Sem ‘norte’, serão 15 anos para Brasil voltar à pobreza de 2014

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Após uma década perdida em termos de bem-estar social, país deveria integrar programas de combate à desigualdade ao Bolsa Família

Fernando Canzian – Folha de São Paulo – 20/08/2019

Sem focar os mais pobres com programas específicos como o Bolsa Família, o Brasil pode demorar 15 anos até voltar ao mesmo patamar de pobreza de antes da crise, afirma o economista Marcelo Neri, diretor do FGV Social.

Como avalia a evolução da renda e da desigualdade no Brasil?

O Brasil vinha em um processo de crescimento inclusivo até 2014. Daí para frente, vivemos o outro lado da moeda. Os rendimentos caíram, e a desigualdade da renda do trabalho aumentou por mais de quatro anos consecutivos, algo que não aconteceu nem em 1989, nosso recorde de desigualdade.

Com isso, a economia desaqueceu ainda mais, pois os pobres tendem a consumir boa parte de sua renda.

A pobreza também aumentou muito. Ela tinha caído, de 1990 a 2014, cerca de 75%. Agora, só a extrema pobreza subiu 40%. Uma combinação de queda da renda, desemprego e aumento da desigualdade gerou a reversão.

Não estamos voltando ao mesmo nível de pobreza que tínhamos antes de ela cair, felizmente. Mas a projeção é que, se não reduzirmos a desigualdade, mesmo crescendo 2,5% ao ano até 2030, nós vamos apenas voltar aonde estávamos em 2014.

Ou seja, precisamos fazer não só um combate à desigualdade, mas à sua pior forma, que é a que afeta os mais pobres. É o que programas como o Bolsa Família ou educação pública podem fazer.

Quem mais ganhou e perdeu na crise?

Ao contrário do período anterior em que a desigualdade caiu e grupos excluídos tiveram ganhos maiores, houve uma certa mistura. Os grandes afetados foram os mais jovens, que perderam 15% de sua renda no período todo da crise enquanto a média perdeu 2,6%, porque houve uma queda e depois uma recuperação da renda média.

Negros e pessoas de baixa escolaridade perderam mais. No Nordeste e no Norte a perda também foi maior. As mulheres conseguiram ter algum ganho enquanto os homens perderam, diminuindo a desigualdade de gênero.

O único grupo que ganhou foi o das cônjuges, como uma estratégia de manutenção da renda na família.

Os últimos anos também foram de melhora para quem estudou mais, e como as mulheres são mais escolarizadas, elas conseguiram se destacar.

Mas foi um período de aumento de desigualdade no mercado de trabalho, que também havia sido, no período anterior, a grande causa da redução da desigualdade.

Como a desigualdade brasileira impacta no PIB?

A desigualdade e seu aumento tendem a piorar o crescimento por vários canais, como o consumo da população, a violência que desestrutura atividade produtivas e a polarização política que leva à instabilidade. Tudo isso é ruim.

Se tivermos alguma retomada da renda média, ainda que tímida, se olharmos o bem-estar da nação, que leva em conta também a distribuição da renda, quase não existe recuperação. Ela é muito tênue.
É uma década perdida em termos de bem-estar social.

No boom das commodities dos anos 2000, a renda aumentou e a desigualdade caiu. Se houver um novo ciclo favorável, é possível retomar isso ou as coisas mudaram, como o fato de a população ter envelhecido? 

Acho que será necessária uma ação muito clara sobre a desigualdade e o tipo de desigualdade que queremos reduzir. Se for para reduzir a desigualdade no meio da distribuição de renda, não há mais recursos.

Se for para focar nos mais pobres entre os pobres, podemos conseguir. Mas, se dependermos só do crescimento, teremos de andar 15 anos para voltar ao início da crise.

Tem que haver um combate direto à desigualdade. Mas o principal problema é que talvez a gente tenha perdido esse sentido, esse norte.

Para além dos efeitos da crise, tínhamos uma direção de combate à desigualdade. Mas saímos desse caminho do meio e estamos polarizados. Ou é só crescimento ou, como quer a esquerda tradicional, só a desigualdade.

Precisamos conciliar essas visões, porque se olharmos o progresso social que o Brasil teve, não foi só a renda crescendo e a pobreza caindo pós 1990.

A expectativa de vida aumentou, a escolaridade, que estava estagnada desde sempre, também cresceu. Só que essas mudanças não trouxeram impacto na economia.

As pessoas vivem mais, mas a gente não reformou a Previdência. A escolaridade aumentou mas a produtividade do trabalhador, não.

Houve uma melhora na vida das pessoas, mas não uma responsabilidade econômica que desse sustentação a isso.

E agora vemos uma involução social. A própria expectativa de vida e a mortalidade infantil começando a piorar.

A falta de contrapartida macroeconômica começa a afetar o lado social.

O aumento da renda e a queda da desigualdade se deram em um período em que o salário mínimo aumentou 74% acima da inflação em 15 anos. Foi uma boa política?

Tivemos uma política forte, mas que talvez tenha sido exagerada não só face ao alto desemprego corrente mas pelas transferências públicas.

O que figura no imaginário é que o salário mínimo é a grande fonte de combate à pobreza. Mas a verdade é que isso custa muito porque todas as políticas sociais, Previdência, seguro desemprego e abono salarial, por exemplo, estão indexadas ao salário mínimo.

A gente aumenta a despesa pública e, com a população envelhecendo, é um processo que não se sustenta.

Nos anos 1990, quando o governo FHC deu grande aumento para o salário mínimo, aquilo teve impacto na pobreza. E não tinha outra coisa a ser feita, porque não havia o Bolsa Família. Hoje temos outros instrumentos e, apesar disso, a gente meio que jogou dinheiro de helicóptero. Gastou com Previdência, com pobre e não pobre, com campeões nacionais.

O Brasil realmente adotou uma estratégia sem sustentabilidade, comprometendo o próprio recurso de combate à pobreza. Hoje, se a gente quiser fazer isso, vai ter que ser muito decidido e focado.

O instrumento que temos consolidado hoje é o Bolsa Família. É começar por ai? 

Por aí e desmontar coisas que não são tão boas. Porque, no Brasil, temos essa tradição de adotar cada vez mais programas e penduricalhos e de manter mesmo programas que não são muito bons.

É preciso também criar pontos entre os programas. O sujeito que sai do Bolsa Família vai para onde? Empreendedorismo, emprego formal? É preciso pensar na integração, e o Bolsa Família é uma boa base a partir da qual é possível fazer essas conexões.

Depois de 13 anos de PT, tivemos o impeachment, o governo Temer e a vitória da direita de Jair Bolsonaro. Isso tem a ver com a volta do aumento da desigualdade?

Os indicadores sociais do Brasil estavam meio descolados do econômico. O PIB começou a andar de lado desde o começo da década, e o mercado de trabalho e a distribuição de renda continuaram a prosperar até 2014.

Mas, do ponto de vista psicossocial, a confiança da sociedade no governo federal, nas instituições e na avaliação de políticas públicas vem se deteriorando desde 2010.

Acho que atualmente é muito difícil tentar entender o Brasil sem ouvir os brasileiros, para além dos indicadores objetivos.

A gente tenta buscar um certo conforto no cenário global. Temos o [Donald] Trump, o brexit no Reino Unido, e o que aconteceu no Brasil faz parte do mesmo contexto. Faz, mas o grau brasileiro de desconfiança nas instituições é muito maior.

Em relação à aprovação das lideranças políticas antes da eleição de 2018, não é que o Brasil tenha a pior avaliação do mundo. É a pior da série, de dez anos. Não existe outro país, em toda a série histórica que acompanhamos, com desaprovação tão alta.

Isso refletiu nas eleições. Tem razões sociais e objetivas como desemprego e a desigualdade, mas tem uma raiz psicológica mais profunda.

Qual a sua avaliação sobre a desigualdade em perspectiva mundial?

O aperto das classes médias tradicionais nos países desenvolvidos é um dado simbólico importante, que consegue explicar fenômenos como Trump e brexit. Só que, se olharmos para a desigualdade e distribuição de renda globais, ela melhorou nos últimos anos por conta dos milagres econômicos chinês e indiano, dois países que abrigavam metade dos pobres do mundo.

A classe média tradicional é o grupo perdedor das nações ricas, e essas pessoas acabam votando com base naquilo que elas conseguem enxergar, que é o seu país. E isso tem piorado no mundo.

E a polarização econômica tem levando também a uma polarização das ideias, com as sociedades cada vez mais divididas. Com muito de “nós contra eles”, e vice e versa.

Isso acaba levando as pessoas a se agrupar nos extremos, em causas que se reforçam, ampliando conflitos.

Quais as razões de termos uma forte concentração no 1%?

Por ter sido o último país do mundo ocidental a abolir a escravatura, há muita desigualdade em nossas relações trabalhistas. A medida da renda do 1% mais rico tem se mantido alta não só pela renda do capital mas também pela do trabalho.

Destacamos a importância da empresa onde se trabalha, do acesso ao capital produtivo na determinação da desigualdade mais até do que a educação transmitida de pai para filho.

Os dados do Imposto de Renda que processei junto com Marcos Hecksher, do Ipea, também mostram os privilégios de uma casta de funcionários públicos ativos. Sem falar da previdência deles, que exacerba a desigualdade no topo.

Mas se os dados do Relatório da Desigualdade Global mostram uma altíssima concentração de renda no topo, eles também indicam um país muito mais próspero, não só na fotografia atual como no filme ao longo do tempo.

A taxa de crescimento da renda média nos últimos oito anos da série seria seis vezes mais rápida que a do PIB. Ou seja, se os novos dados trazem más notícias, há também boas notícias para um observador mais atento.

Não dar seguro saúde e Previdência a terceirizado é escândalo, diz José Pastore

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Governos e mercado devem criar produtos de proteção para trabalho flexível, diz sociólogo

qqueenxx_x leaked videoÉrica Fraga – Folha de São Paulo – 19/08/2019

Com o avanço da reforma da Previdência, o país precisa encarar outra bomba relógio: a realidade de 50 milhões de brasileiros que estão desempregados ou na informalidade, sem proteção trabalhista ou previdenciária.

O alerta é feito pelo sociólogo José Pastore, 84, um dos mais respeitados pesquisadores do universo das relações laborais no Brasil. “A sociedade precisa encontrar proteção para o terceirizado, o freelancer, o casual”, diz Pastore, que é professor da USP.

“Eles adoecem, envelhecem e morrem”, afirma.

Como parte de seu esforço de pesquisa para alertar as pessoas sobre esse tema, ele escreveu um artigo que será publicado na LTr, revista de temas jurídicos.

No texto, intitulado “O trabalho do futuro e o futuro do direito”, o sociólogo mostra com dados e farta evidência internacional, como as relações laborais flexíveis crescem em ritmo acelerado.

Mostra que países ricos têm adotado regimes de coparticipação, em que tanto profissionais como freelancers, quanto governos e contratantes dividem os custos de produtos de previdência privada e seguros.

Para Pastore, no Brasil, as seguradoras precisam acordar para a nova realidade e desenvolver um cardápio de produtos flexíveis e variados para diversas faixas de renda.

“Precisamos encontrar proteção nova para o trabalho novo (….) A proteção tradicional está atrelada ao emprego. Quem trabalha sem emprego tem que ter a proteção atrelada a si próprio”.

Qual é a diferença entre emprego e trabalho?
O emprego é um trabalho muito específico, em que se caracteriza subordinação, assalariamento, continuidade, habitualidade. E o trabalho é a atividade de produção, criação de um modo geral. O emprego é um tipo de trabalho.

O que tem mudado nesse universo?
A grande novidade é que, ao lado do emprego, que ainda é a forma predominante de trabalhar, e vai continuar sendo por muito tempo, estão surgindo novas formas de trabalhar, o trabalho casual, sem subordinação, sem assalariamento, sem habitualidade, feito por projeto, com começo, meio e fim.

Isso é consequência da tecnologia?
A tecnologia tem um papel importantíssimo, mas é produto também da globalização. As empresas fragmentam a produção e conseguem em vez de ter uma grande fábrica com empregos fixos, ter 10, 15 freelancers aqui e ali. No mundo desenvolvido, entre 25% a 30% da força de trabalho já está nessa modalidade. Aqui no Brasil, são uns 20% a 25%.

Por que o emprego tradicional está longe de se tornar minoritário? 
Eu acho que sou meio isolado nisso, mas minha impressão é que ainda tem uma série de sistemas produtivos que requerem um pessoal estratégico, que precisa desfrutar da confiança dos donos da empresa e ter uma grande familiaridade com o trabalho. É o caso do gerente de banco, do sujeito que está bolando um novo produto.

No texto, o sr. lança a pergunta sobre o que teria de errado com os trabalhos flexíveis e responde que, para o direito trabalhista, tudo, mas para o próprio mundo do trabalho, nada. O bom senso está mais próximo de quem?
Do direito do trabalho. Estamos mais acostumados às proteções de quem tem emprego. No novo mundo do trabalho, você tem três enfermeiras num mesmo hospital. Uma é fixa, outra é terceirizada e a outra, freelancer. Fazem a mesma coisa, mas têm remuneração e benefícios diferentes. Isso é um escândalo para o direito do trabalho convencional.

Como deixaria de ser um escândalo?
Na medida em que a sociedade encontrar proteção para o terceirizado, o freelancer, o casual, o conta própria, o ‘à distância’, etc, está tudo resolvido. Só que é uma proteção diferente. Por que eles precisam de proteção? Porque eles adoecem, envelhecem e morrem.

Qual é o problema de replicar as regras do emprego para o trabalho não convencional? 
Muitos problemas. É a história de você fazer um puxadinho. Aquele que é contratante de um freelancer pode deixar de contratar se tiver que arcar com as garantias do emprego para quem não tem emprego. Ou pode rebaixar muito o salário. Outra tendência que não funciona é a do direito convencional criar termos novos, o empregado independente ou o emprego parassubordinado. O que precisamos é encontrar proteção nova para o trabalho novo.

Por que é importante que a proteção esteja atrelada ao trabalhador e não ao emprego?
Leis como a CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) protegem a relação de subordinação entre empregado e empregador. Agora, quem trabalha sem emprego tem que ter a proteção atrelada a si próprio, porque ele vai trabalhar ora aqui, ora ali, ora com emprego de novo, depois volta a trabalhar como freelancer. Para o não empregado, o Brasil tem alguns tipos de proteção, mas precisa avançar.

Quem vai proteger esse novo trabalhador?
Aí é que está. O desafio é definir essa proteção. Alguns países ricos já avançaram. Quando a gente fala que a proteção tem que estar atrelada à pessoa, quer dizer que ela tem que cuidar da sua proteção. Como? Comprando produtos de proteção. Previdência privada, seguro social, seguro de saúde, licenças gestacionais.

Todos esses planos estão baseados em regimes de capitalização. Ou seja, são planos de benefício definido. O trabalhador define o que quer. Para pagar isso, ele precisa tirar do serviço que presta e tem que embutir no preço do contratante.

A empresa que contrata o trabalhador flexível não contribui diretamente? 
O contratante também pode participar, mas tudo vai depender de oferta e procura.

Nos países avançados, começou a surgir o sistema de coparticipação. O freelancer sozinho não aguenta pagar a contribuição cheia. Então, há uma divisão. Geralmente, o trabalhador paga a maior parte, um pedaço é o contratante e outro é o governo. Para o Brasil, onde o problema da informalidade atinge 50% da força de trabalho, será mais importante ainda um regime de coparticipação.

Como fica a participação do contratante quando termina o contrato com aquele trabalhador?
Quando você para de trabalhar, tem que pagar a contribuição cheia, sozinho.

Agora, tem países em que se você não aguenta pagar a contribuição cheia, paga, por exemplo, a metade. Mas o pacote que comprou vai se reduzir. Se era um plano para se aposentar aos 60 anos, passa para 62.

Como o Brasil tem se adequado a esses desafios?
A previdência pública oferece quatro tipos de proteção diferentes para o autônomo. Uma é para aquele que emite o RPA [recibo de pagamento autônomo]. A segunda é para o MEI [microempreendedor individual]. O terceiro é o contribuinte individual. E o quarto é o contribuinte voluntário, que está pensando em proteção futura, mas nem trabalha.

Isso está bom, mas é insuficiente. As proteções para o freelancer têm que ser customizadas, flexíveis, porque ele faz muito ziguezague, e as modalidades existentes não acompanham esses movimentos.

Nosso mercado de seguros e previdência ainda não despertou para o fato de que 50% da população economicamente ativa está na informalidade. Muitos com renda baixa e instável, mas nem todos.

Há freelancers que já poderiam ter sua previdência privada, seguros, mas não têm nada porque os produtos não são atraentes. As empresas de seguro precisam oferecer produtos a todas as faixas de renda.

O governo também entra nos regimes de coparticipação?
Nos países avançados, a coparticipação é estabelecida ou voluntariamente entre as partes ou por lei.

O Brasil está atrasado? 
O mundo inteiro demorou a entrar nesse assunto. As formas não convencionais de trabalho começaram a crescer mais recentemente. Surgiu o Uber, o cara do ´delivery´, gente que está na Internet.

Estou fazendo um esforço de pesquisa para alertar que essas pessoas precisam estar tão protegidas quanto os empregados, também são seres humanos. Não quis abrir essa discussão antes por causa da reforma da Previdência.

Qual era a sua preocupação?
A reforma da Previdência está sendo feita em termos de empregado e empregador. Quem contribui para a Previdência? Tive medo de lançar essa discussão antes e alguém falar: ‘Quer saber de uma coisa? O mais importante não é isso que está sendo discutido aqui no Congresso, porque, no futuro, não haverá empregado e empregador para aguentar a Previdência’.

Os informais representam um risco econômico para o futuro do país?
Sim, porque eles dependem só da assistência. É uma pressão violenta em cima das finanças públicas.

Traz também problemas como degradação, frustração, criminalidade. E é um problema de todos.

Mesmo que o Brasil consiga adotar formas para proteger os independentes, elas precisam ser muito bem pensadas. Na medida em que você vai vivendo mais, precisa de mais proteção. Tem que calibrar muitas coisas. Se fizer uma coisa muito bonita, mas que não esteja ajustada à capacidade de pagamento, não vai dar certo e deixaremos tudo para o governo.

Hoje, elas não têm proteção nenhuma?
Nada, zero. Nem proteção trabalhista, nem CLT, nem Previdência, nem seguro saúde, nada. Elas dependem de assistência. Felizmente, temos dois ou três planos de assistência social que quebram o galho.

Houve otimismo excessivo sobre a capacidade da reforma trabalhista de criar trabalhos formais? 
Aqueles que prometeram emprego eram ilusionistas. Não dá para gerar emprego com lei. Se desse, não existiria desemprego no mundo. E a reforma brasileira foi aprovada no meio de uma brutal recessão. Não tinha a menor condição de ter efeito sobre geração de emprego.

Agora, a reforma reduziu muito o conflito trabalhista, porque procurou moralizar o acesso à justiça. Não cercear, mas moralizar. Os juízes estão oferecendo sentenças mais bem fundamentadas. Outra coisa que melhorou foi o aumento do acordo voluntário.

Como o sr. avalia a medida provisória da Liberdade Econômica, que alguns consideram uma nova reforma trabalhista?
Acho que as regras estão na linha da modernização que teve início com a reforma trabalhista. Por exemplo, já está na hora de criar uma carteira de trabalho digital. A maior flexibilização para o trabalho aos domingos também é positiva. A vida do consumidor mudou muito. As regras ampliam as alternativas de serviços para o consumidor, e também, um pouco, a oportunidade de trabalho.

Mais cápsulas de Kardec e menos comprimidos antidepressivos  

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A sociedade atual vive momentos de grandes transformações estruturais, os modelos de organização social e política estão em crise e muitos em fases avançadas de desintegração, exigindo dos indivíduos uma constante busca por compreensão de mundo, pena que muitas pessoas canalizam seus esforços para o conhecimento apenas do mundo material, se debruçam nos compêndios científicos e tecnológicos e se esquecem de fazer um mergulho interior, para analisar seus sentimentos, seus valores e suas mais íntimas emoções.

Nesta sociedade que cultiva e cultua o corpo, o hedonismo e a potência material, onde as pessoas buscam se mostrar sempre como símbolos de sucesso e de admiração, além de respeitáveis e dotadas de conhecimentos elevados, os prazeres carnais sobrepõem os valores do espírito, cultivar valores e sentimentos espirituais pode levar o indivíduo ao isolamento, sendo vistos como pessoas esquisitas que devem ser evitadas pelos chamados indivíduos normais.

Os ensinamentos deixados pelo grande pedagogo e intelectual francês, Allan Kardec, contidos na codificação da Doutrina Espírita podem nos auxiliar demasiadamente para a verdadeira compreensão da vida e de nossas responsabilidades, afinal não estamos neste mundo apenas para passear, existe um propósito maior para nossa estada no planeta Terra e o estudo de obras como O livro dos Espíritos, O livro dos Médiuns, O Céu e o Inferno, O Evangelho segundo o Espiritismo e A Gênese, podem nos auxiliar muito mais do que imaginamos, isto porque estas obras não analisam as questões apenas pela lógica da religião, como muitas doutrinas fazem, mas apresentam um olhar Filosófico e Científico.

A Doutrina Espírita nos mostra as dificuldades da sociedade contemporânea, seus conhecimentos nos auxiliam na compreensão do mundo e nos preparam para não nos deixarmos levar pelos atrativos materiais, pois neste mundo dominado pela tecnologia e pelos prazeres do dinheiro, seu excesso pode nos levar para os mais trágicos equívocos, com comprometimentos terríveis que podem perdurar durante muitas vidas ou séculos.

O Espiritismo não enxerga o dinheiro, a ciência e a tecnologia como coisas negativas e degradantes, muito pelo contrário, sabe da importância de cada um destes instrumentos criados pelo homem para dignificar a sociedade, mas sabe muito bem que estas mercadorias podem nos abrir portas frágeis e equivocadas, criando ilusões, desde que o indivíduo não compreenda a importância destes produtos e os transformem em instrumentos de interesses imediatos e individualizados.

O dinheiro nos abre portas variadas, pode auxiliar comunidades carentes, saciar a fome dos mais pobres e levar remédio e consolo para os enfermos, diante disso, deve ser visto como um grande instrumento de bem-estar social e melhorias para as comunidades. De outro lado, o mesmo dinheiro, ao ser usado de forma equivocada, pode nos legar prazeres materiais e estimular nossa vaidade e desejos descontrolados, levando muitos incautos a quedas tenebrosas, sendo motivo de chacotas, piadas e maledicência.

Quando encontramos histórias e experiências de quedas e degradação moral, de pessoas que se deixaram levar pelos prazeres do sexo desvairado e pelas glórias ilimitadas do dinheiro desregrado, nosso comportamento, na maioria das vezes, é de criticar e maldizer o irmão caído nos desequilíbrios da ilusão material, mal sabemos ou nos esquecemos, de que todos nós cometemos estes deslizes, em algum momento de nossa trajetória nos deixamos levar por estes prazeres imediatistas e sentimos na pele as marcas desta queda acentuada, uns aprenderam com as quedas e fizeram as pazes com a vida, enquanto outros continuam se debatendo em situações de vitimização e intolerância.

A Doutrina Espírita nos mostra que todos somos devedores das Leis da Vida, todos cometemos equívocos variados, nos deixamos levar por promessas de terceiros, nos deixamos contaminar pelos prazeres do sexo desregrado e pela ambição da riqueza material, diante disso, temos que nos conscientizar de que julgar os irmãos em queda é uma atitude covarde e hipócrita que cometemos quando deixamos de cultivar a empatia e não vigiamos nossos pensamentos.

Somos todos dotados de conhecimento e habilidades variadas, somos ainda, o resultado de milhares de experiências sucessivas nas duas partes da vida, no mundo material e no mundo espiritual. Diante destas informações libertadoras, devemos sempre evitar a vitimização e a terceirização de nossas responsabilidades, se estamos passando por momentos ruins, se nos sentimos tristes e desolados, devemos buscar em nosso íntimo as respostas para nossas indagações e dificuldades, sempre nos colocando no centro de nossos problemas e acreditando que somos donos de nossas escolhas e senhores de nossos destinos.

Os remédios devem ser utilizados em momentos específicos, a medicina tradicional vem passando por grandes avanços e desenvolvimentos, dores e aflições de épocas anteriores podem ser combatidas com remédios eficientes e eficazes. Nesta nova etapa da Ciência Médica contemporânea, muitos cientistas e pesquisadores desconhecem o papel e a importância dos bons espíritos em suas pesquisas e descobertas científicas, muitas delas são influenciadas e inspiradas por médicos desencarnados diretamente do mundo espiritual.

Embora saibamos da importância da medicina contemporânea, os indivíduos devem se utilizarem de outros instrumentos fundamentais para a compreensão de seus desajustes, estes instrumentos estão ligados ao conhecimento religioso, não me refiro as religiões que fogem e demonizam a ciência e o pensamento científico. Neste universo temos a Doutrina dos Espíritos como uma aliada incondicional, através deste instrumento, muitas pessoas vão perceber a importância do pensamento saudável, das boas energias, da oração, da água fluidificada, da caridade e do cultivo de boas amizades e da empatia, todas estas atitudes já foram estudadas, pesquisadas e analisadas pela ciência contemporânea, com descobertas interessantes e legitimadores do pensamento espirita.

Neste mundo onde o suicídio aumenta em escalas exponenciais, onde a ansiedade domina quase todos os indivíduos e grupos sociais, onde a depressão vitima mais de quatrocentos milhões de pessoas, onde os medos crescem de forma acelerada e os indivíduos fogem de suas responsabilidades imediatas, está na hora das pessoas mais intelectualizadas e conscientes compreenderem que o excesso de tecnologia e o abuso das redes sociais estão levando os indivíduos a uma situação de caos e de incertezas crescentes, onde os valores materiais estão se transformando em valores universais e dominando lares e degradando famílias.

A Doutrina dos Espíritos nos trouxe, desde a sua codificação, uma ampla gama de informações e de conhecimentos relacionados ao princípio da reencarnação, sem a conscientização e a compreensão destes conceitos, os indivíduos teriam dificuldades para compreender a magnitude da vida e das potencialidades do ser humano, sua imortalidade, instrumentos estes fundamentais para entendermos de que todas as dificuldades vividas e vivenciadas neste mundo servem para purgar nossos desequilíbrios nesta e numa outra existência, afinal temos uma única vida, mas inúmeras existências.

Na atual sociedade, os indivíduos carecem de recursos mínimos para a sobrevivência saudável, vivem como zumbis em trabalho intermitente e degradante, ambicionando, com isso, a satisfação de seus interesses imediatos de posse e de busca pelo prazer, deixando valores espirituais em detrimento de ganhos e rendimentos monetários, neste ambiente, quando acordam e se deparam com a realidade construída até então, se assustam e, no extremo, se debruçam nos pés do santo buscando a salvação desejada.

Olhar para dentro de si mesmo, refletir sobre suas necessidades, seus desejos e buscar compreender seus desequilíbrios, embora esta descoberta seja dolorosa num primeiro momento, pois o leva a compreender suas pobrezas morais e desajustes espirituais, podem auxilia-lo na sua trajetória e nas suas descobertas, contribuindo na sua evolução espiritual e no seu progresso moral, objetivos maiores de todos os indivíduos encarnados.

Nestas pesquisas interiores, muitos indivíduos se revoltam com suas descobertas e fogem desta nova realidade, abandonando o tratamento e ainda se tornando mais azedos, agressivos e inconsequentes. Outros se utilizam destas descobertas como instrumentos de melhorias íntimas e pessoais, encaram estes desequilíbrios como relativamente normais, embora aceitem que são negativos e devem ser corrigidos. A Doutrina dos Espíritos nos oferece um conjunto imenso de conhecimentos e renovação, cabe a cada um de nós nos utilizarmos deste conhecimento da forma que mais nos convém, nos melhorando e crescendo espiritualmente.

Os remédios contra depressão estão sendo difundidos para todas as regiões do mundo, os indivíduos se encontram em momentos de apreensão e insegurança e buscam nestes a solução de seus problemas e a redução de suas aflições, a simples ingestão destes medicamentos não trará as respostas que estes indivíduos estão procurando, a cura maior está no aprimoramento moral de todos os indivíduos, um tratamento doloroso e demorado que, em muitos casos, se prolongam durante muitos séculos, em variadas reencarnações.

Os livros espíritas devem ser vistos como um verdadeiro elixir de bênçãos de informações e conhecimentos para uma melhoria dos seres humanos, mesmo sabendo que para muitos a Doutrina Espírita é vista como a “doutrina do livro”, percebemos ainda, que uma parcela substancial dos chamados espíritas apresentam uma carga de leituras e estudos bastante limitados, livros clássicos e altamente interessante, como as obras de Francisco Cândido Xavier, Yvonne do Amaral Pereira e de André Luiz, obras essenciais para a compreensão da temática espírita ainda permanecem sem serem lidos e muito menos, estudados.

Mesmo não sendo possível tomar contato com todas as nossas experiências de vidas anteriores, a Doutrina Espírita nos fala do esquecimento do passado e suas implicações, mesmo assim, o Espiritismo nos mostra que é analisando nossas inclinações para compreendermos os motivos de nossas dificuldades, nossas inclinações nos traem quando expõem nossas fraquezas e limitações, é neste momento que devemos concentrar nossas forças para combater nossas dificuldades mais íntimas.

O Espiritismo nos mostra ainda, que somos testados em áreas e setores que somos mais frágeis e apresentamos maiores desajustes, não somos testados nos locais onde somos fortes, mas justamente ao contrário, diante disso, faz-se necessário compreender nossas fragilidades, analisar nossas limitações e construir virtudes verdadeiras para que possamos superar os ataques de entidades que querem nos fragilizar e nos levar a uma situação próxima da bancarrota. Nesta situação, não mais adianta culpar nossos detratores e adversários de vidas e embates anteriores pelos nossos desequilíbrios, é fundamental que entendamos que não existem vítimas e muito menos os chamados mocinhos, em milênios de existência, somos todos grandes vilões.

A Doutrina Espírita nos mostra a necessidade da moderação nos prazeres materiais e nos auxilia para que reflitamos sobre a importância dos trabalhos espirituais, pouco adianta acumular recursos financeiros, posses de bens e propriedades, riquezas inestimáveis para a sociedade em que vivemos, mas que não apresenta nenhuma serventia para auxiliar no progresso e no desenvolvimento do espírito, os verdadeiros bens são aqueles que estão dentro de cada ser humano e se baseia na moral e nos valores mais consistentes que acumularmos, distribuirmos e estimularmos, com estes valores caminhamos a passos largos para o desenvolvimento que tanto almejamos, o progresso espiritual.

Numa sociedade marcada por tantos desequilíbrios emocionais, onde as pessoas buscam nos remédios e nos antidepressivos a solução para seus desequilíbrios mais íntimos, a leitura e o estudo da obra de Allan Kardec deveria ser estimulada por todos os grupos sociais como forma de compreender as dificuldades da vida e entender que todas as dores e os problemas tem seu significado e importância na vida dos seres humanos, diante disso, deveríamos ler Kardec para compreender Jesus.

Guerra comercial, desaceleração econômica e recessão global

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A economia internacional vive um momento de grandes inquietações políticas, desaceleração, medos e instabilidades, gerando desequilíbrios nas estruturas econômicas, mais instabilidades políticas e desajustes produtivos, levando os países a uma forte desaceleração econômica, com conflitos comerciais e perspectivas de um contencioso comercial longo, doloroso, gerando muitos perdedores e poucos ganhadores.

Desde a crise de 2008, a economia global vem sinalizando desequilíbrios estruturais, levando governos a injetar trilhões de dólares em suas estruturas produtivas para evitar a bancarrota de suas economias e a degradação de suas estruturas produtivas, com altos impactos sobre a população, o emprego e as perspectivas futuras. Com estas políticas de injeção de recursos, adotadas pelos Bancos Centrais, os governos conseguiram evitar uma falência generalizada em suas economias, mas elevaram os desequilíbrios em outras áreas da economia, com um alto endividamento dos governos e riscos de incremento inflacionário, obrigando as autoridades monetárias a intensificarem a atuação nos mercados monetários e financeiros.

Depois do colapso do modelo, em decorrência da crise do mercado imobiliário, os governos foram obrigados a salvar inúmeras empresas em variados setores econômicos, com isto evitaram que as falências fossem muito maiores e o colapso da economia alcançasse números parecidos com os da crise de 1929. Bancos e seguradoras foram socorridos pelos governos, além de montadoras e grandes conglomerados, com isso, os Estados acumularam grandes dívidas e perderam parte de sua capacidade de investimentos e intervenção na estrutura produtiva.

No momento atual, a economia global vem sentindo os impactos da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, cujos contornos estão esfriando os ânimos dos investidores e dos empresários e gerando medos e preocupações nos governos e na comunidade financeira, levando as Bolsas a quedas elevadas em alguns momentos e recuperações posteriores, abrindo espaço para ganhos elevados e, ao mesmo tempo, perdas substanciais.

A guerra comercial em curso está gerando graves constrangimentos para a economia internacional, aumentando a instabilidade e gerando medos e preocupações desnecessárias, reduzindo as trocas e colocando o modelo econômico da globalização e das cadeias globais de produção em xeque, levando a economia global a uma desglobalização, marcadas pelo crescimento do nacionalismo, do protecionismo e de retóricas inconsequentes.

A ascensão do presidente Donald Trump levou a graves desconstruções no cenário internacional, impulsionando o unilateralismo norte-americano como resposta a perda de centralidade da indústria do país no comércio internacional, que vem perdendo espaço para a China e para outros países asiáticos, como a Coréia do Sul, Vietnã, Malásia, Cingapura, dentre outros. Com a ascensão da Ásia, muitos conglomerados econômicos dos Estados Unidos abriram filiais nos países asiáticos, buscando usufruir desta mão de obra excessiva e altamente barata se comparada aos trabalhadores norte-americanos, com essa estratégia, as empresas produziam na China e vendiam suas mercadorias para os consumidores dos Estados Unidos, gerando graves déficits na balança comercial norte-americana, cobertos pela emissão monetária e pelo endividamento externo via venda de títulos governamentais, transformando a China no seu maior credor.

A guerra comercial acirra os ânimos nacionalistas dos dois países e aumenta a instabilidade com relação as trocas internacionais, podendo gerar incremento nos preços e inflação nos Estados Unidos e redução do comércio chinês, com graves impactos sociais, reduzindo o ritmo de queda da pobreza no país asiático e potencializando desequilíbrios políticos com o aumento da contestação dos dirigentes.

Mesmo com a guerra comercial em curso, os déficits comerciais norte-americanos com a China ainda se encontram em valores elevados, o que levou o governo Trump a aumentar as sobretaxas aos produtos chineses no valor de US$ 300 bilhões, uma medida emergencial que mostra o desespero das autoridades da Casa Branca com a dependência comercial dos asiáticos. Somente em julho, o déficit comercial norte-americano foi de US$ 45 bilhões, um aumento substancial se comparado ao mesmo mês do ano de 2018, quando foram de US$ 27 bilhões.

As economias estão desacelerando rapidamente, China, Inglaterra e a União Européia estão em franca desaceleração, com isso, muitos governos começam a repensar suas políticas e adotar incentivos para evitar que o cenário descambe para uma recessão, reduzindo taxas de juros e incrementando medidas de estímulo ao emprego e a produção, visando reverter este cenário que preocupa e gera alertas e constrangimentos.

A chamada guerra comercial deve ser analisada muito mais como um confronto de duas grandes potências pela hegemonia da economia internacional, do que circunscrita apenas ao âmbito do comércio, pela primeira vez desde a desagregação da economia soviética, uma outra potência econômica consegue se ombrear e ameaçar os Estados Unidos no cenário global, gerando preocupações e estimulando retaliações muitas vezes descabidas e grosseiras, levando os norte-americanos a contestarem um modelo que, em anos anteriores, trouxeram-lhes grandes benefícios e os levaram a hegemonia da economia internacional.

A ascensão de Donald Trump elevou as tensões com a China, muitas foram as acusações proferidas pelos norte-americanos, desde o forte protecionismo chinês, passando por espionagem industrial até a crítica aos subsídios e políticas de estimulo aos investimentos, mas estas tensões devem ser vistas como uma estratégia da Casa Branca para contentar uma parcela dos seus eleitores que depositaram no presidente uma postura mais agressiva contra a ascensão dos parceiros chineses no comércio global. Para muitos norte-americanos, a redução da renda da classe média está associada ao rápido avanço chinês, marcados pelo protecionismo e por políticas que impactam negativamente sobre os Estados Unidos, esquecendo-se de que o capitalismo contemporâneo se expandiu para a Ásia em busca de novos e mais baratos trabalhadores, deixando de lado os trabalhadores ocidentais que, com o desenvolvimento econômico, se tornaram mais caros e sofisticados, não mais aceitando trabalhos com remuneração reduzida.

O grande problema da estratégia do governo Donald Trump é que, a adoção de políticas protecionistas eleva o preço dos produtos chineses nos Estados Unidos e reduz a renda da população norte-americana, podendo impactar sobre a renda agregada e diminuindo o consumo interno, além de estimular um incremento nos preços relativos com graves desajustes no cenário macroeconômico.

Outro ponto negativo no cenário internacional está na ascensão do conservador Boris Johnson e suas declarações sobre a saída do Reino Unido da União Européia, o tom belicista e arrogante adotado pelo premiê eleva as tensões dentro da região, gerando instabilidades crescentes e dificultando uma reconciliação dentro do bloco e, mais ainda, deixando no horizonte perspectivas muito elevadas de um divórcio litigioso com fortes impactos para a região e, indiretamente, para todos os atores do comércio internacional.

O Brexit está gerando impactos bastante negativos para a economia do Reino Unido, muitas empresas e grandes conglomerados econômicos estão reduzindo seus investimentos na região. No setor financeiro, muitos bancos e corretores estão se mudando para outros países da região, a City Londrina está perdendo espaços e investimentos preciosos e os indicadores estão perdendo fôlego, sinalizando momentos de instabilidades e incertezas para a região, os custos estão elevados e crescem de forma acelerada, deixando claro que os defensores do Brexit subestimaram os impactos negativos desta separação.

Muitos adeptos do Brexit temiam a invasão de estrangeiros no Reino Unido, acreditavam que a retirada do país do bloco europeu garantiria uma autonomia maior interna, desobrigando futuramente a adoção do Euro como moeda comum e faria com que fossem donos de suas próprias políticas e mantivessem a soberania que sempre desfrutaram. O que muitos não imaginavam, era que, ao apoiar a saída do Reino Unido da União Européia, o país ficaria isolado, abrindo um precedente negativo e condenando o país a uma posição secundária na região e elevando a fama do país de arrogância e de unilateralismo.

Neste atual momento, encontramos uma grande desagregação na economia mundial, esta desagregação está gerando pressões políticas fortes dos grupos que se julgam perdedores da globalização, principalmente setores da classe média dos países ocidentais, que se movimentam constantemente em lobbies demandando políticas protecionistas de seus governos, estimulando os nacionalismos e com isso, as políticas contrárias aos imigrantes, muitas delas xenófobas e intolerantes, com graves custos sociais e políticos.

Neste ambiente, é importante destacar a situação de confrontos e manifestações em curso em Hong Kong, país que retornou no final do século passado ao controle da China, depois de mais de 150 anos de controle Inglês. Neste país, os manifestantes contrários ao governo chinês estão se mobilizando em fortes e maciços movimentos de rua para defender a democracia e evitar as influências chinesas, vistas como um fenômeno de desestabilização que devem enfraquecer a tradição democrática no país. Estas movimentações geram desequilíbrios na segunda maior economia do mundo e colocam em xeque as políticas do Partido Comunista que governa o país a décadas, garantindo amplo crescimento econômico, abertura, concorrência e melhorias sociais irrefutáveis, mas ao mesmo tempo, marcados por um governo autoritário e centralizador.

Neste cenário de instabilidades crescentes, devemos destacar a situação econômica de nosso mais importante vizinho comercial, a Argentina. Depois de um longo período de crescimento marcados pelo forte protagonismo do Estado, marcado por estatizações e intervencionismos nacionalistas, a economia mergulhou numa crise econômica gerada por fortes desequilíbrios fiscais. Para reverter a situação, o governo eleito de Maurício Macri, de corte fortemente liberal, passa a adotar políticas liberalizantes, aberturas e privatizações, atuando diretamente nas reformas e deixando de lado questões sociais importantes e fundamentais, neste momento a pobreza aumenta e a crise econômica volta com força e ameaça sua reeleição e abre caminho para o retorno dos mesmos grupos intervencionistas anteriores, vistos pelo mercado como populistas e demagogos.

A economia internacional está em franca desaceleração econômica, onde destacamos os efeitos nocivos da guerra comercial entre chineses e norte-americanos, os conflitos internos na Europa motivados pelo Brexit, os movimentos em defesa da democracia em Hong Kong e a crise econômica que esfola a Argentina, os ventos da economia global sinalizam para cenários preocupantes nos próximos meses, com graves constrangimentos para os grupos mais vulneráveis em todas as regiões.

Países como o Brasil, cuja economia apresenta um longo período de recessão e uma dificuldade de recuperação econômica, devemos adotar reformas que impulsionem a recuperação produtiva, priorizando o emprego e evitando alinhamentos automáticos com os países em litígio, pois em cenários de instabilidades externas, como o atual, o equilíbrio interno é fundamental para vislumbrarmos possibilidades mais positivas num futuro próximo.

Neste ambiente é importante destacar que os grandes parceiros econômicos brasileiros se encontram em crise, China, União Europeia, Argentina e Estados Unidos, diante disso, os presságios para a economia brasileira podem ser bastante negativos, exigindo do Estado um forte reequilíbrio fiscal e reformas que visam o médio e o longo prazo, sem estas dificilmente o país conseguirá se mostrar atrativo no cenário internacional.

 

Contradições do casamento do conservadorismo bolsonarista com o liberalismo

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Fernando Abrucio – Valor Econômico/26/07/2019

As ideologias políticas são sempre a mistura de duas coisas. De um lado, um ideário sobre como deve ser o mundo. De outro, a necessidade de adaptar, em alguma medida, as ideias à realidade, pois ela é mais complexa e imperfeita do que os modelos puros. O encontro dessas duas dimensões envolve conflitos e contradições. Isso se torna mais marcante quando há um casamento de ocasião entre duas visões de mundo diferentes, mas que acreditam na junção circunstancial em torno de um objetivo. Um caso emblemático ocorre hoje na aliança entre liberalismo e conservadorismo em várias partes do mundo, em particular no Brasil sob o governo de Jair Bolsonaro.

O liberalismo, desde suas origens, é a defesa da liberdade dos indivíduos. Liberdade de pensamento, religiosa, de cada qual fazer o que quiser com sua vida, sua propriedade e seu corpo. Como bem argumentou o filosofo Stuart Mill, os ideais liberais de autonomia individual e tolerância resguardariam a diversidade de caminhos que os seres humanos podem escolher. Essa concepção liberal alimenta não só a defesa do mercado econômico como também do pluralismo político e cultural.

No início de sua história, o liberalismo acreditava que a limitação do poder governamental bastaria para atingir seus objetivos. Com o decorrer do tempo e de forma atribulada, construiu um casamento de longa duração com a democracia, apostando na expansão da ação política dos cidadãos como forma de garantir uma sociedade livre. Após a experiência do totalitarismo e da Segunda Guerra Mundial, e pressionado pelo então crescimento do socialismo, a liberal-democracia aliou-se à social-democracia, admitindo uma maior intervenção do Estado na economia para que as externalidades negativas do mercado fossem controladas, principalmente no que se refere à desigualdade, que poderia ser combatida com serviços públicos que garantissem maior igualdade de oportunidades.

Nas últimas décadas, especialmente a partir da segunda metade dos anos 1970, pensadores e atores políticos liberais têm por vezes se casado com um conservadorismo político nem sempre adepto dos valores democráticos. Isso tem significado um predomínio do liberalismo econômico sobre a sua faceta política, inclusive aceitando legitimar governos autoritários que aplicavam receituários liberais. A experiência chilena de Pinochet e seus “Chicago boys” está nas origens dessa combinação que seria considerada espúria por grande parte do pensamento liberal.

Houve muitas críticas a essa condescendência, inclusive por parte de pensadores liberais, e por algum tempo se procurou resgatar a defesa do pluralismo e da democracia.

Desde a crise financeira de 2008 o liberalismo sofreu muitas críticas. No bojo desse processo, emergiu um novo populismo de direita que vem crescendo politicamente. Ele em parte é crítico de ideias com respaldo liberal, como o globalismo e a livre circulação de pessoas, e vem adotando um tom nacionalista mais próximo do discurso dos anos 1930.

Mas esse novo conservadorismo não é anticapitalista, nem mesmo estatista no plano econômico, como foram o nazismo e o fascismo. De certa forma, faz uma aliança, ou adere circunstancialmente, a certas características do liberalismo, como a defesa da liberdade das empresas e dos indivíduos perante o Estado, ao mesmo tempo que abraça ideias conservadoras que reduzem a liberdade individual no plano moral e coloca em questão a independência das instituições e grupos que tem fiscalizado o poder nas democracias, como o Judiciário, a imprensa e a ciência.

Esse casamento de ocasião do liberalismo com o conservadorismo tem no Brasil contemporâneo um caso paradigmático. A eleição do presidente Bolsonaro representa, concomitantemente, a emergência de uma agenda neoconservadora (mais ao estilo de uma extrema-direita) no campo dos costumes e no plano institucional, somada a uma agenda liberal no âmbito econômico. O ministro Paulo Guedes apareceu como o fiador dessa combinação no processo eleitoral e continua ocupando esse papel nestes primeiros sete meses de uma presidência cuja principal marca é a imprevisibilidade.

Juntamente com esse casamento veio o apoio de setores empresariais e de boa parte do mercado financeiro. Todos eles acreditavam – alguns ainda acreditam, na possibilidade de se fazer uma junção estável entre o liberalismo econômico e um ideário populista com forte ênfase na questão moral e na defesa da sabedoria e virtudes do “homem comum”. Assim, fecham-se os olhos para algumas (ou várias?) extravagâncias do bolsonarismo, como defender a censura na cultura, adotar uma visão crítica à ciência (sobretudo no campo ambiental) e estimular a intolerância contra vários grupos políticos e sociais, para ficar com alguns exemplos recentes. Afinal, haverá alguma reforma da Previdência e do Estado, além da edição da MP da Liberdade Econômica, nome que sela o casamento de ocasião.

Mas as contradições têm um preço. Não garantir a proteção do meio ambiente poderá custar caro em relação aos acordos comerciais e à conquista de mercados. O globalismo, tão prezado pelos liberais, supõe seguir certos padrões internacionais de regulação de questões coletivas – não só o tema ambiental, mas direitos humanos, por exemplo -, e desregular completamente a proteção estatal dos direitos difusos deixará o Brasil mais longe do acordo com a União Europeia. Desorganizar a educação brigando com seus principais atores tornará impossível construir o capital humano necessário ao desenvolvimento capitalista. E jogar setores sociais, por meio de manifestações ou redes sociais, contra as principais instituições democráticas pode afetar fortemente a segurança jurídica do país, o que pode afugentar investidores internacionais.

A lista de incongruências é mais ampla, mas o exposto já realça o desafio do casamento local entre conservadorismo e liberalismo. De todo modo, fica o aviso que grandes pensadores liberais, como Isaiah Berlin, já deram no passado: quando uma liberdade é perdida, outras poderão ser retiradas mais adiante. Liberalismo pela metade pode significar nenhum ao final da história.

É importante ressaltar que o viés conservador do bolsonarismo não é de conveniência. Há ali crenças fortes e sólidas sobre valores morais, contra a mídia tradicional, em relação a minorias sociais e a respeito da forma que deve funcionar o sistema político. Claro que tal visão de mundo resulta, em parte, da demanda de eleitores, isto é, professar essas ideias significa conquistar votos, numa proporção que congrega entre um quinto a um quarto do eleitorado brasileiro. Não é suficiente para se reeleger, embora seja uma base muito segura para competir, sobretudo se o oponente for classificado como o “inimigo a ser derrotado por todos que defendem a Pátria”.

Só que esse ideário não é apenas um instrumento para responder à demanda eleitoral. Existe o lado da oferta também, para usar a linguagem dos economistas. O bolsonarismo é uma máquina de produzir visões de mundo, vinculadas a uma singular mistura de preconceitos tradicionais presentes na cultura brasileira com as propostas do neopopulismo de extrema-direita no plano internacional, bem expostas por Steve Bannon.

A esse lado programático soma-se, ainda, o modus operandi da família Bolsonaro. Não dá pra entender esse novo conservadorismo brasileiro sem levar em conta a maneira como os Bolsonaro, especialmente o pai, fazem política. O que se sobressai aqui é a lógica de guerra constante contra o inimigo, a multiplicação de situações de conflito por meio das redes sociais (inclusive contra aliados de plantão, como os militares), o discurso das respostas fáceis a problemas complexos e, em especial, a imprevisibilidade dos próximos passos, seja por amadorismo político ou técnico, seja porque produzir fatos (e brigas) novos é uma arte desenvolvida e reverenciada pela família.

A acumulação de contradições e conflitos entre o conservadorismo bolsonarista e o liberalismo predominantemente econômico pode resultar, mais adiante, num processo de hegemonia de um sobre o outro. Se o lado liberal da economia predominar, o que implica acreditar num projeto de mudança mais gradual da situação atual, o bolsonarismo pode deixar de responder a contento aos seus eleitores-raiz, sem que haja um ganho econômico de curto prazo – por exemplo, até as eleições municipais do ano que vem. Se em vez disso prevalecer o lado conservador, marcado pela agenda dos costumes e da guerra contras as instituições democráticas tradicionais, Bolsonaro pode manter seu eleitorado mais fiel, mas terá dificuldades de ampliar seus apoios para o restante da sociedade.

Uma parcela importante dos atores sociais torce para que seja possível um equilíbrio razoável entre o conservadorismo bolsonarista e o liberalismo. Isso porque todos temem a seguinte pergunta: o que fará o presidente se ele ficar preso ao polo mais radical de sua equação? Uma das hipóteses é que a democracia saberá lidar com isso. A outra é que terminará o casamento de ocasião e parte dos liberais terá sido responsável por produzir o contrário de seu ideário.

 

Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e chefe do Departamento de Administração Pública da FGV-SP.

Conheça a China futurista de carros elétricos, trem-bala e apps de saúde.

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Ronaldo Lemos viajou pelo país asiático para documentar seus massivos investimentos em inovação

Ronaldo Lemos – Folha de São Paulo – 11/08/2019

[RESUMO] Autor viajou pela China para documentar investimentos em inovação. Encontrou um país futurista que cresce velozmente e desenvolve produtos e soluções de alta tecnologia em larga
escala, de aplicativos de saúde a veículos elétricos.

Apesar dos delírios de grandeza que acometem o Brasil, no mundo em desenvolvimento quem acordou mesmo foi a China.

Muita gente atribui a Napoleão Bonaparte a frase: “A China é um gigante adormecido. Deixe que durma, porque quando acordar fará tremer o mundo”. Nos últimos dois meses fui ver de perto em que medida essa afirmação é verdadeira.

Passei esse período no país asiático gravando uma série documental sobre tecnologia e inovação chamada “Expresso Futuro”, que será exibida em oito episódios no Canal Futura e em quatro episódios semanais no Fantástico, a partir de 1º de setembro.

Se no Brasil construímos a narrativa de que cerca de 13 milhões de pessoas saíram da pobreza entre 1997 e 2009, na China gostam de alardear que, entre 1978 e 2018, isso aconteceu com 750 milhões de cidadãos. As estatísticas oficiais dizem que ainda há 16,6 milhões de pobres, situação a ser erradicada já no ano que vem.

Mais do que a redução da pobreza, a China —que permanece sendo, no terreno político, uma ditadura — conseguiu encontrar o Santo Graal de um país em desenvolvimento: a capacidade de inovar.  Em 40 anos, saiu de uma sociedade essencialmente rural para converter-se numa potência industrial. Agora começa a se firmar como uma economia cada vez mais baseada em tecnologia da informação.

Neste relato, refaço alguns dos passos da minha viagem, na tentativa de ver de perto as transformações nessa área. O roteiro é o mesmo que fizemos no documentário, visitando cidades conhecidas dos brasileiros, como Pequim e Xangai, e outras nem tanto, como Nanjing, Qindao, Hangzhou ou Shenzhen.

NA VELOCIDADE DE SHENZHEN

Shenzhen é uma cidade de 12 milhões de habitantes no sul da China, que faz fronteira com Hong Kong. É limpa, arborizada e, sobretudo, silenciosa. Nem sempre foi assim.

Até o início dos anos 1980 era uma vila de pescadores, pobre e sem infraestrutura. Um contraste com a cidade formada hoje por arranha-céus, sede do quarto maior prédio do mundo, o Centro Financeiro PingAn, com 115 andares. A razão para essa mudança é que Shenzhen foi a primeira a ser escolhida como “zona econômica especial” pelo governo de Deng Xiaoping (1978-1992).

A ideia era criar uma região de experimentação, com liberdade para comércio e investimento, que pudesse prosperar em um país à época miserável.

Tudo para concretizar sua famosa frase “Ficar rico é glorioso!”, dita em uma época em que os maiores desejos de uma pessoa na China (chamados de “as quatro grandes coisas”, símbolos de status material) eram uma bicicleta, uma máquina de costura, um relógio de pulso e um aparelho de rádio. Tudo bem diferente das aspirações atuais de um chinês médio, que incluem um celular de última geração, um computador, um carro e um apartamento.

Shenzhen é um dos epicentros de inovação na China. Sua transformação foi tão veloz que deu origem à expressão “velocidade de Shenzhen”, usada quando alguém quer dizer que algo está indo rápido demais.

Há pelo menos dois pontos de destaque para a inovação ali: os veículos elétricos e o fato de a região ter se transformado no centro mundial de fabricação de eletrônicos (87% dos celulares do planeta são testados, projetados ou fabricados lá; se você anda de patinete elétrica, é provável que tenha sido fabricada lá também).

A cidade converteu a totalidade do transporte público em veículos elétricos, incluindo ônibus e táxis. Só em ônibus, são hoje 15,5 mil veículos que se deslocam alimentados por baterias (como base de comparação, São Paulo tem entre 14 e 15 mil ônibus em circulação, com cerca de 200 tróleibus elétricos apenas).

As vantagens dessa conversão são muitas. Maior eficiência energética, redução de poluentes e silêncio. Aquele barulho de ônibus circulando, que se tornou parte da paisagem das cidades brasileiras, praticamente não existe em Shenzhen.

Mais do que isso, o modelo de transporte cria uma infraestrutura nova para as cidades: uma plataforma permanente capaz de armazenar eletricidade. Veículos elétricos podem ser abastecidos por qualquer fonte de produção de energia, alimentados pela rede elétrica tradicional ou por painéis solares. São também capazes de usar inteligência para gerir o consumo de energia.

Com o uso de carregadores inteligentes, o veículo pode ser abastecido apenas em momentos em que o custo da eletricidade é menor (como à noite ou na madrugada). Pode também devolver” a eletricidade armazenada para a rede elétrica em momentos de pico, gerando receita.

Mas quanto custa carregar esses ônibus? Uma carga completa com autonomia de 300 quilômetros equivale a R$ 120. No caso dos carros, uma carga completa que permite circular por 400 quilômetros custa R$ 20.

Além disso, há a possibilidade de uso emergencial. Em caso de blecaute, um ônibus elétrico pode ser direcionado para um hospital, de modo a garantir o fornecimento de eletricidade —e assim por diante. Em outras palavras, uma vez que uma cidade passa a utilizar veículos elétricos e baterias, ela pode reinventar completamente sua matriz energética, fomentando modelos muito mais eficientes e fontes limpas.

Na China, essa transformação é essencial. O rápido crescimento do país nas últimas décadas trouxe um preço elevado do ponto de vista ambiental. A poluição é visível em boa parte dos centros urbanos chineses. Tudo isso tem levado o país a uma mudança importante de rota na promoção de energia limpa e tecnologias verdes. Shenzhen é um exemplo bem-sucedido dessa mudança, onde não se vê poluição ostensiva.

Embora o país permaneça o maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, a boa notícia é que as emissões por pessoa são hoje muito menores do que a de países ocidentais no mesmo estágio de desenvolvimento. A China tem hoje a mesma quantidade de emissões por pessoa que nações do Ocidente tinham em 1885. É um exemplo de avanço na promoção de eficiência energética e ambiental. A tarefa ainda é monumental, mas ao menos o país atua de forma clara nesse sentido.

O outro destaque de Shenzhen é a maneira como a cidade assumiu a liderança na fabricação de hardware e eletrônicos. Isso se vê pelo gigantesco mercado de Huaqianbei, uma espécie de feira livre da tecnologia dividida em duas partes. De um lado, produtos de consumo, como celulares, headphones, computadores. De outro, componentes eletrônicos, como transistores, capacitores, diodos e assim por diante. O lugar é o paraíso dos aficionados por eletrônica e “fazedores” de modo geral.

Não por caso, em volta do mercado há um grande número de empresas startup, incubadoras e aceleradores dedicados a hardware. A razão é simples. Se você está desenvolvendo e testando um produto, basta ir até o mercado para comprar o que precisar. Se uma peça não deu certo, você testa outra, todas acessíveis e baratas. É o jeito certo de inovar rapidamente em hardware, tudo na “velocidade de Shenzhen”.

Esse ecossistema se consolidou no final dos anos 1990 com inúmeras empresas fabricando aparelhos de DVD piratas. Nessa época, os DVDs vinham com uma proteção que só permitia que fossem executados em aparelhos programados para determinada região. Os fabricantes de Shenzhen viram nisso uma oportunidade. Começaram a produzir aparelhos capazes de executar filmes de qualquer região, incluindo DVDs piratas. Com isso, o mercado explodiu e esses aparelhos sem restrições se tornaram dominantes.

Com o declínio do DVD, essas empresas passaram a fabricar celulares. Hoje, duas das maiores marcas de celulares globais, ocupando o quarto e o quinto lugares respectivamente, a Oppo e a Vivo (não confundir com a Vivo brasileira), são descendentes diretas das empresas antes fabricantes de aparelhos de DVD. São empresas que surgiram quando o mercado de celulares ainda era dominado por marcas como Nokia e Motorola.

O diferencial dessas empresas foi a inovação e a experimentação radicais. Numa época em que todos os celulares eram pretos, começaram a produzir aparelhos em cores berrantes, inclusive dourado, a favorita dos chineses. Também criaram modelos que vinham com rádio AM e FM (para populações rurais) ou com caixas de som ultrapotentes (para funcionários da construção civil).

O resultado foi uma explosão de vendas para pessoas que não eram as mais ricas e viam-se desatendidas pelo design “clean” (e até arrogante) da Apple. Em outras palavras, levaram o celular para a base da pirâmide social.

Após conquistarem esse mercado, estão se voltando agora para o topo da pirâmide, lançando aparelhos inovadores de primeira linha. Pergunte às pessoas ao seu lado enquanto lê este artigo: possivelmente o sonho de consumo delas hoje seja algum eletrônico da Xiaomi.

Empreendedores do mundo todo buscam Shenzhen para alavancar suas ideias de design e de hardware. A cidade está aberta para produzir qualquer coisa, de capinhas de celular a algum acessório imaginável. Outros países e empresas já descobriram a capacidade do lugar —como é caso da Apple. O Brasil ainda não.

Um caso emblemático é o da empresa Anker. Fundada por um jovem empreendedor nos Estados Unidos, começou a produzir periféricos, como cabos e carregadores de celular, de média qualidade. O mercado antes era dividido entre os carregadores de primeira linha, feitos pelas próprias marcas de celular, e os de quinta categoria, que queimavam facilmente. A empresa criou um produto intermediário, bom o suficiente e barato. Com isso, se tornou um dos maiores vendedores da Amazon.

Em um dia normal, a Anker tem 30 mil pedidos. Em feriados como o Dia de Ação de Graças americano, chegam receber 100 mil por dia. Tudo produzido em Shenzhen, com as especificações do fundador. E, claro, após dominar esse mercado de “meio do caminho”, a empresa começou a inovar, com experimentos com novos materiais, componentes e produtos —projetores, aspiradores-robôs, smart-speakers e outros. Não por acaso mudou seu nome para Anker Innovations.

Um exemplo notável em Shenzhen é o celular da marca Tecno, focado no mercado africano. A inovação adotada pelos fabricantes foi a um só tempo simples e genial. Colocaram no aparelho uma câmera desenhada especialmente para tirar fotografias de pessoas com a pele negra.

O resultado é que a marca dominou o mercado africano, com 34% de share, acima da Samsung, com 22%. Esse modelo focado em mercados desatendidos é o fundamento da inovação em Shenzhen —o que permitiu que agora a cidade volte-se para competir no mercado “premium” de celulares.

Qualquer um pode chegar a Shenzhen, hoje, levando sua marca ou a ideia para um celular, um fone de ouvido ou outro aparelho. Se os fabricantes acharem que tem potencial de mercado, topam financiar a produção, cobrando só após 60 dias. Não por acaso, empresários americanos (como o caso da Anker), franceses (a Wiko) ou quenianos (a Pace) criaram suas próprias marcas e empresas bem-sucedidas a partir de Shenzhen.

E fica um prognóstico para o futuro: o espírito da cidade se encontrará com os carros elétricos e a indústria automobilística.

Há uma revolução em curso na China, veículos elétricos sendo completamente reinventados. Por exemplo, o surgimento de carros elétricos para uma única pessoa, em substituição às motocicletas. Veículos utilitários elétricos desenhados para cargas específicas, como bebidas ou laticínios. Caminhões de lixo de pequena e grande capacidade, também elétricos. Veículos para entregadores que trabalham em aplicativos de comida. E até carros funerários elétricos desenhados especificamente para carregar caixões.

Os formatos parecem vindos de histórias em quadrinhos futuristas. São, ao mesmo tempo, cômicos e fascinantes. Muito baratos, rompem com o modelo de como um carro é pensado no Ocidente —quatro lugares, voltado para toda a família e assim por diante. Há hoje mais de 400 empresas de carros elétricos “fora da caixa” na China. É de se esperar uma revolução vinda daí, capaz de mudar a indústria automobilística para sempre.

HANGZHOU: DIGITAL E SAÚDE

A China é o país em que o papel-moeda foi inventado. Provavelmente, será também o lugar em que o papel-moeda será aposentado.

Nos últimos anos, o país foi completamente tomado por pagamentos digitais, feitos principalmente no celular, por meio de um código QR. O símbolo dessa China é a cidade de Hangzhou, chamada, por sua beleza, de “o céu na terra”. Ali estão várias empresas responsáveis por construir a infraestrutura de pagamentos digitais, como o AliBaba e o AntFinancial.

O símbolo dessa transformação é o fato de que moradores de rua na China carregam placas com seu código QR. Sabem que não existe a menor chance de receber uma ajuda em dinheiro, já que ninguém mais carrega notas em papel.

A automação nos pagamentos produz também efeitos sistêmicos. Tudo se automatiza na sequência. Um exemplo são os restaurantes. Hoje, todos possuem um código QR em cada lugar das mesas. O cliente chega, escaneia o código com seu celular e o cardápio aparece direto na tela. O pedido também pode ser feito pelo celular, sem falar com nenhum garçom, e o pagamento idem.

Outra inovação em Hangzhou é a startup de saúde e tecnologia chamada WeDoctor. Diferentemente de uma empresa de saúde tradicional, a WeDoctor começou como um aplicativo de agendamento de consultas e agora se expande para o mundo real. A empresa trabalha com 3.200 hospitais e 290 mil médicos, atendendo 150 milhões de usuários.

Desenvolveram um conceito de hospital virtual, no qual o paciente pode ser atendido de qualquer lugar do país por vídeo. A empresa coloca uma estação médica na casa dos assinantes. Se há algum problema, a família aciona o aparelho e na mesma hora entra em contato com um médico.

O aparelho é capaz de fazer 80% dos exames de rotina, como temperatura, pressão, batimentos cardíacos —pelo vídeo, o médico consegue avaliar o estado geral do paciente para determinar os encaminhamentos seguintes. Não é preciso “levar o exame ao médico”: a plataforma da empresa integra todo o ciclo, dos exames à receita.

Identificaram, por exemplo, que 80% das receitas correspondem a um número reduzido de remédios, que podem ser fornecidos por uma máquina automática. Elas passaram a ser instaladas em vários lugares, como shoppings, estações de metrô e pontos de trabalho. A receita é enviada pelo médico por celular e, através da leitura do QR code, a máquina certifica-se de que a pessoa está autorizada a comprar aquele remédio. O que torna o atendimento mais rápido e melhora o custo logístico.

A VIDA PELA INTERNET CHINESA

Por causa do “Great Firewall” (a grande muralha imposta pela censura oficial), o desenvolvimento da internet na China é muito diferente. Sites como Facebook, Instagram e mesmo Google são bloqueados. No entanto, esse bloqueio tem se tornado cada vez mais poroso. Usando um aplicativo de VPN é possível acessar conteúdos desses sites.

No entanto, a grande maioria está satisfeita com os aplicativos e a vida digital local. Para cada modelo popular que conhecemos, há uma versão chinesa. O curioso é que nos últimos anos surgiram vários aplicativos chineses cujas funcionalidades não possuem versões ocidentais, como é o caso daqueles de pagamentos móveis e dos chamados “mini-apps”, aplicativos que funcionam dentro de outro aplicativo e que vêm revolucionando o mercado de internet local.

Para compras, o papel da Amazon é desempenhado por sites como o TaoBao, que vende de tudo e entrega em qualquer lugar. A logística é um dos diferenciais: muitas vezes a entrega é feita em até 30 minutos depois da transação, dando uma sensação de “tempo real” nas compras online.

Exemplo disso, que vi acontecer, foi um amigo fazer um pedido dentro de um trem-bala. Passou o número do trem, do assento e do vagão em que estava e disse em que estação gostaria de receber a entrega. Quando o trem chegou à estação, em 30 segundos uma pessoa entrou e entregou a comida —para meu espanto e de toda a equipe.

Para comunicação interpessoal, em vez de WhatsApp, predomina o WeChat. A diferença é que o aplicativo não é só para mensagens. Trata-se também de uma rede social, uma plataforma de pagamentos digitais e um portal de mini-apps. É possível integrar qualquer aplicativo dentro do WeChat: de comida, de transporte, de paquera e assim por diante.

A Netflix chinesa, por sua vez, chama-se iQiYi. A plataforma produz conteúdos, séries e programas autônomos de grande sucesso. A diferença é que emprega 4.000 engenheiros de software e de inteligência artificial.

A iQiYi usa inteligência artificial para editar os vídeos, escolhendo os planos que podem gerar mais impacto —além de conseguir enxergar por meio de visão computacional tudo o que está na tela (de que marca é um vestido, um boné, um sapato, uma cadeira e assim por diante). Isso permite que qualquer item no vídeo se torne clicável, criando uma plataforma permanente para comércio e marketing.

Outro segmento em que o país está à frente é o do live streaming, a capacidade de transmitir vídeos em tempo real. Empresas como KauiShow apostam no conceito de que “todo mundo pode ser um storyteller”, focando as histórias da população mais pobre, nas zonas rurais ou na periferia das grandes cidades.

O resultado é uma massificação do streaming ao vivo. Todos os anos há concursos de popularidade entre os “livestreamers”. E mais: eles são normalmente remunerados pelos próprios usuários que, durante as transmissões, dão “presentes virtuais”, como florzinhas, carrinhos, aviõezinhos e assim por diante. Só que cada um vale dinheiro de verdade.

Essas plataformas são hoje amplamente usadas para o comércio (o “livestreamer” fica vendendo produtos ao vivo) e para educação. Há professores de química, geografia e matemática que ficaram famosos por suas aulas ao vivo nas plataformas (e ganham dinheiro com isso).

Outro ponto que chama a atenção é o cuidado das empresas chinesas em se certificar de que o usuário das plataformas é uma pessoa de verdade, não um robô ou algo do tipo. Qualquer pessoa pode se inscrever facilmente para assistir a vídeos e ler conteúdos na internet.

No entanto, para postar conteúdos ou transmitir, é preciso passar por um processo de certificação. Por exemplo, o usuário deve usar a plataforma por pelo menos uma hora por dia, por sete dias consecutivos. E deve ter ao menos sete seguidores.

Em caso de dúvida, a plataforma pode pedir a outra pessoa que garanta que o usuário é real. Note-se que esse processo é diferente da censura a conteúdos na China, que existe e é notoriamente conhecida. Nesse caso, os procedimentos são exigidos pela própria plataforma para impedir o exército de robôs que tomou conta de muitas redes sociais. Esses passos aumentam enormemente os custos de criar contas automatizadas em redes sociais, eliminando boa parte do problema.

QINGDAO: O BERÇO DO TREM-BALA

Faça um experimento. Entre no Google Maps e dê um zoom no mapa da China para visualizar a rede de trem-bala. Em 2008, o país tinha míseros 113 km de linhas de ferro de alta velocidade, construídas para a Olimpíada daquele ano. Um decênio depois, a China já possui 29 mil km de linhas de trem-bala, conectando 30 das 33 províncias do país e praticamente todas as grandes cidades.

Planeja-se que até 2025 mais 10 mil km serão construídos. Quando o trem-bala chega a um lugar, tudo muda. Cidades que estavam em regiões econômicas totalmente distintas passam a se comunicar e a fazer comércio —estreitando a integração de pessoas e serviços.

Os trens mais modernos viajam, em média, a 350 km por hora, de modo que um percurso de Pequim a Xangai dura cerca de 4 horas e 55 minutos. O preço fica em torno de R$ 180. Se houvesse um trem-bala entre São Paulo e Salvador, a viagem poderia ser feita em pouco mais de cinco horas e meia. O resultado seria a integração entre as regiões Sudeste e Nordeste, permitindo o aproveitamento de vantagens competitivas de cada uma e aprofundando comércio e atividade econômica.

A fábrica dos veículos fica na cidade de Qingdao, que, no passado, foi colônia alemã. O trem-bala é um exemplo de como políticas públicas no país são feitas abrangendo todos os segmentos da sociedade, ricos e pobres. Um exemplo é o período do Ano-Novo chinês, uma data móvel que dura 40 dias e geralmente cai entre janeiro e março.

Nessa época, os trabalhadores viajam em algum momento para visitar familiares em outras cidades. Cerca de 3 bilhões de viagens são realizadas (um dos maiores movimentos migratórios do planeta). No total, 5.600 trens operam com capacidade total, sendo responsáveis por 60% dos deslocamentos, antes feitos principalmente por ônibus e trens regulares.

Em outras palavras, o processo de inovação da China conjuga não apenas tecnologia da informação, inteligência artificial e outros projetos de ponta, mas também investimento em infraestrutura e logística com vistas a atender a todos os segmentos da população.

UM ALMOÇO EM LUOYANG

Luoyang foi a primeira capital da China e é uma cidade pouco visitada por brasileiros. Apesar disso, é central para a história do país. Não só por estar no meio geográfico, mas por ser o berço do budismo no país.

Foi ali que se criou o primeiro templo budista na China, o Templo do Cavalo Branco. Tem esse nome em referência ao monge Xuan Zang, que foi até a Índia em uma longa viagem, onde buscou e traduziu as escrituras budistas do sânscrito para a língua local —e fundou o templo.

O que me levou a Luoyang não foi nada relacionado à tecnologia, mas um almoço com os pais de uma amiga chinesa que hoje mora em Nova York. O casal teve duas filhas — a primeira, que é cientista da computação de sucesso e se mudou para a Austrália, e minha amiga, que atualmente é professora da Universidade de Nova York (NYU).

Para visitá-los, pegamos um ônibus (cuja tarifa é 30 centavos de real) em direção a um conjunto habitacional na periferia. No caminho, minha amiga me contou que os pais nunca quiseram se mudar de lá. A razão é que têm acesso a comida de ótima qualidade e fresca, fornecida por produtores locais. Além disso, todos os amigos também continuaram morando na vizinhança e, segundo eles, “nada melhor do que envelhecer próximo aos amigos”.

A família mora em um apartamento muito pequeno, no primeiro andar de um antigo prédio na divisa entre a área urbana e a zona rural da cidade. O almoço é servido em uma mesa posta no quarto de dormir, já que não existe sala de jantar no imóvel. Os pais ficaram surpresos, mas felizes com a visita do “laowai” (estrangeiro) vindo do Brasil.

No cardápio, abobrinha refogada no molho de tomate, peixe frito e macarrão de trigo, tudo muito bom. Pergunto ao pai, que tem 74 anos, mas parece menos, o que ele come para se manter com aparência tão jovial. Ele me responde que, na verdade, passou na adolescência e, com isso, adquiriu o hábito de comer muito pouco. E comer muito pouco faz bem para a saúde, segundo ele. Imediatamente engulo em seco, pensando no que poderia dizer.

A história dessa família é a história dos 750 milhões que saíram da pobreza no país. Os pais nasceram na zona rural, ficaram sem emprego e sem ter o que comer. Por anos, cuidaram apenas da sobrevivência básica. Com o início do processo de industrialização nos anos 1980, conseguiram emprego em uma fábrica em Luoyang, onde se conheceram e se casaram.

O trabalho na fábrica permitiu que conseguissem comida na mesa, um relógio, um rádio e uma bicicleta. Permitiu também o mais importante: dar educação de primeira qualidade para as duas filhas. Hoje, quando veem o enriquecimento do país, sentem-se orgulhosos. Têm a sensação de viver no melhor lugar possível.

Dizem que não precisam de muito dinheiro. O transporte público é gratuito para idosos, a assistência médica é boa, os amigos estão por perto e a comida está garantida e é da melhor qualidade.

Mais importante, possuem todos os motivos do mundo para se orgulhar das duas filhas brilhantes, que seguiram carreiras tão diferentes das que tiveram. Ambas visitando-os sempre que podem e, mais importante, acessíveis a qualquer momento pelo toque do aparelho celular.

Ronaldo Lemos é advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro e colunista da Folha.

 

 

Desaceleração foi agravada de forma desnecessária’, diz Eichengreen

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Segundo professor americano, guerra comercial piora cenário global e risco de recessão aumentou

Entrevista com Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo – 11 de agosto de 2019

Apesar de o mundo passar por uma fase natural de desaceleração econômica, os Estados Unidos têm “agravado o problema de forma significativa e desnecessária com a guerra comercial”, diz Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia. Segundo o economista, o embate entre as duas maiores potências deixou de ser comercial e passou a ser visto por políticos americanos como um conflito sobre segurança nacional e influência. “Uma nova guerra fria”. O risco de a disputa gerar uma recessão global aumentou e, caso esse cenário se verifique, o Brasil não terá como fugir, acrescenta. A seguir, trechos da entrevista.

A desaceleração global faz parte dos ciclos da economia ou poderia ser evitada caso não houvesse incertezas geradas pela guerra comercial ou pelo Brexit?

As fases de crescimento não duram para sempre e o crescimento nos EUA já dura dez anos. Há forças naturais gerando uma desaceleração gradual, mas estamos agravando o problema de forma significativa e desnecessária com a guerra comercial, que é uma questão mais séria (para a economia) que o Brexit. Estaríamos melhor com uma política estável e previsível, mas não é o que temos em Washington nem em outras capitais. Há incertezas na Itália e problemas econômicos em países como a Turquia.

Em 2018, o sr. disse que a probabilidade de haver guerra comercial era de 25%. O que aconteceu diferente do que previa?

A natureza do conflito foi redefinida. Antes, era sobre balança comercial, sobre o fato de a China estar com superávit em relação aos EUA. Agora, é um conflito sobre influência, sobre sistemas políticos incomparáveis, rivalidade de grande poder, segurança nacional. Uma nova guerra fria. Isso é muito mais difícil de se resolver. Definir influências e ter certeza de que a China não usará tecnologias para espiar os EUA são preocupações que não irão embora. Não apenas (o presidente Donald) Trump, mas democratas e republicanos no Congresso agora veem o conflito como uma questão sobre segurança nacional. Como o debate mudou, estou mais pessimista.

O sr. vê alguma possibilidade de solução?

Esses problemas poderiam ser resolvidos se tivéssemos líderes mais sutis e intelectualmente flexíveis. Eles poderiam perceber que China e EUA precisam trabalhar juntos para resolver os problemas do mundo, sejam de segurança, mudança climática ou quaisquer outros. Mas as pessoas que temos neste momento, especialmente na Casa Branca, não têm flexibilidade mental para entender que a única solução é trabalhar junto e que, se guerrear com a China até a morte, isso será prejudicial para EUA, China e todo o mundo. Melhores líderes produziriam melhores resultados, mas temos os líderes que temos.

Esse cenário só vai mudar então depois das eleições americanas de novembro de 2020?

Que alguém será eleito em 2020 é uma boa e uma má notícia. Boa porque esse alguém será mais inteligente e melhor negociador, qualquer um seria. Mas a má notícia é que há uma mudança permanente e irreversível no modo pelo qual os políticos americanos, de forma geral, veem a China: como rival geopolítica. Essa mudança não será revertida independentemente de quem for eleito.

O sr. já disse que não sabia se uma recessão poderia ser evitada em caso de guerra comercial. Estamos próximos de uma recessão global?

Agora que a guerra comercial está escalando e afetando o mercado financeiro vai haver impacto nos negócios americanos, em como a Apple vai produzir na China, por exemplo. Conflitos comerciais levam tempo para se mostrarem negativos para o crescimento. Quando Trump começou com as tarifas, a primeira coisa que as empresas americanas fizeram foi importar mais da China para ter estoque. Depois, importaram menos. Agora, os efeitos negativos no comércio e na produção estão se materializando.

Qual a probabilidade de haver recessão?

Em 2019, o risco ainda é baixo e a pergunta é se a recessão se desenvolve antes ou depois das eleições. O ciclo de crescimento dos EUA será muito longo e antigo nesse ponto, o mercado de trabalho estará apertado. Será apropriado, com o mercado de trabalho apertado e a inflação começando a subir, o Fed (o banco central americano) começar a elevar a taxa de juros? Com a pressão da Casa Branca? Ninguém sabe. Então a resposta para sua pergunta depende do que o Fed fizer e de Trump realmente colocar em prática mais tarifas sobre os US$ 300 bilhões de importações chinesas (medida anunciada há duas semanas). Não posso te dar uma probabilidade, mas é claro que os riscos estão aumentando.

Quais impactos para o Brasil?

Depende do mercado de exportação, tanto de commodities agrícolas como de uma variedade de manufaturas. Pode haver alguns impactos positivos se a China não importar mais soja dos EUA, mas, se os EUA e o mundo desacelerarem, a má notícia é para todos nós, e nós inclui o Brasil.

O Brasil está em crise há cinco anos. O novo governo está no rumo correto para mudar isso?

O governo não deve escolher entre fazer reformas estruturais ou se preocupar com equidade e inclusão econômica. Deve tentar os dois. Fazer reformas e não prestar atenção para inclusão não é sustentável. Vocês tiveram um governo (de Dilma Rousseff) que foi derrubado porque favoreceu inclusão, mas foi incapaz de fazer reforma estrutural. Agora têm um governo que faz reforma, mas não se preocupa com inclusão. Esse governo não terá vida longa. As pessoas que ficarem para trás vão reagir. Tem de fazer os dois. Nós não somos muito bons em fazer ambos nos EUA. Fazemos reformas, mas não temos Estado de bem-estar social.

O sr. afirmou que, na Turquia, o governo de Recep Tayyip Erdogan minou a liberdade de imprensa e o Estado de direito, o que é negativo para atrair investimento. O presidente Jair Bolsonaro pode estar indo por um caminho semelhante?

Para alguém de fora, é cedo para dizer. Bolsonaro chegou e disse que iria resolver o problema da corrupção, mas isso obviamente não aconteceu. Ainda há problemas de corrupção e de nepotismo. Ele tem tempo para trabalhar.

O sr. publicou um livro sobre populismo (The Populist Temptation). Vê relações entre o cenário econômico global e a ascensão do populismo?

O desencantamento com a economia é um fator-chave para a ascensão de populistas. O crescimento que temos beneficia os mais ricos e há insegurança econômica, com emprego e renda. Os governos demoraram em responder isso e a insatisfação econômica abriu a porta para políticos de fora do ‘mainstream’.

“É preciso apagar a ideia de que reduzir a desigualdade é coisa de comunista”

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Darla Eliza nude for public

Ex-economista do Banco Mundial, Martin Ravallion agora dá aulas em Georgetown. De família humilde, sofreu em primeira pessoa o impacto da pobreza antes de lutar contra ela

Uma hora de conversa com Martin Ravallion (Sidney, 1952) é o mais parecido a um livro de macroeconomia aberto em duas páginas: a da desigualdade e a das falhas do capitalismo do século XXI. Pai da tabela de um dólar (4 reais) diário como linha global de pobreza quando era economista do Banco Mundial — onde anos depois dirigiu seu prestigioso grupo de pesquisa para o desenvolvimento —, é desde 2013 professor da Universidade Georgetown (EUA). Ravallion, instalado há anos entre os 100 economistas mais reconhecidos do mundo de acordo com a classificação do Ideas-Repec, sabe bem o significado da desigualdade: nasceu em uma família pobre, sofreu na própria carne o que significa viver com dificuldades e decidiu que “não queria ser pobre” nunca mais, como disse quando recebeu o prêmio Fronteiras do Conhecimento BBVA, em 2016. “Todos os meus papers são muito chatos”, diz rindo ao EL PAÍS pouco depois de dar uma conferência organizada pela Oxfam no Colégio do México. Não é verdade: o australiano é um dos especialistas que melhor explicam, com palavras ao alcance de todos, por que a iniquidade é um dos grandes problemas globais de nosso tempo.

Pergunta. A pobreza extrema caiu bastante nas últimas décadas, mas a desigualdade ofuscou essa boa notícia.

Resposta. A desigualdade global, entendida como aquela entre todos os habitantes do planeta e em termos relativos, também caiu. Não tanto como a pobreza, mas caiu. E isso é algo que costuma confundir as pessoas.

P. Cito um recente estudo do Banco Mundial, que o senhor conhece bem: “A queda na taxa de pobreza desacelerou, aumentando dessa forma a preocupação sobre a consecução do objetivo de acabar com a pobreza extrema em 2030”. O que está acontecendo?

R. Parte disso tem a ver com a desaceleração (econômica) na África e com o fato de que a redução da pobreza teve a ver em boa medida com o boomdas matérias-primas, que se deteve. Mas são coisas que flutuam, e acho que não deveríamos ver isso como um grande problema: estamos no caminho, desde que não ocorra outra crise financeira global, para cumprir com o objetivo do próprio Banco Mundial de diminuir a 3% a pobreza extrema global em 2030. Ainda que, claro, não sou isento porque colocar esse número foi uma das últimas coisas que fiz no Banco Mundial (risos). Se traçarmos como meta o objetivo de desenvolvimento sustentável (das Nações Unidas) de “eliminar a pobreza” chegando a 0%, isso não ocorrerá sem uma grande mudança nas políticas: ao ritmo atual levará 200 anos.

P. Mas mesmo eliminar a pobreza extrema não quer dizer que deixarão de existir milhões de pessoas em situação de miséria.

R. De forma alguma. A linha de 1,90 dólares (7,5 reais) por dia é realmente baixa: imaginemos o pouco que se pode comprar com essa quantidade.

P. A desigualdade irrompeu na agenda, mas fala-se o suficiente dela?

R. Não, deveríamos falar mais e fazê-lo de maneira mais específica. Devemos nos centrar menos nas estatísticas e mais em aspectos concretos que possam atrair a atenção (da sociedade) e nos mobilizar à ação. Ainda que a desigualdade atraia maior atenção, a pobreza sempre dominou o debate. “Pobreza” é uma palavra popular e “desigualdade” não, mas, em parte, isso está mudando: a pobreza está se transformando em uma questão respeitável na literatura acadêmica e a sociedade é cada vez mais consciente.

P. A evolução recente na América Latina deve nos preocupar?

R. Sim. A situação da pobreza é muito melhor do que em outras regiões, como a África subsaariana, mas sua evolução está sendo pior. A desigualdade na América Latina é muito alta e isso é um problema, tanto ao crescimento econômico como à luta contra a pobreza. E a falta de consenso em relação a esse ponto é um grande problema: há muita complacência e muita falsa retórica. Toda a desigualdade é sempre ruim? Não, não é verdade. Há níveis de desigualdade que são positivos em termos de incentivos, ao crescimento e à própria redução da pobreza. Mas esse grau de desigualdade, como a desigualdade racial e de gênero, é inaceitável e devemos construir um consenso em torno disso.

P. Como?

R. É preciso mostrar mais às pessoas como a desigualdade é custosa. Não é somente ética e moralmente repulsiva: também é uma má notícia ao crescimento econômico. Se a desigualdade não é bem gerida não ocorre muito crescimento e não será possível aproveitar seus benefícios. Tudo está conectado.

P. Há um consenso quase total em torno à ideia de que a pobreza é negativa e deve ser combatida, mas não existe o mesmo consenso em relação à desigualdade. Por que alguns ainda veem na desigualdade um catalisador do crescimento?

R. Muita gente apela à ideia de que em um mundo sem desigualdade não haveria incentivos e, como dizia, há uma certa verdade nessa afirmação. Mas o objetivo não deve ser a desigualdade zero, e sim a pobreza zero. O objetivo deve ser um nível de desigualdade manejável, aceitável, que não se perpetue. Continuam existindo economistas que não prestam atenção às questões de distribuição de renda: nunca será possível fazer com que todos os economistas da academia concordem em algo. Mas não acho que alguém possa consultar a literatura disponível hoje e discordar do fato de que a desigualdade é um freio ao crescimento. Há 15 ou 20 anos, a maioria dos economistas pensava unicamente na eficiência e dizia que a desigualdade era positiva ao crescimento: novamente, depende dos níveis de desigualdade de que estamos falando, mas agora já são poucos. É significativo que o livro de economia mais vendido de todos os tempos seja um sobre desigualdade, O Capital no Século XXI, de Thoma Piketty.

P. Qual seria a desigualdade “aceitável”?

R. Não sei: sabemos quando é muito alta, como em muitos países latino-americanos hoje, e quando é muito baixa, como na extinta União Soviética, na China anterior aos anos oitenta. E quando nos movemos na direção correta.

P. Pensemos em um índice como o de Gini. Em que ponto deveria estar a iniquidade para que fosse “manejável”?

R. Não focaria tanto nos índices, e sim nas causas: é preciso existir boas condições de saúde, creches e escolas decentes, os jovens devem poder estudar na Universidade e desenvolver todo o seu potencial… Essas são as coisas que verdadeiramente importam: é preciso focar mais nas políticas do que nos índices e nas taxas. Também apagar a ideia de que querer reduzir a desigualdade é coisa de comunista: eu gostaria que o capitalismo funcionasse para todo mundo. E não vejo isso acontecer.

P. A pergunta de um milhão: como podemos fazer com que o capitalismo funcione para todos?

R. Principalmente, assegurando que o campo de jogo fique muito mais nivelado: tentando minimizar a desvantagem das crianças que nascem em famílias pobres. E isso requer uma intervenção a partir das menores idades: precisamos de políticas que corrijam essa iniquidade desde o começo.

P. Mas acha possível um capitalismo que funcione para todos.

R. Sem dúvida. Não disseram que o capitalismo é uma ideia terrível, mas melhor do que as outras? Não adoro o capitalismo, mas acho que não há nenhum outro sistema que possa se equiparar à economia de mercado. Dito isto, o capitalismo de hoje não é o mesmo do qual falava Adam Smith: se tornou menos competitivo e muito mais dominado por monopólios. Deveríamos nos preocupar por isso: como é a concorrência na indústria tecnológica, por exemplo? As coisas que um capitalismo verdadeiramente competitivo pode conseguir são incríveis, mas para isso precisamos nos assegurar de que a concorrência se mantenha e que se lide bem com a desigualdade. E para isso são necessárias boas políticas.

P. Aprendemos com os erros de políticas públicas cometidos no passado?

R. Não. É muito frustrante ver a falta de atenção dada à avaliação das políticas. Em parte, porque quase todos os políticos não querem escutar que seus programas não funcionam bem e em parte porque muitas vezes os programas são muito inflexíveis. Avançamos muito nos programas de avaliação de impacto desses planos nos últimos 20 anos, mas o maior desafio é que isso chegue ao processo político.

 

 

 

 

A irracionalidade e o imediatismo da economia contemporânea

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Vivemos em um mundo marcado por grandes transformações estruturais, num ambiente amplamente dominado pelos interesses monetários e financeiros, a economia se transformou no grande agente responsável pelos avanços sociais, dominando todas as áreas da gestão, da educação, da saúde, dos relacionamentos, da vida cotidiana, entre outras áreas e setores, transformando todas as relações entre os indivíduos e a coletividade em instrumentos monetizados e analisados pela lógica do dinheiro e das questões financeiras e imediatistas, gerando seres humanos frios, calculistas e desequilibrados.

Os modelos de gestão estão dominando todas as estruturas sociais e as decisões estratégicas, tudo deve ser pensado levando-se em consideração os pressupostos econômicos e financeiros, com isso, acabam tornando as decisões, cada vez mais técnicas e limitadas, levando as questões sociais a decisões puramente racionais, ou supostamente racionais, esquecendo-se de que seus impactos na vida das pessoas perpassam o imediatismo financeiro, na maior parte interessados apenas nas ganhos futuros que se concentram nas mãos de poucos e alteram a vida e a intimidade de muitos.

A tecnologia está entrando nas mais variadas áreas e setores, movidas na maioria das vezes, por interesses financeiros e monetários, eliminando setores em nome de uma racionalidade nefasta, gerando um rastro de desemprego conjuntural e estrutural, levando desesperanças e medos generalizados para todos os grupos, culminando em violências e exclusão social, sob a alegação de implementar um choque de gestão, muitas destas decisões destroem famílias e levam trabalhadores ao desemprego.

As decisões “racionais” observam apenas as questões superficiais, investimentos são feitos para construir naves espaciais para viagens estelares e férias em outros planetas ou galáxias, deixando de lado a cura de doenças que vitimam milhares de vidas em regiões pobres e miseráveis, estas pessoas vivem a margem do sistema, não possuem recursos monetários e sua sobrevivência pouco interessa aos donos do capital e aos senhores do dinheiro, com isso, são deixados de lado pelos laboratórios e são condenados a própria sorte num mundo marcado por uma alta liquidez e recursos financeiros abundantes. Muitos quando são lembrados, o são apenas para se tornarem cobaias de pesquisas científicas, ganhando pouco e colocando suas vidas em risco, como nos foi apresentado no filme O Jardineiro Fiel.

O sistema econômico atual não foi criado para satisfazer os interesses da sociedade, sua função é garantir aos donos do poder ganhos constantes e elevados, garantindo que suas empresas aumentem seu capital nas Bolsas, seus investimentos estejam sempre protegidos e suas fortunas cresçam de forma acelerada, garantindo a estes indivíduos e suas famílias uma posição de destaque na lista dos afortunados da Revista Fortune.

Na área da saúde percebemos um aumento constante no preço dos planos de saúde, inviabilizando os grupos de menos recursos, deixando-os entregues a própria sorte, sem coberturas e sem perspectivas de cura e tratamento médico. Os grupos dominantes cortam profissionais, automatizam as consultas e aumentam o uso de tecnologias variadas em atividades secundárias e aumentam, com isso, o descarte das pessoas, as que continuam empregadas ficam sujeitas a uma carga de trabalho insano, sendo obrigadas a trabalhar por outros profissionais que foram dispensados sob justificativa de racionalizar os processos e incrementar os serviços, estes cortes servem, na verdade, para garantir bônus volumosos para seus acionistas e retornos maiores para seus administradores.

Percebemos na área da saúde um incremento tecnológico que gera benefícios inestimáveis para a sociedade, estas novas técnicas são menos invasivas e melhoram a vida de muitas pessoas, levando lenitivos para muitos doentes, abrindo novas perspectivas num futuro próximo e uma melhor qualidade de vida. Estes benefícios são inegáveis e devem ser estimulados, cortar custos supérfluos e desnecessários devem ser uma tônica de todos os gestores, tendo como objetivo central uma melhora na qualidade de vida da sociedade e não única e exclusivamente incrementar os ganhos milionários dos grupos dominantes.

Vivemos em uma sociedade marcada pela ilusão da concorrência e da competição entre os agentes econômicos mas, na verdade, o que percebemos são monopólios nas mais variadas áreas e setores, onde poucos ganham fortunas e uma imensa maioria são expostos a um mercado selvagem e degradante que se baseia na exploração, nos cursos de autoajuda e na pregação das farsas da meritocracia e do empreendedorismo, temas que movimentam multidões e garantem lucros astronômicos para os poucos privilegiados que dificilmente acreditam nestes mantras e nestas pregações cotidianas.

A economia contemporânea apregoa uma defesa do pensamento liberal e das práticas concorrenciais como forma de geração de renda e de valor agregado, esquecendo-se de que, na atualidade a ideia da competição deve ser substituída pela cooperação entre os agentes econômicos, cooperar e compartilhar são verbos que devem ser estimulados e a competição e a concorrência devem ser revistas e regulamentadas sob pena de levar a sociedade a uma ampla desagregação social e ambiental, isto aconteceria porque os agentes apresentam formações e qualificações diferentes. Enquanto se fala de meritocracia em todos os livros textos de gestão, como se fosse um grande mantra da sociedade, percebemos que na prática a meritocracia é um sonho ainda muito distante desta sociedade, ainda marcada pela desigualdade e pela exclusão.

A área de educação também vem sendo transformada em um grande manancial de lucros e dividendos, onde os grandes grupos “educacionais” buscam um incremento acelerado nas matrículas e deixam de lado investimentos em qualidade, levando a educação a mais um dos imensos mercados altamente atrativos e lucrativos para os donos do dinheiro. Na atualidade, percebemos uma competição degradante, escolas de qualidade estão perdendo espaço na coletividade devido a chegada de grupos estrangeiros ou empresas educacionais que cobram mensalidades menores e seduzem os potenciais alunos com promessas de sucesso e bons empregos, mas na verdade, entregam um produto de péssima qualidade, gerando dívidas impagáveis e tornando-os profissionais diplomados, desempregados e sem perspectivas.

Neste ambiente, percebemos muitas escolas sérias e tradicionais serem adquiridas por grupos financeiros sem nenhuma experiência na área do conhecimento e da formação educacional, que introduzem planilhas complexas e avaliações de rendimento centrada em princípios do mercado financeiro, demitem professores qualificados e contratam profissionais sem conteúdo pagando salários reduzidos, com isso, diminuem o preço das mensalidades, enchem as salas de aulas e entregam para as famílias uma formação deficiente e desatualizada, muito longe das necessidades da sociedade mundial e da chamada Indústria 4.0.

O poder exagerado da gestão, focada nos lucros monetários e financeiros, vem crescendo de forma acelerada nos últimos anos, as empresas dominam o cenário econômico e expandem seu poder em variadas regiões, transformando a gestão em um instrumento de ganhos imediatistas, esquecendo-se de que cabe ao gestor um planejamento seguro e equilibrado para que as empresas se consolidem e se perpetuem como agentes de melhoria e maior qualidade de vida, levando a um progresso social inclusivo e a um desenvolvimento econômico.

O poder da gestão é tão intenso e estruturado, que em todas as áreas percebemos sua influência, setores como a religião vem incorporando as técnicas de gestão como instrumento de administração e incremento de seus lucros, nestes setores percebemos gestores gerindo dízimos e donativos de forma profissional e Igrejas sendo sondadas para a abertura de capital em Bolsas de Valores, distorcendo seus verdadeiros ideais em prol de uma lucratividade insana com graves impactos para a coletividade. Nesta sociedade, as religiões estão se transformando em um grande negócio, seus investimentos estão sendo levado a inúmeros setores, desde empresas de mídia e lojas comerciais, enquanto os valores da religião centrados na solidariedade e na empatia estão sendo substituídos por valores financeiros, materiais e imediatos.

A obsessão pela tecnologia está deixando leva de trabalhadores desempregados e sem perspectivas profissionais, muitas máquinas e equipamentos são desenvolvidos para melhorar processos e incrementar decisões, melhorando os fluxos de informações e acelerando estratégias, com isso, percebemos uma redução nos custos das empresas e uma melhora em seus valores de mercado, os ganhos advindos destas medidas são distribuídos com seus acionistas e seus funcionários, agora chamados de colaboradores, se engalfinhando para sobreviver no mercado, mesmo sabendo que esta sobrevivência está associada a um aumento acelerado na carga de trabalho, a uma redução nos rendimentos e a uma piora na qualidade de vida.

Neste ambiente encontramos visões contaminadas por supostos especialistas, profissionais com visibilidade na mídia, nos jornais e nas revistas especializadas, indivíduos treinados e capacitados, com uma visão limitada de sociedade centrada no interesse do capital e dos donos do dinheiro. São profissionais dotados de grandes conhecimentos que se vendem no mercado e passam a defender aqueles que possuem recursos para pagar seus elevados honorários, desconhecendo as origens dos recursos e a degradação destes para a sociedade.

Nesta sociedade, percebemos o poder da economia como uma ciência matemática, responsável pela geração de lucros e dividendos, com isso, deixamos de lado a importância da economia como uma ciência da escassez, criada para gerir os recursos da sociedade e melhorar a distribuição, garantindo que todos tivessem acesso ao essencial e, com isso, poderem sobreviver de forma digna e construir boas perspectivas de futuro para si e para seus descendentes.

Na sociedade contemporânea, a economia e a gestão estão se transformando em um instrumento de maximização dos lucros dos grandes grupos econômicos e financeiros, seus interesses mais imediatos visam saciar seu estilo de vida centrados no hedonismo e na busca acelerada por prazeres materiais e gozos sexuais, deixando de lado o planejamento e a construção de bases sociais mais sólidas e sustentáveis.

Numa sociedade onde a tecnologia se coloca como o grande gerador de desemprego, criando medo e desesperança para os grupos com menores oportunidades e qualificações, muitos trabalhadores são obrigados a aceitar formas de trabalho degradantes e jornadas excessivas sob pena de ficarem sem emprego e sem condições de sobrevivência. Estes trabalhadores são “obrigados” a aceitar trabalho em finais de semana e feriados, levando o empregador a criar escalas absurdas que devem ser seguidas pelo trabalhador, com isso, o funcionário é obrigado a se ausentar de sua casa e relegar sua família a uma condição secundária, nestes ambientes percebemos um incremento da degradação das famílias, uma piora nas relações entre pais e filhos e um aumento considerável da violência e da exclusão social, obrigando as escolas a assumirem um papel que, em todas as sociedades desenvolvidas, deve ser exercido pela família.

O pior desta situação é que os trabalhadores perderam seus instrumentos de proteção, em uma sociedade com um desemprego acelerado são obrigados a condições indignas e cobranças exageradas, com isso se degradam e devem aceitar esta condição de forma pacífica e subserviente, sem reclamar, sem fazer greves e sem se filiar a movimentos sindicais, mesmo porque, muitos destes sindicatos se mostraram, ao longo do tempo, sem condições de amparar seus filiados e prepará-los para as mudanças em curso na sociedade global, muitos deles se comportaram como verdadeiros cabides de empregos e refúgio de pessoas desqualificadas e desonestas.

Outro setor que devemos acompanhar com atenção e responsabilidade é o Meio Ambiente, este setor vem se degradando de forma acelerada nos últimos anos, muito desta degradação está vinculada ao domínio de uma visão imediatista de gestão centrada nos lucros e nos ganhos financeiros, por esta visão, que está cada vez mais dominante neste setor e no mundo econômico, a sociedade deve incrementar a exploração do ambiente como forma de retirar da pobreza e da indignidade muitas famílias e grupos sociais que vivem em situação de risco. Precisamos compreender que a situação de indignidade destas famílias está muito mais associada e uma visão limitada da gestão e dos negócios do que a falta de recursos para a produção. A preservação do Meio Ambiente é condição fundamental para que tenhamos um futuro digno e decente, as terras e os recursos naturais disponíveis são suficientes para que a população viva de forma decente, mas para que isto aconteça faz-se necessário que os abutres financeiros se conscientizem de que precisam retirar uma parte condizente com seus esforços e merecimentos, e deixem para os outros grupos sociais os recursos referentes a seus méritos, enquanto esta divisão for desigual os resultados desta equação serão sempre marcados pela exclusão social e pela desigualdade crescentes, onde os grandes prejudicados serão os mais pobres e marginalizados.

A economia contemporânea e os modelos de gestão precisam retomar as suas origens e repensar seus papéis na sociedade, se estes instrumentos continuarem a se limitar a ganhos financeiros e monetários improdutivos, a sociedade tende a mergulhar em condições degradantes, com desemprego em ascensão e um crescimento exponencial de indivíduos desequilibrados e doentes mentais, dotados de um individualismo crescente e desagregador incapaz de pensar e de se solidarizar com as dores dos outros, neste momento perceberemos que nossa sociedade está caminhando realmente para o caos e para a degradação social, sendo urgente alterar a rota e direcionar a sociedade para um novo caminho, mais sustentável e equilibrado.

Numa sociedade marcada pela centralidade do dinheiro e do poder econômico, os gestores e os economistas ligados a este poder financeiro se arvoram de um poder e de uma arrogância excessivos, definindo regras e escolhendo os ganhadores e transformando tudo em mercadoria, desde a educação, a saúde, os relacionamentos e a segurança, neste ambiente, os grupos mais vulneráveis da sociedade estão sempre em situação de marginalidade e de degradação,  vivendo a margem e convivendo no cotidiano com os dramas e os traumas de uma coletividade degradada pelo poder do dinheiro e da falta de solidariedade entre os indivíduos.

 

 

Sociedade precisa se convencer do problema que é a desigualdade, diz Martin Wolf

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Para comentarista-chefe do jornal Financial Times, ascensão do populismo é um dos sintomas da ‘doença’ da disparidade de renda

Fernando Canzian – Folha de São Paulo, 07/08/2019

LONDRES

Para Martin Wolf, 73, comentarista-chefe do jornal Financial Times, a ascensão do populismo é sintoma da “doença” da desigualdade de renda e só tem a oferecer respostas que tornarão as sociedades “mais furiosas, menos justas e mais violentas”.

Segundo ele, o populismo de direita é quase sempre “uma fraude”. “O de esquerda pode ser mais produtivo, mas apenas se for muito disciplinado”. O risco, diz, é terminar como a Venezuela. Wolf, um dos mais conceituados colunistas de economia e finanças da atualidade, afirma que a sociedade precisa se convencer de que a desigualdade é um problema.

As evidências mostram importante aumento da desigualdade de renda em praticamente todos os países. Há meios de reverter ou atenuar essa tendência?

É importante perceber que, embora existam tendências subjacentes que podem ser vistas no mundo todo, o que sugere que algumas forças econômicas estão presentes, também vemos enormes diferenças [em relação ao grau de desigualdade] entre países com níveis similares de renda. Isso evidencia que há coisas a serem feitas.

Se você tiver uma educação de alta qualidade, como alguns países da Europa continental e o Japão, isso reduz a desigualdade drasticamente.

Há políticas de gastos e de impostos. Há regulamentações e normas que afetam a economia. Há o papel dos sindicatos e o de outras atividades humanas que, de modo cumulativo, fazem muita diferença. Em última análise, todas essas coisas refletem até que ponto a igualdade é uma norma social.

Se uma sociedade como um todo não acredita que seja possível um grau razoavelmente alto de igualdade, e de igualdade de oportunidades para filhos de pessoas pobres, será impossível obter um alto nível de educação para todos.

Se tivermos apenas sociedades muito heterogêneas, com níveis relativamente limitados de solidariedade, sobretudo entre ricos e pobres, as instituições não forçarão a igualdade, o governo será indiferente a essa questão e nada vai acontecer.

Ao contrário de respostas solidárias, o que se vê em todo o mundo são respostas populistas, sobretudo da direita, não?

O populismo de direita é quase sempre uma fraude, porque essencialmente é uma maneira de desviar a atenção e ignorar as pessoas que estão sofrendo com a desigualdade. Coloca-se a culpa nos imigrantes, nos estrangeiros, nos criminosos, e os verdadeiros problemas não são enfrentados.

Acho que o populismo de direita é sempre uma armadilha e um delírio. O populismo de esquerda pode ser mais produtivo, mas apenas se for muito disciplinado. Se você só gastar muito dinheiro sem pensar a respeito, pode acabar como a Venezuela.

O populismo é um sintoma dessa doença [a desigualdade], e às vezes dá uma resposta ou outra, mas nunca a resposta final. É preciso respostas mais inteligentes e, acima de tudo, que a sociedade realmente acredite que esse é um problema a ser enfrentado.

O sr. diria que Donald Trump, brexit e políticos de esquerda e de direita são produtos da desigualdade?

Diria que são em parte produto da desigualdade, sim. Eles também são o resultado da estagnação e até certo ponto o resultado da mudança cultural. Mas a desigualdade ou a crescente desigualdade é uma parte disso.

O que me preocupa é que respostas como Trump e brexit não farão nada para resolver o problema. Na verdade, vão piorar as coisas e vão encorajar as pessoas a culpar algum outro grupo, muitas vezes mais vulnerável. Isso tende a tornar a sociedade ainda mais dividida. Essas respostas são uma consequência de males sociais, mas nunca serão uma solução para isso.

Tivemos uma longa experiência com o populismo de direita no mundo nos últimos 150 anos que levou, na minha opinião, ao desastre. O populismo de esquerda geralmente fez a mesma coisa, de maneira bastante uniforme.

Então, o que me preocupa é que ao mesmo tempo em que entendo o ultraje populista, entendo a necessidade de mudança. Sinto que os políticos populistas só oferecem respostas que tornarão nossas sociedades mais furiosas, menos justas, mais amargas e violentas.

Alguns acadêmicos defendem a implementação de renda básica universal para atenuar a desigualdade. O que o sr. acha?

Eu diria que essa não é a resposta fundamental. Se você tiver condições de aumentar substancialmente os impostos, então pode adotar gastos para tornar a sociedade um lugar melhor, e menos desigual. Mas a renda básica não é suficiente para atingir esse objetivo.

Porque ainda haveria o problema da educação, que não se resolve com renda básica. Haveria a questão da preocupação com o nível de prosperidade da sociedade, que depende fundamentalmente do investimento em infraestrutura e em tudo o que torna uma sociedade produtiva.

Para fazer um programa desses funcionar, de modo que se dê uma renda mínima a todos, seria preciso elevar o nível dos impostos para um patamar muito alto. E é óbvio que, quando se pensa nisso, será preciso tirar dinheiro da classe média e depois devolver isso a ela. A renda básica não vai resolver muitas das coisas das quais dependem a vitalidade, a prosperidade e as perspectivas de uma sociedade. Preocupa-me que isso esteja sendo apresentado como uma panaceia.