz. sophie rain nudes E a deixe brilhar.  

Trump está vencendo? por Samuel Pessoa

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Republicano tem conseguido fechar acordos comerciais favoráveis a ele

Samuel Pessoa, Pesquisador do BTG Pactual e do FGV IBRE e doutor em economia.

Folha de São Paulo, 03/08/2025

Trump tem fechado acordos em que os Estados Unidos impõem uma tarifa de importação e a contraparte não tarifa os americanos. Foi assim com o Japão e com a União Europeia.  É necessário sabermos os detalhes dos acordos, as letras miúdas, mas tudo sugere que há, sim, certa assimetria. Somente com a China parece não haver essa discrepância.

Esse desfecho não é surpreendente. Pela escala da economia americana e por ter um déficit estrutural, a perda de bem-estar resultante de uma guerra comercial é menor para os EUA.

As simulações sugerem que, em uma guerra comercial aberta —todos contra todos—, as perdas dos EUA são bem menores do que as dos demais países. Os EUA perdem em bem-estar o equivalente a 1% do consumo. A América do Sul perde 3%, e a Europa, de 7,5% a 10%. A China perde de 13% a 20%.

Os autores do estudo, publicado no volume 4 (de 2014) do Handbook of International Economics, consideram, em suas simulações, a América do Norte conjuntamente. O estudo é rico o suficiente para considerar competição imperfeita e a existência de cadeias globais de valores, além de heterogeneidade entre as empresas dentro de um mesmo país.

O ponto importante a reter é que os EUA têm um maior poder de barganha. E o está exercendo. É essa a explicação para os acordos com o Japão e a União Europeia.

O maior poder de barganha, no entanto, parece que não tem funcionado para a China. Também esperado. O poder de barganha segue da perda de bem-estar em caso de guerra tarifária aberta. Ora, perda de bem-estar é uma ameaça crível entre democracias. Não é o caso chinês. Xi não terá de enfrentar eleições nos próximos anos. Merkel já havia incorrido no mesmo erro com Putin: vínculos comerciais não moderam ditadores.

Trump também tem sido bem-sucedido em seu empenho em desvalorizar o dólar. A ver os efeitos de longo prazo que colherá. Mas em um primeiro momento ajuda na competitividade da economia, um dos seus objetivos mais importantes.

Então podemos afirmar que Trump está ganhando? Penso que não. Há sinais de que a desaceleração chegou. O crescimento da economia americana no primeiro semestre foi de 0,6%, ou 1,2% se anualizarmos a taxa. A economia antes de Trump crescia a 2,5% a 3%.

Parte da desaceleração é fruto da política monetária que finalmente parece bater na demanda. O crescimento do consumo no primeiro semestre foi de somente 1%, já considerando a taxa anualizada. Antes de Trump, rodava em média a 3%.

De qualquer forma, o choque inflacionário fruto da política tarifária, que começa a aparecer nas estatísticas —de março a junho a inflação ao consumidor acumulada em 12 meses cresceu 0,3 ponto percentual—, atrasará e reduzirá a intensidade do ciclo de queda de juros

Mas o mais importante é que a trumponomics, em prazos maiores, matará a força do crescimento americano das últimas décadas. A taxa de crescimento da produtividade, maior do que na Europa, deverá cair como consequência da desglobalização induzida por Trump. O ataque às universidades somente agravará a longo prazo o desempenho da produtividade americana.

Para a esquerda brasileira, parece-me que sobram duas lições. A primeira é que ninguém ganha quando o presidente da República ataca diretamente o presidente do Banco Central.

Em segundo lugar, vale lembrar todo o ruído e a campanha contra a globalização capitaneada pela esquerda nas últimas décadas. Tanto se pediu que apareceu um líder empenhado em realizar o desejo da esquerda brasileira. Não parece ser positivo para o Brasil ou para o mundo.

 

 

O neoliberalismo morreu? por Eleutério F. S. Prado

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Por Eleutério F. S. Prado – A Terra é Redonda – 04/08/2025

O fascismo substitui a ordem econômica individualista e concorrencial por uma ordem corporativa e cooperativa integral: ao invés de uma ditadura do proletariado, o fascismo cria uma ditadura explícita do capital em que o comando da acumulação está centralizado politicamente

1.

A questão é bem controversa. Segundo Nancy Fraser, o neoliberalismo não morreu; contudo, passou da fase progressista para uma fase reacionária (veja-se a nota Depois do neoliberalismo). Já para Branko Milanovic o mundo está entrando em uma nova era, mas o neoliberalismo não chegou ao fim. Segundo ele, os países ricos adotam agora uma política com dupla face: abandonam a globalização neoliberal internacionalmente, mas continuam a promover um projeto neoliberal internamente (veja-se a nota O que vem depois da globalização?).

Há, contudo, autores que contestam essas teses e que afirmam do neoliberalismo que ele já faleceu. Para eles, o passamento dessa ideologia indutora de práticas políticas em prol do capital, que dominou e moldou o capitalismo a partir dos anos 1980 do século passado, já aconteceu.

Veja-se o que diz, por exemplo, Stavros Mavroudeas num artigo recém-publicado [1]: “Existe ainda hoje uma presunção generalizada de que o neoliberalismo continua sendo o paradigma político-econômico dominante no Ocidente, mas também na maior parte do mundo. Este artigo argumenta que isso não é verdade e que, desde o início do século XXI, ele caiu em desgraça e foi substituído pelo igualmente conservador neokeynesianismo, o qual adota um novo consenso macroeconômico. O sinal fundamental dessa transição é o amplo e crescente intervencionismo econômico estatal, o qual está pontificando até mesmo nos países que eram considerados bastiões do paradigma anterior”.

Como ele chega a essa conclusão? Ora, é preciso prestar atenção ao modo específico como define o neoliberalismo. Como se pode deduzir de sua tese, para ele, o neoliberalismo caracteriza-se por uma crença na eficiência e na eficácia dos mercados e, assim, por uma rejeição in limine da intervenção estatal como forma corrigir e de suplementar o modo – supostamente espontâneo – como funcionam.

Eis como ele adianta essa abordagem: “A tese fundamental [do neoliberalismo] é que os mercados livres alocam recursos de forma eficiente, autocorrigem os seus eventuais desequilíbrios e, assim, tendem a alcançar o bem-estar social ideal. Em contraste, a intervenção e a regulação estatais são encaradas geralmente como disruptivas porque a regulação desfigura os mercados e corrompe a sinalização de preços, porque o investimento público desloca o investimento privado e porque as empresas públicas são tecnologicamente ineficientes”.

2.

O paradigma que tomou o lugar do neoliberalismo vem a ser o neokeynesianismo, que, segundo ele, é ainda conservador e se pauta por políticas que prejudicam os trabalhadores. Se o primeiro se inspirava em doutrinas libertárias propagadas pelas teorias neoclássica e neo-austríaca, o segundo se inspira numa doutrina que denomina de social-liberalismo.

Para justificar a sua tese, Stavros Mavroudeas indica que os governos, a partir da virada do século XX para o XXI e mais especificamente após a crise de 2008, passaram a se utilizar da política fiscal para tentar tirar o sistema econômico do estado de estagnação. Implementaram, ademais, outros modos de intervenção como as políticas industriais e de subsídios a setores específicos. Distribuíram dinheiro para os cidadãos carentes na crise provocada pela pandemia do coronavírus.

Em particular, empregaram de modo intenso uma política monetária ativa que ficou conhecida como relaxamento monetário. Ora, todas essas políticas foram utilizadas sem remorso nos EUA, na China, assim como na Europa, mesmo se elas contrariavam a doutrina neoliberal. Ademais, com a eclosão da crise de 2008 e com o fim do avanço da globalização, as relações interestatais mudaram de padrão: ao invés de serem meramente competitivas, elas se tornaram amplamente conflitantes.

“O esmorecimento da acumulação capitalista em quase todas as principais economias capitalistas levou ao agravamento das rivalidades imperialistas. E isso veio junto com políticas ainda mais intervencionistas. Tanto o primeiro governo Trump, quanto o governo Biden se empenharam em fazer a política industrial (…) visando manter a liderança tecnológica. Não menos importante, o protecionismo voltou com tudo nesse governos (…) já que ele é uma arma importante na condução desses conflitos”.

Se a tese de Stavros Mavroudeas for correta – mais a frente se mostrará como se pode contestá-la – torna-se necessário explicar por que muitos autores sustentam que o neoliberalismo não morreu, que ele se transformou, mas que sua essência persiste sob uma nova aparência.

Ora, ele próprio fornece uma resposta para essa indagação hiperbólica:

“Tem-se de fato uma questão intrigante. Apesar das volumosas evidências em contrário, por que persiste essa visão errônea sobre a persistência da hegemonia neoliberal? (…) Esse fato pode ser atribuído a dois fatores. O primeiro deles diz que o termo é frequentemente usado como leitmotiv [2] e que, por isso, é mal definido, está sujeito a entendimentos muito vagos e problemáticos. O segundo fator (relacionado ao primeiro) vem do abandono da política de classe pela esquerda e de sua subserviência aos conflitos internos da burguesia. Isso produziu amplas coalizões antineoliberais de natureza interclasse e sob hegemonia burguesa, o que essencialmente ajudou a ascensão do neokeynesianismo conservador”.

Veja-se agora que conclusão a que chega esse autor advém do modo como ele próprio define o neoliberalismo e da maneira como raciocina a partir dessa definição. É bem patente que ele pensa ao modo do entendimento e que parte de um fundamento primeiro para construir a sua argumentação.

É de se notar, também, que ele escolhe uma definição estritamente econômica do neoliberalismo; eis que, para ele, essa forma política intervém no sistema econômico estritamente para promover o mercado. Contra essa tese, argumenta-se já aqui que as formas de intervencionismo apontadas não estão em contradição com o neoliberalismo quando este é entendido na perspectiva da apresentação de O capital.

Se pensa assim, é porque julga que a mudança pode ser apreendida apenas política econômica, ou seja, como uma mudança gestada na arena intelectual que se convencionou chamar de “economics”: “O neoliberalismo” – segundo ele – “destronou o keynesianismo após a crise dos anos 1990 e restaurou a teoria neoclássica como a ortodoxia na economia burguesa”.

Ora, a teoria neoclássica em sua versão walrasiana, como ele mesmo também observa, serviu também de base para criar uma versão domesticada do keynesianismo, a qual dominou o pensamento econômico no pós-guerra. A intervenção estatal se tornou uma constante após o fim do liberalismo.

3.

Logo, o fulcro da questão não se encontra aí, ou seja, no modo como se articula e se dispõe a retórica dos economistas que trabalham para a prosperidade – e para as crises – do modo de produção capitalista. O neoliberalismo não pode ser compreendido da perspectiva da política econômica em sentido estrito. Na verdade, ele, assim como o keynesianismo que o precedeu, precisa ser enxergado como política do Estado.

Mais especificamente, é preciso compreender como o Estado se esforçou para “suprimir” a luta de classes nas condições históricas do período que se seguiu ao fim da II Guerra Mundial, após a crise de lucratividade dos anos 1970 e após a crise financeira que eclodiu em 2007-8. Para tanto, é preciso pensar o Estado como uma instância do modo de produção capitalista.

Ora, as classes e o Estado devem ser compreendidos por meio de uma extensão da apresentação dialética do modo de evolver do sistema capitalista tal como está posto sobretudo em O capital. Marx pensa as classes como componentes da estrutura social contraditória do modo de produção. Contudo, elas não aparecem como tais, em seus antagonismos, na circulação de mercadorias. Aí, aparecem disfarçadas pelo modo como se apropriam de parte do valor produzido pelo trabalhador assalariado.

No final do livro III de O capital, ele distingue três grandes classes, a dos proprietários de terra que recebem renda da terra, os proprietários do capital que recebem lucros ou juros, e os proprietários da força de trabalho que recebem salários.

Como se sabe, Marx previu a necessidade de explicar o Estado a partir das relações sociais contraditórias que definem as classes. Na verdade, mostrou-se necessário explicá-lo a partir da contradição entre a aparência e a essência do modo de produção. Na essência desse sistema, tem-se classes e elas se dispõem estruturalmente por meio das contradições que as definem como tais.

Na aparência não existe nem contradição nem antagonismo entre as classes; há apenas contratantes iguais que diferem entre si pelo modo como se inserem nos mercados para “ganhar a vida”, ou seja, para se apropriarem de parte do produto social.

Assim, a luta de classes aparece em primeiro lugar, não como tal, mas como disputa pelo ganho de renda, pela apropriação da porção maior possível do valor gerado na produção capitalista. Se, por exemplo, o salário real aumenta por causa da luta dos trabalhadores, isso diminuirá necessariamente a lucratividade do capital.

Mas ela se mostra plenamente apenas quando a classe trabalhadora passa a contestar a propriedade privada dos meios de produção. Ora, a dinâmica competitiva inerente ao capitalismo, mesmo em sua forma meramente econômica, geraria imediatamente o caos se não fosse contida dentro de certos limites pela atuação do Estado.

O Estado em sua forma clássica, ou seja, liberal, diz Ruy Fausto, “guarda o momento da igualdade dos contratantes”, ou seja, aquilo que se apresenta imediatamente na circulação de mercadorias. Afirma, assim, aquilo que está na aparência do modo de produção, “negando [em consequência] a desigualdade das classes”, ou seja, a sua essência, a verdadeira natureza do modo de produção capitalista. [3]

Assim, o Estado como tal, contraditoriamente, afirma igualdade dos contratantes para que a desigualdade subjacente das posições sociais contraditórias continue existindo.

As formas do Estado e, assim, de sua atuação econômica, social e política – liberalismo, keynesianismo, neoliberalismo, fascismo, iliberalismo etc. – devem ser compreendidas, portanto, nessa perspectiva. Para fazê-lo, é preciso perguntar: como cada uma desses modos de atuação do Estado põe a unidade do sistema – ou seja, dá forma à comunidade ilusória ou nação –, ocultando assim as contradições de classe que, assim, podem subsistir e prosperar levando adiante o próprio modo de produção.

4.

O liberalismo toma o sistema econômico como uma ordem natural, ou seja, como uma ordem instituída que fora criada espontaneamente (ou seja, sem propósito) e que se impõe aos homens como se fosse natureza, para em sequência afirmar a igualdade dos contratantes, zelar pela liberdade econômica e garantir a propriedade privada.

Se o pensamento prático e político liberal está fundado numa suposta igualdade dos contratantes, aqueles que vem depois dele estarão fundados nas meras diferenças entre as classes sociais, tal como aparecem na esfera da circulação de mercadorias.

A social-democracia e o keynesianismo tomam o sistema econômico como uma ordem instituída que pode ser devidamente reformada para conter as crises econômicas e políticas. Reconhecem, assim, as diferenças de classe tal como aparecem, julgando que o Estado precisa regular as relações entre os capitalistas e os trabalhadores para evitar, em última análise, que esses últimos se revoltem e abalem o sistema. Tomando ciência da gravidade das crises e de seu caráter disruptivo, ponderam que o Estado deve minorar o desemprego, acelerar o crescimento econômico evitando as flutuações econômicas.

Já o neoliberalismo toma o sistema econômico como uma ordem moral, [4] ou seja, como uma ordem espontânea criada pelos homens não intencionalmente que deve ser, que precisa continuar existindo. Não a considera, no entanto, como natural tal como o faz o liberalismo já que, em princípio, pode ser regulada, alterada e até mesmo suprimida.

Como julga que essa ordem está na origem da civilização e do progresso alcançado na época moderna, considera que o Estado deve atuar para conservá-la frente aos projetos construtivistas, sejam eles reformistas ou revolucionários que supostamente a corrompem e a destroem. Para os neoliberais é dever do Estado promover a concorrência em todos os âmbitos da sociedade, privatizar os bens públicos, fomentar o empreendedorismo.

Frente a esse quadro, como pensar os extremismos do século XX e do século XXI, os quais tem pelo menos um atributo em comum, o desprezo pela democracia liberal. [5]. Ora, o fascismo histórico surge da falência do liberalismo e da ameaça da revolução socialista.

Para garantir a sobrevivência do capitalismo, substitui a ordem econômica individualista e concorrencial, mas também classista, por uma ordem corporativa e cooperativa integral em que os indivíduos e as classes estão subsumidos como membros de uma comunidade mística formada pelo Estado. Ao invés de uma ditadura do proletariado, o fascismo cria uma ditadura explícita do capital em que o comando da acumulação está centralizado politicamente.

5.

Já o extremismo no século XXI surge da crise do neoliberalismo que se mostra como estagnação econômica e niilismo político generalizado e, assim, como uma deslegitimação implícita do próprio capitalismo. No entanto, ao contrário do fascismo, ele não contraria a racionalidade normativa que se expressa como individualismo, império da forma mercadoria e concorrência, ou seja, ele não deixa de ser neoliberal.

Contudo, mesmo se promove a racionalidade econômica mantendo-se na tradição liberal, ele não se conforma às normas da democracia liberal e se assume às vezes francamente como politicamente iliberal. Por isso, apesar de ser reacionário, não é fascista ou neofascista. [6]

Ora, o neoliberalismo, que ascendeu a partir dos anos 1980 do século passado, buscava legitimidade garantindo prosperidade econômica em geral, mas também acolhendo as demandas progressistas não classistas, tais como aquelas vindas do gênero, da cor da pele, cultura e da nacionalidade.

Ora, essas promessas se frustraram porque as políticas do neoliberalismo são inerentemente viesadas e favoráveis aos capitalistas em geral. Ora, aquele que o sucederá não divergirá dele nas grandes questões de política econômica interna, mesmo se na externa ele vai optar pelo nacionalismo e pelo protecionismo.

Conforme o neoliberalismo progressista perdeu legitimidade, ele abriu espaço para uma forma mais reacionária de neoliberalismo. Eis que o extremismo que vem tentando suceder o primeiro busca se associar à tradição conservadora que se caracteriza pela defesa de uma ordem social hierárquica que consolida formas de desigualdade, não se acanha de restringir a liberdade e de santificar a propriedade.

Daí que busque se legitimar por meio do patriarcalismo, da homofobia, do racismo e da religiosidade reacionária – e até mesmo do supremacismo racial aberto ou disfarçado.

Em suma, ao invés da tese de Stavros Mouvradeas antes apresentada e julgada falsa, fica-se aqui com a tese de Nancy Fraser que distingue um neoliberalismo progressista em crise e um neoliberalismo conservador ou reacionário em ascensão. [7]

Endossa-se aqui, também, a sua avaliação política: em ambos os casos, segundo ela, está-se diante de formas de organização social contraditórias, profundamente predatórias e instáveis.

*Eleutério F. S. Prado é professor titular e sênior do Departamento de Economia da USP. Autor, entre outros livros, de Da lógica da crítica da economia política (Lutas Anticapital).

Notas

1 Mavroudeas, Stavros – Is neoliberalism still the dominant economic paradigm in the west today? World Marxist Review, 2025, vol. 2, nº 2, pp. 99−110.

2 Leitmotiv é uma palavra do idioma alemão que expressa uma ideia ou fórmula que reaparece de modo constante em obra literária, discurso publicitário ou político, com valor simbólico e para expressar uma preocupação dominante.

3 Fausto, Ruy – Sobre o Estado. In: Marx: Lógica e Política, tomo II. Editora Brasiliense, 1987.

4 Ver Prado, Eleutério F. S. – “(Neo)liberalismo: da ordem natural à ordem moral. Outubro, 2009, nº 18, pp. 149-174.

5 Veja-se esse artigo bem esclarecedor: Cox, Lloyd e O’Connor, Brendon – Trumpism, fascism and neoliberalism. Journal of Social Theory, 2025 (open access journal).

6 Aqueles que usam esses termos não são rigorosos; eis que raciocinam por analogia a partir das relações externas entre os fenômenos e, assim, caem no que Marx denominou de economia vulgar.

7 Fraser, Nancy – Do neoliberalismo progressista a Trump – e além. Política & Sociedade, vol. 17 (40), set. e dez. de 2018.

Uma trupe de hipócritas, por Lygia Maria

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Trump finge que se importa com democracia, bolsonaristas fingem que não admiram ditadura e petistas fingem que defendem liberdade de expressão

Lygia Maria, Mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP.

Folha de São Paulo, 04/08/2025

A acepção moderna da palavra “hipócrita” é pejorativa: a pessoa finge possuir virtudes e crenças que não tem ou exige que os outros façam aquilo que ela não faz.

Sua origem é “hupokrités”, usada na Antiguidade grega para designar quem trabalha com interpretação (ator). O termo não era adequado para se referir a oradores e autoridades, já que a arte do disfarce não combina com a honestidade exigida na esfera pública.

O noticiário político na última semana, porém, foi dominado por hipócritas. Virou teatro político.
A começar por Donald Trump, que vestiu a fantasia de cavaleiro da liberdade em defesa da democracia. Dos 69 países sobretaxados na sua cruzada comercial, o Brasil foi o mais impactado porque, segundo o americano, o julgamento de Jair Bolsonaro no Supremo é perseguição ideológica.

Ora, na Venezuela o que mais tem é preso político, mas sua tarifa ficou em 10%, ante 50% no Brasil —e a petroleira Chevron ainda foi liberada para firmar parceria com estatal da ditadura chavista.

A Casa Branca também impôs sanções financeiras a Alexandre de Moraes, ministro do STF. Para isso, valeu-se da Lei Magnitsky, norma aplicada contra graves infrações de direitos humanos que nunca foi usada contra juízes cujas decisões violam a liberdade de expressão —motivo alegado para enquadrar Moraes.

Trata-se de interpretação elástica que só serve para reduzir a credibilidade da Magnitsky.

Se Trump está tão preocupado com direitos humanos, por que não usa a lei contra Nayib Bukele, que desde 2022 governa El Salvador sob estado de exceção e viola liberdades civis? Em vez disso, deporta imigrantes para um megapresídio de Bukele e recebe visita do caudilho no Salão Oval.

Enquanto isso, bolsonaristas aplaudem as medidas, incitadas pela família Bolsonaro, mesmo que o ex-presidente e muitos de seus apoiadores sejam saudosistas da ditadura militar.

Já petistas, que se arvoram a epítome da defesa da democracia e do Estado de Direito, respaldam abusos cometidos por Moraes contra a liberdade de expressão e o devido processo legal.

Um espetáculo de hipocrisia.

 

Bolsonarismo vive sua pior crise, por Camila Rocha

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‘Sonho’ de ex-presidente virou pesadelo, e prisão é questão de tempo

Camila Rocha, Doutora em ciência política pela USP e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Folha de São Paulo, 04/08/2025

Em abril de 2015, Jair Bolsonaro se desfiliou do Partido Progressista (PP) com o “sonho” de se candidatar à Presidência. Dez anos depois, o movimento político que o levou ao poder vive sua pior crise. A crise possui três frentes. A primeira é institucional. Além de estar inelegível, Bolsonaro aguarda o resultado do julgamento por tentativa de golpe com uma tornozeleira eletrônica. Sua prisão é questão de tempo. Carla Zambelli, uma de suas apoiadoras mais fiéis, foi abandonada à própria sorte. Presa pela Justiça italiana, aguarda a decisão sobre sua extradição para o Brasil. Caso regresse, deve enfrentar uma pena de dez anos por crimes relacionados à invasão do sistema do Conselho Nacional de Justiça. Eduardo Bolsonaro, ao tentar salvar o pai, apenas agravou a situação. Caso retorne ao Brasil, deve ser condenado por crimes como obstrução de investigação de organização criminosa e tentativa de abolição violenta do Estado democrático de Direito, entre outros. Nikolas Ferreira enfrenta um processo judicial que pode torná-lo inelegível. De acordo com denúncia do Ministério Público, o deputado encabeçou, ao lado de Bruno Engler (PL), uma campanha coordenada de desinformação contra o então prefeito e candidato à reeleição em Belo Horizonte, Fuad Jorge Noman Filho, que faleceu pouco tempo depois das eleições. Ricardo Salles, um dos cinco deputados federais mais votados em 2022, ao lado de Nikolas, Zambelli e Eduardo Bolsonaro, abandonou o PL e foi para o Partido Novo. No entanto, o processo por contrabando de madeira, no qual é réu, foi reaberto e agora tramita no STF sob relatoria de Alexandre de Moraes. As redes sociais, outra frente em que o bolsonarismo parecia imbatível, não estão rendendo como antes. Narrativas como a “anistia” para Bolsonaro perderam poder de mobilização. E agora o acúmulo de derrotas fragilizou o poder midiático do bolsonarismo. Incapazes de se posicionar a favor de pautas populares como a defesa da escala 6×1 e a taxação dos super-ricos, a última aposta dos bolsonaristas para tentar animar as bases fracassou de modo retumbante. Segundo pesquisa da Quaest, a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes (STF) foi criticada em 60% das menções nas redes e aprovada apenas em 28%. A crise também ocorre nas ruas. O número de bolsonaristas dispostos a ir às ruas vem oscilando para baixo desde o início do ano. De acordo com estimativas do Monitor do Debate Político no Meio Digital do Cebrap, no dia 25 de fevereiro de 2024, o ato encabeçado por Jair Bolsonaro na avenida Paulista teve um pico de 185 mil pessoas. No dia 6 de abril, no mesmo local, o evento “Anistia Já” reuniu 44 mil pessoas. Meses depois, no dia 29 de junho, compareceram ao último ato apenas 12 mil pessoas. Em 10 de julho, lideranças de esquerda conseguiram reunir um número maior na avenida Paulista, 15 mil pessoas. Foi a primeira vez que a direita perdeu da esquerda nas ruas desde 2015. Mas é justamente nas ruas que os bolsonaristas procuram reverter a crise. Neste domingo (3), a estimativa foi de 37,6 mil na Paulista. pornstar Katie Jo Encher novamente praças e avenidas brasileiras pode demonstrar que suas bases estão abatidas, mas não mortas. Resta saber se será suficiente para impactar as eleições de 2026 e impedir que o “sonho” de Bolsonaro vire um pesadelo para todos aqueles que o apoiam.  

Brasil virou modelo de fracasso para os EUA, por Vinícius Mota,

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Famílias e oligarquias se apossam do poder da Casa Branca para defender seus interesses e negócios particulares

Vinícius Mota, Secretário de Redação da Folha, foi editor de Opinião. É mestre em sociologia pela USP,

Folha de São Paulo, 02/08/2025

A liberdade invocada pelos representantes dos vândalos que destruíram palácios em Washington e Brasília é praticada no Brasil há séculos. Trata-se da escassez de limites para infligir danos e sofrimento aos outros em nome da autenticidade e da sacralidade do interesse e do desejo próprio.

Se é possível extrair uma teoria desse emaranhado, ela opera sob o pressuposto de que os grupos humanos são diferentes nas suas capacidades materiais e intelectuais —por uma condição natural ou histórica ou porque apenas alguns teriam sido abençoados pela graça divina— e predica que não deve haver barreiras psicológicas, sociais nem legais para obstar o atropelo dos mais fracos pelos mais fortes.

Seria como colocar Hobbes do avesso, tirar o Leviatã da sala e deixar o couro comer, mas nem tanto. O Estado tem essa característica de servir como porrete e aspirador de renda nas mãos de alguns e desse elemento não se abre mão. O poder político se torna um meio para proteger e enriquecer quem o conquista e para cooptar, perseguir e enfraquecer adversários. Eis o Brasil de anteontem, ontem e hoje.

Sobre o aspecto de deixar o couro comer, poucos fatores são mais típicos de uma sociedade civilizada do que a proteção da esfera íntima, a começar do corpo. Abster-se de ferir alguém cristaliza-se numa interdição tão enraizada como as regras que inibem o incesto em comunidades tribais. Era dessa fronteira invisível e impenetrável que Sérgio Buarque de Holanda se ressentia ao identificar e criticar a “cordialidade” brasileira. Cordialidade também quer dizer violência.

O cotidiano brasileiro é violento. A polícia mata, os civis matam e os motoristas matam. Comemora-se a tendência de queda generalizada dos crimes violentos no país, o que é um fato. Ainda assim foram assassinadas mais de 45 mil pessoas no Brasil em 2025 e outras quase 35 mil morreram no trânsito. São mais de 80 mil em 12 meses, cerca de 40 mortes violentas para cada grupo de 100 mil habitantes e 1 milhão de óbitos de 2013 a 2023. Ucrânia, Síria e Gaza são aqui.

Sociedades civilizadas também instruem a totalidade das crianças e dos jovens como se educação fosse alimento vital. Outras coisas podem faltar, mas não aluno na sala aprendendo com a aula mais eficiente, o horário marcado, o professor preparado, durante vários milhares de horas desde a primeira infância. Aqui isso funciona apenas para os filhos da elite e olhe lá. Nove milhões de jovens de 15 a 29 anos nem sequer completaram o ensino básico. O que deveria ser denunciado como crime contra o futuro da população mais vulnerável passa como elemento da paisagem.

A “liberdade” de extrair renda dos outros à custa do bem-estar da maioria também é longeva e disseminada. Não há saneamento, tecnologia do século 19, para todos por causa disso. A conta de energia de mansões com placas solares é subsidiada pelos mais pobres, grupos profissionais têm privilégios na aposentadoria, na tributação e nos salários custeados pela camada mal remediada da população, mercadorias e serviços encarecem porque a lei atende a lobbies influentes. O descontrole dos orçamentos públicos compromete programas sociais e eleva os juros que remuneram o andar de cima.

Vem do ex-ministro Rubens Ricupero uma profecia incômoda sobre a aspiração civilizatória no Brasil, onde décadas e gerações se sucedem sem nenhuma hecatombe bélica ou natural, mas também sem que o país alcance o bem-estar material e espiritual das nações ricas. É o que ele chamou de suave fracasso.

A novidade que agora vem do norte é a elite política que conquistou a Casa Branca pretender transformar os EUA num grande Brasil. Famílias e oligarquias se apossam do poder de Estado para defender seus interesses e negócios particulares, proscrevem adversários, desmontam burocracias de mediação, sabotam o cânone acadêmico e educacional, fecham a economia e desestabilizam as relações internacionais motivadas pelo próprio fígado e pelo próprio bolso.

 

Jogos geopolíticos

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As transformações cotidianas nos levam a reflexões sobre o futuro da humanidade, alterações crescentes em todos os setores da comunidade global geram medos, decepções, incertezas e variadas angústias. Vivemos num mundo centrado no medo e na desesperança, os empregos estão passando por fortes modificações estruturais, atividades que anteriormente exigiam força física passaram a ser substituídas por máquinas e novas tecnologias digitais, neste cenário, percebemos que os adultos estão receados de perderem seus empregos e serem substituídos por novos equipamentos, os jovens, ao olharem a situação dos adultos, perdem suas esperanças e reformulam seus objetivos de vida, sua empregabilidade, modificam seus relacionamentos afetivos, postergam seus estudos e investem nas jogatinas das bets, sonhando com o enriquecimento fácil.

Vivemos numa sociedade marcada por grandes mutações geopolíticas, os interesses das nações estão passando por modificações estruturais, países vistos como amigos estão deixando alianças históricas e buscando novos horizontes, os vínculos anteriores estão sendo alterados e reestruturados, gerando incertezas e novos espaços de conflitos, que podem culminar em confrontos militares e outras agressões cotidianas. Depois de mais de 80 anos tutelando os países europeus, os norte-americanos se afastam e exigem que os países da região banquem seus custos de defesa, desta forma, abrem novos espaços para alavancar os setores de defesa e garantem novos negócios milionários para os Estados Unidos.

Neste ambiente, vivemos um momento de grandes agitações geopolíticas motivadas pelos interesses de grandes grupos norte-americanos que dominam a sociedade, impondo suas estratégias, aumentando as tarifas comerciais, adotando medidas que geram ingerências em questões internas de outras nações, estimulando nacionalismos, conflitos econômicos e gerando uma verdadeira bagunça institucional que limita a capacidade de planejamento econômico e organização de suas cadeias produtivas.

A conjuntura econômica internacional está passando por grandes transformações, neste cenário, percebemos agitações geopolíticas globais, nestas mutações visualizamos o nascimento de um mundo multipolar, onde os centros de poder não estão mais concentrados em apenas uma única nação, percebemos o surgimento de vários polos de poder que nascem e se estruturam, com isso, percebemos o crescimento dos confrontos cotidianos entre países, ameaças constantes, violências verbais e simbólicas que crescem diuturnamente, aumentando as incertezas e as instabilidades que geram caos econômicos e produtivos.

A Ásia cresce de forma acelerada e ganha espaço em todas as áreas e setores produtivos, gerando preocupações crescentes pelo fortalecimento econômico e produtivo de seus países. As nações que dominavam o cenário global vêm perdendo espaço na sociedade mundial, a antes nação dominante, que dominou o ambiente econômico e financeiro mundial sente o crescimento de novos polos de poder e usa seu poder e sua influência para limitarem o crescimento de seus opositores, desta forma, percebemos, mais claramente, as ações adotadas pelo governo norte-americano, que nos últimos meses gerou grandes constrangimentos na sociedade internacional.

Neste cenário, vivemos um verdadeiro xadrez geopolítico global, onde todos os passos devem ser estudados e planejados, novos horizontes estão sendo construídos e cabe a cada nação escolher seus passos, analisar seus horizontes e os desafios que se apresentam, neste ambiente, percebemos, ainda, que somos muito mais frágeis e dependentes do que imaginamos, passou da hora de reconhecermos nossas fragilidades econômicas, institucionais e tecnológicas e investirmos fortemente em capital humano, as colheitas não são imediatas, antes de colhermos, precisamos plantar.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

 

Consequências econômicas da IA merecem atenção, por Álvaro Machado Dias

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Mundo deve ficar menos globalizado, mais desigual e bem mais produtivo

Álvaro Machado Dias, Neurocientista, professor livre-docente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e sócio do Instituto Locomotiva e da WeMind.

Folha de São Paulo, 28/07/2025

Em quatro anos, a inteligência artificial foi das palavras regurgitadas às simulações de raciocínio usando táticas de jogos e à aplicação dessas para realizar tarefas na internet, solucionando o mistério dos impactos efetivos na produtividade, de forma ainda hipotética: o êxito atual dessas IAs, chamadas agênticas, é de cerca de 75%, o que significa que um pedido para que reserve uma passagem, um carro e um quarto dará certo em apenas 42% dos casos.

A elevação da taxa de completude dos agentes deverá ser o principal fator de pressão sobre o modus operandi dos escritórios. É provável que, em mais quatro anos, a competição se intensifique, levando ao achatamento dos salários de cargos como secretário e assistente administrativo e os das áreas técnicas, incluindo operações, finanças e contábeis, que serão dominadas por um fordismo atencional de alto nível, voltado à identificação e correção dos erros das IAs.

Técnicos mais ambiciosos irão se reposicionar como gestores de “pessoas e agentes” (HAI), redefinindo o marketing e o RH e achatando seus salários também. Já os executivos capazes de criar novas linhas de receita com IA irão se tornar ainda mais importantes e bem pagos.

A disparidade salarial vai aumentar, mas o que moldará essa nova fase é que a “IA irá ampliar o fosso entre capital e trabalho” (Acemoglu, 2024), sendo o capital intelectual na forma de novas propriedades intelectuais parte central desse arranjo. A sociedade da inteligência artificial é a da prosperidade empresarial baseada na capacidade de ganhar mais com menos calorias, limitada setorialmente pela redução do poder aquisitivo da classe média.

A conclusão parece ser que o brasileiro precisa mudar de foco e empreender —assim como os americanos. Porém, o índice que mede a atividade empresarial total (TEA, 2025) coloca o Brasil quase em pé de igualdade com os Estados Unidos. A razão é simples: tanto lá quanto aqui, mais de dois terços dos que empreendem o fazem por necessidade e, na prática, apenas embalam e vendem o próprio suor.

Em contraste, a trilha da prosperidade empresarial passa pela alteração na distribuição dos custos operacionais (Opex), com mais gastos com executivos visionários e tokens de IAs agênticas e menos com salários em geral.

Esses tokens são créditos conversíveis em trabalho que as organizações de todo o mundo adquirem das big techs. Como esse fluxo aquisitivo é essencial sob o novo paradigma produtivo, as empresas de tecnologia tornam-se sócias “de facto” de praticamente todas as firmas do mundo, na linha das bandeiras e adquirentes, que, ao cobrarem entre 2 e 3% nas vendas de cada loja, tornam-se sócias ocultas em 6 a 9% do varejo global. É isso que explica o comportamento hiperbólico dos fundos de investimento e as aquisições bilionárias para ficar com as pessoas, como no caso de Alexandr Wang, que custou US$ 14,3 bilhões.

A IA será responsável por uma das maiores transferências espontâneas de valor de todos os tempos, enriquecendo os Estados Unidos, a China e alguns outros países, como Holanda e Israel, mas não a América Latina, que sofrerá ainda com a redução do “offshoring” industrial por razões não tributárias, algo bem mais difícil de reverter. No cômputo geral, o mundo ficará menos globalizado, mais desigual, interna e externamente, e bem mais produtivo.

 

Crise do jornalismo deixou terreno fértil para erosão da democracia, por Rodrigo Lara Mesquita

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Não podemos permanecer passivos à manipulação de algoritmos e governos autoritários

Folha de São Paulo, 26/07/2025

Rodrigo Lara Mesquita, Jornalista, é conselheiro do InovaUSP e pesquisador do ecossistema informacional; ex-diretor do Jornal da Tarde e da Agência Estado

[RESUMO] Derrocada da relevância social do jornalismo e explosão da cacofonia gerada pela internet nas últimas décadas, fatos intimamente interligados, nos levaram a uma crise civilizacional da qual temos sido reféns passivos. Esse cenário de terra arrasada, que beneficia poucas e poderosas empresas, virou um solo propício para a desinformação e o surgimento de políticos autoritários em todo o mundo. Restaurar os valores democráticos exigirá resposta enérgica para reimaginar o jornalismo e as plataformas digitas.

Estamos imersos em uma crise histórica de longa duração. Os pilares que sustentaram a democracia liberal do século 20 —representação política, jornalismo profissional, instituições reguladoras, pactos de coesão social— sofrem um processo de desestruturação progressiva.

A explosão informacional trazida pela internet não produziu mais esclarecimento; ampliou o ruído, fragmentou consensos e corroeu formas tradicionais de mediação. O jornalismo, paralisado em sua arrogância institucional, não soube compreender a emergência do novo ambiente em rede.

As plataformas digitais, ao contrário, não hesitaram: capturaram rapidamente o centro da esfera pública, reconfigurando as formas de circulação de informação, opinião e afeto.

Embora a literatura crítica internacional acumule diagnósticos relevantes sobre a colonização algorítmica e o declínio das instituições intermediárias, é notável —e preocupante— o silêncio generalizado, inclusive no jornalismo, sobre a verdadeira dimensão dessa crise. Esta talvez seja a mais grave omissão pública do nosso tempo.

O que proponho aqui não é apenas um diagnóstico, mas um esforço deliberado de nomear essa dissolução como uma crise estrutural e civilizacional, com a qual o jornalismo tradicional se mostrou, até aqui, incapaz de lidar.

Não relato apenas uma experiência pessoal, mas a trajetória de uma geração que acreditou na função pública do jornalismo e assistiu, perplexa, ao seu esvaziamento como mediador qualificado da opinião pública.

Minha trajetória —do Jornal da Tarde e da Agência Estado à criação da Broadcast e ao diálogo com o MIT Media Lab— revela que o caminho não está na nostalgia nem na resistência passiva, mas na reinvenção ativa do jornalismo como infraestrutura pública de articulação social. Na virada do milênio, ao mergulhar nas pesquisas do Media Lab, compreendi que não vivíamos apenas uma revolução tecnológica, mas uma profunda e irreversível transformação epistemológica.

Foi Harold Innis, autor de “O Viés da Comunicação” e pai da Escola de Toronto, quem melhor formulou esta chave interpretativa: a forma como uma sociedade se comunica determina sua estrutura de poder.

Ao estudar a transição dos impérios orais para os escritos, dos registros em pedra à imprensa de massa, mostrou como o tempo social é moldado pelos meios de registro e transmissão da informação.

Mais que isso: o meio técnico dominante molda o próprio ambiente social, delimitando as possibilidades de organização política, econômica e cultural. Marshall McLuhan, seu discípulo mais conhecido, levou essa ideia adiante. Ao afirmar que “o meio é a mensagem”, deslocou o foco do conteúdo para a forma da mediação. Televisão, rádio, jornal —cada meio conforma uma sensibilidade e uma lógica de organização social.

Hoje, a internet, com sua capacidade de retroalimentação em tempo real, constitui um novo sistema nervoso coletivo: um ambiente cognitivo global estruturado por tecnologias que transcendem fronteiras e operam em ritmo contínuo. Mas, pela primeira vez na história, essa infraestrutura técnica está concentrada nas mãos de poucos atores privados, sem mediação pública e sem projeto democrático correspondente.

Mesmo em crise, os jornais ainda exercem influência simbólica —citados por autoridades, lidos por formadores de opinião, referenciados por outras mídias. Mas é uma influência terminal, sem futuro, se não houver reconfiguração estrutural.

O jornalismo precisa deixar de ser apenas um produtor de conteúdos e retomar seu papel como arquitetura informacional: organizador de fluxos, mediador de sentidos, articulador de redes. No século 20, os jornais foram centros de gravidade de comunidades, catalisadores de sociabilidades e pactos sociais. A travessia para o século 21 exige que reaprendam a desempenhar essa função em ambiente digital.

Essa função foi esvaziada não pela obsolescência de sua missão, mas pela incapacidade institucional de compreender e ocupar o novo ambiente em rede.

A internet, concebida nas décadas de 1960 e 1970 como uma infraestrutura descentralizada e resistente ao controle, foi rapidamente capturada por interesses corporativos. Google, Facebook, Amazon e outras empresas surgidas em garagens ocuparam o vácuo deixado por um jornalismo preso à lógica do broadcast, enquanto o mundo passava a se estruturar segundo uma nova lógica em rede.

O resultado é uma arquitetura algorítmica voltada à maximização do engajamento, que expõe o público à manipulação informativa em escala industrial e coloniza a esfera pública com interesses comerciais disfarçados de neutralidade técnica.

O poder informacional, antes disperso em múltiplos centros de mediação, hoje está concentrado em poucas corporações que controlam não apenas os fluxos de atenção, mas as condições para a produção social de sentido.

Das trilhas do Peabiru à rede das redes

Carrego a história como lente e vejo a rede como extensão das antigas trilhas culturais: as rotas atlânticas que expandiram a economia mediterrânea; os peabirus que cruzavam os Andes e o litoral brasileiro e serviram de base para a aventura do bandeirismo, a expansão das nossas fronteiras e a ocupação do interior; os caminhos do telégrafo que unificaram o território nacional; as rotativas que ajudaram a consolidar os Estados-nação.

A rede é, agora, a nova trilha —fluida, fragmentada, repleta de bifurcações e zonas de sombra. Como aquelas trilhas do passado, ela redefine os circuitos do poder e da circulação. Mas vai além: conecta consciências, reorganiza o espaço público e inaugura um novo estágio da humanidade.

Inspirado por meu bisavô Júlio Mesquita —que, por meio de sua atuação como empresário e jornalista, foi um dos principais articuladores das redes sociais e de interesse que estruturaram São Paulo no início do século 20—, dediquei minha trajetória jornalística também à compreensão de como se organizam os fluxos de informação na sociedade.

Em 1991, na Agência Estado, ao lançar a Broadcast, sabíamos que estávamos criando um protótipo do que viria: uma estrutura de informação em tempo real, personalizada, dinâmica e interativa, embrião da lógica em rede que depois se tornaria dominante.

A diferença é fundamental: a Broadcast nasceu com responsabilidade editorial, ancorada em critérios de curadoria e compromisso com a veracidade. Já as plataformas sociais, apesar de seu potencial exponencial de crescimento, foram concebidas com um único objetivo: monetizar a atenção. E é justamente aí que começa o problema.

A imprensa tradicional, presa à lógica do século 20, ignorou que a nova mídia era interativa. Quando percebeu, já era tarde. Em vez de assumir o papel de curadora dos fluxos, preferiu simular a estética digital e disputar cliques. Transplantou a lógica do papel para a web como um cadáver reanimado —e ele ainda anda.

As Redações seguiram produzindo para o público, não com ele. Ignoraram o canal de volta e perderam o centro do processo democrático. Enquanto isso, os algoritmos aprenderam a explorar o medo, o tribalismo e o consumo. A esfera pública foi colonizada.

As big techs deixaram de ser apenas empresas: tornaram-se plataformas essenciais à democracia contemporânea, controlando a infraestrutura social por onde nos comunicamos, nos organizamos e tomamos decisões coletivas. Essa centralidade, contudo, não veio acompanhada de um sistema de governança compatível com a responsabilidade que passaram a exercer.

O controle privado concentra poder sem contrapesos institucionais. Nesse vácuo floresceram aventureiros da comunicação, explorando inseguranças e preconceitos por meio de manipulação emocional. Essa degeneração da esfera pública é hoje uma ameaça real à democracia.

Quem controla os fluxos de atenção controla a opinião pública. As plataformas sabem disso. Seus algoritmos não são neutros: moldam o que vemos, como interagimos, até como votamos.

Hoje, cinco ou seis empresas, todas de tecnologia, têm poder de manipular a esfera pública global. Um poder inédito. Nem a igreja medieval, nem os impérios da imprensa ou a TV dos anos 1960 tiveram alcance comparável. Pior: é um poder opaco, automatizado e orientado por cliques, não por um debate saudável.

A Comissão Europeia reconheceu isso em 2018, ao inspirar os primeiros marcos de regulação digital na Europa. Seu relatório mostrou que os algoritmos priorizam engajamento e monetização, amplificando a polarização, espalhando desinformação e corroendo o tecido democrático. Concluiu que não basta regulação ou checagem: é preciso restaurar a coesão simbólica por meio de narrativas públicas potentes.

Ao propor uma abordagem interdisciplinar —unindo psicologia, ciência política, jornalismo, computação e educação—, o documento aponta que a desordem informacional exige mais do que ajustes técnicos: requer reconstrução coletiva da confiança pública.

Na narrativa dominante, diz-se que a desinformação se combate com “educação midiática”. Como se o cidadão comum tivesse a obrigação de entender algoritmos, filtros bolha e fluxos patrocinados. É uma falácia —e uma perversidade.

O próprio relatório reconhece isso. A educação midiática deve ser um esforço cívico em larga escala, envolvendo educadores, jornalistas, ONGs, plataformas e políticas públicas, e não um fardo individual.

A responsabilidade pela qualidade do ambiente informacional é institucional, ética, política e regulatória. Mas as plataformas evitam essa responsabilidade —e parte da imprensa, ao ecoar esse discurso, torna-se cúmplice.

A aliança tácita: Trump, Musk e os novos autoritários

O que testemunhamos é a convergência entre regimes autoritários eleitos e a infraestrutura informacional dominada pelas big techs. O caso americano é emblemático: Donald Trump ameaça jornalistas, semeia ódio contra a imprensa e, ao mesmo tempo, foi cortejado por figuras como Elon Musk, que controla uma das principais plataformas de circulação de discurso político.

Essa aliança é tácita, mas eficiente. Regimes como o de Trump deslegitimam a imprensa, enquanto as plataformas desestruturam sua base econômica e capturam sua audiência.

Ambos têm interesse em um jornalismo fraco. Um quer evitar o escrutínio; o outro, monopolizar a atenção. Contudo, a relação entre Estado e plataformas é mais ambígua do que uma simples aliança. Moldam-se mutuamente, ora se cooptam, ora se confrontam.

O recente rompimento público entre Musk e Trump—após divergências sobre subsídios, regulação e posturas institucionais— expôs as tensões internas desse arranjo informal, mas estrutural. A lógica de cooptação permanece, mas os atores já disputam o protagonismo da esfera pública.

Esse embate aparece nos conflitos regulatórios em democracias marcadas por crises de representação e erosão da mediação jornalística. Na Hungria, Orbán subordinou a imprensa e instrumentalizou as plataformas.

Na Rússia, o Kremlin promoveu redes locais e explora brechas em plataformas globais para desinformação. Na China, o controle é total; bloqueio de redes ocidentais, vigilância e regulação que transforma aplicativos em extensões do Estado.

Na Índia, Modi pressiona plataformas, reforça leis de controle e mobiliza redes para campanhas nacionalistas. Nas Filipinas, Duterte usou o Facebook para consolidar apoio e atacar opositores.

No Brasil, sob Bolsonaro, as plataformas digitais deixaram de ser apenas meios e passaram a integrar uma verdadeira rede social de fato, centralizada no entorno familiar do poder, com Carlos Bolsonaro atuando como publisher —definindo pautas, controlando edições, operando sistemas de distribuição e mecanismos de cooptação.

WhatsApp, X (ex-Twitter) e Facebook tornaram-se canais centrais da comunicação oficial do governo. A base foi mobilizada digitalmente para atacar a imprensa, hostilizar adversários e deslegitimar instituições. O caso brasileiro revela, com nitidez, como a lógica das plataformas pode ser instrumentalizada para corroer a esfera pública e minar os fundamentos da mediação democrática.

Se o jornalismo tivesse se reinventado como mediador em rede, e não como emissor vertical, boa parte do espaço ocupado pela desinformação poderia ter sido contido. Trump, Orbán, Duterte e Bolsonaro talvez não tivessem encontrado terreno tão fértil para manipular a opinião pública.

Nesse cenário, a imprensa não pode mais se limitar a produzir e distribuir informação. Precisa, como fez a família Bolsonaro de forma perversa, fomentar e monitorar redes sociais de fato, mas com outra finalidade: reconstruir o espaço comum da linguagem, da escuta e do conflito civilizado.

Essa é hoje a tarefa essencial do jornalismo. Para cumpri-la, é preciso desenvolver sistemas e ambientes próprios, que sustentem uma relação em rede com o público, rompendo com a lógica reativa e subordinada às plataformas. Não se trata apenas de informar, mas de reorganizar a esfera pública em torno de vínculos mais legítimos, mediações transparentes e sentidos compartilhados.

Isso exige uma organização editorial conectada a redes sociais reais —aquelas formadas por vínculos vivos nos territórios, vínculos entre o público e seus grupos de interesse, compostos também por educadores, cientistas, lideranças locais e cobertos por jornalistas de campo.

Isso vai muito além das estruturas artificiais que as plataformas das big techs passaram a chamar de “redes”, com a cumplicidade da imprensa, apenas para sustentar um modelo de negócios perverso, baseado na extração da atenção e na desinformação.

O jornalismo que se faz necessário hoje é aquele capaz de articular inteligência distribuída e sustentar-se não apenas por publicidade, mas por confiança, pertencimento e corresponsabilidade.

Não se trata de nostalgia. Como alertava McLuhan, tendemos a enfrentar o novo com os reflexos do passado, “uma marcha para o futuro olhando para o retrovisor”.

É hora de redesenhar a mediação: não há democracia sem esfera pública, nem esfera pública sem estruturas de mediação. E, neste novo ambiente, isso exige criar relações em rede com o público —vínculos contínuos, distribuídos e confiáveis, capazes de sustentar um jornalismo que não apenas informe, mas articule—, reconectando-o.

Na encruzilhada

O “Relatório de Desenvolvimento Humano 2025 – Uma Questão de Escolha : Pessoas e Possibilidades na Era da IA”, publicado recentemente pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), é um chamado à ação.

Segundo o documento, a reconstrução da democracia passa, necessariamente, pela reconstrução do jornalismo, articulada a um novo pacto político que inclua governança democrática das infraestruturas digitais, transparência algorítmica, responsabilização das plataformas e estímulo a ecossistemas informacionais sustentáveis.

O que está em jogo é uma encruzilhada civilizatória entre emancipação e servidão algorítmica. O conceito central do relatório é o “poder agencial algorítmico”: algoritmos que moldam escolhas, organizam o visível e delimitam o possível. Treinados com dados históricos, amplificam desigualdades sob a aparência de neutralidade.

Essa infraestrutura, controlada por poucos, configura uma colonização simbólica. As plataformas moldam afetos, polarizam crenças e corroem os mecanismos da opinião pública. O relatório propõe caminhos: uma “inovação com intenção”, orientada por valores públicos, e uma “economia de complementaridade” entre humanos e máquinas.

Três nós górdios

O PNUD é incisivo: o futuro da IA será determinado por escolhas políticas e institucionais, não tecnológicas.

Três pilares são fundamentais: transparência, para que os critérios que orientam a operação algorítmica sejam compreensíveis e auditáveis; responsabilidade, para que decisões automatizadas possam ser contestadas e revisadas; e contestabilidade, para que haja mecanismos institucionais efetivos de revisão e correção.

O relatório alerta que, ao deixar as plataformas definirem os termos do debate, estamos entregando a cidadania a sistemas opacos e não contestáveis. Essa “automatização do poder” captura atenção, promove consumo e reforça desigualdades. Este é o núcleo da questão: a governança da inteligência artificial é, antes de tudo, um desafio político.

Não há arranjo institucional viável sem enfrentar a extrema concentração de poder informacional e computacional nas mãos de um punhado de empresas privadas, guiadas unicamente por lucro e controle de mercado. As propostas de regulação, tal como estão sendo desenhadas, tendem a reforçar ainda mais esse domínio.

Só uma ação coercitiva de alcance global —capaz de afetar diretamente seus ganhos, desmontar estruturas de monopólio e inverter os incentivos predatórios— pode, de fato, mudar o jogo. É preciso falar a única linguagem que elas entendem: o bolso.

O diagnóstico do PNUD converge com a análise que Martin Wolf, principal comentarista econômico do Financial Times vem desenvolvendo desde 2014: caminhamos para uma era de regimes autocráticos, impulsionados por ressentimentos de massa gerados pelo capitalismo financeiro e alavancados por plataformas digitais que concentram o poder informacional.

E “The Crisis of Democratic Capitalism” Wolf argumenta que a sobrevivência da democracia depende de instituições intermediárias fortes e legitimadas, capazes de sustentar uma esfera pública funcional. Sem jornalismo independente, crítico e estruturado como mediação confiável, abre-se espaço para a desinformação, o tribalismo e a erosão dos fundamentos republicanos.

A questão central não é apenas regular as plataformas, mas reconstruir a esfera pública em meio a novas infraestruturas de poder. O relatório do PNUD é um chamado à ação: não podemos seguir como usuários passivos de sistemas algorítmicos. Precisamos deliberar coletivamente sobre o desenvolvimento tecnológico, a arquitetura informacional e os valores que a orientam.

Este é um ponto de inflexão civilizatório: ou criamos mecanismos institucionais para conter a lógica extrativista das plataformas, ou veremos consolidar-se um colonialismo digital que restringe liberdades, corrói a deliberação democrática e reduz a agência humana à lógica dos algoritmos.

O desafio é político. Exige um novo pacto social que subordine a tecnologia à emancipação, não à dominação.

O silêncio público e institucional sobre a gravidade dessa crise é, ele próprio, parte do problema. Persistir nesse mutismo equivale a legitimar a nova ordem algorítmica como inevitável e incontornável. Romper com esse silêncio é o primeiro passo para a reconstrução da esfera pública.

Ou tomamos a iniciativa de desautomatizar a esfera pública e democratizar as infraestruturas digitais, ou permaneceremos como espectadores passivos da consolidação de uma nova ordem social algorítmica, na qual a liberdade e a democracia não terão mais espaço para florescer.

Não se trata apenas de propor ajustes ou inovações incrementais: é preciso coragem política, intelectual e institucional para reimaginar o jornalismo e as infraestruturas digitais como bens públicos essenciais à democracia.

Esta tarefa é ainda mais urgente diante do quadro de insegurança e desesperança que hoje atravessa a humanidade, resultado da falência das formas tradicionais de representação política, do declínio da mediação jornalística e da emergência de um poder informacional opaco e concentrado.

A reconstrução da esfera pública, portanto, não é apenas um imperativo técnico ou institucional, mas uma resposta necessária ao mal-estar difuso que corrói a confiança coletiva e ameaça o próprio futuro da democracia.

Este é o desafio essencial do nosso tempo —enfrentar a consolidação de uma nova ordem social algorítmica, imposta por conglomerados tecnológicos privados que hoje detêm mais poder do que muitos Estados nacionais.

Que soberania? por Oscar Vilhena Vieira

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Assim como a sociedade brasileira e suas instituições têm sabido se defender dos ataques da extrema direita, saberão se proteger agora dos traidores da pátria

Oscar Vilhena Vieira, Professor da FGV Direito SP, mestre em direito pela Universidade Columbia (EUA) e doutor em ciência política pela USP. Autor de “Constituição e sua Reserva de Justiça” (Martins Fontes, 2023).

Folha de São Paulo, 26/07/2025

Nos últimos dias, em face das investidas do presidente norte-americano contra o Poder Judiciário brasileiro, muito tem se falado em soberania no Brasil. Mas de que soberania estamos falando?

A soberania nada mais é do que o poder de um povo de determinar o seu próprio destino, de acordo com suas leis e suas instituições.

Mas este não era o seu sentido original. O conceito de soberania foi incorporado à linguagem jurídica e política no final da idade média, para designar a autoridade absoluta e incontrastável da monarquia sobre seus súditos, em um determinado território. No plano internacional, o termo serviu para indicar a independência de um Estado em relação às demais nações.

Ao longo dos séculos, o conceito de soberania foi sendo profundamente reformulado. Rousseau subverteu o conceito ao retirar a soberania das mãos do príncipe e transferi-la aos cidadãos. A ideia de soberania popular, por ele proposta, reivindica que o poder apenas seria legítimo quando representasse uma fiel expressão da vontade popular.

O conceito de soberania sofreria uma reformulação ainda mais radical, com a ascensão dos regimes constitucionais, estruturados a partir de um sistema de separação de poderes e pela garantia dos direitos fundamentais. Neste momento, o conceito de soberania se afastou, por definitivo, da ideia de poder absoluto, passando a designar uma ordem política pautada na constituição e nos direitos fundamentais.

No plano internacional, no entanto, o conceito de soberania só entraria em declínio após a barbárie do nolocausto, do colonialismo e a perspectiva de destruição total decorrente do desfecho da 2° Guerra.

A criação de uma nova ordem internacional baseada na proibição da guerra, no reconhecimento dos direitos humanos, da autodeterminação dos povos, na cooperação e no respeito ao direito internacional domesticaram o conceito de soberania e, mais importante, abriram uma nova perspectiva civilizatória à humanidade.

A Constituição de 1988 incorpora em seus primeiros artigos essa concepção humanista de soberania, ao reconhecer que “todo poder emana do povo, que o exerce por meio de seus representantes ou diretamente, nos termos da Constituição”; que os Poderes devem ser “independentes e harmônicos”; que a República deve perseguir a “construção de uma sociedade livre, justa e solidária” o “desenvolvimento nacional”, “reduzir as desigualdades” e “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer formas de discriminação”.

No plano internacional, a República Federativa do Brasil deve reger-se, entre outros, pelos princípios da “independência nacional”, “prevalência dos direitos humanos”, “não intervenção”, “repúdio ao racismo e ao terrorismo” e “solução pacífica dos conflitos”. O mesmo respeito que tem com as demais nações o Brasil exige para si.

Foi em defesa dessa concepção generosa, democrática e inclusiva de soberania, que centenas de organizações e milhares de pessoas, representando muitas outras, se manifestaram nesta última sexta-feira no histórico Largo de São Francisco.

Assim como a sociedade brasileira e suas instituições têm sabido se defender ao longo dos últimos anos dos ataques perpetrados pela extrema direita contra o Estado Democrático de Direito, saberão se proteger agora dos traidores da pátria, assim como daqueles que atentam contra a sua democrática soberania.