“O liberalismo enfraqueceu nossa rede de salvação˜: Entrevista com Richard Senett.

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coronavírus atrapalhou os planos deste incansável defensor do Estado de bem-estar social. Neste ano, o confinamento e as restrições para voar retiveram Richard Sennett (Chicago, 1943) em Londres, onde vive metade do ano com sua esposa, a também socióloga Saskia Sassen, e leciona na London School of Economics.

A entrevista é de Carmen Pérez-Lanzac, publicada por El País, 13-06-2020.

O renomado sociólogo não passará a primavera setentrional (de setembro a dezembro) em Nova York, onde fica mais perto do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), no qual também leciona. No dia desta entrevista, 27 de abril, Sennett estava ansioso para retomar seu trabalho nas Nações Unidas, onde colabora no desenvolvimento de estratégias para que as cidades enfrentem a crise climática. A ONU reabriu após permanecer várias semanas fechada devido à pandemia. O autor de Construir e Habitar: Ética para uma Cidade Aberta (Record, 2018) está impressionado: seus vizinhos londrinos se organizaram e trazem alimentos para ele e sua esposa, assim como para outros moradores de seu edifício. Essa gentileza lhe deu esperança.

Eis a entrevista.

Nesta crise, o que aprenderemos de útil para as futuras transformações que a mudança climática trará?

Que uma das coisas nas quais temos de nos concentrar, em relação à vida nas cidades, é o quanto poderemos viver adensados. Para questões climáticas, a densidade não é algo ruim. É importante que as pessoas vivam de forma mais compacta, usem o transporte público e não ande cada uma isolada em seu carro. Mas a densidade também pode ser uma ameaça. Por isso, a questão é desenvolver formas para que nossas cidades sejam tanto verdes como saudáveis. Esse é o desafio ao qual eu e meus colegas na ONU estamos nos dedicando agora.

E como as cidades mudarão?

A melhor proposta que ouvi para as cidades ricas é de Anne Hidalgo, a prefeita de Paris: criar nós de concentração, o que ela chama de “cidades de 15 minutos”. Nelas, as pessoas podem chegar de bicicleta ou andando em 15 minutos a um centro que não necessite de transporte público, que pode chegar a ser muito perigoso em casos como o que vivemos atualmente. É uma mudança enorme. Em cidades como Paris, significa reconstruir totalmente a urbe. Seria algo mais parecido com Londres, que é uma espécie de acúmulo de muitas cidades entre as quais você pode se deslocar a pé.

E as cidades que não são ricas?

Infelizmente, no sul essa não é uma opção viável. As pessoas vivem em subúrbios ou favelas a horas de distância de onde trabalham. Imaginar que pudessem chegar andando é apenas uma fantasia. A única forma pela qual poderiam conseguir isso seria através do controle estatal de toda a indústria e da descentralização de toda a produção. Economicamente, seria muito complicado. No grupo da ONU em que estou trabalhando estamos imaginando opções para São Paulo. Existem maneiras de, pelo menos, criar redes de comunicação para que as pessoas saibam o que acontece no resto da cidade e possam reagir. Imaginemos que um bairro estivesse muito afetado pela covid-19 ou semelhante. Pelo menos o resto poderia se proteger não passando por esse bairro. Não é uma grande opção, mas há tão pouco dinheiro na maioria das cidades dos países em desenvolvimento que a situação é completamente diferente. A não ser que haja uma mudança maciça na economia e no poder estatal, é mais uma estratégia de adaptação.

E sobre o sistema econômico, que lições aprenderemos?

O liberalismo, como força econômica, enfraqueceu nossa rede de salvação, aquela que nos ajuda em caso de crise. Ele transformou o Estado de bem-estar em algo que não funciona. O Estado está nos ensinando a fazer máscaras porque não pode nos prover delas! Em meu edifício, criamos novas formas de comunicação entre os moradores porque não temos outra maneira de fazer isso através de nenhum órgão público. Nós mesmos tivemos de criar as conexões. O Estado estará fraco demais para enfrentar a mudança climática. Caso houvesse escassez de água, não seria algo que os capitalistas resolveriam. Teremos de mudar a economia e decidir como supriremos a ausência do Estado.

Que diferenças vê entre as duas crises, a provocada pela pandemia e a que está sendo gerada pela mudança climática?

A grande diferença entre a crise que vivemos atualmente e a mudança climática é que a crise atual é abrupta e acentuada. Para tentar frear a pandemia, você pode confinar a população, fazer exames… O problema com a mudança climática é que é algo muito lento, seus efeitos não são dramáticos. A questão do aumento da temperatura no planeta e particularmente nas cidades é algo que vai acontecendo ano após ano. Em uma década, não haverá um momento em que digamos: “Ah, temos um problema” ―ele estará sendo gerado. Devemos começar a nos preparar para algo que vai ocorrer daqui a 20 anos, e custa fazer isso.

O que acredita que, na esteira desta crise, deveríamos fazer para manter um equilíbrio entre nossa segurança e nossa liberdade?

Não podemos ter as duas coisas. Qualquer atividade é um risco. E isso nos leva a tomar decisões concretas em função de quanto risco estivermos dispostos a assumir. Sempre há opções na vida. Você pode anular todo o risco adotando o modelo autoritário, o modelo chinês, mas não queremos viver dessa forma. Filosoficamente, já escrevi muito sobre este assunto. A insegurança é um assunto no qual todos os adultos devem pensar. Em que aspectos você se sente inseguro, e como. No caso da pandemia, não estou preocupado com minha própria morte, mas gostaria que houvesse o máximo de segurança para meus netos, proteção para a família. A liberdade é sempre um risco. Em minha opinião, a melhor maneira de lidar com isso é através do Estado de bem-estar social.

 

 

Ministério da Educação só propôs ações minúsculas na crise da Covid-19, por Priscila Cruz

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Ministro não se engaja por soluções, desrespeita instituições e faz declarações racistas

Priscila Cruz – Folha de São Paulo – 13/06/2020

Encontro no “Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa, uma síntese da dissonância que estamos vivendo: “Uns governam o mundo, outros são o mundo”.

O aumento do isolamento ético, programático e de propósito de autoridades públicas —notem que não é mais possível falarmos em lideranças públicas— em relação à população; o abandono do interesse público em benefício de um projeto de poder, não de país; o populismo do ódio, da negação e da desconstrução, ao invés da formulação de soluções, trabalho duro e busca por resultados.

Alguns políticos nos vêm à cabeça. Entretanto, tratarei aqui dos efeitos desse modo de governar no Ministério da Educação e o que deve ser feito. Nota importante de partida: os efeitos da pandemia são gigantescos. A inação do MEC não pode ser perdoada.

Comecemos com o que deveria ter sido feito pelo governo federal e não foi, tendo como premissa a redução dos efeitos devastadores na segurança alimentar, na aprendizagem e no aumento das desigualdades entre os alunos da educação básica.

Falar do que não foi feito não é pisotear o passado. É fazer um retrato em preto e branco dos últimos 90 dias. Enxergar o escuro nos dá a dimensão do que precisa ser feito se quisermos reconstruir o país a partir do investimento nas pessoas, o que se mostra, pela história de diversos países, ser a melhor estratégia para o desenvolvimento social e econômico duradouros.

Pois bem, em uma República Federativa, com divisão de responsabilidades intrincadas, a primeira ação deveria ter sido a formação de um gabinete tripartite —União, Estados e Municípios— para a definição de respostas imediatas à crise e monitoramento da situação, formulação de soluções e coordenação de esforços de implementação.

Muito poderia ter sido feito, iniciando com a segurança alimentar dos estudantes e apresentação ao Legislativo de medida provisória que autorizasse estados e municípios a usar os recursos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) de acordo com as condições locais.

No campo da aprendizagem, o gabinete tripartite de gestão federativa poderia ter identificado estratégias para o ensino remoto mais eficazes com base em evidências, ter promovido a troca ágil de melhores experiências nacionais e ter realizado o levantamento da extensão e das experiências de ensino remoto.

Sobre a conectividade, poderia ter buscado junto ao setor privado parcerias e apoio para garantir a ampliação da conexão à internet a estudantes e a redes de ensino.

O MEC poderia, ainda, em articulação com estados e municípios e com o melhor interesse do avanço do ensino público brasileiro, ter se empenhado junto com o Congresso Nacional na aprovação do novo Fundeb e na tramitação da lei que institui o Sistema Nacional de Educação, fundamentais para a acelerar a recuperação da educação e garantir que, no futuro, o sistema esteja melhor preparado para enfrentar crises.

Em vez de engajamento para encontrar soluções, assistimos à distopia espetaculosa de um ministro em ataques a governadores e prefeitos, declarações racistas e desrespeito às instituições —o que parece uma tática para esconder a inoperância escancarada da sua gestão.

Não bastassem as falas desencontradas sobre a realização do Enem, nada empáticas com os alunos, o que produziu foram medidas sem a menor chance de prosperar, como a MP 979, que pretendia lhe dar exclusividade na indicação dos reitores das universidades e institutos federais durante a pandemia; e ações minúsculas frente ao impacto que o um ministério poderia ter, como a série de vídeos Tempo de Aprender.

 

Felizmente temos uma comunidade mobilizada pela educação no país, de educadores, organizações da sociedade civil, gestores estaduais e municipais e gestores escolares, sem esquecer o protagonismo do Conselho Nacional de Educação na formulação das diretrizes de ensino remoto em vista da suspensão das aulas presenciais.

Infelizmente, porém, são esforços insuficientes. Muito terá que ser feito para recuperar impactos desse período e para isso precisamos de competência, coordenação e articulação.

Com uma atuação pífia antes da pandemia e agora escancaradamente desastrosa, a manutenção do atual ministro no cargo não tem razão que não seja satisfazer outros interesses. Se isso ocorrer, entrará para a história como um grave episódio de lesa-humanidade, lesa-brasileiros.

Priscila Cruz é cofundadora e presidente-executiva do Todos Pela Educação, é mestre em administração pública pela Harvard Kennedy School of Government

 

 

Informar mais pobres de maneira incompreensível freia o desenvolvimento, diz Nobel de Economia

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Michael Kremer, professor de Harvard, diz que crise do coronavírus pode servir como empurrão para uso mais intenso de tecnologias simples

Érica Fraga – Folha de São Paulo – 13/06/2020.

A informação transmitida de forma incompreensível para os mais pobres pode ser uma barreira maior ao desenvolvimento econômico do que a falta de tecnologia ou de interesse dos governantes.

Essas são algumas conclusões que o economista norte-americano Michael Kremer, professor da Universidade Harvard, tira de seu trabalho dedicado à avaliação de políticas públicas, que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Economia ao lado de Esther Duflo e Abhijit Banerjee, em 2019.

Os três foram reconhecidos por mostrar que experimentos semelhantes aos testes da eficácia de remédios na medicina poderiam ser usados para mensurar o impacto de soluções para problemas como dificuldades de aprendizagem.

Nos últimos anos, Kremer tem focado o desenvolvimento de mecanismos desse tipo para aumentar a eficiência de pequenos produtores rurais em países da África e da Ásia.

Assim como um estudo antigo do economista mostrou que livros didáticos são pouco úteis para alunos pobres se eles não entenderem seu conteúdo, suas pesquisas recentes indicam que muitos agricultores não compreendem a linguagem técnica de orientações oferecidas por governos.

“Houve um caso em que forneciam orientação com base no pH [nível de acidez] do solo. Bem, os agricultores podem não saber o que é pH e, certamente, não sabem qual é o pH do seu solo”, disse Kremer em entrevista à Folha.

Em parceria com o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), o economista trará, agora, para a América Latina ferramentas que testou em nações como Quênia e Índia.

Na semana passada, ele participou de uma agenda intensa de reuniões com representantes do IICA e de um debate online com Manuel Otero, presidente da instituição.

Nesses encontros, ressaltou que a crise do coronavírus pode servir como empurrão para o uso mais intenso de tecnologias simples, via celulares, na comunicação com pequenos produtores.

O vencedor do Nobel também está envolvido em uma iniciativa que busca convencer governos e empresas a investir pesadamente na busca por uma vacina contra a Covid-19 assim como em fábricas para a sua produção.

“Esse é um investimento que países de renda média também deveriam estar fazendo”, afirmou o Prêmio
Nobel de Economia.

Quais são os principais fatores que freiam o aumento da produtividade de pequenos agricultores em países pobres e em desenvolvimento?

Muito da pobreza no mundo está concentrada em áreas rurais. Há muitos fatores que impactam a renda na agricultura, como acesso à terra, educação limitada, mas também a informação.

Nesse contexto em que a tecnologia agrícola está mudando, seja pelo surgimento de novos meios de produção, novas pragas e mudanças climáticas, os fazendeiros precisam de acesso à informação e às melhores recomendações científicas.

Tradicionalmente, essa informação é fornecida por agentes de instituições oficiais de extensão [formação] rural, que visitam os fazendeiros pessoalmente. Esse é um canal muito importante, mas muito caro.

A maior parte dos fazendeiros tem telefones pelos quais conseguem pegar informações sobre as mais recentes evidências científicas, formatadas sob medida para os desafios particulares que afetam suas regiões, as sementes que estão usando, as condições meteorológicas, a época da safra.

Os celulares são uma ótima ferramenta para alcançá-los neste momento em que a Covid-19 nos dá um empurrão extra para usarmos as tecnologias disponíveis para interagir remotamente.

A linguagem da ciência é normalmente complicada, e, no meio rural, principalmente o mais pobre, há uma barreira educacional. Como resolver isso?


Temos feito muitos trabalhos em países da África oriental, como Quênia, Etiópia e Ruanda, e, com outros colegas, na Índia e no Paquistão. Há abordagens que incluem mensagens de texto, dependentes do nível de alfabetização, mas outras que incluem mensagens de voz.

É possível ter sistemas pelos quais os fazendeiros recebem mensagens de voz e podem até escolher previamente os tópicos que lhes interessam ou preocupam, a língua que preferem.

Temos evidências científicas, com outros pesquisadores, dos ganhos enormes em termos de custo e benefício que eles podem ter com as tecnologias existentes.

Na conversa com Manuel Otero, o sr. disse que o trabalho dos economistas é buscar evidências e que caberia à ciência política responder sobre como governos reagem a elas. Os economistas não deveriam se preocupar com essa questão do convencimento dos governos também?


Inicialmente, em minha carreira, acho que fui um pouco cínico demais sobre governos, o que pode soar estranho, porque, normalmente, as pessoas começam idealistas, aí deparam com a realidade nos governos e se tornam cínicas.

Mas, nesse caso da agricultura, descobrimos, muito consistentemente, que os governos normalmente são responsivos às evidências.

Bem, para ser um pouco cínico, acho que os governos têm interesse em agradar aos fazendeiros porque há muitos votos nas áreas agrícolas. Mas, se há algo barato, eles se interessam. Se é caro, talvez não.

Mensagens de celular são baratas. E acho que as pessoas nos ministérios da Agricultura realmente se importam, querem transmitir os conteúdos adequados. Mas os funcionários dessas áreas escrevem mensagens muito técnicas, que os fazendeiros têm dificuldade de entender.

Como vocês têm ajudado nisso?

Realizamos muitos grupos focais com os agricultores para descobrir que mensagens eles entendem. Muitos governos tinham dados que nos ajudaram também. Fomos testando ideias para descobrir o que funcionava.

Na Índia, o governo estava prestes a iniciar um programa de larga escala para distribuir informações para os agricultores sobre a qualidade do solo. Fizemos entrevistas com eles e descobrimos que não
entendiam esse conteúdo.

Estavam apresentando muita informação de forma complicada, mencionando unidades que os agricultores não conheciam. Então, trabalhamos com o governo para criar mensagens de telefone muito simples e isso aumentou dramaticamente a compreensão.

Não houve nenhuma resistência da parte do governo, uma vez que eles viram as evidências. Mas tenho certeza de que há outros temas em que é diferente, quando há muitos interesses financeiros envolvidos, corrupção ou algo mais.

Em um estudo antigo, o sr. descobriu que livros didáticos melhoravam o desempenho apenas dos melhores alunos. Pode haver um problema comum, de comunicação incompreensível, atrapalhando áreas diversas como educação e agricultura?

Sim. No trabalho muito inicial com o qual estive envolvido, descobrimos que o livro didático que o Ministério da Educação estava produzindo em escolas muito pobres, no Quênia, ajudava os alunos que já estavam entre os melhores, mas não os estudantes típicos.

Com o tempo, outros pesquisadores mostraram que não é que os alunos não conseguem aprender, mas que você precisa desenvolver materiais baseados no que já sabem. A partir daí, eles conseguirão alcançar os conteúdos mais avançados e progredir na aprendizagem.

Acho que, de fato, há uma analogia com a agricultura. Houve um caso em que o serviço de informação telefônica fornecia orientação sobre o que o agricultor deveria fazer com base no pH do solo. Bem, os agricultores podem não saber o que é pH e, certamente, não sabem qual é o pH do seu solo. Mas, se você desenvolver uma mensagem compreensível, ela terá mais impacto.

No Brasil, pequenos agricultores têm dificuldade em compatibilizar sua produção com o mercado consumidor. Mensagens de texto podem ajudar nisso?

No Quênia, uma empresa grande de açúcar deveria fornecer fertilizantes e sementes aos agricultores. Mas algumas vezes atrasava ou não fazia a entrega por problemas internos de administração. Então, criaram uma linha telefônica cujo objetivo não era enviar conteúdo aos agricultores, mas coletar informações deles. Isso levou a uma queda dramática nas falhas de entregas.

Há um estudo muito interessante de Robert Jensen que olhou o mercado de peixes. Com telefones celulares, os pescadores, ainda no mar, passaram a poder ligar para os mercados e descobrir os preços. Isso permitiu que ganhassem mais dinheiro e beneficiou também os consumidores. Haverá ganhos ainda maiores quando estivermos não só fornecendo informações mas indo além e as integrando, por exemplo, às cadeias de oferta.

Qual é sua expectativa em relação ao trabalho que fará na América Latina?

Já trabalhei na Colômbia, avaliando um programa educacional que fornecia recursos para crianças de áreas pobres irem para a escola secundária. Descobrimos resultados muito bons.

Já fui a conferências no Brasil, que é um país maravilhoso, mas não trabalhei ainda aí.

Minha impressão é que os governos têm dados muito bons na América Latina. Além disso, por serem países com renda média, e não baixa, mais recursos estão disponíveis, há economistas e especialistas em agricultura muito bons, que podem implementar as ferramentas adequadas.

O sr. está envolvido em discussões sobre a busca pela vacina contra o novo coronavírus. Como tem sido isso?

Obviamente, esse é um assunto-chave para o Brasil e para o mundo. Muitas vidas
estão sendo perdidas, e as perdas econômicas são da ordem de US$ 375 bilhões mensais. Se conseguirmos uma vacina semanas ou meses mais cedo, economizaremos bilhões de dólares.

Isso significa que vale a pena investir um montante enorme de recursos para tentar descobrir uma vacina e mesmo para instalar uma fábrica para sua produção antes de termos os resultados dos testes.

Claro que há o risco de você fazer a fábrica, o resultado da vacina não ser efetivo e parte do investimento ser perdida, mas o custo desse risco é muito pequeno relativo ao custo de não ter uma vacina.

Estou particularmente preocupado com a situação dos países de renda média. Em países como os Estados Unidos, já há parcerias com empresas farmacêuticas grandes para a produção. Os países de renda muito baixa, representados pela Gavi (entidade de disseminação de vacinas), levantaram recursos para isso também, pelo menos para a fase inicial.

Esse é um investimento que países de renda média também deveriam estar fazendo.

 

Perigo são patógenos originados dos animais silvestres, diz Jared Diamond

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Biogeógrafo afirma ter cautela ao comparar Covid-19 com pandemias do passado

Reinaldo José Lopes – Folha de São Paulo – 13/06/2020

Autor do best-seller “Armas, Germes e Aço”, uma das análises mais importantes sobre o impacto das doenças infecciosas sobre a história humana, o biogeógrafo americano Jared Diamond, 82, diz que é preciso cautela ao comparar a Covid-19 com outras pandemias do passado.

Além de ser menos letal do que o sarampo e a varíola, que dizimaram boa parte da população indígena do Novo Mundo logo após o contato com os europeus, o novo coronavírus representa também uma fase relativamente recente da história das moléstias emergentes, afirma Diamond.

As doenças infecciosas mais importantes do passado costumavam vir de animais domésticos, enquanto o maior perigo atual são os patógenos vindos de espécies silvestres, por meio do contato gerado pela devastação ambiental e pelo tráfico de animais.

Diamond, que conta ter perdido cinco amigos próximos por causa da Covid-19, afirma ter esperanças de que a doença mostre como a cooperação internacional é imprescindível para enfrentar os grandes desafios globais, em especial a mudança climática.

Muita gente tem comparado o impacto do novo coronavírus ao efeito das doenças infecciosas europeias sobre os povos indígenas na Era dos Descobrimentos. Até que ponto o sr. acha que a analogia é válida?

Por um lado, é verdade que, assim como o mundo inteiro hoje no caso do coronavírus, os povos do
Novo Mundo não tinham defesas naturais contra as doenças trazidas pelos europeus.

Já os habitantes da Europa, por causa de milênios de exposição a esses patógenos, tinham certo nível de imunidade genética a tais doenças, por efeito da seleção natural, e principalmente a imunidade adquirida a elas ao longo da vida. Ou seja, eles também podiam ficar doentes e morrer de sarampo ou varíola, mas alguns já estavam imunes por terem tido essas doenças antes e sobrevivido, e outros sofriam sintomas mais leves, ao contrário dos indígenas.

Por outro lado, a analogia não é muito precisa por dois motivos. A Covid-19 só se espalhou com tanta velocidade graças às viagens de avião de hoje, enquanto em 1500 as doenças dependiam de viagens marítimas ou terrestres lentas para se propagar. E, claro, não há como comparar a letalidade relativamente modesta do corona, de cerca de 1%, com a das doenças da Era dos Descobrimentos. Só o sarampo matou entre 20% e 30% dos indígenas das Américas.

Mas a letalidade de 1% depende do uso de medicina moderna, certo? Sem a tecnologia atual, ela não seria muito maior?

Alguns dados sugerem que na verdade ela não seria muito maior em épocas pré-modernas. A Covid-19 atingiu duramente a população da reserva indígena dos navajos [sudoeste dos EUA], onde não há infraestrutura médica e, em muitos casos, nem água encanada. A mortalidade é alta, mas nem chega perto da causada pelo sarampo na época colonial [de cerca de 6.000 infectados do povo navajo, 300 morreram até agora, uma letalidade de 5%].

O aparecimento de doenças como a gripe aviária, a Sars e agora a Covid-19 na China têm levado o público a enxergar o território como a grande fonte de novas pandemias ao longo da história. Essa impressão é justificável?

Não. Historicamente, a China não desempenhou um papel especial no surgimento de pandemias. Trata-se de algo que surgiu nos últimos 30 anos ou, no máximo, 50 anos. As principais doenças infecciosas do Velho Mundo, como o sarampo, a varíola e a tuberculose, apareceram nos mais variados lugares da Eurásia, e não há razão para acreditar que a China tenha desempenhado um papel na sua origem.

A África Subsaariana provavelmente é a fonte da malária, enquanto a dengue surgiu na Ásia tropical. A China parece ter sido importante na origem da peste bubônica e da gripe, mas durante a maior parte do tempo essas doenças não tiveram impacto significativo no Novo Mundo.

O Velho Mundo como um todo produziu a grande maioria das doenças infecciosas por dois motivos importantes: a presença de animais domésticos de grandes portes como bovinos e suínos, que não existiam nas Américas e foram a principal fonte dessas moléstias; e o fato de que os grandes símios [como chimpanzés e gorilas] e os demais macacos do Velho Mundo são geneticamente muito mais próximos do ser humano do que os macacos do Novo Mundo. Com isso, era mais fácil que as doenças dos primatas do Velho Mundo infectassem também as pessoas.

O que explica a importância da China nos últimos 30 anos é o fato de que a maioria das doenças de animais domésticos que podem nos infectar já saltaram para a população humana faz tempo, de modo que só as vindas de espécies selvagens podem se tornar novas pandemias.

A China se consolidou como mercado importante para animais silvestres vivos e também para produtos derivados deles para a medicina tradicional, o que aumenta o risco. Um fenômeno parecido envolvendo o consumo de carne de caça explica o surgimento de vírus como o HIV, o Ebola e o Marburg na África.

A intensificação da pecuária industrial também não aumenta esse tipo de risco? 

É verdade que a criação de animais em escala industrial aumenta o risco de novas doenças. Empacotar porcos e bois num espaço exíguo aumenta a transmissibilidade de doenças, e novas cepas de gripe muitas vezes vêm de suínos, mas a probabilidade de que algum patógeno fundamentalmente novo venha desses animais é pequena.
Se um visitante maligno do espaço sideral, um ser de seis pernas da galáxia de Andrômeda, resolvesse criar um plano para causar mal à humanidade, ele provavelmente pensaria: “Vou convencer esses terráqueos a criar mercados cheios de animais selvagens”.

O sr. buscou compreender as causas do fim de civilizações em “Colapso”. Há algo na pandemia atual que revele fragilidades da civilização do século 21? 

Acho que podemos dizer que ela é frágil em um aspecto: o que a Covid-19 está fazendo é ameaçar o futuro do comércio internacional. E o paradoxo é que, para ser franco, a taxa de letalidade da doença é baixa, mesmo quando comparada a outras pandemias recentes. A letalidade da Aids foi alta durante muito tempo, mas com efeito no longo prazo. O Ebola e o Marburg matam 50% ou mais dos infectados, mas sua transmissibilidade é baixa, o que impediu o pior. O coronavírus, apesar de efeitos normalmente modestos sobre a saúde individual, afeta a estrutura das conexões internacionais: contatos sociais e tecnologia do transporte moderno baseado em caminhões, ferrovias, aviões.

Em muitos países, parece ter havido um aumento da confiança da população na ciência por causa da pandemia. O sr. concorda que se trata de um sinal positivo?

É claro que é difícil falar de um lado positivo dessa pandemia. Eu e minha mulher perdemos cinco de nossos amigos próximos por causa da Covid-19, tem sido terrível. Mas é um sinal de esperança, sem dúvida. Com exceção do atual governo federal dos EUA, que é anticientífico, ignorante e estúpido, trata-se de um efeito positivo.

Mas o mais importante seria a compreensão sobre como precisamos lidar com problemas em escala global. Não adianta cada país controlar apenas a sua situação interna: se a Mongólia, digamos, continuar com a transmissão do vírus, o mundo inteiro pode acabar sofrendo de novo.

As vacinas vão vir, muito provavelmente, mas o mundo ainda vai ter de lidar coletivamente com os desafios muito maiores da mudança climática e da perda de recursos naturais. Minha esperança é que a Covid-19 ajude as pessoas a reconhecer isso.

E as coisas estão conectadas, certo? A destruição ambiental está diretamente ligada ao surgimento de patógenos. 

Sim, as pandemias recentes mostraram que o contato próximo entre seres humanos e animais selvagens, que é resultado da exploração desenfreada de ambientes naturais, é muito perigoso.

O sr. está escrevendo um novo livro?

Sim, como eu sempre digo, enquanto estou respirando e com o coração batendo, estou escrevendo (risos). Mas prefiro contar qual é o tema numa próxima ocasião.

RAIO-X

Jared Diamond, 82, Biogeógrafo, é professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles e escritor; estuda a interface entre teoria da evolução e história da humanidade; é autor de “Armas, Germes e Aço” (1997, ganhador do prêmio Pulitzer) e “Colapso” (2005), entre outros

 

 

‘A pandemia vai reprogramar muitas das nossas cidades’

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Coronavírus acelerou tendências de prazo mais longo, como a digitalização do varejo, a mudança para o trabalho remoto e a ‘pedestrianização’ das cidades, diz diretor do Instituto Igarapé

Pablo Pereira

Estado de São Paulo, 14/06/2020

Ao mesmo tempo em que coloca em xeque o futuro dos “open offices” e, consequentemente, deve levar à revisão de políticas de mobilidade, a pandemia provocada pelo novo corovavírus não significa o fim da densidade populacional ou da forma como vivemos nos grandes centros urbanos no mundo. A opinião é de Robert Muggah, diretor do Instituto Igarapé. “Embora algumas pessoas certamente venham a se afastar das cidades, não veremos uma desconcentração maciça e uma mudança para os subúrbios”, afirma.

Ele também chama de “fictícia” a ideia de que, a partir de agora, veremos cidades mais “verdes”, com menos carros e mais espaço para pedestres e ciclistas. Mas diz que é inegável que muitas das cidades devem ser “reprogramadas” após o período de confinamento. Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista:

Quais são as principais mudanças que devem ocorrer nas cidades após a pandemia?

A pandemia está transformando muitos aspectos da vida das cidades em tempo real, sobrecarregando os hospitais, interrompendo o comércio, forçando as pessoas a ficarem fechadas dentro de casa e restringindo o acesso a espaços públicos. Na ausência de uma vacina ou de antivirais adequados, muitas dessas mudanças poderão se tornar permanentes. As cidades já vinham enfrentando problemas crônicos, déficits e escassez de receitas antes da epidemia. Hoje, sua prioridade no curto prazo é salvar vidas, prestar serviços essenciais e manter a lei e a ordem. Mas no longo prazo necessitarão aprender a fazer mais com menos. Muitos prefeitos e Câmaras Municipais em todo o mundo não estão concentrados apenas em conter a doença, mas estão revendo também os seus planos para evitar um próximo surto. No período mais imediato, introduzirão testes rápidos maciços e sistemas de monitoramento digital dos contatos; prédios e espaços públicos terão de ser reformulados tendo em vista o distanciamento social, e deverão reforçar os sistemas de saúde para enfrentar ameaças futuras. A pandemia da covid-19 também vem acelerando tendências mais profundas de prazo mais longo, como a digitalização do varejo, a mudança para o trabalho remoto, a localização da produção de alimentos, a energia renovável distribuída e a “pedestrianização” das cidades. Seria exagerado dizer que a covid-19 mudará todos os aspectos da vida na cidade. A ideia de que as cidades estão de algum modo condenadas é um exagero. Não vemos uma fuga em massa para os subúrbios ou uma ascensão da distopia. Mas a expectativa de que em breve veremos cidades verdes, livres de carros e com mais espaços para bicicletas também é fictícia. O fato é que haverá fatores empurrando as pessoas a partirem do seu local de origem e também fatores que atrairão uma população para outra área ou lugar. O que sabemos é que a pandemia vai reprogramar muitas das nossas cidades.

Como a distância social afetará o trabalho, o lazer e a movimentação das pessoas nas cidades a partir de agora?

O distanciamento social ou físico terá efeitos de curto e longo prazo na vida cotidiana. Muitas cidades introduzirão testes em massa e até espaços de emergência digitais – essas medidas devem variar, dependendo da intensidade das ondas futuras. O que isso significa em termos práticos é que máscaras faciais, testes biométricos, vistos de imunização e outras restrições serão generalizados. Devemos esperar um aumento de gastos em saúde pública e “cercas virtuais”, além de sistemas de monitoramento de contatos para manter as pessoas resguardadas. Pode-se dizer que a mudança mais significativa é no sentido do trabalho remoto e digitalizado. Isso já vinha ocorrendo, mas vem se acelerando rapidamente por causa do chamado “onboarding” digital em larga escala. Facebook, Apple, Twitter, Microsoft já têm um grande número de empregados trabalhando off-site, alguns deles de modo permanente. Muitas startups já declararam a morte do escritório. Isso tudo obviamente terá grande impacto sobre o espaço de escritório e o futuro dos centros das cidades no mundo todo. Algumas cidades também sofrerão mudanças nos espaços públicos onde as pessoas se reúnem. Devemos esperar reformulações em tudo, desde os edifícios de escritórios aos shopping centers e arenas esportivas. O “open office” acabou neste momento. E também veremos novas rotinas em termos de trabalho e mobilidade, incluindo uma redução do volume de pessoas em linhas de metrô e ônibus próximos a elas.

A pandemia também vem acelerando um boom na virtualização dos espaços público e privado. Galerias, museus e sítios históricos já vinham oferecendo visitas digitais e essas ofertas aumentarão. Isso não é obviamente um substituto para o turismo, mas é o futuro – o modelo de negócio no qual se baseiam e a monetização dessas ofertas não estão ainda claros, mas devemos esperar uma expansão delas. E já estamos observando uma rápida virtualização do sistema de delivery de serviços, especialmente em termos de saúde e educação. Desde o surgimento da covid-19, temos visto uma transição importante no campo dos ensinos primário, secundário e universitário. Este é um teste para o futuro. E também vimos uma explosão dos serviços de telemedicina – agora mais possível de acabar com as divisões digitais. Isso está acelerando uma tendência no sentido de serviços impulsionados pelas pessoas e possibilitados pela Inteligência Artificial. Algumas dessas mudanças de curto prazo permanecerão. A pandemia não está apenas arruinando o turismo em muitas cidades, mas está devastando o modelo de negócio subjacente de grandes novas companhias, como AirBnB e Uber. As duas empresas serão obrigadas a mudar radicalmente seu modelo e pelo menos uma delas talvez não sobreviva. Como cidades que dependem do turismo em todo o mundo vão se recuperar, incluindo o Brasil, é uma grande pergunta. Claramente, haverá um grande foco na promoção do turismo doméstico.

Há uma possibilidade de mudanças reais como a emergência de um novo sistema de transporte urbano, hoje baseado em metrôs, ônibus e carros particulares?

A covid-19 está levantando perguntas fundamentais sobre o futuro do trânsito, incluindo o transporte público e o tráfego de massa. No médio prazo, aviões, trens e ônibus, incluindo os serviços de carona como Lyft e Uber, terão dificuldade para continuar com o mesmo número de passageiros sem ajustes no tocante ao distanciamento social – devemos esperar medidas para melhorar a higiene e reduzir a superlotação. O futuro do automóvel é mais incerto. De um lado, o uso do carro pode aumentar à medida em que as pessoas evitarem usar o transporte público, o que pode gerar aumento perigoso dos congestionamentos e emissões. De outro, há também potencial para uma redução do uso do carro, provocada pelas mudanças no ambiente de trabalho. As empresas de aluguel de carros observaram uma queda dramática da demanda, e os futuros desafios econômicos devem reduzir novas compras de veículos. É possível também que vejamos um florescimento do transporte de massa sustentável e da “pedestrianização”. Medidas temporárias adotadas em algumas cidades, de Milão a Melbourne, para criar pistas para bicicletas e cidades abertas durante a crise da covid-19 se tornaram permanentes. Muitas cidades estão agora pavimentando e convertendo ruas em caminhos para bicicletas. As cidades futuras serão mais “caminháveis” e com mais bikes, cidades onde podemos chegar ao destino em 15 minutos. Isso não reduz apenas o congestionamento, mas melhora a saúde pública, diminui a poluição e até mesmo o crime.

O senhor imagina que, com o isolamento social, as comunicações digitais podem transformar a maneira como os cidadãos interagem? E como o senhor vê questões como a proteção da privacidade digital e dos dados? É possível, por exemplo, estabelecermos uma educação a distância qualificada?

Com a covid-19 forçando as pessoas a trabalhar e interagir online, o mundo viveu em apenas alguns meses o equivalente a dez anos de digitalização. Alguns países e cidades já estavam investindo pesado em serviços eletrônicos e expandindo a banda larga para seus habitantes. E este processo vai continuar em muitos lugares do mundo. Essa virtualização gerou eficiências e melhorias. T também acelerou a adoção de serviços remotos de educação e saúde (embora seja muito cedo para dizer se isso vai dar certo ou não). Ao mesmo tempo, viver em um mundo dominado pelo Zoom e por algoritmos que moldam nossos hábitos de consumo reduz a possibilidade do inesperado e da criatividade – exatamente as coisas que fazem a vida na cidade valer tanto a pena.

A massiva digitalização dos serviços também tem um lado sombrio. Alguns governos (de mentalidade autoritária) estão expandindo a vigilância e implementando tecnologias invasivas em nome da saúde pública. Nos países democráticos, o tema do rastreamento de contatos inspirou um importante debate sobre a natureza da proteção e da privacidade dos dados. Essa discussão está mais avançada na Europa e na América do Norte, mas vem se espalhando pelo resto do mundo. Também estão surgindo questões importantes sobre os efeitos da covid-19 na governança. A doença já está atrapalhando a realização de eleições e manifestações, com consequências para a integridade da democracia e dos direitos humanos. A grande questão não é apenas como fazer campanhas e audiências públicas em um mundo digital, mas também como garantir eleições digitais seguras.

Nos últimos anos, os planejadores urbanos vêm trabalhando para aumentar a densidade populacional nas cidades, com o intuito de reduzir custos e promover uma convivência baseada na proximidade das pessoas. O que vai acontecer agora? É possível tomar a direção oposta?

A densidade é uma grande virtude das cidades. Como observou o economista Paul Romer, vencedor do Prêmio Nobel, a capacidade dos aglomerados de pessoas para agregar inovação e produtividade é uma força irresistível. O fato é que as cidades compactas também conseguem facilitar os serviços sociais e de saúde, reduzir o isolamento social e proporcionar todos os outros “bens” para uma cidade saudável. A covid-19 não significa a morte da densidade. Embora algumas pessoas certamente venham a se afastar das cidades, não veremos uma desconcentração maciça e uma mudança para os subúrbios. Os assentamentos humanos têm sido focos de contágio por milhares de anos. Apesar disso, as pessoas talentosas sempre retornam às cidades, atraídas pela perspectiva de melhores empregos, salários mais altos e estilos de vida mais interessantes do que no interior. Mas o que a covid-19 revelou é como a densidade também pode se reproduzir e intensificar vulnerabilidades em certos segmentos da população – especialmente os pobres, os idosos, os doentes crônicos e os grupos minoritários. O problema são as condições econômicas e sociais estruturais, não a densidade em si. O que a covid-19 também pode fazer, paradoxalmente, é aumentar a disponibilidade de moradias populares, à medida em que os espaços comerciais ficarem vagos e forem reaproveitados e que algumas pessoas se mudem para os subúrbios recém-gentrificados. Muito mais perigosa que a densidade são a superlotação e o acesso desigual aos serviços básicos. Em muitas cidades de baixa e média renda, especialmente nas favelas e assentamentos irregulares, os pobres vivem amontoados em edificações precárias e mal ventiladas, o que facilita a propagação da doença. Muitos não têm acesso a água potável, saneamento básico e nem mesmo eletricidade constante. Essas pessoas muitas vezes se espremem em ônibus lotados para ir e voltar do trabalho. A indeterminação dos direitos de propriedade garante que os pobres urbanos não tenham acesso a muitos serviços públicos básicos ou ferramentas bancárias e de crédito.

Um dos setores mais afetados pela pandemia nas grandes aglomerações urbanas de hoje é o comércio. O senhor acha que as coisas voltarão a ser como antes? Ou teremos o sistema Amazon como modelo para abastecer as famílias?

A pandemia de covid-19 forçou uma pausa na globalização. Desacelerou não apenas o movimento de bens e serviços, mas também o turismo e as viagens. Além disso, apressou o processo de desagregação das cadeias de alguns países, principalmente da China. Vimos muitas empresas adotando medidas para encurtar suas cadeias de suprimentos e deixar a produção mais local. Essas tendências já estavam aparentes antes do surto e provavelmente vão se intensificar nos próximos anos. Isso será particularmente traumático para indústrias, empresas aéreas e grandes redes de hotéis. Além disso, a covid-19 tem sido devastadora para empresas de pequeno e médio portes que não se posicionaram rapidamente na internet. A maioria das lojas do mundo está vendendo seus produtos – de computadores a peças de automóveis – no ciberespaço. Embora algumas delas tenham recursos suficientes para enfrentar a crise (inclusive subsídios do governo), muitas entrarão em colapso porque não conseguirão sobreviver a choques prolongados de oferta e demanda. Grandes varejistas online, como a Amazon, a Shopify e, agora, o Facebook, vão se dar bem. Infelizmente, muitos pontos de venda menores estão correndo risco muito maior, apesar de serem os ativos que dão identidade e personalidade às cidades.

‘Bairros precisam ser mais do que loteamentos, devem ser reinventados’

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Crises tendem a acelerar decisões que em tempos normais demorariam anos ou décadas, como a retomada da vizinhança como referência para as atividades diárias, afirma professor

Pablo Pereira – Estado de São Paulo, 14/06/2020

Jeferson Tavares, professor no Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP (IAU-USP)

O momento atual, na visão do professor Jeferson Tavares, da USP, é uma oportunidade de pensar em uma sociedade mais solidária, que incentive a retomada de políticas públicas voltadas ao combate de desigualdades. Ele também acredita na reconstrução da identidade cidadão-cidade, perdida em bairros sem qualidade urbanística. “Quantos bairros conhecemos que não passam de um aglomerado de casas?”, questiona. “Nesses lugares, o cidadão perdeu a identidade com a cidade, e essa identidade precisa ser reconstruída pela base social”.

O professor também defende, para um futuro próximo, sistemas de cidades baseados na cooperação. “Em vez de espaços isolados, podemos construir cidades que cooperem entre si e por isso sejam mais eficazes no combate dos conflitos comuns”.

Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista:

As cidades mudarão a maneira como funcionam? Ou a vida seguirá no mesmo modelo?

Para entender a difusão do vírus da covid-19 é necessário entender o processo de urbanização do nosso território. No Estado de São Paulo, temos evidências de que o vírus se propagou seguindo a rota das principais rodovias e se difundiu a partir das cidades mais centrais. Ao longo de todo o século 20, o Estado estruturou-se por eixos e polos, e são esses elementos da urbanização que estão na base da interiorização da pandemia. As primeiras e principais cidades atingidas ou são cidades-sede das regiões metropolitanas ou sedes das regiões administrativas, indicando que, mais importante que o adensamento, é a conexão desses polos com outras cidades que tem acentuado a disseminação na escala regional. Ou seja, numa pandemia, compreender o território é elemento central para a prevenção e o combate da doença. É difícil prever exatamente quais mudanças ocorrerão no meio urbano, mas entendo que é uma oportunidade de pensar uma sociedade mais solidária, a começar por romper as barreiras históricas da desigualdade do desenvolvimento territorial que levou à precariedade habitacional e urbana, à vulnerabilidade social e ambiental, e à falta de condições mínimas de moradia. É possível traçarmos um quadro das prioridades e a principal delas, certamente, é retomar políticas públicas que combatam essas desigualdades e respeitem as diversidades regionais.

Como o trabalho, o lazer e a movimentação das pessoas nas cidades vão mudar daqui para a frente?

Crises tendem a acelerar decisões que em tempos normais demorariam anos ou décadas para serem tomadas. Desde o urbanismo racionalista de fins do século 19, a divisão monofuncional instalou-se como regra nas cidades e o lugar de trabalho tornou-se distinto do lugar de morar. As críticas a esse modelo são conhecidas há mais de 50 anos e hoje a mudança parece iminente, mas sem alternativas concretas. Haja vista a improvisação do ambiente doméstico para as atividades profissionais. Por outro lado, um indício importante é a retomada da vizinhança como referência para as atividades diárias. Os deslocamentos mais curtos, a valorização das opções do bairro e a integração social comunitária convergem como possibilidades a serem exploradas. Nesse aspecto, os bairros precisam ser mais que loteamentos, precisam ser reinventados. Quantos bairros conhecemos que não passam de um aglomerado de casas sem nenhuma qualidade urbanística? Nesses lugares, o cidadão perdeu a identidade com a cidade. E essa identidade precisa ser reconstruída pela base social.

São Paulo tem cerca de 8 milhões de usuários por dia no sistema público de transportes. Existe a possibilidade de mudanças no transporte urbano?

O transporte urbano é essencial para a qualidade de vida nas cidades. Se hoje é lugar de aglomerações é porque sua frota e/ou sistema não atendem à demanda. É preciso investimento e planejamento, porque ele interage com a estruturação urbana e sua qualidade e eficiência ajudam a tornar a cidade mais justa ao garantir acesso as infraestruturas urbanas, aos serviços públicos e às ofertas de emprego. É necessário integrar os meios de transportes ativos (caminhadas e bicicleta, por exemplo) aos motorizados e transformar as estações em marcos urbanos, pois em sua maioria – e principalmente nas periferias pobres – essas estações representam um lugar de cruzamentos de fluxos de pessoas e produtos sem representar sua importância para a vida contemporânea.

Durante anos, os urbanistas trabalharam para aumentar a densidade populacional nas cidades para reduzir custos e promover convivência baseada na proximidade das pessoas. O que vai acontecer agora? É possível um caminho no sentido contrário?

As economias de aglomeração como estratégias de ordenamento territorial ajudaram a produzir a cidade do século 20 que conhecemos. Mas estamos vivendo uma tendência à dispersão do tecido urbano com a profusão de condomínios residenciais, industriais e de serviços em áreas rurais, fora da mancha urbana e ao longo de rodovias. Essa dispersão força uma diminuição das densidades populacionais, rompe a dicotomia campo-cidade e centro-periferia, mas não representa uma solução adequada porque esse modelo tem intensificado a segregação social, a dependência do automóvel como principal meio de locomoção e a ocupação de áreas verdes cuja função ambiental é suprimida. Estamos vivendo um dilema entre cidades compactas e cidades dispersas que ofusca a essência do debate: é possível um novo modelo de desenvolvimento urbano?

O senhor acha que haverá uma mudança nas diretrizes, por exemplo, com mudanças sanitárias na infraestrutura de coleta de lixo nas ruas e nas residências?

Sem dúvida. Numa crise sanitária, o saneamento é central, sobretudo nos assentamentos precários. A falta de água potável atinge cerca de 40 milhões de pessoas. O déficit habitacional chega a 6,5 milhões de moradias. Some-se a isso as áreas de risco em encostas ou sobre córregos que são agravadas pelo descarte inadequado de lixo. Nas regiões metropolitanas, a desigualdade social acentua esses problemas nos bairros mais pobres. As soluções devem ser integradas aos projetos de urbanização e são urgentes. Atender à demanda é o mínimo a ser feito, mas dar segurança e qualidade de vida deve ser o principal objetivo.

Um dos setores mais afetados pela pandemia nas grandes aglomerações urbanas de hoje é o comércio, principalmente lojas de rua e empresas locais, como restaurantes e bares. O senhor acredita que isso voltará a ser como antes?

Desde os anos 1980, no Brasil, temos acompanhado o esvaziamento da rua pelo argumento da violência e a emergência de formas alternativas de serviços que quase sempre partem da precarização do trabalho informal. Fato é que a origem da cidade é a aproximação, a reunião e o encontro. Na vida urbana, não podemos abandonar a defesa do uso do espaço público. Ruas, praças, parques e calçadões são os lugares que concretizam a esfera pública do convívio. Ao contrário do que se pensa, valorizá-los é uma estratégia para manter a saúde física e mental dos cidadãos. E a vida econômica urbana está ligada a eles.

Existem pensadores que já planejam cidades com áreas independentes, o que facilitaria qualquer necessidade futura de isolamento em caso de futuras epidemias. O senhor acredita que é possível que tenhamos cidades policêntricas em vez das grandes cidades de hoje no futuro?

A descentralização de serviços e a constituição de uma estrutura policêntrica faz parte das políticas mais progressistas de desenvolvimento urbano e estão no centro da democratização da cidade. Portanto, não necessariamente significa independência, mas melhor redistribuição de estruturas de bem-estar social aproximando-as de seus usuários. Numa escala ainda mais ampla, pesquisadores têm estudado o fenômeno da cidade-região como uma nova forma de compreender a realidade urbana. A análise desse fenômeno no contexto brasileiro leva-nos a sistemas de cidades que estejam baseados na cooperação. Ou seja, em vez de espaços isolados, podemos construir cidades que cooperem entre si e por isso sejam mais eficazes no combate dos conflitos comuns.

Quais seriam as mudanças imediatas em metrópoles gigantes de hoje, como São Paulo, Rio, NY, Tóquio, Londres, Paris?

Vivemos num momento de cidades globais, megacidades e megalópolis como paradigmas atuais do urbanismo mundial. Mas a desigualdade, a precariedade e a segregação social nas grandes cidades brasileiras tornam nossa realidade diferente dos casos estrangeiros. Para combater esses problemas, sintetizo três urgências: formar novas instituições de planejamento a partir de uma visão territorial, sistêmica e interescalar; reconhecer que a dinâmica das cidades não está submetida às divisas municipais e, portanto, as principais soluções exigem um diálogo de cooperação interfederativa; e incorporar as águas urbanas nas diferentes escalas do planejamento. Precisamos tensionar os paradigmas de onde as decisões são tomadas para constituir cidades com mais urbanidade. Advogo pela cidade como artefato inacabado cuja perenidade está vinculada à dignidade do trabalho humano que o construiu.

 

The Economist: Jair Bolsonaro ameaça a democracia?

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Desde que assumiu o governo, em janeiro do ano passado, muitos brasileiros temem o risco que ele representa

The Economist, O Estado de S.Paulo 

13 de junho de 2020

Em muitos fins de semana desde que a covid-19 chegou ao Brasil, os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro realizam manifestações em Brasília e São Paulo, para demandar a reabertura da economia, parcialmente submetida a um lockdown, o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso e o retorno do regime militar dos anos 1964/1985. Alguns estão armados. Em Brasília, Bolsonaro com frequência se junta a eles, distribuindo abraços e apertos de mão e desafiando as regras de saúde estabelecidas. Nem ele e nem as pessoas usam máscaras no rosto.

Desde que Bolsonaro, antigo capitão do Exército com ideias de direita, assumiu o governo, em janeiro de 2019, muitos brasileiros temem a ameaça que ele representa para a democracia. Alguns argumentam que as instituições do País são fortes o bastante para freá-lo. Na verdade, o presidente lotou o seu governo com oficiais militares. Mas eles são vistos como tendo uma influência moderadora e as manifestações são pequenas.

As tensões aumentaram nas últimas semanas. Bolsonaro se tornou mais ameaçador, ao se dirigir ao Congresso afirmando que “o tempo da vilania acabou, agora é o povo no poder”, e ao Poder Judiciário dizendo “acabou, porra!” Alguns ministros militares, a começar pelo vice-presidente Hamilton Mourão, general aposentado, também fizeram ameaças veladas contra o STF, o Congresso e a mídia.

Em uma mensagem pelo WhatsApp vazada no mês passado, o ministro do STF Celso de Mello escreveu: “temos de resistir contra a destruição da ordem democrática para evitar o que ocorreu na República de Weimar “que foi derrubada por Hitler”. “A democracia brasileira está sob uma grave ameaça”, diz Oscar Vilhena Vieira, diretor da faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “O presidente não vem tentando apenas criar um conflito institucional, mas também estimulando grupos violentos”.

Deputado durante 28 anos, Bolsonaro nunca mostrou muito respeito pela democracia. E se tornou mais controvertido por duas razões. Em primeiro lugar, o STF iniciou investigações que o envolvem. Uma delas tem a ver com a destituição do diretor da Polícia Federal para proteger um dos seus filhos contra um processo, afirmam seus críticos.

E a outra se refere a apoiadores (incluindo dois filhos dele) suspeitos de orquestrarem acusações falsas e ameaças contra ministros do STF. A segunda razão é que Bolsonaro mostra pouca capacidade para governar. A pandemia amplificou isto. Sua recusa em apoiar os lockdowns e o distanciamento social contribuíram para agravar a propagação da covid-19, com o País registrando hoje quase 40 mil mortes, o terceiro número mais alto do mundo.

Ele vem perdendo apoio popular embora mantenha uma base de 30% de eleitores. Um sinal da sua fragilidade é que ele cada vez mais depende do Exército. Dez dos seus 22 ministros são militares e outros três mil ocupam cargos no governo. “Na verdade, temos um regime miliar”, disse um oficial aposentado. E isto representa um risco para as forças armadas e para a democracia. Bolsonaro tem exacerbado a divisão interna e a politização do Exército, cuja disciplina e hierarquia vêm se desgastando. Muitos oficiais de escalão inferior apoiam Bolsonaro nas redes sociais. Quatro generais com cargos no governo, dois no serviço ativo, têm mais poder do que o comandante das forças armadas, seu superior.

O Exército também coloca em sério risco a sua reputação. Está hoje à frente do ministério da Saúde (onde por um breve período tentou suspender as publicações de dados completos sobre a covid-19), da coordenação política e proteção do Amazonas. “Eles realmente acreditam que sabem como fazer as coisas”, diz um ex-oficial. Eles poderão aprender da maneira difícil, como durante a ditadura, que não sabem. Bolsonaro não parece forte o bastante para desencadear um golpe. Ele enfrenta oposição de muitos governadores.

Embora o vírus tenha temporariamente incapacitado o Congresso, Oscar Vilhena Vieira observa que o STF tem atuado de uma maneira inusitadamente unida. Entretanto, “a democracia pode desaparecer se você não tiver um homem forte”, alerta Matias Spektor, do Centro de Relações Internacionais da FGV. Se Bolsonaro acabar sofrendo um impeachment, Mourão o sucederá, trazendo o Exército para ainda mais perto do poder.

Uma outra ameaça, observa Spektor, é o esvaziamento das instituições democráticas por Bolsonaro, como também a instigação do conflito. Nomeou um procurador geral mais simpático a ele e tem influência sobre as forças de polícia estaduais, como também sobre a Polícia Federal. Uma batida policial silenciou o governador do Rio de Janeiro, que recentemente começou a criticá-lo. Os democratas brasileiros, seus adversários, começam a reunir uma oposição ao presidente. E estão certos em ficar alarmados.

Laura Carvalho fala sobre curto-circuito na política econômica e discute volta do Estado

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Para economista, valorização do papel do governo como indutor do crescimento não é fato consumado

Eduardo Cucolo – Folha de São Paula – 12/06/2020

Dois anos após o lançamento de “Valsa Brasileira: do boom ao caos econômico”, a economista Laura Carvalho (FEA-USP) lança o livro “Curto-circuito: o vírus e a volta do Estado”, no qual defende a necessidade de se repensar as funções do Estado diante de uma crise que tem exigido gastos públicos em níveis sem precedentes em todo o mundo.

Para a economista, a volta do Estado como indutor do crescimento e garantidor de um ambiente de bem-estar social não é um fato consumado. Ela diz também que o elevado nível de endividamento global, inclusive do Brasil, pode gerar uma reação semelhante àquela vista após a crise de 2008-2009, que foi seguida por uma onda de austeridade fiscal e desmonte de políticas públicas em outros países.

Sobre o título do livro, Laura diz que o curto-circuito se refere também à forma como a crise atual obrigou uma equipe econômica alinhada com esse pensamento a agir em sentido contrário e à dúvida sobre como o bolsonarismo irá se colocar diante da possibilidade de que uma política de austeridade atrase a recuperação econômica do Brasil e abale ainda mais a popularidade do presidente da República.

A senhora estruturou o livro em cima de cinco funções do Estado. A pandemia e a recuperação posterior tendem a fortalecer essas funções e a presença estatal?

São cinco funções que a pandemia contribuiu para revelar e para fazer a gente repensar. De forma alguma eu quero dizer que a volta do Estado seja um fato consumado. Não estou anunciando que o Estado voltou. O que eu tento fazer é repensar os papéis do Estado a partir dessa pandemia, muito mais no sentido de propostas do que de uma previsão ou futurologia.

Dessas cinco funções do Estado, quais a sra. considera mais fundamentais hoje e quais serão mais importantes no período de recuperação pós-pandemia?

As duas igualmente importantes hoje são as funções de Estado protetor e prestador de serviços. Eu trato no livro da questão da proteção, da renda básica universal, que é fundamental diante dessa massa de trabalhadores informais e que vêm perdendo sua renda nesse momento e precisam de alguma renda até para conseguir evitar o contágio. Na função de prestador de serviço, principalmente considerando a necessidade de recursos para a área de saúde e de uma gestão mais eficiente. Essas duas são as urgentes. Para o pós-pandemia, para uma recuperação mais rápida da economia, eu colocaria a função de investidor em infraestrutura como aquilo que pode contribuir para dinamizar a economia e, ao mesmo tempo, para superar algumas lacunas históricas que ficaram mais aparentes.

Quando se fala em ação do Estado como investidor e empreendedor, vêm à mente os problemas que ocorreram no governo Dilma Rousseff, o que é usado como argumento por muitos economistas para defender que a recuperação precisa ser puxada pelo setor privado.

A função do Estado como empreendedor tem a ver com uma crítica da política industrial que foi implementada no passado, no governo Dilma, e eu busco refletir sobre um novo modelo de política de desenvolvimento que estivesse ligada às demandas da sociedade e não à ideia de proteger algum setor.

O livro tenta partir de questões da história contemporânea para introduzir conceitos da economia, mas também tentar fazer uma análise crítica do passado mirando uma agenda futura. Em todas essas funções aparece um pouco uma crítica à trajetória e papéis que o Estado veio tendo no Brasil nas últimas décadas, ao mesmo tempo mostrando que alguns dos instrumentos foram importantes para que a gente conseguisse reagir agora, mesmo que de forma insuficiente, como o Cadastro Único, a existência do BNDES, mesmo que não tenha sido aproveitado nessa crise, o SUS. Alguns desses instrumentos vinham sendo desmontados.

A senhora faz um diagnóstico de que a economia brasileira vem, desde a saída de recessão em 2016, em um cenário de estagnação porque se tirou do Estado o papel de indutor do crescimento.

Na situação atual, ou a gente dá sorte de ter o resto do mundo puxando nosso crescimento via exportações ou precisa do Estado. Só tem essas duas maneiras de injetar ânimo em uma situação como essa. Essa pandemia criou uma situação ainda mais dramática por ter vindo sobre uma economia que, ao contrário dos países ricos, não vinha em uma trajetória de expansão, não estava com taxa de desemprego baixa, tinha informalidade recorde. Isso fará com essa crise seja ainda mais grave por aqui e o volume de recursos para responder a isso seja muito maior.

A equipe econômica do governo federal defende uma ideologia econômica que você chama no livro de anacrônica e está tendo de lidar com uma demanda por mais Estado neste momento. A pandemia pode trazer mudanças nessa política econômica?

O título do livro, curto circuito, tem dois sentidos. Um sentido é o curto circuito macroeconômico que a pandemia gerou, o diagnóstico de que as características dessa crise são bem diferentes das crises originadas no setor financeiro, de 1929, de 2008.

Mas o título também vale para a ideia, para a maneira como essas demandas de um Estado maior, muito urgentes, se dão em um ambiente de um governo que não tem essas características e não se preparou para isso. As demandas e as necessidades do momento bateram de frente com essa ideologia da equipe econômica.

O bolsonarismo entrou um pouco em curto circuito na medida em que houve uma ruptura drástica, tanto na política fiscal como na política monetária em relação ao que vinha ocorrendo nos últimos anos. A atuação do Banco Central e da política fiscal é anticíclica, ao contrário do que foi nos últimos anos. Isso em um governo que se propunha a fazer o contrário.

A política econômica continuará nesse caminho nos próximos anos?

Neste ano, a gente teve uma ruptura muito clara. O déficit vai a 7% do PIB, a dívida pública tende a subir para mais de 100% do PIB em alguns anos. Há também uma valorização do papel do Estado pela sociedade.

Agora, dizer que está claro que daqui pra frente haverá uma mudança na postura que incorpore a valorização dessas funções, criando uma agenda econômica nova, que reduza desigualdades, isso a gente não tem como afirmar. Pelo contrário, o Ministério da Economia aponta para uma tentativa de utilizar essa dívida maior para acelerar reformas que reduzam o tamanho do Estado, até de forma mais agressiva do que vinha ocorrendo.

Essa é uma das perguntas do livro. Será que o bolsonarismo abrirá mão daquele fundamentalismo de mercado que ajudou a elegê-lo e a conquistar a maior de parte das elites econômicas desde 2018 ou o manterá, com o risco de perder ainda mais apoio, dado que a gente vai ter um quadro econômico mais difícil daqui pra frente?

A senhora defende no seu livro um sistema de renda básica universal. Qual a sua proposta?

Há duas visões de renda básica.  A ideia do [ganhador do Prêmio Nobel Milton] Friedman de um Imposto de Renda negativo. Abaixo de um certo patamar de renda, as pessoas recebem o benefício e acima pagam imposto. E a renda básica universal, a ideia de que todos têm direito a uma renda mínima.

Isso cria a ideia de que vai transferir para pessoas ricas, porque está dando renda para todos, sem exigir que se comprove nada, assim com no SUS, mas você corrige isso na tributação. A Justiça não vem por tornar os serviços ou direitos mais focalizados, vem ao dar a todos esses direitos de forma universal, mas tributar mais os que ganham mais. É isso o que eu defendo como sistema.

O caminho pode ser gradual, mas é possível financiar um sistema de renda básica para todos, o que substitui os programas existentes, que exigem que se comprove renda. Uma parte do custo sai daí, mas outra parte precisa tirar da tributação progressiva, com a redução de deduções do IR para saúde e educação privadas, isenção para lucros e dividendos e até criando alíquotas mais altas para o topo da pirâmide.

RAIO-X

Laura Carvalho, 36, é professora livre-docente do Departamento de Economia da FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP) e autora de “Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico” (Todavia, 2018). Foi colunista da Folha de 2015 a 2019.

O TCU deve desculpas a Dilma, por Nelson Barbosa.

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Tribunal decidiu fazer apenas uma ressalva às contas de 2019, mudando radicalmente de postura em relação ao que fez durante o governo Dilma Rousseff

Nelson Barbosa – Folha de São Paulo – 11/06/2020

O TCU fez uma “ressalva” às contas do primeiro ano de governo Bolsonaro. Segundo informações da imprensa, em 2019, houve pagamento de R$ 1,5 bilhão em benefícios previdenciários sem respaldo na Lei Orçamentária.

Especificamente, diante do forte contingenciamento de gastos no início de 2019, o governo reavaliou para menos a dotação orçamentária do INSS, de modo a evitar cortes maiores em outras áreas. Porém, com o passar do tempo, a despesa do INSS acabou sendo maior do que o inicialmente esperado, e houve pagamento de R$ 1,5 bilhão de benefícios previdenciários sem autorização do Congresso.

A realização de despesa sem previsão orçamentária viola a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), mas o TCU decidiu fazer apenas uma ressalva às contas de 2019, mudando radicalmente de postura em relação ao que fez durante o governo Dilma Rousseff.

Façamos uma pausa para contar até três e refletir se a atitude do TCU caracteriza ou não dois pesos e duas medidas. Um, dois, três… voltou? Pois bem, prefiro considerar a reviravolta no TCU como aprendizado em vez de má fé. Assim como pessoas, as instituições podem melhorar.

Vou ainda mais longe e parabenizo a todos os envolvidos no TCU pela decisão construtiva em relação do governo Bolsonaro. Ainda bem que agora vocês decidiram poupar o presidente, apontar falha técnica e recomendar sua correção, pois com certeza teria sido pior não pagar R$ 1,5 bilhão a quem tinha direito à aposentadoria no final de 2019.

A mudança no TCU é ainda mais bem-vinda quando lembramos que, em 2016, a presidente Dilma Rousseff sofreu impeachment sob acusação de ter irregularmente realocado verbas orçamentárias por decreto, mas sem gastar um centavo acima do aprovado pelo Congresso!

É verdade que o absurdo processo de impeachment foi do Congresso, não do TCU. Porém, também é verdade que, em 2016, vários membros do corpo técnico do TCU foram ao Congresso acusar a presidente de crime fiscal por realocar verbas sem gasto adicional. Um deles chegou a revelar, em ato falho, que ajudou na redação de um pedido de investigação que ele mesmo avaliou! O referido servidor deveria ter sido afastado, mas no Brasil de 2016… um, dois, três.

Voltando aos dias de hoje, presumo que os mesmos integrantes do TCU que acusaram a presidente Dilma de crime em 2016 tenham mudado de opinião diante da ressalva que deram ao “gasto sem orçamento” de R$ 1,5 bilhão por parte de Bolsonaro. Se for isso, que o bom senso seja eterno enquanto dure e mandem uma carta de desculpas à presidente Dilma.

Também torço para que a reviravolta no TCU seja o início do fim da “idolatria da auditoria e controle” em que nos metemos desde 2005, quando começou a politização da justiça pelo processo do mensalão.

Desde então houve muitas notícias falsas, acusações infundadas na primeira página de jornais e revistas, geralmente por procuradores e auditores em busca de fama, quase sempre só contra pessoas de esquerda, mas sem registro bombástico equivalente quando vários acusados foram inocentados.

Combate à corrupção e maior eficiência na alocação de recursos públicos são deveres de qualquer político, independente de ideologia. Por este motivo relembro que os governos do PT aumentaram a transparência da máquina pública e deram mais poder aos órgãos de controle, mesmo sabendo que isto poderia ser temporariamente desvirtuado por falsos heróis contra o próprio PT. Já tivemos “Batman”, “Super-Homem” e até “Messias”, todos com seu séquito de “minions”, mas no final a verdade sempre aparece.

Nelson Barbosa

Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

 

EUA e China podem evoluir para oligarquias, diz Branko Milanovic

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Para economista, há risco de capitalismo liberal caminhar em direção a regime plutocrático

Celso Rocha de Barros – Folha de São Paulo- 31/05/2020

[RESUMO] Nesta entrevista, o economista Branko Milanovic comenta as diferenças e similaridades entre os dois modelos de capitalismo, a relação de ambos com a corrupção e a desigualdade e os efeitos da disputa entre EUA e China sobre a América Latina.

O que aconteceu com o capitalismo desde que ele ficou sozinho no mundo, desde que o único outro “game in town”, o comunismo, desmoronou? Branko Milanovic tenta responder a essa questão em seu livro mais recente, “Capitalismo sem Rivais”, sobre o qual conversou com a Folha em entrevista por email. A editora Todavia lança a obra no país na quarta-feira (3).

Economista, especialista em estudos sobre desigualdade, o autor trabalhou no Banco Mundial e hoje é professor da City University de Nova York. Nas últimas duas décadas, Milanović se consagrou como um dos principais nomes no debate mundial sobre desigualdade —mais especificamente, no debate sobre a desigualdade sobre a desigualdade global.

“As frequentes alusões de Bolsonaro favoráveis ao regime militar brasileiro podem levar a acreditar que uma combinação de capitalismo liberal e político talvez não seja mal vista por alguns”, diz Milanović à Folha.

O senhor escreveu recentemente que a pandemia da Covid-19 poderia ser o “momento Sputnik” da China, o ponto em que o país assumiria a liderança em importantes aspectos mundiais. A analogia com a Guerra Fria ainda faz sentido hoje, quando o mundo está muito mais integrado? A analogia com a Guerra Fria não é perfeita porque a China é muito mais integrada à economia global e mais interdependente dos Estados Unidos que a União Soviética era. Em segundo lugar, a disputa ideológica é muito menos aguda.

Mas também não devemos ser prisioneiros da analogia da Guerra Fria, esquecendo outras disputas entre as grandes potências que provocaram duas guerras mundiais e inúmeros outros conflitos. Penso que é cada vez mais evidente que existe um conflito de interesses real entre a China e os Estados Unidos.

Em algum momento deste século, a China, cuja população é quatro vezes maior que a dos EUA, pode alcançar um desenvolvimento tecnológico inigualável, o que a tornaria o poder econômico supremo.

Nos termos do seu livro, a concorrência entre a China e os EUA é, entre outras coisas, uma competição entre dois tipos de capitalismo, um “meritocrático” (o norte-americano) e um “político” (o chinês). Existem países que poderiam passar de um modelo para o outro em um futuro próximo? Isso dependerá, primeiro, da vontade da China de exportar seu modelo e, segundo, de outros países interessados ​​em aceitá-lo. Acredito que, apesar da relutância histórica da China em impor seus arranjos políticos internos a outros, ela será inexoravelmente levada a fazer exatamente isso devido à grande competição de poder com os Estados Unidos. Agora, quanto à atratividade do “modelo chinês”, acho que é o maior entre as elites modernizadoras nacionalistas.

Tais elites desejam modernizar (desenvolver) seu país e, ao mesmo tempo, ficar isoladas do estrito controle popular. Elas podem achar o modelo chinês atraente. Nesse modelo, podem até aceitar eleições e um sistema multipartidário, mas aos partidos alternativos nunca seria permitido chegar ao poder.

A propósito, a China também possui formalmente vários partidos com assentos pré-designados no Congresso Nacional.

Não são poucos os países que possuem hoje esse sistema: Argélia, Angola, Azerbaijão, Belarus, grande parte da Ásia Central, Etiópia, Rússia, Singapura, Tanzânia, Vietnã. Pode-se até incluir a Turquia e a Hungria.

Qual dos dois modelos acredita ser mais dependente do sucesso da globalização econômica? Eu acho que a China precisa da continuação da globalização ainda mais que os Estados Unidos. Em parte porque ainda é tecnologicamente menos avançada (embora isso esteja mudando rapidamente em algumas áreas) e, portanto, pode se beneficiar mais da globalização e da transferência de tecnologia. Mas as elites nos Estados Unidos também precisam da globalização, pois é uma maneira de enriquecer levando a produção da mão de obra doméstica ocidental, de custo mais elevado, para o resto do mundo.

Costuma-se dizer que o capitalismo foi capaz de absorver pontos fortes dos regimes comunistas (Estado de bem-estar etc.), mas o contrário não aconteceu. Você acha que algo semelhante pode decidir a concorrência entre o capitalismo político e o meritocrático? Essa é uma pergunta interessante. Havia na década de 1960 uma corrente (por exemplo, Jan Tinbergen, John Kenneth Galbraith, Andrei Sakharov) afirmando que os dois sistemas convergiriam: os requisitos tecnológicos em ambos são semelhantes e, argumentou-se, os sistemas socialistas teriam que aceitar uma dose maior dos mercados para crescer mais rapidamente, enquanto o capitalismo teria que aceitar direitos sociais e trabalhistas mais amplos. O último ponto ocorreu, mas não o primeiro. Isso mostrou claramente que o capitalismo era mais flexível.

No final de “Capitalismo sem Rivais”, vislumbro uma possibilidade de convergência entre os dois modelos de capitalismo, mas de uma maneira diferente do que se pensava em relação a uma convergência entre socialismo e o capitalismo. Penso que não se pode descartar a possibilidade de o capitalismo liberal caminhar cada vez mais em direção a uma política plutocrática.

Isso é mais óbvio nos Estados Unidos, onde o dinheiro e os ricos desempenham um papel enorme na política. Isso poderia levar à criação de uma elite político-econômica “unificada” que controlaria tanto a economia quanto a política.

Mas algo semelhante também é visível na China, com a diferença de que lá a elite política tende a tomar para si o poder econômico. No final, ambos os sistemas podem evoluir para uma oligarquia, com a diferença de que, nos Estados Unidos, a oligarquia econômica conquistará o poder político, enquanto na China seria o contrário.

O senhor menciona que a corrupção no capitalismo político não pode ser eliminada, mas tem que ser mantida sob controle. Se a China decidir avançar em direção a um sistema menos corrupto, existe alguma maneira de fazer isso gradualmente? O Brasil recentemente teve um choque anticorrupção que levou a uma intensa turbulência política. Penso que devemos considerar a corrupção como uma característica inerente ao capitalismo político, porque ele se baseia na ausência de Estado de Direito e na capacidade de o Estado tomar decisões que não sejam limitadas pelas regras.

O poder irrestrito do Estado em decisões de importância significativa é uma característica fundamental do capitalismo político e a causa principal da corrupção. Portanto, não vejo como alguém poderia manter o capitalismo político e eliminar a corrupção.

Mas, para preservar a estabilidade política, é importante que o Estado não tome muitas dessas decisões políticas e mantenha a corrupção sob controle (isto é, dentro de alguns limites).

O senhor escreveu que a existência da União Soviética forçou o capitalismo ocidental a se tornar mais igualitário. Acha que concorrência entre os modelos de capitalismo pode afetar os níveis de desigualdade nos dois lados? Não tenho certeza disso, porque os dois sistemas são muito desiguais, portanto a concorrência deles não parece jogar na área da igualdade, mas na área do crescimento econômico.

Na literatura sobre transições pós-socialistas, houve a ideia de “sub-reforma”, o risco de países periféricos ficarem presos na terra de ninguém entre comunismo e capitalismo, com “o pior dos dois mundos”. Pode ocorrer o mesmo com os países da América Latina nesta disputa entre o capitalismo meritocrático e político? Isso não é impossível. Podíamos antes ver os países latino-americanos como democracias consolidadas, mas os recentes acontecimentos na Bolívia, Equador, Venezuela, Nicarágua e El Salvador nos fazem pensar se os sistemas híbridos não podem também reaparecer em outros países da América Latina.

As frequentes alusões de Bolsonaro favoráveis ao regime militar brasileiro, combinadas com a ênfase em destacar o crescimento econômico (que, aliás, foi significativo nesse período), podem levar a acreditar que uma combinação de capitalismo liberal e político talvez não seja mal vista por alguns.