Donald Trump conseguirá fortalecer os Estados Unidos? Paulo Nogueira Batista Júnior

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Paulo Nogueira Batista Júnior – A Terra é Redonda – 21/03/2025

O slogan MAGA é revelador do que está acontecendo com os EUA: uma perda progressiva de expressão relativa, em termos econômicos, populacionais e políticos

Donald Trump conseguirá fortalecer os Estados Unidos? Conseguirá, pelo menos, deter o seu declínio relativo? Ou irá acelerar a decadência do Império? Transcorridos apenas dois meses desde a sua posse, falta evidentemente a famosa perspectiva história. Mas questões candentes nunca esperam essa perspectiva. Para elas, vale sempre o ante mortem, não o post mortem.

Feita essa ressalva, antecipo a conclusão do artigo: Donald Trump não só será incapaz de deter o declínio dos EUA, como irá apressá-lo. Em vez de Make America Great Again (MAGA), ele deve Make America Weaker Still (MAWS). (Em vez de fortalecer os EUA, deve torná-los mais fracos.)

O seu slogan MAGA é revelador do que está acontecendo com os EUA: uma perda progressiva de expressão relativa, em termos econômicos, populacionais e políticos. O plano trumpista é restabelecer a hegemonia americana no mundo, custe o que custar.  Mas isso é mais um sonho do que um plano realista, como tentarei argumentar.

Em primeiro lugar, a herança geopolítica que o novo governo americano recebe é altamente problemática. Superestimando o próprio poder e subestimando o de outros países, os americanos se meteram em uma guerra em três frentes.

Pareceu-lhes uma boa ideia hostilizar simultaneamente a Rússia e a China, o que aproximou esses dois gigantes como nunca. A guerra econômica e tecnológica contra a China atrapalhou, mas não conseguiu parar o avanço chinês. A guerra na Ucrânia e as sanções econômicas e financeiras aplicadas contra a Rússia não tiveram o efeito pretendido. Apesar delas e do apoio maciço do Ocidente à Ucrânia, a Rússia vem levando a melhor no campo de batalha.

Para completar o quadro, os EUA carregam o peso econômico e moral de apoiar o genocídio praticado por Israel. A força do lobby judaico converteu o Império americano num instrumento dos planos israelenses, o que desmoraliza por completo os valores humanitários proclamados pelos EUA e demais países do Ocidente.

Como Donald Trump pretende lidar com essa herança? Em relação a Israel, a sua política consegue ser uma versão piorada do que já vinha sendo feito por Joe Biden, uma vez que proporciona apoio ainda mais enfático aos crimes de Israel. E pior: ele dá sinais de que pretende ser mais agressivo com o Irã, não descartando uma guerra aberta contra o país. Em vez de pacificar uma das três frentes herdadas de Joe Biden, Donald Trump pretende ao que parece aprofundar o conflito no Oriente Médio. Só um país se beneficia disso: Israel.

Todos os esforços iniciais de Donald Trump se concentraram em uma tentativa arrojada de encerrar a guerra na Ucrânia e pacificar a relação com a Rússia. Terá sucesso? Cedo para dizer, evidentemente, mas alguns pontos parecem claros. A pacificação implica reconhecer a vitória da Rússia, que terá suas principais reivindicações atendidas, entre elas o reconhecimento de que algo como 20 a 25% do território ucraniano serão parte permanente da Rússia e a neutralidade da Ucrânia, que será obrigada a abandonar qualquer intenção de entrar para a OTAN.

Donald Trump afirma, com razão, que a guerra na Ucrânia não é obra sua. Permanece, entretanto, o fato de que a vitória da Rússia representa uma derrota para os Estados Unidos e seus aliados europeus. Derrota para o Ocidente; vitória para o mundo multipolar.

Quanto à China, os planos de Donald Trump ainda não estão totalmente claros. Mas uma hipótese bem plausível é que ele pretende redobrar os esforços de conter a ascensão da China, tentativa que tem amplo apoio bipartidário nos EUA e que vem sendo perseguida em todas as administrações desde o final do governo de Barack Obama, inclusive de modo vigoroso no primeiro governo de Donald Trump. A pacificação com a Rússia teria como objetivo quebrar, ou pelo menos enfraquecer, a aliança entre russos e chineses.

Outra indicação desses planos anti-China talvez sejam as relações cordiais com a Índia e o Japão, tradicionais adversários da China na Ásia. A boa-vontade com a Índia, aliás, ajuda a enfraquecer os BRICS, na medida em que reforça as tradicionais resistências de Nova Dehli a avanços do grupo, em especial no que tange à desdolarização, tema que desperta, como se sabe, a fúria do novo presidente dos EUA.

Donald Trump poupa a Índia e o Japão da sua metralhadora giratória, mas não alguns outros dos aliados históricos dos EUA, notadamente os canadenses e os europeus, inclusive a Inglaterra. Faz isso de duas formas. Exclui os europeus das fases decisivas da sua negociação com a Rússia. E aplica tarifas de importação pesadas sobre produtos europeus e canadenses, algo especialmente problemático para o Canadá, cuja economia por razões geográficas e históricas é profundamente integrada à dos EUA.

Esses países parecem ter sido pegos de surpresa pela agressividade do novo governo americano. Já contavam com relações mais difíceis, mas como antecipar um movimento de tanta hostilidade contra aliados tradicionais? Aliados, não. Talvez seja melhor referir-se a eles como satélites. O Canadá e o Reino Unido, em especial, têm sido leais vassalos dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial. Que sentido faz atacá-los econômica e politicamente? Difícil entender de que maneira isso colabora para a estratégia de fortalecimento mundial dos EUA.

Repare, leitor, que Donald Trump não só não resolve vários dos problemas internacionais herdados de Joe Biden, como os agrava em sua maioria. E abre novas frentes de conflito, aprofundando provavelmente a tendência de isolamento dos EUA. Distancia-se dos parceiros tradicionais do Atlântico Norte e piora a situação no Oriente Médio, radicalizando a política pró-Israel e ameaçando o Irã. E deve aumentar as pressões sobre a China.

Os planos de intensificar a confrontação com a China dificilmente alcançarão o seu objetivo estratégico. Parece tarde demais para bloquear a ascensão econômica e comercial da China, que se tornou a fábrica do mundo à custa da desindustrialização de vários países, inclusive os EUA e o Brasil. O máximo que se conseguirá é desacelerar o crescimento economia e do comércio exterior da China, não sem pagar o preço de gerar tarifas retaliatórias e perder mercados para os exportadores americanos.

O que se quer, fundamentalmente, é deter a perda de expressão econômica dos EUA e refazer a indústria o país. O objetivo é válido por vários motivos, inclusive porque, no longo prazo, não há segurança nacional e poder militar sem base industrial no país. Contudo, as medidas econômicas iniciais não convencem.

A aplicação mais ou menos indiscriminada de tarifas de importação é uma faca de dois gumes. Por um lado, pode reforçar a produção industrial no país e trazer indústrias de volta; pode, também, forçar outros países a abrir mais espaço para as exportações americanas. Por outro lado, gera aumento da inflação para os consumidores e custos mais elevados para setores que usam insumos importados. E provocam tarifas retaliatórias em mercados tradicionais dos EUA.

Com essa inevitável ambiguidade, é pouco provável que as tarifas de importação tenham o impacto salvador com que sonha Donald Trump. Além disso, a deportação em massa de imigrantes e restrições severas à sua entrada nos EUA diminuem a oferta de trabalhadores menos qualificados e solapam a competitividade de empresas mais intensivas em mão-de-obra. Por sua vez, os cortes drásticos de gastos e fechamentos de agências do governo podem desarticular a atuação do Estado americano.

Por esses e outros motivos, a economia dos EUA deve continuar a trajetória de declínio relativo que marcou as décadas recentes, não se devendo excluir a possibilidade de que esse declínio venha a se intensificar com as políticas adotadas pelo novo governo.

A melhora nas relações com a Rússia, se acontecer de fato, não deve provocar distanciamento real entre a Rússia e a China. Vladimir Putin, um estrategista muito superior a Donald Trump, a Joe Biden e a qualquer outro presidente americano recente, tira partido das iniciativas de paz dos EUA e está, tudo indica, interessado na paz.

Mas alguém acredita, em sã consciência, que ele irá romper, ou mesmo enfraquecer, as suas relações estratégicas com Xi Jinping? Os americanos, inclusive o errático Donald Trump, merecem confiança? Putin certamente não esqueceu as diversas ocasiões em que a Rússia foi enganada, desde o colapso da União Soviética, por gestos e promessas do Ocidente, sempre liderados pelos EUA. Deve continuar colocando o grosso das suas fichas na aliança com a China.

“Nunca interrompa seu inimigo enquanto ele estiver cometendo um erro”, dizia Napoleão Bonaparte. Os chineses observam cuidadosamente as trapalhadas dos EUA e, com a sua típica paciência estratégica, vem se preparando para a tempestade que se avizinha. Preferem a paz e a continuação da sua ascensão econômica pacífica, mas estão se armando, com sucesso até agora, para a confrontação econômica e tecnológica com os EUA. E não descartam nenhum tipo de guerra com os americanos, como disse recentemente um porta-voz do governo chinês. Não serão intimidados.

Em suma, pelo que se pode depreender desses dois primeiros meses de governo, Donald Trump não conseguirá interromper a decadência dos EUA. Ele próprio, grosseiro e prepotente, despreparado e arrogante, é um sintoma dessa decadência. Como nas tragédias gregas, as tentativas de escapar do destino leva a comportamentos que aceleram a sua realização.

O que temos é MAWS,e não MAGA.

Paulo Nogueira Batista Jr. é economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS. Autor, entre livros, de Estilhaços (Contracorrente)

 

Sobre os críticos de “Ainda estou aqui”, por Lúcio Verçoza

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Lúcio Verçoza – a Terra é Redonda – 05/03/2025

A capacidade do cinema de Walter Salles de adentrar os raquíticos fios do debate público no Brasil – ou da opinião publicada

O filme Ainda estou aqui circula. Prossegue circulando. E sua circulação não é como a de um ventilador de padaria: que gira, gira e permanece no mesmo lugar – soprando pouco vento. O começo da circulação da película se deu, sobretudo, na pele e nos pelos das pessoas que saíram de casa para ir ao cinema.

O segundo circuito de circulação, que é um desdobramento do primeiro, está na capacidade do cinema de Walter Salles de adentrar os raquíticos fios do debate público no Brasil – ou da opinião publicada. Logo, nessa segunda esfera da circulação, não tardou para que os autores de resenhas alimentassem os blogsYouTubeInstagramTikTok e páginas da grande mídia – tanto com análises elogiosas, quanto implacáveis.

Dentre as críticas mais duras, gostaria de sublinhar o texto de Raul Arthuso, divulgado recentemente no jornal Folha de S. Paulo. O escrito tem sua relevância, pois desloca a discussão para o campo da estética. Porém, no afã de sustentar a tese na qual o filme de Walter Salles seria um passo atrás no contexto do cinema nacional contemporâneo, o autor contorce o argumento, rebaixando o peso político de Ainda Estou Aqui.

Numa rápida análise, é possível destacar trechos nos quais Raul Arthuso carrega excessivamente nas tintas – fazendo com que o filme analisado pareça outro: “sua ênfase está na narrativa íntima, na memória, nas relações pessoais em detrimento da história e da realidade social, mesmo que isso esteja presente como pano de fundo difuso.” “[…] a realidade política é só um detalhe na trama.” “[…] não consegue construir um mundo ficcional que diga algo para a nossa realidade.” “[…] produzir efeitos de emoções, sem agredir ou tensionar questões locais”.

Toda essa linha argumentativa leva à construção de um retrato de filme que seria politicamente minúsculo e quase irrelevante: “que pouco tem a dizer sobre a nossa realidade”; no entanto, se trata do inverso: pela via da estética do detalhe íntimo, Walter Salles conseguiu atar um nó que liga o passado ao presente – fazendo o espectador sentir o passado como algo que diz respeito ao que está em nossa frente. E esse traço, de conseguir reavivar a memória por meio da arte, tem uma enorme potência política.

Tanto os críticos que gostariam que o filme fosse algo próximo de um panfleto (a exemplo das análises de viés excessivamente programático de Jones Manoel, ou do Chavoso da USP), quanto os que exigem uma estética de vanguarda, desconsideram que o forte impacto político do longa decorre de uma abordagem que toca na grande política pela chave da sutileza do detalhe e da micro-história.

A obra forma uma espécie de nó artístico – sem adotar uma linguagem explicitamente herdeira do Cinema Novo dos anos 1960, nem das vanguardas recentes do mangue ou dos sertões nordestinos –; um nó que não escreve um tratado da política econômica dos governos da ditadura militar, nem da luta sindical (como reivindicaram os críticos programáticos).

Todavia, é um nó ainda mais arguto, pois liga a ponta do passado à do presente em frente aos olhos e ouvidos do grande público: dando um tapa simbólico no rosto e na máscara do bolsonarismo. E, faz isso, sem dizer explicitamente o que faz. E faz isso construindo uma estética que sintoniza muito bem a forma ao conteúdo – sem pertencer às vanguardas da forma, e sem conceder a patrulha estreita dos que exigiram um filme-panfleto.

Talvez o grande acerto do filme esteja justamente nisso: em captar uma forma de pertencer a um tempo pelo 3×4 de uma família. E o faz sem a pretensão de lançar um tratado. E o faz demonstrando que uma linguagem aparentemente simples (em termos de inovação) pode ser sutil e profunda. A plateia, por diferentes caminhos, sacou o que estava na tela e sentiu, por alguns minutos, o sentimento do mundo. E o sentimento do mundo é ambíguo: carregado de choro, fúria, esperança, aplauso e memória.

Lúcio Verçoza é professor de sociologia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

 

Confusão e ameaças

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Nos últimos sessenta dias a comunidade internacional vem passando por grandes controvérsias econômicas e políticas, com confusões variadas e preocupações crescentes, motivadas pelas políticas equivocadas implementadas pela nova administração dos Estados Unidos da América, espalhando críticas imediatas na comunidade internacional, aumentando o ódio e o ressentimento entre adversários e, pasmem, até mesmo estas políticas estão afetando os aliados, criando pânico, revolta e desconfiança.

Neste período, o governo norte-americano vem adotando políticas fortemente unilaterais, impondo tarifas comerciais e medidas protecionistas para todos os parceiros, apresentando desejo de anexar territórios externos, gerando preocupações para toda a comunidade internacional, impactando sobre acordos comerciais assinados anteriormente, prejudicando as estratégias de empresas nacionais e internacionais e criando um clima de insegurança, incertezas e preocupações sobre os rumos dos negócios na economia internacional.

Das medidas destacamos os confrontos crescentes com aliados históricos dos Estados Unidos, como a Europa Ocidental, levando seus governos a alterarem suas políticas de defesa nacional e, desta forma, a União Europeia está se preparando para uma verdadeira escalada militar, num projeto ambicioso e orçado em quase 1 trilhão de euros, recursos inexistentes atualmente no bloco e que tendem a criar novos descontentamentos com a população, servindo de um verdadeiro combustível para o crescimento da extrema direita. Neste cenário de grandes incertezas na União Europeia, onde os governos nacionais europeus vão levantar recursos para a indústria da defesa? A pergunta é intrigante e urgente, mas a resposta passa pelas políticas do Estado do Bem-estar Social que devem minguar para financiar os fabulosos gastos bélicos e militares, contribuindo efetivamente para espalhar em toda a região, misérias, pobrezas e indignidades.

As políticas implementadas pelo governo norte-americano estão gerando calafrios para os aliados do norte da América, levando países como o México e o Canadá a estudarem e, posteriormente, adotarem como forma de defenderem seus setores produtivos e seus interesses nacionais, protegendo as suas empresas e toda economia, defendendo seus trabalhadores e garantindo seu mercado interno. 

As medidas implementadas pelo governo de Donald Trump estão criando novos constrangimentos na comunidade internacional, levando inúmeros países a recorrerem a Organização Mundial do Comércio (OMC), buscando a mediação de organismos mundiais para evitar o crescimento do protecionismo global, cujos impactos tendem a ser devastadores para o comércio global, levando as nações a aumentarem o isolacionismo.

Numa sociedade centrada no imediatismo, no individualismo, no narcisismo e na busca frenética pelo lucro monetário, onde os atores econômicos e produtivos olham apenas para o curto prazo e pelos ganhos imediatos, os confrontos crescem fortemente na seara do comércio internacional e na geopolítica tendem a se espalhar para todas as áreas da comunidade global, aumentando as tensões entre as nações, com o incremento dos investimentos bélicos e militares e a redução sistemática dos gastos sociais e das políticas públicas que beneficiam a maioria da população, desta forma, estamos caminhando a passos largos para uma destruição total e inimaginável, atuando como seres humanos irracionais e individualistas, nos distanciando rapidamente do comportamento daqueles que chamamos de animais.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Sociologia do Trabalho e Exclusão Social, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

 

Como vai a Europa pagar por sua própria defesa? por Rui Tavares.

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Problema nunca foi de falta de recursos, mas de vontade política; quando é para sobreviver, a vontade política aparece

Rui Tavares, Historiador, deputado na Assembleia da República de Portugal e ex-deputado no Parlamento Europeu; autor de ‘Agora, Agora e Mais Agora’

Folha de São Paulo, 19/03/2025

A opinião convencional dominante nos dias que correm parece ser que a Europa deixou de cuidar da sua defesa após a Segunda Guerra Mundial, delegando essa função aos Estados Unidos e praticamente não gastando dinheiro em armamento. A mesma opinião sustenta agora que a Europa ficou desorientada perante a guinada geopolítica de Donald Trump e que não terá chance de defender-se perante Vladimir Putin.

Essa opinião convencional está errada.

A Europa nunca gastou propriamente pouco em defesa. O Reino Unido e a França são potências nucleares, e os gastos acumulados dos países-membros da União Europeia foram no ano passado bem superiores a € 300 bilhões, não tão longe da Rússia e da China.

A questão na Europa nunca foi gastar pouco em defesa, mas antes gastar sem visão de conjunto e comprando grande parte do seu material dos EUA. É isso que vai mudar agora. Trump conseguiu quebrar os laços de confiança entre europeus e americanos e com isso deu um novo foco estratégico à Europa, e em particular à UE.

A União Europeia irá com toda a probabilidade avançar para a compra conjunta de armamento, repetindo o mecanismo que provou ser um grande sucesso com a compra de vacinas pelo bloco, assegurando ganhos de escala e baixando custos. E o material será produzido na Europa, para ajudar na reindustrialização do continente e para evitar a utilização de caríssimo armamento dos EUA (como os famosos caças F-35) que se suspeita que possa ser desativado à distância.

Além disso, há países-membros da UE que têm capacidade para gastar mais, e o caso mais relevante agora é o da Alemanha, que já aprovou alterações à sua legislação para possibilitar mais gastos em defesa.

Mesmo assim, há investimentos iniciais que precisarão de somas mais avultadas nos primeiros anos. Têm feito debate aqui no continente as declarações do secretário-geral da Otan, Mark Rutte, que sugeriu que os europeus deveriam ter de prescindir do seu estado social para investir na defesa.

A União Europeia pode lançar os chamados eurobonds, títulos de dívida emitidos em nome da União como um todo, não dos seus Estados-membros. A dívida da UE, bem como o seu orçamento, representa pouco mais de 1% do PIB da União. Há espaço mais do que suficiente para emitir dívida, há interesse dos mercados globais em comprá-la, e o momento é o mais oportuno, num momento em que Trump lança a economia dos EUA na turbulência e os investidores procuram outros portos seguros.

Em segundo lugar, a União Europeia (ou apenas os Estados que o desejarem) pode lançar um imposto comum de apenas 2% sobre fortunas acima de € 1 milhão. Nos cálculos do economista Gabriel Zucmán, isso daria mais de € 60 bilhões por ano.

Em terceiro lugar, há € 300 bilhões em ativos russos congelados, que podem ser confiscados e usados na reconstrução da Ucrânia.

O problema da Europa nunca foi de falta de recursos, mas de falta de vontade política. Quando é para sobreviver, a vontade política aparece.

 

Liberou geral? por Candido Bracher

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Estaríamos agindo como o personagem da música ‘E o Tal do Mundo Não Se Acabou’, interpretada por Carmem Miranda?

Candido Bracher, Administrador de Empresas formado pela FGV. Foi executivo do setor financeiro por 40 anos.

Folha de São Paulo, 16/03/2025

A leitura da seção de Clima e Meio Ambiente dos jornais internacionais nos últimos dois meses certamente causaria surpresa e desconforto às mentes cartesianas acostumadas a estabelecer relações lógicas entre os fatos.

Além da confirmação de que 2024 foi o ano mais quente já registrado, o leitor encontraria manchetes como: “Janeiro mais quente já registrado choca cientistas” (Financial Times, 6/2), “Janeiro mais quente já registrado intriga cientistas do clima” (The Guardian 6/2), “Este foi o janeiro mais quente já registrado, segundo cientistas” (The New York Times, 6/2).

A leitura dos artigos explicaria que a surpresa decorre da permanência de temperaturas recordes, a despeito do resfriamento do oceano Pacífico, decorrente do fenômeno La Nina.

Outras manchetes teriam o mesmo tom: “Renomado cientista do clima adverte que o objetivo de (limitar o aquecimento a) 2ºC está morto” (The Guardian 4/2), “Geleiras da Europa encolheram 40% desde 2000” (Financial Times, 20/2), “Califórnia enfrenta seca agravada, apesar de temporais recentes” (The Guardian, 24/2), “No estado do hóquei, mudanças climáticas reduzem o número de ringues de patinação” (The Washington Post, 24/2), “A corrida de trenós puxados por cães mais famosa do mundo está com falta de neve” (The Wall Street Journal, 4/3).

No mesmo período e nos mesmos jornais, outras manchetes diriam: “Earth Fund com US$ 10 bilhões de Jeff Bezos corta vínculos com agência de clima” (Financial Times, 6/2), “UE exagera nas regras verdes, alerta chefe da Siemens Energy” (Financial Times, 12/2), “Suspensão de regra da SEC é presente antecipado para os apoiadores de Trump do setor de óleo e gás” (The Washington Post, 17/2), “Big Techs aprendem a compartilhar o entusiasmo de Trump pelos combustíveis fósseis” (The Washington Post, 23/2), “Eleições alemãs mostram o quanto a onda verde recuou na Europa” (The Guardian 24/2), “BP deve abandonar meta de renováveis e voltar a focar em combustíveis fósseis” (The Guardian 24/2), “Bancos rebaixam cargos de sustentabilidade” (Financial Times, 24/2), “Como Trump sabotou a política climática americana” (The New York Times, 2/3) e “Autoridades do governo Trump destroem proteções climáticas e consideram ocultar descobertas-chave sobre gases de efeito estufa” (Guardian, 13/03).

Procurando ater-se à racionalidade, esse leitor poderia supor que tais retrocessos decorrem da descrença honesta de certas pessoas nas projeções científicas, acreditando que as “mudanças climáticas” são uma farsa engendrada pela esquerda.

Afinal, não seria a primeira vez que previsões apocalípticas se mostrariam infundadas. Gosto da definição de Idade Média que Rui Tavares oferece em seu admirável “Agora. Agora e Mais Agora”: “Cerca de mil anos em que o fim do mundo estava para breve”.

Outras previsões também falharam: o cometa Halley, em 1910, a crise dos mísseis em Cuba, em 1962, a previsão de Nostradamus para 1999 e mesmo a pandemia de Covid, em 2020. Não seria assim inverossímil que pessoas bem-intencionadas manifestassem uma descrença atávica em teorias de colapso.

Nosso leitor cartesiano poderia, porém, achar improvável que pessoas bem formadas, com vasto acesso a informações, simplesmente desconsiderem a abundância de evidências científicas do aquecimento global e todas as suas consequências desastrosas.

Nesse caso, poderia atribuir a intensificação da exploração e uso de combustíveis fósseis ao fenômeno, que também tem precedentes históricos, da adoção de atitudes tresloucadas diante da certeza do ocaso.

Como ilustração, em vez de recorrer à história, prefiro lembrar a música “E o Tal do Mundo Não Se Acabou”, interpretada por Carmem Miranda, na qual a personagem diz: “Acreditei nessa conversa mole/pensei que o mundo ia se acabar/e fui tratando de me despedir/e sem demora fui tratando de aproveitar”.

Uma última hipótese a considerar seria a de que os responsáveis pelo aumento de emissões de carbono, embora não desacreditem das previsões científicas, creiam que algo acontecerá —uma nova tecnologia, possivelmente— de modo a evitar o apocalipse.

Nosso leitor, porém, duvidaria da honestidade dessa crença, por ser demasiadamente autoindulgente, e a enquadraria juntamente com a simples indiferença egoísta diante do destino da humanidade. Irracional, porém humano.

Seja como for, esse comportamento deletério, além dos efeitos diretos sobre o aquecimento, tem consequências ainda mais graves. Refiro-me ao desalento resultante da percepção de uma situação de “liberou geral”, de “passagem da boiada”, diante da qual é inútil resistir.

É importante termos presente que será nesse cenário conflagrado que em novembro se realizará a COP 30, em Belém. Não devemos nos sentir desestimulados por isso, ao contrário, mas deixar de reconhecer dificuldades nunca foi bom método para as superar.

Caberá à coordenação da reunião, em vez de ceder às pressões contrárias, usá-las como elemento promotor da união entre países e agentes privados comprometidos com o combate ao aquecimento.

Entre os objetivos a serem perseguidos, podemos enumerar a costura de uma aliança entre países interessados em desenvolver um mercado comum de carbono; redobrar esforços para atingir a meta de financiamento de US$ 1,3 trilhão; avançar na discussão sobre uso da terra, tão relevante para a agricultura e para a promoção dos biocombustíveis; buscar estabelecer critérios globais para a mensuração do conteúdo de carbono dos diversos produtos e estimular a China a ocupar o espaço deixado pelos EUA.

Sabemos que nossa equipe, chefiada pelo embaixador André Corrêa do Lago, já está empenhada na articulação de diversos desses objetivos; sabemos também que a tarefa é extremamente árdua e desafiadora.

É importante termos presente que o combate ao aquecimento global é um processo longo e descontínuo; uma maratona, não uma corrida de 100 metros. Cada passo dado é importante, ainda que o efeito seja apenas o de fazer uma profissão de fé e denunciar aqueles que sabotam o esforço.

A verdade dessa afirmação pode ser aferida ao pensarmos no papel singular que teve a anticandidatura de Ulysses Guimarães, em 1974, no também longo processo do Brasil em direção à democracia. Em seu discurso diante do Colégio Eleitoral que confirmou a vitória do general Ernesto Geisel, tomou emprestada de Fernando Pessoa a frase que designa o combate pelas boas causas, que agora aplico também à resistência que a COP30 exercerá contra um cenário adverso: “Navegar é preciso, viver não é preciso”.

 

Como a economia explica o mundo, por Hélio Schwartsman

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Livro mostra como conceitos abstratos do tipo utilidade marginal decrescente produzem efeitos concretos na história

Hélio Schwartsman, Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de “Pensando Bem…”

Folha de São Paulo, 16/03/2025

Breve e certeiro são dois adjetivos que descrevem bem “How Economics Explains the World” (Como a Economia Explica o Mundo), de Andrew Leigh. Em menos de 200 páginas, ele narra como forças econômicas moldaram a história.

Leigh começa com a agricultura, que criou a possibilidade de acumular riqueza e permitiu a especialização do trabalho, e termina na pandemia, cujo impacto inflacionário, agravado pela invasão da Ucrânia, até hoje afeta o resultado de eleições mundo afora.

Uma coisa que Leigh faz muito bem é mostrar como conceitos econômicos que podem parecer abstratos, como estrutura de incentivos, custos de oportunidade, utilidade marginal decrescente, geram efeitos concretos.

Um exemplo: foram restaurantes europeus e não americanos que primeiro desenvolveram sistemas eletrônicos de registrar pedidos. Fizeram-no décadas antes do iFood. E por causa dos incentivos. Contratar um funcionário na Europa é muito mais caro que nos EUA.

Outro resultado inesperado da estrutura de incentivos é que, quando os EUA mudaram os impostos sobre a herança, moribundos responderam, morrendo um pouco mais tarde a fim de extrair maiores benefícios fiscais.

Apesar do espaço apertado, Leigh traz até discussões filosóficas para o livro. Dinheiro traz felicidade? As primeiras pesquisas sugeriram que sim, mas só até certo ponto. Análises mais recentes mostram que a felicidade sempre aumenta, tanto entre nações como dentro de cada país. Ainda assim, o autor, com base no princípio da utilidade marginal, recomenda a adoção de um imposto fortemente progressivo. É que um dólar adicional traz mais felicidade para quem não tem quase nenhum do que para quem já tem muitos.

Apesar da brevidade, e, portanto, da densidade do livro, Leigh ainda encontra espaço para contar boas historietas, como a de que o jogo Banco Imobiliário (Monopoly) foi inspirado nos barões ladrões, como era chamada a elite empresarial dos EUA no final do século 19. E o jogo era uma crítica, não uma bajulação, a eles.

Sobrepeso e obesidade, a nova epidemia? por Márcia Castro

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Envelhecimento não saudável vai gerar demandas do sistema de saúde que poderiam ser evitadas

Márcia Castro, Professora de demografia e chefe do Departamento de Saúde Global e População da Escola de Saúde Pública de Harvard.

Folha de São Paulo, 15/03/2025

É inquestionável que a pandemia de Covid-19 foi um marco na história (tal qual a pandemia da gripe cerca de um século antes). Como tal, não pode ser esquecida.

A Unifesp lançou o Acervo da Pandemia de Covid-19, uma plataforma digital que documenta as ações e inações do governo durante 2020 a 2022. Esse acervo é extremamente importante. Como disse George Santayana, “aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”.

Nas últimas semanas houve discussões sobre os cinco anos da pandemia. Um tema recorrente é se o mundo está preparado para a próxima. Aqui, é preciso discutir dois aspectos.

Primeiro, há emergências que surgem de forma rápida, como um novo patógeno. Nesse caso, tudo é novo, o conhecimento vai se expandindo junto com a emergência, e o desenvolvimento de medicamentos e imunizantes demanda tempo. Esse foi o caso da Covid-19.

Apesar de todos os desafios relacionados a controlar um novo patógeno, o manejo da emergência foi falho. Ficou evidente que sistemas de saúde na grande maioria dos países não era resiliente, ou seja, não conseguiram prevenir, preparar, detectar, adaptar, responder e se recuperar de uma emergência, garantindo que funções essenciais de saúde não fossem comprometidas.

Segundo, há emergências que se desenvolvem ao longo do tempo. Batem na porta, mandam recado, e só recebem atenção quando a situação já virou uma emergência de fato. De certa forma, a situação da dengue é um exemplo. Afinal, o que esperar de um crescimento urbano desordenado, que gera verdadeiros paraísos para o mosquito?

Outro exemplo é o envelhecimento populacional. Demógrafos já alertavam há muito tempo que a população vinha envelhecimento rapidamente. O Censo Populacional de 2022 mostra isso. Não é novidade. Um envelhecimento não saudável vai gerar demandas do sistema de saúde que poderiam ser evitadas com prevenção.

Some-se a isso os resultados de uma pesquisa publicada na revista Lancet que estima a prevalência de sobrepeso e obesidade entre crianças e jovens (5 a 24 anos) e adultos (25 ou mais).

Em 2021, cerca de 20% da população menor de 25 anos e quase metade daqueles com 25 anos ou mais no mundo viviam com sobrepeso ou obesidade. Até 2050, caso a tendência não mude, cerca de 30% das crianças e jovens e 60% dos adultos terão sobrepeso ou obesidade.

No Brasil, a estimativa é que um terço das crianças e jovens e 65% dos adultos estejam com sobrepeso ou obesos em 2050. Esses números são preocupantes, mas não uma surpresa.

Dados do Vigitel, do Ministério da Saúde, mostram, desde 2006, um crescimento consistente no sobrepeso e obesidade.

As consequências serão inúmeras, incluindo problemas no desenvolvimento infantil, saúde mental, pressão alta, diabetes, doenças cardiovasculares, entre outras. Entretanto, ainda carecemos de medidas concretas para mudar essa tendência.

Que fique claro que esse problema não será resolvido com medicamentos antiobesidade (tais como Ozempic).

Uma emergência de saúde pública devido ao sobrepeso e obesidade vem se desenhando há algum tempo. No Brasil e no mundo. Ou o Brasil se antecipa e encara isso agora, ou teremos outra tragédia anunciada.

 

A China aposta numa globalização peculiar, por Elias Jabbour

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Enquanto Trump ameaça com anexações e tarifas, Pequim sugere que vai se abrir cada vez mais ao mundo. Mas sob alguns princípios: a “civilização global” sem hierarquias ou valores absolutos e a ideia de que nenhum país é detentor dos “valores universais”

Elias Jabbour, professor de Planejamento Econômico FCE/UERJ – OUTRAS PALAVRAS – 14/03/2025

No dia 15 de março de 2023 o presidente Xi Jinping fez um importante discurso no âmbito da Reunião de Alto Nível para o Diálogo entre o Partido Comunista da China (PCCh) e Partidos Políticos do Mundo. Naquela ocasião, a ideia-força lançada pelo presidente chinês foi o “respeito às civilizações e sua diversidade”. Essa histórica apresentação instou todos à defesa dos princípios de igualdade, aprendizado mútuo, diálogo e inclusão entre as civilizações, permitindo que os intercâmbios culturais transcendam o afastamento, que o aprendizado mútuo transcenda os conflitos e que a inclusão transcenda qualquer sentimento de superioridade.

O presidente da República Popular da China, em tom de amplitude e respeito à história de todos os povos e nações, deu ênfase à importância dos “valores comuns da humanidade” como guia para relações internacionais e aspirações de todos os povos. Esses valores seriam: a paz, o desenvolvimento, a equidade, a justiça, a democracia e a liberdade. Ele afirmou que a herança e a inovação das civilizações devem ser altamente valorizadas e que os países precisam aproveitar plenamente a relevância de suas histórias e culturas para os tempos atuais, promovendo a transformação criativa e o desenvolvimento inovador de suas valiosas culturas tradicionais.

Para alcançar os objetivos de formação de uma “Civilização Global”, faz-se muito necessário a promoção do intercâmbio entre os povos do mundo, bem como a construção de uma rede global para o diálogo e a cooperação intercivilizacional. Interessante notar que, atualmente, existe uma verdadeira onda de expulsões e deportações em massa de trabalhadores estrangeiros em países que se autodenominam “civilizados”. Essa Iniciativa de Civilização Global, ao propor uma abordagem mais enfática no sentido do respeito e absorção da diferença, coloca a China como o país do mundo cuja defesa da paz, do respeito e da soberania passou a ser um princípio existencial da nação chinesa e parte dos conceitos que formam a teoria do “socialismo com características chinesas”.

Por outro lado, a iniciativa é muito clara e remete à necessidade de cada país ou povo manter uma mente aberta para apreciar e absorver os valores de diferentes civilizações, ao mesmo tempo em que se deve evitar a imposição de seus próprios valores a outros países. Essa iniciativa chinesa busca demarcar uma visão tolerante e civilizatória de mundo, em contraposição às tentativas de exportar valores, modelos de sociedade e incitar o racismo, a xenofobia e a confrontação ideológica. Outro ponto a ser observado é o fato de cada país seguir seu próprio caminho para alcançar a paz social e o desenvolvimento, sem necessariamente importar valores e fórmulas de outros países.

Nesse sentido, a modernização e o desenvolvimento não podem ser vistos como uma “marca exclusiva” de alguns países, nem podem ter uma única fórmula. Para que qualquer nação alcance a modernização, é necessário não apenas seguir as leis gerais que regem esse processo, mas, sobretudo, considerar as suas próprias condições nacionais e características únicas.

O desenvolvimento da China deve ser observado dentro do escopo de um processo que traz benefícios não somente ao seu povo, mas também ao mundo. Cada país deve tirar o melhor proveito da experiência chinesa para iniciativas baseadas em suas próprias realidades. Outro ponto importante sobre o desenvolvimento da China é seu caráter pacífico, sem a necessidade de colonizar, pilhar outros países ou subverter os valores de outras nações. Tampouco deverá seguir o caminho de outras potências que se transformaram em forças imperialistas, dispostas a moldar o mundo à sua imagem e semelhança.

Devemos entender o contexto do lançamento da Iniciativa de Civilização Global. Desde a crise financeira de 2007-2008, passando pela pandemia de Covid-19 e pelo avanço do protecionismo econômico dos Estados Unidos, o mundo adentrou em uma era marcada por grandes incertezas, ameaças à globalização econômica e conflitos (armados ou não) em todos os cantos do planeta. A intolerância, o racismo e a xenofobia passaram a fazer parte do cotidiano global, e a ascensão de forças políticas de extrema-direita em vários países ameaça o mundo com um retrocesso a tempos sombrios. A força dos Estados Unidos reside em sua capacidade de influenciar povos e países em favor de seus objetivos. A exportação de seu modelo de “democracia” serve a objetivos puramente políticos, subvertendo a história de cada nação e provocando mais confusão, intolerância e guerra.

A cada ano que passa, a Iniciativa de Civilização Global ganha relevância e atualidade. A marca registrada das iniciativas lançadas pela China está na antecipação dos problemas que afligem o desenvolvimento mundial. Por exemplo, a Iniciativa Cinturão e Rota previu a necessidade de uma onda de investimentos em interconexão global e intercâmbio industrial, produtivo, financeiro e comercial, algo que hoje se mostra plenamente acertado. O mesmo acontece na Iniciativa de Civilização Global, na qual a China e sua diplomacia, partindo de seu próprio exemplo de tolerância à diversidade, enviam ao mundo os sinais necessários para promover a paz e o direito ao desenvolvimento.

 

Eis a nova estrutura do poder global, por Ladislau Dowbor

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Após quatro décadas de disputa política, os homens mais ricos do mundo são mais poderosos que qualquer poder estatal no Ocidente. As lógicas que comandam vão reduzir o planeta a um inferno social e ambiental – até que alguém os detenha

Por Ladislau Dowbor – OUTRAS PALAVRAS – 14/03/2025

O Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça,
onde o grupo é conhecido por se reunir anualmente,
para limpar sua reputação
Peter S. Goodman – O Homem de Davos, 2024

Esses Estados neoliberais abriram
cada território nacional para o saque corporativo
transnacional de recursos, mão de obra e mercados
William I. Robinson, 2016

Nossas atividades econômicas diárias geralmente são bem simples. A farmácia, as lojas, o supermercado, o ônibus, eventualmente um Uber, o posto de gasolina, levar as crianças para a escola e assim por diante. Parece bem local. Mas olhar para cima, em vez de obedecer ao filme Don’t Look Up, é o mais necessário, se quisermos entender por que os preços sobem, por que há tanto plástico e por que as prateleiras dos supermercados estão cheias de comida ultraprocessada. Sabemos que tudo isso é ruim, e as lojas também sabem. Tudo isso deveria ser regulado – mas se espalha, cada vez mais. Na verdade, quem está no comando?

Finalmente, muitos pesquisadores ousaram olhar para cima e aos poucos trouxeram luz à bagunça que temos e às formas estamos começando a distinguir. Um bom ponto de partida é a crise financeira global de 2007, que levou o ETH, o principal instituto público de pesquisa suíço, a apresentar em 2011 o primeiro estudo abrangente sobre a rede de controle corporativo global. Os resultados foram impressionantes: 737 corporações controlam 80% do mundo corporativo global. Destas, 147 controlam 40% — e 70% delas são instituições financeiras. Este é o topo da pirâmide: basicamente, gestão de dinheiro.

O governador do Banco da Inglaterra comentou à época que o estudo mudava nossa visão sobre como a economia funciona. Os autores da pesquisa afirmavam no artigo: não havia como evitar a constatação de que estávamos diante do “clube dos ricos”. Igualmente impressionante é o fato, destacado por eles, de que este foi o primeiro estudo global sobre o poder corporativo, embora o processo de sua formação estivesse em andamento por décadas – basicamente desde que Margareth Thatcher e Ronald Reagan colocaram-se a serviço das corporações. Claramente, não havia interesse em jogar luz sobre o assunto. Mas agora temos uma imagem mais clara.

A corporação Vale é um bom exemplo. É uma multinacional e a maior produtora de minério de ferro e níquel do mundo. De acordo com a Wikipedia, “também produz manganês, ferroligas, cobre, bauxita, potássio, caulim e cobalto, operando atualmente nove usinas hidrelétricas e uma grande rede de ferrovias, navios e portos usados para transportar seus produtos.” O total de ativos em 2021 é de cerca de US$ 90 bilhões, pertencentes a Ma’aden, Previ, BlackRock e Mitsui & Co. Foi uma empresa estatal brasileira, e na época seus lucros permitiam ao Estado financiar distintos projetos de desenvolvimento, como ocorria também com a Petrobrás. Atualmente, a Vale basicamente exporta matérias-primas brasileiras, gerando dividendos para acionistas internacionais e seus parceiros brasileiros. É uma corporação enorme e diversificada que serve interesses dos que estão no topo da pirâmide.

Privatização também é desnacionalização e representa, em essência, um escoamento das riquezas minerais do país. Isso fragiliza a capacidade de investimento público em políticas sociais como educação, saúde, segurança e outros serviços públicos essenciais que representam os “salários indiretos” da população. Também afeta infraestruturas como energia, transporte, comunicações e o complexo de água/esgoto, essenciais para a população, mas também para a produtividade da economia como um todo. A privatização tornou-se um dreno: a população e as empresas locais pagam o preço. As corporações de gestão de ativos, no topo, enriquecem mais. Tudo isso aprofunda o abismo global de desigualdade.

O processo de decisão é essencial aqui. É o que podemos chamar de governança corporativa. A empresa está no Brasil e os materiais extraídos estão no território brasileiro, mas o processo de decisão migrou para alguns acionistas-chave como BlackRock, Vanguard, UBS, JP Morgan e afins. Eles são os chamados proprietários ausentes, e isso mudou o sistema geral de governança. A Vale e sua empresa dependente Samarco sabiam que precisavam consertar as barragens que continham subprodutos contaminados da mineração – mas os proprietários ausentes decidiram que aumentar os dividendos era mais importante. O resultado foi a tragédia de Mariana e Brumadinho, enormes rompimentos de barragens, perda de vidas e contaminação geral. Os acionistas da Vale – como a empresa saudita Ma’aden, a americana BlackRock e a japonesa Mitsui – tomavam as decisões, maximizando os dividendos no curto prazo.

Uma impressionante série de processos judiciais seguiu-se e continua até hoje; as empresas terão que pagar dezenas de bilhões, mas estão “negociando”. Lembra-se a tragédia da plataforma Deepwater Horizon, da British Petroleum, no Golfo do México? Agora temos os relatórios, e o próprio processo foi encontrado. A BP havia suspendido a manutenção para aumentar os dividendos. E, como os bônus dos gerentes estão ligados aos dividendos, o processo de decisão privilegia o fluxo do dinheiro para o topo, não os resultados na base. É simples assim. O crescimento fantástico dos salários dos CEOs — de 20 para 300 vezes o salário médio da empresa, em algumas décadas – está diretamente ligado à explosão dos lucros financeiros (rentas, na verdade, já que não se baseiam em contribuição produtiva) no nível de gestão de ativos no topo, e ao crescimento lento no nível dos que produzem.

É difícil para as pessoas imaginarem onde fica o topo ou com o que ele se parece. A edição de 2024 da Forbes Bilionários do Mundo mostra as 2.781 pessoas nesta condição, no mundo, sentados sobre uma riqueza acumulada de US$ 14 trilhões — mais da metade do PIB dos Estados Unidos. Sua riqueza cresceu 17% em 12 meses. Como o crescimento do PIB foi de cerca de 3%, estamos enfrentando uma extração líquida pela pequena elite feliz . O principal processo de acumulação de riqueza é apenas marginalmente baseado em investimento produtivo, sendo essencialmente derivado de investimento financeiro. Basta controlar uma pequena parte das ações, no universo geral de acionistas dispersos, para impor o controle das empresas por parte das principais corporações de gestão de ativos.

Em Titans of Capital (2024), Peter Phillips nos traz o panorama geral do sistema de governança global. “Os 0,05% mais ricos do mundo são 40 milhões de pessoas, incluindo mais de 36 milhões de milionários e 2.600 bilionários, que repassam seu capital excedente para empresas de gestão de investimentos como BlackRock e JP Morgan Chase. As dez maiores entre estas empresas controlavam juntas cerca de 50 trilhões de dólares em 2023. Essas empresas são gerenciadas pelas 117 pessoas identificadas abaixo. As dez maiores empresas de investimento de capital investem extensivamente umas nas outras. Os investimentos cruzados entre elas totalizaram US$ 320 bilhões em 2022. As práticas de investimento cruzado implicam um monitoramento próximo e recíproco das políticas de cada uma, e uma comunalidade de interesses mútuos na manutenção e crescimento do mercado. Os 117 Titãs decidem como e onde o capital global será investido.

As dez corporações gerenciaram US$ 26,1 trilhões em 2017 e US$ 49,5 trilhões em 2022, um crescimento de 89,4% em cinco anos. Isso nos dá não apenas a dimensão da concentração de poder econômico, mas também o nível de aceleração. Ao focar no que ele chama de titãs — os principais gestores desses 10 gigantes corporativos — Phillips traz uma nova abordagem, mas que converge de perto com a pesquisa suíça sobre a rede de controle corporativo mundial e a lista de bilionários da Forbes mencionadas acima. Temos, assim, o controle corporativo e os gigantes de riqueza resultantes, e agora passamos aos 117 diretores das 10 principais corporações. “Embora possa haver milhares de pessoas com riqueza pessoal igual ou maior do que a dos 117 titãs individuais, o que os torna significativos é sua responsabilidade pelas decisões de investimento de cerca de US$ 50 trilhões”.

“Sentados nos conselhos da mais alta concentração de riqueza de capital na rede global de investimentos, suas decisões aceleram a concentração de capital, impactam o meio ambiente, garantem lucros com guerras regionais e globais, minam as democracias e colocam em risco a estabilidade socioeconômica para todos.” Esses são os gestores do sistema global. Dois terços deles são americanos. “Eles nasceram nos Estados Unidos ou na Europa, foram criados em uma família rica e frequentaram uma universidade privada de elite… Eles levam a sério sua responsabilidade fiduciária de maximizar os retornos sobre os investimentos de capital sob seu controle.”

Isso tem pouco a ver com a competição de livre mercado. A maioria desses diretores gerencia simultaneamente interesses semelhantes, em corporações situadas entre as dez primeiras. Phillips apresenta suas posições em 133 corporações desse grupo. Assim, por exemplo, a BlackRock tem 17 diretores, com ativos sob gestão (AUM) de US$ 9,5 trilhões em 2022, e investimentos cruzados na Vanguard, StateStreet, CapitalGroup, FidelityInvestments e MorganStanley. Apenas como referência de proporções, enquanto em 2024 os diretores da BlackRock gerenciam mais de US$ 10 trilhões, o orçamento federal manejado pelo presidente dos Estados Unidos é de cerca de US$ 6 trilhões.

A maioria dessas 10 principais corporações de gestão de ativos investe e exerce controle em outro grupo de gigantes, as 7 empresas de tecnologia dos EUA5:

Os interesses convergentes de gestores de dinheiro e corporações de alta tecnologia alcançam cada um de nós por meio de diferentes áreas ou de intermediação, para compras ou na indústria da atenção — horas do nosso tempo diário. Também geram um novo sistema de controle pesado no topo, com poder extremamente concentrado, além de uma rede capilar global que atinge a todos nós. Eles controlam os três conselhos políticos de elite (Conselho de Relações Exteriores, Business Roundtable e Business Council), exercem uma influência-chave no Fórum Econômico Mundial, participam das principais instituições de inteligência e militares e das corporações produtoras de equipamentos bélicos; das 10 maiores corporações de petróleo e gás; das 6 maiores produtoras de carvão; das 5 maiores corporações de tabaco; das indústrias de plásticos, armas de fogo e jogos de azar; e do sistema prisional privado, em expansão. Tudo o que gera muito dinheiro.

Descendo a pirâmide, podemos ver como esses diretores da BlackRock determinarão decisões no mundo corporativo brasileiro:

A BlackRock está em muitas áreas da economia brasileira, mas também em muitos outros países. O denominador comum no processo de decisão é a maximização de curto prazo para os acionistas. Esse dinheiro virtual pode atingir, literalmente, todos os bolsos. A enorme dívida estudantil em todo o mundo afeta incontáveis estudantes, a dívida de saúde tornou-se um problema gigante – particularmente nos países onde os serviços de saúde foram privatizados – e todos nós contribuímos com parte de nossos gastos em todas as áreas, pagando através da Visa, por exemplo, pegando um Uber ou fazendo compras na Amazon. A desigualdade global tornou-se absurda, como documentado em muitos relatórios. Os dramas ambientais são igualmente desafiadores. Este estudo de Peter Phillips mostra os titãs desempenhando um papel fundamental em ambos os processos.

Larry Fink, bilionário e CEO da BlackRock, atua como curador do Fórum Econômico Mundial e continua se referindo a ESGs e responsabilidade corporativa. Jamie Dimon, presidente do Business Council e CEO da JP Morgan Chase, enfatiza que “esses princípios modernizados refletem o compromisso inabalável da comunidade empresarial em promover uma economia que sirva a todos os americanos.” De acordo com Phillips, “o Manifesto de Davos fornece aos Titãs uma justificativa moral para continuar seu caminho de desigualdade, enquanto se posicionam como sensíveis às preocupações com direitos humanos e meio ambiente.”

A concentração de poder econômico, social e político em nível planetário tem se acelerado nas últimas décadas, à medida que as tecnologias avançam e o poder gera mais poder, permitindo mais concentração. Estamos enfrentando uma enorme pirâmide de poder de geração de dinheiro, que devasta o mundo por meio da desigualdade e de catástrofes ambientais, e derrubam qualquer tentativa de regulamentação.

1Texto publicado originalmente em inglês, na revista digital Meer.

2 S. Vitali et al., A rede de controle corporativo global – ETH – 2011.

3 Forbes Brasil, ano XI, n. 118, 2024.

4 Peter Phillips – Titans of Capital: como a riqueza concentrada ameaça a humanidade – The Censored Press, Nova York, 2024.

5 US Big Stocks Surge – Visual Capitalist – O Valor Crescente dos Sete Magníficos

6João Peres – No Brasil, maior gestora de fundos do planeta tem investimento três vezes mais poluidor que na Europa e nos EUA – O Joio e o Trigo, 18 de maio de 2024.

Tradução: Antonio Martins

Keynes: sua ousadia e seus limites, por Eleutério F. S. Prado

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Novo livro tenta interpretar papel do economista mais influente nos “anos dourados” do pós-guerra. Ele rechaçava a idea do mercado ordenador da sociedade. Mas jamais almejou uma democracia radical, por não ir além do horizonte burguês

Eleutério F. S. Prado – OUTRAS MÍDIAS – 12/07/2021

De modo bem sintético, o keynesianismo talvez possa ser exposto por meio de uma analogia atrevida que emprega o circuito do capital em geral. Pelo menos está assim apresentado no livro de Geoff Mann,[i] No longo prazo estaremos todos mortos (2017): “Assim como a mercadoria foi posta por Marx, no circuito do capital em geral, isto é, em D – M – D’, como um termo médio na expansão do valor, a dialética keynesiana captura a dinâmica central do liberalismo iliberal pondo o Estado como um termo médio no circuito L – E – L’, o qual realmente vem existindo há dois séculos” (Mann, 2017, p. 386).

Ora, como a tese contida nessa analogia se afigura bem atilada mesmo após uma segunda vista, a nota que se segue visa explicá-la.

Note-se logo que Mann caracteriza John M. Keynes como um liberal iliberal, como alguém que atua como advogado da intervenção do Estado para modificar e preservar o liberalismo, isto é, a liberdade forçada e a prosperidade restritiva que o sistema econômico realmente existente faz existir. Mas isto, segundo ele, não é novo. Pois, o capitalismo não tem subsistido por força apenas dos mercados, mas, ao contrário, tem sido renovado e reconstituído pelo Estado e pela economia política intervencionista há muito tempo. Segundo esse autor, tem sido assim pelo menos desde o golpe de novembro de 1799, quando Napoleão Bonaparte tomou o poder em França, após a Revolução de 1789.

Keynes, portanto, foi mais um protagonista, mesmo se importantíssimo, num contínuo de atuação econômica e política estatal contra-arrestante que vem de bem longe. Tal como outros antes e depois dele, julgava de modo iliberal que as sementes de sua própria destruição estão sempre a germinar no capitalismo. E que elas não se desenvolvem até o ponto em que isto realmente acontece porque a atuação do Estado protege, salva e, assim, repõe constantemente o liberalismo.

Eis como Mann explica o keynesianismo: “A contribuição decisiva do keynesianismo para o liberalismo consistiu em legitimar a sua hegemonia, generalizando continua, pragmática e cientificamente uma visão do mundo na qual o bem-estar proporcionado pelo Estado e a prosperidade da sociedade civil se apresentam conceitualmente como inseparáveis. E esta é mesmo a própria definição de “civilização” [na ótica de Keynes]. Este inescapável liberalismo iliberal mostrou-se essencial para a sobrevivência mesmo do liberalismo clássico, bem mais dogmático; pois, lhe abasteceu com uma lógica política ansiosa, sem a qual ele não teria sobrevivido sem um uso constante da força bruta. A burguesia e a classe média são assim tanto efeito como causa da “civilização” keynesiana”. (Mann, 2017, p. 386).

Mas por que menciona que a lógica política do keynesianismo está atravessada pela ansiedade? Mann sugere que um misto de esperança e de medo está subjacente ao legado desse economista que não endossava o liberalismo clássico. E que esse composto contraditório se encontra implícito na declaração emblemática de que “no longo prazo estaremos todos mortos” – expressão esta que, por isso mesmo, foi escolhida como título do seu livro. Eis que o keynesianismo instala-se entre a promessa de sucesso econômico e a ameaça constante de que sobrevenham novos desastres, mesmo eventualmente grandes tais como aquele da Crise de 1929. Ele sabe que o sistema econômico apronta sempre novos acidentes e que, portanto, a vida dos seus gestores não é fácil.

Essa expressão sugere, ademais – como ressalta Mann –, que viver num certo estado de inquietação quanto ao devir é a sina inexorável de toda a “civilização” possível. Sob essa perspectiva, não haveria, também, qualquer caminho para construir outro futuro melhor além daquele que conserva o núcleo do capitalismo do melhor modo possível. Existiriam outras alternativas, mas todas elas, inevitavelmente, trariam de algum modo o espectro do autoritarismo e mesmo do barbarismo. Dito de outro modo, para Keynes o capitalismo seria o fim hegeliano da história.

Do ponto de vista econômico, o keynesianismo é aquilo que os economistas keynesianos fazem em termos teóricos e práticos ou aquilo que está referido a um conjunto bem definido de proposições sobre o funcionamento do sistema econômico, as quais estão presentes e demarcam a herança de Keynes, em particular na Teoria geral do emprego, do juro e do dinheiro? Ainda que a primeira alternativa possa ser aceitável, é evidente que o legado de Keynes tem certas características bem definidas: a atividade do dinheiro, a instabilidade do investimento na manutenção da demanda efetiva, a incerteza sistêmica que envolve as decisões empresariais, o papel contra-arrestante do Estado etc.

Há, entretanto, um ponto fundamental. É central observar que a sua teoria econômica é estagnacionista: “quanto mais rica for a comunidade, mais tenderá a ampliar a lacuna entre a sua produção efetiva e a potencial; e, portanto, mais óbvios e maléficos os defeitos do sistema econômico” (Keynes, 1983, p. 33). Assim como verificar que essa sua visão crítica se alevanta de uma análise focada na circulação – e não na produção de mercadorias, tomando estas como formas de capital (Prado, 2016). Pois, como indicou Marx ironicamente, “a esfera da circulação ou do intercâmbio de mercadorias (…) é de fato um verdadeiro éden dos direitos naturais do homem (…) liberdade, igualdade, propriedade e Bentham” (Marx, 1983, p. 145).

É, pois, na esfera da sociabilidade do mercado que se encontram as reservas de Keynes ao capitalismo. A exploração, a alienação e o conflito entre as forças produtivas e as relações de produção não são problemas para ele. Diferentemente, ele enfatiza sobretudo que a própria natureza das interações mercantis dificulta a conciliação do interesse individual com o bem-estar coletivo. E, nesse sentido, como ressalta Mann, ele não compartilha o otimismo cínico de Bernard Mandeville exposto em sua Fábula das abelhas. Para ele a busca do auto interesse não teria sempre como consequência o bem-estar comum – mas um latente e permanente mal-estar. Ademais, a má repartição da renda e o desemprego decorrentes, em última análise, das interações movidas pelos interesses próprios, costumam alimentar uma raiva de fundo na sociedade mercantil que pode minar – julga ele – o seu potencial civilizador.

Segundo Geoff Mann, três características distinguem a longa tradição a qual pertence John M. Keynes. A primeira delas é a ausência de um humanismo universalista capaz de projetar um futuro civilizado para todos os seres humanos. Ao contrário, toda a sua preocupação civilizatória concerne apenas ao mundo euro-americano; eis que apenas o bem-estar desta fração da humanidade lhe interessa: “o keynesianismo” – diz – “tem sido quase sempre não apenas uma crítica elaborada no interior do capitalismo liberal dos estados-nações ‘industriais’ da Europa Ocidental e da América do Norte – mas tem sido sobretudo uma crítica que ignora todo o resto”. Nesse sentido, trata-se – como também diz – de uma crítica social moderadora que “espelha perfeitamente o mundo burguês, colonialista, masculino e branco no qual e para o qual fala” (Mann, 2017, p. 47).

A doutrina liberal do keynesianismo é geralmente denominada de “liberalismo embutido” para acentuar que prevê a realização da liberdade burguesa apenas no interior de uma ordem social que põe certa unidade, certa harmonia. Keynes, em particular, é crítico do que também se costuma chamar de “liberalismo desembutido”, o qual embasara a visão de mundo da economia política clássica e do imperialismo do livre-comércio. Em consequência de seu viés euro-americano, essa doutrina, tal como aquela que visa superar, é plenamente consistente com a aceitação ativa ou passiva da falta grosseira de liberalismo na periferia do sistema global. Mais do que isso, é consistente com a tese de que a ordem internacional pode e deve ser posta apenas pelo conjunto dos países ricos que se veem como mais desenvolvidos – mesmo se os países pobres e remediados a recusam.

A segunda característica é a ausência de adesão ao dogma liberal que manda priorizar sempre a liberdade individual frente a igualdade e a justiça social. Diferentemente, essa tradição acolhe costumeiramente um individualismo mitigado, tomando a liberdade da pessoa como condição necessária, mas não exclusiva em si mesma e, assim, não suficiente, para realizar uma sociedade civilizada. Se é um fim, é também um meio para negociar a realização de um estado social em que ela própria pode existir junto como o bem-estar coletivo. Segundo Mann, o projeto keynesiano contém no fundo uma ambição para criar algo novo, um lugar, portanto, que ainda não existe. Eis que acredita que “liberdade, solidariedade e segurança podem ser plenamente alcançadas numa ordem social racional”, isto é, numa ordem construída pela vontade e pela razão humana (Mann, 2017, p. 49).

Nesse sentido, é bem sabido que Keynes considerava o estado lamentável da sociedade de seu tempo como uma confusão colossal (colossal muddle), a qual desejava ver superada. É sabido também que ele próprio estava se esforçando nos anos 1930 para contribuir ao máximo para que isso ocorresse. A sua teoria geral nunca foi um empreendimento puramente acadêmico, ao contrário, pretendia intervir nos rumos da sociedade, isto é, da sociedade que lhe interessava.

A terceira característica do keynesianismo é um certo otimismo prático, uma crença forte na capacidade de resolver os problemas da sociedade por meio de intervenções públicas adequadas. É assim que Mann explica a falsa consciência que obra no interior dessa corrente de pensamento:

Diante das forças autodestrutivas produzidas pela própria sociedade civil, quer mostrar que tais tendências funestas não devem necessariamente levar a um fim trágico ou mesmo a uma ruptura temporária ou ainda a uma severa penitência. Ao contrário, sustenta que mediante paciente e pragmática supervisão, as instituições existentes, as ideias e as relações sociais têm o potencial de produzir, sem quebras, uma transformação radical da ordem social.

Se os conservadores arguem que é possível chegar ao ‘melhor de todos os mundos possíveis’ zelosamente protegendo o status quo, se os liberais falam que é possível alcançá-lo por meio do compromisso com um conjunto de ideais abstratos, se os radicais afirmam que isto é possível por meio de uma reconstrução pela raiz da vida social, os keynesianos dizem que um mundo radicalmente diferente se encontra pacificamente em potência na ordem social existente – na ordem euro-americana, liberal e capitalista, obviamente. (Mann, 1917, p. 50).

O keynesianismo é, portanto, autoconfiante. Propugna por um capitalismo sem capitalismo a ser alcançado por meio de uma revolução sem revolução, afirmando peremptoriamente que sabe muito bem como se chega lá. Em consequência, afirma-se na teoria – e mais ainda na prática-política – com certa arrogância. Quando é chamado por uma força política vencedora, passa a atuar para criar a boa e prospera ordem social que julga possível. Esta – crê – pode ser realizada historicamente mediante o constante emprego de uma inteligência prática de administradores competentes, ou seja, de um construtivismo social capaz de pôr em prática boas correções e reformas em resposta aos problemas que surgem.

É muito claro que Keynes, o pai fundador dessa corrente de pensamento prático-político em sua versão contemporânea, não acreditava nem na capacidade de autorregulação da sociedade nem no bom funcionamento espontâneo dos mercados. Ao contrário, ele pensava que a sociedade e os mercados, ao serem deixados por sua própria conta, tendiam à desordem, aos impasses e às crises, alongar-se-iam na criação de esgarçamentos e rupturas que sempre podem vir a crescer e a ameaçar a sua própria existência. Segundo Mann, com Hobbes, Keynes pressentia que sob o “contrato social” vigente escondia-se o “estado de natureza” e que, portanto, ele apenas se manteria incólume por meio da ação do Estado.

Ou seja, em resumo, L – E – L’. Ou ainda “não L – L”, ou seja, o keynesianismo é uma negação determinada, não radical, do liberalismo clássico.

O keynesianismo tem, pois, fé no Estado – e não mercado – como força constantemente restauradora da “civilização”. Acredita, pois, que apenas o Estado se constitui como potência capaz de integrar a sociedade, de “harmonizar o particular e o universal, material e ideologicamente, sem sacrificar nenhum deles” (Mann, 2017, p. 54). É ele e somente ele que pode fazer existir o “estado de bem-estar social”.

Entretanto, é preciso ver que essa “civilização” almejada pelo imaginário keynesiano não pode advir de uma “democracia popular” ou de um “democratismo populista” ainda no âmbito do capitalismo e muito menos poderia decorrer da democracia radical que, segundo Marx, seria posta historicamente, ao seu devido tempo, pelos “trabalhadores livremente organizados”. Ao contrário, o keynesianismo mantém certo desapreço pelo potencial civilizador da democracia, pois, para nele acreditar, é preciso confiar fortemente na capacidade da sociedade de resolver os seus próprios problemas. Ora, tal como os marxistas secretamente hobbesianos,[ii] ele nunca acreditou nisso. Nesse sentido, o keynesianismo – do mesmo modo que o neoliberalismo – quer resguardar do voto popular um espaço crucial para certas decisões tecnocráticas – aquele âmbito em que se tomam, por exemplo, as decisões que afetam os fundamentos da economia e da segurança nacional.

Em consequência, ambas essas correntes têm algo em comum.

É preciso reforçar, para finalizar, que também o neoliberalismo pode ser sinteticamente explicado pela lógica L – E – L’, com a diferença de que, para ele, a tarefa central do Estado não é realizar o “estado de bem-estar social”, mas, ao contrário, é impor a concorrência e a competição como norma de vida em todas as esferas da sociedade (Dardot e Laval, 2016).

Enquanto o keynesianismo propõe uma metamorfose plástica do liberalismo por meio da mediação do Estado, o neoliberalismo propõe uma metamorfose cínica. Confessa que a “justiça social” não convém à “ordem liberal”; postula que os humanos devem ser apenas sujeitos do dinheiro; e, para chegar aos seus objetivos, quer fracionar ao máximo a sociedade para reforçar o domínio da burguesia. A diferença em relação ao keynesianismo, pois, não é pequena – e pode mesmo ser considerada imensa –, mas ela está posta num fundo comum de identidade. Ora, é este último – o privilégio do Estado na mudança social – que atualmente precisa ser superado.

Eleutério F. S. Prado é professor titular e sênior do Departamento de Economia da USP. Autor, entre outros livros, de Complexidade e práxis (Plêiade).

Referências

Dardot, Pierre & Laval, Christian. A nova razão do mundo: Ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.

Keynes, John M. Teoria geral do emprego, do juro e do dinheiro. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

Mann, Geoff. In the long run we are all dead: Keynesianism, political economy, and revolution. Londres: Verso, 2017.

Marx, Karl. O capital. Crítica da Economia Política. Livro I, tomo 1. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

Prado, Eleutério F. S. “Como Marx e Keynes demarcam o campo da macroeconomia”. Revista da Sociedade Brasileira de Economia Política, nº 45, outubro-dezembro de 2016.

Notas

[i] Professor da área de Geografia da Universidade Simon Fraser, Canada.

[ii] A mediação do Estado, neste caso, não visa repor o liberalismo, mas instalar o “socialismo realmente existente”, isto é, L – E – SOREX.