Grandes plantações atrapalharam desenvolvimento do Brasil, diz economista

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Para Oded Galor, transferências de renda aos pobres não resolvem desigualdade a longo prazo

RAFAEL BALAGO – FOLHA DE SÃO PAULO, 25/02/2023

SÃO PAULO Um cidadão de Jerusalém do século 1, caso fosse levado ao século 18 por uma máquina do tempo, não estranharia tanto as coisas: haveria mais gente e novos costumes, mas a expectativa de vida e os modos de trabalho, como plantar e fabricar utensílios, tinham mudado pouco.

No entanto, um cidadão do começo do século 18 que fosse trazido para os dias atuais não entenderia nada ao ver carros, celulares e robôs que produzem coisas, aponta o economista Oded Galor, no livro “A Jornada da Humanidade” (ed. Intrínseca).

Na obra, Galor apresenta sua visão sobre quais fatores levaram a humanidade a dar um salto tecnológico impressionante em pouco mais de dois séculos, depois de milênios de avanços lentos, e como esta mudança gerou enormes desigualdades.

Criador da teoria unificada do crescimento econômico e professor da universidade Brown, ele considera que os principais motores para este salto foram o avanço da educação e a redução das taxas de natalidade: com menos filhos, foi possível investir mais na formação deles. Em um ciclo virtuoso, mais gente com conhecimento passou a inventar coisas e a avançar a revolução tecnológica, o que facilitou o acesso a novos produtos para cada vez mais gente.

No entanto, boa parte das sociedades do mundo ficaram para trás: se industrializaram tarde e não conseguiram alcançar a qualidade de vida dos países desenvolvidos. Em conversa por videochamada com a Folha, Galor falou sobre como vê as perspectivas para o Brasil e a América Latina.

Como avalia a desigualdade social no Brasil? Muito dela tem origem em forças surgidas centenas ou milhares de anos atrás. No Brasil, um dos obstáculos históricos da prosperidade é que a geografia do país favorece o cultivo agrícola em grandes plantações. Essas plantações levaram ao surgimento de uma elite que controla a agenda política e o formato das instituições.

Assim, as instituições têm um desenho extrativista. Estas entidades são formadas de modo a sustentar a desigualdade na sociedade e manter os privilégios das elites.

A aristocracia agrícola não tem incentivo para investir na educação da população, porque a educação é um veículo que permite aos indivíduos se mover para o setor urbano. A elite, historicamente, no Brasil e em outras partes, se engajou em tentar bloquear reformas educacionais, como forma de prevenir a mobilidade dos trabalhadores e evitar um declínio na sua renda. O baixo investimento em educação e as instituições extrativistas levam ao surgimento da desigualdade que vemos hoje no Brasil e em outros lugares.

Como vê as chances do Brasil de superar a desigualdade? O país está em boa posição para se juntar aos ricos do mundo. Pode aproveitar seus recursos naturais e sua população diversificada para avançar. Mas a ênfase precisa estar em ter uma população educada e mais orientada ao futuro.

Também é preciso reduzir o máximo possível a corrupção.

Como o senhor vê a importância de fazer pagamentos diretos às pessoas pobres, como o Bolsa Família no Brasil e os auxílios dados nos EUA no auge da pandemia? É uma solução temporária. O caminho é garantir igualdade de oportunidades para as crianças terem acesso a uma educação excelente e que, assim, cada indivíduo possa realizar seu potencial.

As transferências podem ser incontornáveis se as pessoas estão morrendo de fome, mas não são uma política de longo prazo. Uma política de longo prazo deve garantir que as pessoas sejam educadas com uma mentalidade orientada ao futuro. Se você olha medidas orientadas ao futuro, como taxas de poupança, o Brasil está atrasado. Transferência de renda podem simplesmente estimular o hábito de viver de um pagamento ao outro.

O avanço da inteligência artificial pode ajudar a reduzir a desigualdade entre os países? Ou pode concentrar mais riqueza para os países que a dominam? Quando pensamos na desigualdade que surgiu na economia mundial nas últimas quatro ou cinco décadas, que é bastante significativa, parte tem a ver com a globalização e parte com a aceleração tecnológica, que evolui rapidamente.

Parte da razão desta grande desigualdade é que alguns segmentos da sociedade não investem apropriadamente em educação. O avanço da IA colocará ainda mais pressão, irá requerer mais investimentos em preparação.

A tecnologia IA é uma grande vantagem para a humanidade. Talvez nos permitirá produzir muito e ter mais tempo para o lazer do que antes. Ao mesmo tempo, irá gerar grande desigualdade. A sociedade precisa ser mais generosa. Os indivíduos que não consigam participar desse processo precisam ter alguma rede de proteção.

O esforço de combate às mudanças climáticas pode dificultar o desenvolvimento e a redução das desigualdades? A mudança climática é talvez o maior desafio que a humanidade já encarou. Eu sou otimista sobre nossa habilidade em contê-la. Em minha pesquisa, explorei a evolução da humanidade.

Nossa engenhosidade sempre está lá para nos salvar dos grandes desafios. Talvez nas próximas duas ou três décadas, surjam tecnologias revolucionárias. Podemos avançar para tecnologias ambientalmente amigáveis e devemos colaborar na aplicação de padrões ambientais estritos e mais firmes.

Esse esforço ambiental pode ajudar a reduzir a desigualdade entre países ricos e pobres? Não acho.

É possível que as economias ricas vão sentir que precisam de grande cooperação das sociedades
menos desenvolvidas, e serão capazes de pagar pela redução de emissões de carbono. Para o Brasil, há a possibilidade de que o país seja pago de forma substancial para manter a Amazônia viva, e consequentemente ira se beneficiar dessa necessidade.

No entanto, a grande questão será que as sociedades menos desenvolvidas vão investir menos em tecnologias para mitigar as consequências físicas da mudança climática, como construir barragens contra enchentes. O sofrimento humano será muito mais desigual no futuro.

Em uma palestra recente, o senhor disse que a América Latina tem alguns países com sociedades muito homogêneas, e que isso pode afetar o desenvolvimento. Poderia explicar melhor? Uma importante dimensão para a disparidade econômica é o grau de diversidade na sociedade. A diversidade é uma fonte de fertilização de ideias que gera inovações.

Por outro lado, essa diversidade pode gerar falta de coesão social. Sociedades mais diversas tendem a ser menos confiáveis e a ter maior propensão ao conflito.

Ao contrário de muitas sociedades latino-americanas, o Brasil é diverso. O obstáculo é a falta de coesão social e as políticas desejáveis de educação que preparem as pessoas para terem maior tolerância e respeito ao pluralismo.

Raio-x

Oded Galor, 70, é um economista israelense-americano criador da teoria unificada do crescimento econômico. É professor de economia na Brown University, membro da Academia Europaea e da Econometric Society.

O novo ensino médio, por Luís Felipe Miguel

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Luís Felipe Miguel

22/02/2023 – A Terra é redonda

Uma forma de precarização do ensino dos mais pobres

O “Novo Ensino Médio” foi um dos retrocessos impostos pelo golpe de 2016. A gente sabe que direitos trabalhistas foram perdidos, a economia foi desnacionalizada e as políticas sociais do Estado foram asfixiadas (com o teto de gastos), tudo aprovado a toque de caixa, sem discussão com a sociedade ou mesmo no Congresso. Com a educação foi pior ainda – a mudança veio por meio de medida provisória, baixada por Michel Temer em 2016 e convertida em lei em 2017.
Apesar de toda a propaganda, o “Novo Ensino Médio” logo mostrou o que é: precarização do ensino dos mais pobres.

Sob o pretexto de dar “flexibilidade” aos estudantes, o “Novo Ensino Médio” esvazia a formação básica de quem é submetido a ele. História do Brasil, por exemplo, não existe mais. De maneira geral, disciplinas voltadas à formação do senso crítico e da cidadania ativa foram extirpadas.

Em seu lugar entram conteúdos relacionados a “empreendedorismo” e “marketing”. A reforma se exibe como perfeitamente alinhada ao espírito do neoliberalismo.

A anunciada “flexibilidade” é uma balela, já que a esmagadora maioria das escolas não oferece quase nenhuma alternativa de “percursos formativos”.

Na prática, a educação é segregada, oferecendo aos filhos da classe trabalhadora uma formação “adequada” às posições subalternas que eles estão destinados a exercer – e reservando aos herdeiros das elites horizontes mais alargados. Um colunista da revista Veja, na época, foi sincero: tratava-se de restaurar “a fórmula tradicional de uma formação profissional para os pobres e uma educação clássica para as elites”.

No papel, o “Novo Ensino Médio” representa o ideal das fundações empresariais de promoção da educação, como a que leva o nome do abutre das Lojas Americanas. Uma boa escola para formar mão de obra competente e dócil.

Na realidade, levou à precarização absoluta do ensino, com professores sendo deslocados de suas áreas de competência para ministrar disciplinas bizarras. Que tal trocar Sociologia por um curso de “Brigadeiro Caseiro”, Química por “Mundo Pet” ou História por “RPG”?

Como disse Fernando Cássio, professor da UFABC, “Sim, há evidências suficientes para afirmar que o Novo Ensino Médio visa simplificar a formação de uma massa de jovens para um precarizado e plataformizado mercado de trabalho contemporâneo, cristalizando desigualdades de oportunidades entre ricos e pobres”.

O governo tem falado em aperfeiçoar o Novo Ensino Médio, como se seus problemas não fossem de fundo. É uma demonstração da penetração das fundações empresariais de promoção da educação no MEC comandado por Camilo Santana.

É necessário revogar a reforma – e iniciar uma discussão real, com ampla participação de educadores e estudantes, sobre o ensino médio que se quer para o Brasil, igualitário, emancipador e de qualidade. É o que se espera de um governo comprometido com a democracia e a justiça social.

*Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de Democracia na periferia capitalista: impasses do Brasil (Autêntica).

País tem duas correntes antipolíticas, e ambas se baseiam no horror, por Wilson Gomes.

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Primeiro tipo é um decadentista bem-educado e o segundo tem na grosseria um dos seus programas fundamentais

Wilson Gomes, Professor titular da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e autor de “Crônica de uma Tragédia Anunciada”

Folha de São Paulo, 22/02/2023

Mesmo depois das Trevas Bolsonaristas, última etapa da fase de devastação da vida pública nacional que foi motivada por uma enorme onda de sentimento antipolítica, há ainda quem realmente considere que o desprezo pela política é coisa muito sofisticada e nitidamente superior.

Mas não foi o antipetismo o combustível do ciclo de autodestruição que estará completando uma década este ano e que alimentou as várias camadas de crise que nos levaram quase ao fundo do abismo?

Certamente, mas o antipetismo é tão somente uma forma aguda do sentimento antipolítica que emergiu numa circunstância em que o PT vinha de três mandatos presidenciais seguidos.

Tanto é verdade que os portadores da atitude antipolítica viraram ferozes anti-Temer apenas seis meses depois de consolidado o impeachment de Dilma, sem nem trocar de luvas ou discurso. E os que permaneceram lúcidos também se tornaram antibolsonaristas quando se deram conta da farsa da “nova política” prometida pelo “mito” e da sua mais completa submissão às velhas raposas do Congresso.

O fato é que o sentimento antipolítica continua o básico da afetação de quem continua acompanhando a política institucional e o funcionamento do governo apenas para desprezá-los de pertinho.

Por outro lado, falar mal da política e de quem governa é tradição desde que os humanos inventaram formas de comunidade política. E um certo grau de hostilidade e desconfiança com relação ao poder político é um bom sinal de saúde política e autonomia de pensamento.

A antipolítica, contudo, é mais que isso: acontece quando numa sociedade há um baixíssimo grau de confiança nas instituições e nos atores da política contrastando com um elevado nível de ódio contra tudo que se refere à vida pública.

Resumo a crença antipolítica nacional em cinco dogmas: 1) a política é uma atividade indigna praticada por indivíduos rebaixados que lutam apenas pelos próprios interesses; 2) todo governo é uma corja; 3) todo partido político é uma quadrilha; 4) todos os políticos e portadores de mandatos são ou parasitas ou ativos delinquentes à espreita de uma oportunidade; 5) essas coisas só acontecem no Brasil.

Atualmente, há pelo menos duas grandes correntes de antipolítica no país. A primeira parte de uma posição superior que repete que Brasília é uma cloaca, não há político que preste, todo governante é um gângster.

E adora citar “a melô do despeitado” de Ruy Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.

Ruy merecia melhor sorte do que virar patrono do “mimimi” antipolítica.

A segunda posição antipolítica pode ser sintetizada na máxima de Danilo Gentili: “Existem níveis para otários. O otário nível master é aquele que acredita em político”. O gentilismo provém do modelo-CQC, que considera que insultar e humilhar políticos é um ato de justiça.

Diferenciam-se basicamente porque o primeiro tipo é um decadentista bem-educado e o segundo tem na grosseria um dos seus programas fundamentais. Além disso, o gentilismo é instintivamente conservador (no caso, antiesquerdista visceral), embora os recursos intelectuais arregimentados para defender a sua posição nunca passem de dogmas.

Ambos os tipos consideram a política uma atividade rebaixada, mas o segundo não se contenta em desprezar grandes categorias como “os políticos”, “os partidos” ou “o governo”; o seu desprezo precisa ser mostrado no varejo e ser “fulanizado”: Sarney é ladrão, Dirceu é corrupto, Renan é patife, Lula é o nine, Dilma… Bem o que eles diziam de Dilma em 2014 eu prefiro não repetir.

Na antipolítica grossa, pessoas e instituições precisam ser ofendidas pessoalmente.

O segundo tipo é mais fácil de descartar intelectualmente, dada a sua brutalidade, mas é a forma mais difícil de ser superada na prática, não só porque dez anos de raiva política nos deixaram viciados, mas por ser o insulto muito menos exigente que o argumento.

O primeiro tipo, por outro lado, é mais difícil de se enfrentar intelectualmente, a não ser pela provocação clássica que diz que não há problema em se detestar a política, desde que se saiba que você será governado por quem gosta dela.

Brasil precisa reerguer parceria estratégica com a China

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Agenda propositiva em clima e meio ambiente pode gerar benefícios múltiplos

Maiara Folly, Diretora-executiva da Plataforma Cipó, instituto de pesquisa dedicado a temas de clima, governança e relações internacionais

João Cumarú, Pesquisador da Plataforma Cipó

Folha de São Paulo, 22/02/2023

A busca por uma postura equidistante entre EUA e China será uma das marcas da política externa brasileira, de forma a preservar autonomia e evitar que interesses nacionais sejam prejudicados caso o Brasil se veja forçado a escolher um lado na disputa entre os dois gigantes.

Em visita recente do presidente Lula (PT) a Washington, os EUA anunciaram a intenção de prever financiamento ao recém-reativado Fundo Amazônia —um voto de confiança ao compromisso do novo governo de retomar o combate ao desmatamento. Como parte da estratégia de equidistância, o gigante asiático também deveria ser incentivado a contribuir para o fundo. Afinal, a China é hoje o maior importador de produtos brasileiros associados ao desmatamento, como carne e soja.

A visita prevista de Lula a Pequim oferece uma janela de oportunidade para avançar a cooperação bilateral em clima e meio ambiente. Um bom ponto de partida seria uma declaração política sobre o tema, nos moldes do que fizeram os EUA e a China.

Apesar das disputas econômicas e geopolíticas, em dezembro de 2022 os dois países publicaram uma declaração conjunta. No texto, reafirmam a intenção de “preencher lacunas” nos esforços globais contra a crise climática, inclusive através da cooperação em energia limpas e na eliminação do desmatamento ilegal global. Apesar de suas limitações, iniciativas como essa contribuem para a construção de confiança e podem impulsionar uma agenda positiva de longo prazo. O Brasil poderia propor a Pequim uma declaração conjunta fundamentada em interesses comuns, incluindo o objetivo de promover cadeias produtivas livres do desmatamento. Além de contribuir para proteção de biomas ameaçados, um comércio pautado em cadeias bem rastreadas e livres de ilícitos ajudaria a promover a segurança alimentar, uma grande prioridade do Partido Comunista Chinês e do governo brasileiro.

Do ponto de vista do clima, a declaração pode servir não apenas para que ambos reconheçam a urgência de avançarem no enfrentamento à crise climática, mas também para firmar intenção de fortalecer a concertação política em fóruns multilaterais e na implementação das três Convenções da ONU que tiveram origem no Rio de Janeiro em 1992: sobre clima, biodiversidade e desertificação.

Brasil e China poderiam, ademais, sinalizar o intuito de engajar outros países em desenvolvimento em projetos de cooperação Sul-Sul em áreas como adaptação climática, conservação da biodiversidade, transição energética, agricultura de baixo carbono e monitoramento de florestas com uso de satélites.

Por fim, a declaração poderia incluir um apoio público da China à intenção do Brasil de sediar a 30° Conferência da ONU para o clima a COP 30, e formalizar o interesse em elevar ainda mais a agenda de infraestrutura verde do Novo Banco de Desenvolvimento dos Brics.

Apesar das relações estremecidas nos últimos quatro anos, o Brasil se beneficia de um histórico de cooperação pragmático e amistoso com o gigante asiático. Ao buscar reerguer sua parceria estratégica com a China a partir de uma agenda propositiva em clima e meio ambiente, o Brasil poderá gerar benefícios não apenas para a população e os biomas brasileiros, mas para o planeta como um todo.

Conflitos distributivos

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A sociedade brasileira vem vivendo décadas de baixo crescimento econômico, com grandes dificuldades de atrair investimentos produtivos, que poderiam proporcionar novas oportunidades de geração de empregos e a melhora das condições sociais, além da diminuição das desigualdades e poderiam contribuir para a redução das disparidades sociais e amainar os conflitos distributivos que assolam a sociedade.

Neste cenário, o assunto do momento da sociedade e da mídia corporativa é a taxa de juros da economia brasileira, uma das maiores do mundo, com impactos significativos para a atividade econômica, inviabilizando o investimento produtivo e estimulando as aplicações financeiros e garantindo ganhos substanciais para os rentistas, aumentando seus rendimentos e abarrotando os lucros e dividendos, com isenções tributárias e alegrando uma orla de endinheirados e, ao mesmo tempo, aumentando o conflito distributivo.

Ao falarmos sobre as taxas de juros, estamos nos referindo a Selic, Serviço Especial de Liquidação e Custódia, definida pelo Banco Central e que impacta fortemente sobre as atividades econômicas, as aplicações financeiras e as estruturas produtivas, além de definirmos a geração de empregos, a renda dos trabalhadores, o endividamento dos agentes econômicos e contribuindo para a definirmos os horizontes da economia nacional.

No patamar elevado da taxa de juros definida pela Autoridade Monetária, estamos caminhando rapidamente a uma forte recessão. Conjunturalmente, percebemos que os estímulos fiscais do governo anterior perderam força, os investimentos produtivos estão sendo reduzidos, as taxas de juros elevadas estão desestimulando o crescimento econômico e, em contrapartida, as aplicações financeiras estão ganhando espaço, aumentando os ganhos dos poupadores e rentistas, inviabilizando os projetos econômicos e postergando a recuperação dos setores produtivos.

O debate está acalorado, de um lado os defensores da Autoridade Monetária acreditam que só com taxas elevadas de juros devem reduzir os preços e conter o dinamismo inflacionário. De outro lado, os críticos acreditam que as taxas de juros devem jogar a economia nacional numa recessão, piorando as contas públicas e seus impactos sobre as atividades são elevadas, gerando mais desemprego, queda acelerada da renda e maior endividamento das famílias, travando uma perspectiva de retomada do crescimento econômico.

Ao falarmos sobre o custo do capital no Brasil, precisamos destacar que temos juros insanos pouco vistos em outras nações, estamos convivendo, a muitas décadas, com juros de cheque especial em mais de 300% ao ano, taxas de juros de cartão de crédito em mais de 400%, empréstimos pessoais com taxas proibitivas, garantindo ganhos substanciais para os bancos e financeiras, aumentando o poder do mercado financeiro, capturando o Banco Central e defendendo seus interesses em detrimento da população.

Com taxas de juros neste patamar, estamos naturalizando uma degradação econômica que persiste desde a redemocratização, que contribuíram para a estagnação econômica do país e para o incremento das desigualdades, fazendo com que o Brasil seja visto como uma das economias mais desiguais do mundo, inviabilizando investimentos produtivos e alavancando o rentismo, levando variados setores industriais para trocar suas atividades produtivas tradicionais por negócios financeiros, abrindo instituições bancárias, garantindo ganhos estrondosos, aumentando seus ganhos imediatos e contribuindo para uma degradação econômica e piorando as condições sociais, com incremento do desemprego, reduzindo a renda agregada, aumentando a vulnerabilidade social e os conflitos políticos.

Neste momento de recuperação econômica precisamos rediscutir questões estratégicas para a sociedade, repensar os spreads bancários, taxar grandes fortunas, rever isenções fiscais e tributárias indiscriminadas, repensar privatizações sem transparências, reduzir as taxas de juros que servem apenas para engordar rentistas e financistas. Sem políticas consistentes, urgentes e corajosas continuaremos nesta degradação social.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia Brasileira Contemporânea, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 22/02/2023.

Convergências

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Vivemos momentos de grandes incertezas e volatilidades, com impactos generalizados para toda a sociedade brasileira, vivemos momentos de medos, preocupações e fortes desagregações sociais, instabilidades econômicas e grandes conflitos políticos, sem convergências e sem rumo para construirmos uma estratégia consistente para a reestruturação da economia nacional. Sem rumos consistentes, os desafios tendem a crescer, as perspectivas de melhora econômica diminuem rapidamente, oportunidades tendem a ser menores e perpetua o incremento da desigualdade, dos conflitos sociais e a degradação política, estamos vivendo momento de fortes degradações, exigindo decisões conjuntas e fortes convergências.

A economia brasileira perdeu a vocação do crescimento econômico, desde os anos 1980, depois de um período de forte crescimento econômico, a sociedade passou a viver instabilidades crescentes, alternando inflação alta, dificuldades externas, taxas de juros elevadas, desindustrialização, degradação das condições de trabalho e de emprego, além de arrocho salarial e redução do mercado interno de consumo, que contribuíram para a fragilização dos trabalhadores, seu endividamento crescente e uma forte degradação política que caminha para uma grande convulsão social.

Neste momento precisamos reconstruir os laços sociais, reestruturar as bases da economia nacional, investir fortemente em ciência e tecnologia, retomando o poder e a centralidade da educação como instrumento de ascensão social, rechaçando os discursos inconsistentes de empreendedorismo como instrumento de retomada do crescimento econômico. Precisamos atuar fortemente para reduzirmos o poder político e econômico dos grandes conglomerados que monopolizam os mercados e impedem a entrada de novos concorrentes, degradando os instrumentos de regulação governamental, impondo sua agenda e auferindo lucros extraordinários.

Nossa sociedade está envolta em grandes degradações políticas, discursos agressivos e ódios e de ressentimentos, vivemos momento de graves conflitos, onde as discussões políticas, fundamentais para a construção de consensos, passou a ser substituída por grandes violências, agressividades e, neste cenário, percebemos que estamos cultivando devastações crescentes, com atrasos institucionais, degradação do meio ambiente, estimulo de uma sociedade centrada da exploração e da insegurança. Neste ambiente, os investimentos produtivos se reduzem, os grandes conglomerados se afastam do país, somos relegados ao esquecimento e não participamos dos grandes fóruns internacionais, levando-nos a sermos vistos como um grande pária internacional.

A reconstrução nacional prescinde de um amplo consenso nacional, onde todos os grandes atores sociais, políticos e econômicos precisam ambicionar a reestruturação da nação, deixando seus interesses imediatos e a busca de um projeto nacional que coloque no centro a redução das desigualdades, reestruturações econômicas e produtivas e uma consolidação de um sistema de justiça que perpetuam as violências e as degradações que permeiam a sociedade e contribuem fortemente para que nossa estrutura social se fragiliza, mostrando a incapacidade de grupos privilegiados, rentista e gestores financeiros que ganham com essa condição social de indignidade e exploração.

No cenário de desintegração que vivemos, os grupos econômicos e políticos usam seus poderes para garantir vantagens e benefícios imediatos, deixam de pensar no longo prazo e se digladiam no agora, buscando ganhos e se esquecem que, muitas vezes, seus ganhos geram desagregações de outros setores, garantindo ganhos imediatos e destroem seus setores no longo prazo, abandonamos o planejamento, as estratégias e nos esquecemos que vivemos num mundo altamente concorrencial.

Em momentos de grandes polarizações políticas, incertezas econômicos e devastações sociais como este, precisamos reconstruir canais de negociações democráticas, arregimentar grupos sociais, fortalecer as instituições e consolidar políticas públicas, buscando consenso, punindo os focos de desequilíbrios e buscando a construção de um novo projeto nacional. Sem um verdadeiro projeto nacional, nosso destino é chafurdarmos na lama da desagregação social.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Economia Brasileira Contemporânea, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor universitário. Artigo publicado no Jornal Diário da Região, Caderno Economia, 15/02/2023.

A Extrema Direita, por Dennis Lerrer Rosenfield

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A bolha de sua mentalidade furou; resta saber-se haverá uma força capaz de reunir os despojos ou se o Bolsonarismo ainda tentará se organizar

Dennis Lerrer Rosenfield, Professor de Filosofia da UFRGS

O Estado de São Paulo – 13/02/2023

A experiência dos últimos quatro anos foi rica em ensinamentos, em particular o da extrema direita no poder. Embora no início o desenho não estava nítido, ganhou no decurso do tempo contornos precisos. O antipetismo foi a sua bandeira primeira, num amálgama de valores conservadores e liberais, dando progressivamente lugar a pautas antidemocráticas e antiliberais. O estilo bronco e, às vezes, engraçado de Bolsonaro foi se mostrando grotesco e mesmo cruel em sua campanha contra a vacinação, literalmente gozando da morte alheia, expondo sua falta completa de compaixão – algo, aliás, contrário aos valores religiosos que dizia defender.

O “jogo dentro das quatro linhas da Constituição” foi uma mera encenação com o intuito de minar a ordem democrática, de preferência via eleições, como se a democracia pudesse ela própria ser subvertida, paradoxalmente, por instrumentos eleitorais. A campanha contra o sistema eleitoral, o combate insano de Bolsonaro contra as urnas eletrônicas e a contestação das eleições puseram a nu um líder de perfil claramente autoritário. Quem com ele não estava se tornava um inimigo, inclusive seus amigos de ontem. Uma vez que o malogro de seu projeto reeleitoral se esboçava, a tentativa mais explícita de golpe foi se apresentando como uma alternativa real.

Fiou-se ele nas Forças Armadas e, em particular, no Exército, acreditando que elas o seguiriam em quaisquer circunstâncias, mesmo ao arrepio da disciplina militar. Ocorre que, no jogo do poder, a maior parte dos militares só aceitou jogar nas quatro linhas da Constituição, rechaçando qualquer arremedo de legalidade para o emprego da violência. Militares avançados se puseram na consolidação da ordem democrática, dizendo não a qualquer tentativa golpista. Os renitentes terminaram se alinhando, visto que sua formação os colocava na defesa da disciplina e contra qualquer tipo de quebra de hierarquia. Uma instituição hierarquicamente quebrada deixa de ser propriamente uma instituição de Estado. Ali fracassou o golpe.

O estertor deste processo foram as manifestações do dia 8 de janeiro, com a invasão e depredação dos centros do poder republicano: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. O simbolismo foi forte. A máscara democrática caiu, entrando em seu lugar a violência própria da extrema direita, embora saibamos que não lhe é exclusiva, haja vista a experiência comunista. A horda bolsonarista agiu sem freios, ainda acreditando em seu líder, o “mito”, que viria a liderar presencialmente este processo, crendo, ademais, que os militares de extrema direita nele a seguiriam. A partida democrática, porém, já estava previamente ganha, seja pelo pleno funcionamento das instituições, seja pelo resultado eleitoral majoritariamente reconhecido, seja pela atuação decisiva dos militares constitucionalistas. E o “mito” sumiu!

O “mito” refugiou-se nos arredores da Disney, como se lá fosse mais divertido do que o seu próprio país, após as arruaças e instabilidades política e institucional aqui produzidas. Contudo, a extrema direita vive de seus líderes, pessoas resolutas em seu processo político, como bem demonstraram figuras como Hitler, Mussolini e Franco. Enfrentaram intempéries até chegarem ao poder e lá se consolidarem. O líder mantém a coesão de seus liderados, uma espécie de cola que a todos une. Sem esse fator agregador, seus apoiadores se dispersam. O que podem hoje bem pensar aqueles que, com chuva, calor e frio, se reuniram na frente dos quartéis, quando contrastam a sua experiência com a do “mito” no aconchego de um condomínio residencial em Orlando, com todas as comodidades materiais?

A questão que se coloca, portanto, é a de se essa experiência eu diria limite da extrema direita tem condições de perpetuar-se, não apenas por causa da derrota do “mito”, mas principalmente pelo seu sumiço. Provavelmente, os que nele acreditaram, num número impressionante de cerca de 50% do eleitorado, vão agora escolher novos caminhos, considerando que muitos que o seguiram o fizeram por rechaço à experiência petista. Agora, as posições se invertem, com Lula tendo sido, por sua vez, eleito por repúdio à experiência bolsonarista. O Brasil continua oscilando neste pêndulo.

A força do bolsonarismo estava em sua coesão sob o seu líder, em campanhas midiáticas baseadas na mentira e no ataque constante a inimigos reais e imaginários, em motociatas cujo perfil se assemelhava, num mundo digital, às milícias nazistas ou fascistas. No caso destas, com organizações próprias e firme apoio partidário. Aqui, seja por falta de tempo, seja por ausência de um projeto totalitário mais firme, a improvisação terminou se impondo.

Em suma, a bolha da mentalidade de extrema direita furou, com a realidade entrando por todos os seus furos, como águas num navio afundando. Resta, agora, saber se haverá uma força de centro, mais à direita ou mais à esquerda, capaz de reunir esses despojos ou se o bolsonarismo ainda tentará reorganizar as suas forças.

André Lara Resende: taxa de juros de 13,75% está errada.

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Por Jorge Barbosa – O Estado de São Paulo, 13/02/2023

O economista André Lara Resende afirmou que a manutenção da taxa Selic em 13,75% ao ano é um erro, pois desaquece a economia sem combater efetivamente a inflação. “A economia brasileira precisa ser desaquecida neste nível? Com a taxa de juros real mais cara do mundo hoje? Claramente não”, afirmou Resende, em entrevista ao programa Canal Livre, da Band, exibida na madrugada desta segunda-feira, 13.

“O fato é que tivemos uma quebra no varejo, no caso da Americanas e outras áreas deste setor enfrentam problemas, o que fez os bancos retraírem drasticamente o crédito. Quando temos uma contração como essa no crédito, se agrava o processo de desaquecimento da economia e embica numa recessão que pode ser muito séria”, disse o economista.

Lara Resende, que participou da equipe de transição do governo Lula na área econômica, afirmou ainda que o Banco Central tem como objetivos controlar a inflação, promover a estabilidade do sistema financeiro e garantir o mais próximo possível do pleno emprego. “Obviamente que essa taxa de juros de 13,75%, 8% real, é incompatível com esses objetivos. Ela está errada.”
Gastos públicos

O economista contestou a ideia de que um eventual cenário de aumento dos gastos públicos possa provocar uma onda inflacionária no País. “Estamos saindo de 1,3% de superávit primário no ano passado. Agora, este ano, o autorizado pela PEC (da Transição) é um gasto de mais 2%. A arrecadação vai surpreender positivamente. Se gastarmos o valor integral da PEC, ainda que a arrecadação ficasse onde estava, no mesmo nível, teríamos equilíbrio primário. O Orçamento, a previsão é que você possa ter um déficit primário de 1%. Isso é grave? Claro que não”, afirmou.

Lara Resende disse também que o fenômeno da inflação em todo o mundo foi provocado pela desorganização das cadeias produtivas, e que não houve relação com o aumento de gastos por parte dos governos. “A oferta se contraiu e houve uma reação inflacionária. Em cima dessa pressão veio a guerra da Ucrânia, que subiu o preço de energia e alimentos por causa, inclusive, dos fertilizantes. Então esta foi a inflação.”

O economista comentou ainda que “se a taxa de juros alta combatesse a inflação, nós não precisaríamos ter feito o Plano Real” – do qual foi um dos formuladores. “Quando eu assumi a diretoria do BC (nos anos 1980), nós tínhamos a maior taxa básica de juros da história e não havia sinal de que a inflação ia retroceder”, disse.

Reforma tributária

Lara Resende também demonstrou pessimismo com a possibilidade de aprovação da reforma tributária. “Eu não acho que seja uma boa ideia votar a reforma tributária. Todo mundo é a favor dessa reforma, a ideia dessa simplificação, a criação do Imposto sobre o Valor Agregado, isso é em princípio uma ideia muito boa. Só que ela provoca, como todo tema tributário, muitas reações, então há resistências por todos os lados. Não é à toa que ela nunca foi aprovada”, disse o economista, que recentemente assumiu um cargo na Comissão de Estudos Estratégicos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Ele disse ainda que considera “muito difícil” a aprovação da reforma de maneira integral. “Você vai repartir essa proposta e a discussão dela vai tomar tempo.”

O economista também relativizou a importância da mudança no sistema tributário. “Não acho que a reforma tributária possa ser posta como o principal objetivo do País. O principal objetivo que precisamos definir é a recuperação do desenvolvimento. O Brasil deveria crescer, pelo menos, 5% até 7% nos próximos anos, como cresceram todas as economias asiáticas”, disse Lara Resende, que ressaltou a importância a importância da reforma, apesar das críticas que fez.

Crise na Terra Indígena Yanomami: saúde, meio ambiente, direitos humanos, por Márcia Castro

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Governo precisa não só responder à emergência, mas desfazer estragos dos últimos 4 anos

Márcia Castro, Professora de demografia e chefe do Departamento de Saúde Global e População da Escola de Saúde Pública de Harvard.

Folha de São Paulo, 13/02/2023

Em 1984, foi proposto um modelo para o estudo dos determinantes da sobrevivência de crianças nos primeiros cinco anos de vida. Destaco três pontos importantes do modelo.
Primeiro, sob condições ideais, cerca de 97% das crianças deveriam sobreviver até os cinco anos de idade. A morte durante essa etapa da vida é, em sua maioria, uma consequência do efeito acumulado de fatores adversos que progressivamente deterioram a saúde.

Segundo, há cinco categorias de determinantes próximos que afetam diretamente a sobrevivência. Aqui estão incluídos fatores maternos (como idade da mãe), contaminação ambiental (ar, comida, água, insetos), deficiências nutricionais, acidentes e formas de controle de doenças.
Terceiro, variáveis socioeconômicas modificam os determinantes próximos e, através deles, afetam a sobrevivência de crianças. Essas variáveis estão relacionadas aos pais, ao domicílio e ao contexto ecológico, político e institucional no qual a criança está inserida.

A crise humanitária na terra Yanomami, a maior do país e localizada em Roraima, exemplifica esse modelo. A crise não é resultado de um evento único, imediato. O quadro severo de desnutrição das crianças, o pior já reportado entre comunidades indígenas nas Américas, não aconteceu da noite para o dia. A crise que ganhou a atenção do Brasil e do mundo em janeiro é reflexo de sucessivas ações de negligência, negação de direitos e mudanças na legislação ambiental.

Ressalto alguns eventos nesse processo cumulativo que contribuíram para a crise e que afetaram os determinantes próximos que mencionei anteriormente.

A partir da década de 80, quando ouro foi descoberto na terra indígena Yanomami, atividades ilegais de garimpo resultaram em epidemias de tuberculose e malária. Além disso, o uso do mercúrio nas atividades de garimpo contamina rios, peixes, plantas e o ar. As consequências são inúmeras e podem ser fatais (leucemia, atraso no desenvolvimento, complicações neurológicas etc.).

Após o desmonte do programa Mais Médicos, mais de 80% dos médicos que prestavam atendimento à população indígena perderam seus empregos e não foram totalmente substituídos. Isso afetou a capacidade de vigilância e controle de doenças.

Durante os últimos quatro anos, mudanças na legislação ambiental favoreceram o desmatamento e expansão do garimpo ilegal (extração o de ouro e cassiterita). A Terra Indígena Yanomami é a terceira em área garimpada, ficando atrás das terras Kayapó e Munduruku, ambas no Pará. Além disso, é a que possui o maior número de pistas de pouso, 75 ao todo, 34% localizadas a menos de 5 km de uma área de garimpo.

A malária nessa área aumentou drasticamente. Em 2021, cerca de 46% dos casos de malária em localidades indígenas foram observados na terra Yanomami. Em Roraima, do total de casos de malária reportados em 2017, 0,1% eram em localidade de garimpo e 22,6% em localidades indígenas. Em 2021 esses percentuais foram 26,4% e 54,9%, respectivamente.

A expansão desenfreada do garimpo também trouxe a violência (homicídios e estupros) e afetou a organização social do povo yanomami devido a cooptação de jovens indígenas para trabalhar no garimpo.

A crise humanitária na Terra Indígena Yanomami é uma tragédia anunciada. Não faltaram estudos, relatos e ofícios de alerta enviados ao Ministério Público Federal, à Funai e ao Exército. Todos vergonhosamente ignorados.

O atual governo não só precisa responder a essa emergência de saúde, humanitária e ambiental, como precisa reverter os estragos dos últimos quatros anos. Tarefa hercúlea de reconstrução, já em curso, fundamental para a sobrevivência da floresta e dos povos indígenas.

Regular redes é essencial para conter guerras civis, diz Barbara Walter

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Cientista social diz que Trump e Bolsonaro deixaram EUA e Brasil mais próximos de conflitos

Uirá Machado, Na Folha desde 2004, é formado em direito e em filosofia na USP, foi editor de Tendências / Debates, Opinião, Ilustríssima e Núcleo de Cidades, além de secretário-assistente de Redação.

Folha de São Paulo, 11/02/2023

[RESUMO] Em entrevista, a cientista política Barbara Walter debate o recuo da democracia e a expansão de guerras civis no mundo, aponta que a radicalização política é impulsionada pelo modelo de negócios de big techs e sustenta que a situação do Brasil e dos Estados Unidos, afligidos por ataques golpistas, é frágil. Republicanos e bolsonaristas, diz, estão a caminho de se tornarem facções, o que demanda força de instituições e de outros partidos políticos

Duas tendências identificadas nos últimos anos preocupam acadêmicos em diversas partes do mundo.
A primeira, já bem mapeada pela literatura recente da ciência política, é o declínio da democracia, com a ascensão de políticos autoritários que tomam o poder sem recorrer a um golpe de Estado tradicional.

A segunda ganhou notoriedade com a publicação, no ano passado, de “Como as Guerras Civis Começam e Como Impedi-las” (Zahar). Escrito pela cientista política Barbara F. Walter, da Universidade da Califórnia em San Diego, não demorou a se colocar entre os mais vendidos nos EUA.

O motivo é simples: Walter dá um novo passo na trilha aberta por obras que já se tornaram clássicos, a exemplo de “Como as Democracias Morrem” (Zahar, 2018), de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, e “Como a Democracia Chega ao Fim” (Todavia, 2018), de David Runciman.

Em seu livro, Walter mostra que as guerras civis costumam estourar não em democracias nem em ditaduras, mas em países que estão passando de um desses sistemas para o outro, e que esses conflitos se tornaram cada vez mais frequentes no século 21, a ponto de o pico histórico ter sido atingido em 2019.

O que explica essa tendência? “Não sabemos ao certo, mas temos uma suspeita forte: a ascensão das redes sociais”, afirma em entrevista à Folha.

Se ela diz, vale a pena prestar atenção, mesmo que se trate de uma suspeita. É que Walter acumula mais de 30 anos de estudos sobre guerras civis, incluindo a participação na Força-Tarefa sobre Instabilidade Política, criada pelo governo dos EUA nos anos 1990 para construir um modelo capaz de prever a erupção de conflitos em qualquer país.

Com base em sua experiência, Walter diz que Donal Trump, nos EUA, e Jair Bolsonaro (PL), no Brasil, aumentaram a chance de haver uma guerra civil nesses dois países.

A literatura recente sobre democracia tem apontado um novo padrão de golpe de Estado, e seu livro faz o mesmo em relação às guerras civis. Poderia explicar essas mudanças? São duas grandes tendências. Uma é a de declínio da democracia. As democracias vinham se expandindo pelo mundo a ponto de a gente pensar que todos os países adotariam esse sistema.

Isso mudou em 2010. Desde então, a cada ano há menos democracias e, pela primeira vez, isso tem afetado até as mais maduras e fortes, como Reino Unido, Estados Unidos, Suécia e Espanha.

No século 20, quando uma democracia desaparecia, geralmente era por meio de um golpe militar, mas essa não é mais a norma. Agora prevalece o que vou chamar de “modelo Viktor Orbán” [premiê da Hungria]. Ele tem sido o grande inovador nesse sentido.

Ele descobriu que não é necessário dar um golpe militar: você pode chegar ao poder por meio de uma eleição e, quando as pessoas não estiverem prestando atenção, você começa a desmontar os sistemas de controle sobre o Executivo; você faz isso lenta e metodicamente, de modo que, quando as pessoas perceberem que o poder está concentrado nas suas mãos, será tarde demais para reagir.

Trump observou esse método atentamente. Bolsonaro também. É quase como se Orbán tivesse mostrado a eles um manual de como fazer isso legalmente e sem envolvimento militar. Agora, esses aspirantes a ditador disputam eleições, controlam a mídia e moldam uma narrativa sobre si mesmos como líderes eficientes, fortes e necessários em um contexto de nacionalismo, medo e ameaças.

E com relação às guerras civis? Essa é a outra tendência: o aumento de guerras civis e da violência política. Do fim da Segunda Guerra Mundial até 1992, o número de guerras civis foi aumentando, com algumas oscilações. A partir de 1992, houve uma reversão desse padrão; pensamos que tínhamo s conseguido descobrir como resolver esses conflitos para viver em um período de paz.

A partir de 2002, porém, as guerras civis têm aumentado todos os anos em todo o mundo. Estamos agora em um nível mais alto que o de 1992.

Também vemos ao redor do mundo o aumento do nacionalismo étnico, o crescimento do número de partidos de extrema direita, de líderes do tipo lei e ordem. Vimos isso com [Rodrigo] Duterte nas Filipinas, com Bolsonaro no Brasil, com [Narendra] Modi na Índia, com [Recep Tayyip] Erdogan na Turquia, com Trump nos Estados Unidos.

Há também uma nova forma de violência política, que é descentralizada. As guerras civis de hoje envolvem mais grupos que no passado. Se você pensa na Síria, há centenas de facções de cada lado.

É uma mudança súbita: temos muito mais grupos, as guerras duram mais tempo e há mais intervenção externa.

O que explica isso? Não sabemos ao certo, mas temos uma suspeita forte: a ascensão das redes sociais. Elas permitem que forças antidemocráticas –seja Vladimir Putin, o governo chinês ou os Trumps do mundo— espalhem desinformação na internet, convencendo as pessoas a não confiar nas eleições e a não apoiar a democracia, argumentando que governos autocráticos são melhores. Essa maneira sub-reptícia de atacar a democracia não existia no passado.

As grandes empresas de tecnologia têm o mesmo modelo de negócios, que consiste em manter as pessoas tão ocupadas quanto possível com seus smartphones e computadores, e as informações que mantêm as pessoas conectadas por mais tempo são as que exploram o instinto de luta ou fuga, coisas que desencadeiam raiva, sensações de ameaça, de insegurança. O algoritmo oferece mensagens mais extremas.

Por exemplo, nos Estados Unidos, se você clicar em um link que mostra um policial salvando um filhote de gato em uma árvore, o algoritmo vai considerar que você é simpático à polícia. Começará então a te alimentar com mais informações a favor da polícia até que você esteja envolvido no debate a favor ou contra o Black Lives Matter.

Além disso, as redes sociais facilitam a mobilização de qualquer movimento. É uma mudança, porque antigamente era bastante difícil organizar uma milícia ou um grupo paramilitar. Isso tinha que ser feito com muito cuidado e de clandestinamente, e era difícil alcançar pessoas com as mesmas inclinações radicais.

A sra. afirma no livro que a maioria das pessoas não se dá conta de que uma guerra civil está a caminho até que a violência faça parte do cotidiano. Não existem sinais precoces? O governo dos Estados Unidos tem um manual chamado “Guia para a Insurgência”, que é usado pelos soldados americanos em outros países. O guia ensina o que procurar para saber se há uma insurgência ou não.

São três fases. A primeira etapa é a pré-insurgência, a segunda é insurgência incipiente, a terceira é insurgência aberta. Esse padrão se repetiu tantas vezes que é de fato possível identificá-los, mas, ao mesmo tempo, se você conhece os sinais, é perturbador ver populações ignorando os alertas.

Uma das coisas que acontecem, mesmo na primeira fase, é que, quando um grupo começa a se organizar, ele recruta membros, desenvolve uma ideologia, cria um conjunto de demandas.

Na segunda fase, o grupo adquire um braço militar e começa a realizar atos isolados de violência. Talvez esse seja o estágio em que os Estados Unidos e o Brasil estejam agora. Ocorrem ataques de terrorismo doméstico contra civis e líderes da oposição, talvez um candidato a presidente ou um juiz se torne alvo. Se houver elementos raciais, podem ocorrer massacres em bairros afro-americanos, igrejas, sinagogas.

Nessa fase incipiente, há uma tendência de rotular os ataques como isolados. Nos Estados Unidos, falamos em “lobo solitário”, como se fosse uma pessoa louca, sem conexão com um movimento maior.

O curioso é que o manual do governo americano fala especificamente sobre as pessoas não quererem acreditar que há um câncer crescendo na sociedade. É mais fácil descartar esses primeiros ataques e não ligar os pontos. Só quando esses ataques se tornam frequentes e já não se pode ignorá-los, as pessoas param para pensar se é algo maior. Mas, nesse momento, o movimento provavelmente já teve anos para crescer e se organizar.

A invasão do Capitólio nos EUA, e o ataque às sedes dos três Poderes, em Brasília, são eventos isolados ou indicam algo maior? Depende muito de como as coisas evoluem. Em ambos os casos, a ação foi contida. A invasão do Capitólio serviu de alerta para a sociedade e para o FBI. O FBI tem sido mais agressivo na identificação dos perpetradores e em levá-los a julgamento, e a pena de prisão deve enfraquecer o grupo de extrema direita por um tempo.

Porém, as coisas poderiam ter sido piores em ambos os casos. Por exemplo, os ataques poderiam ter sido bem-sucedidos nos EUA e Trump teria voltado ao poder. Além disso, eles poderiam ter se tornado mais violentos. A situação é frágil.

Sua pesquisa sugere que a transição, tanto da ditadura para a democracia como da democracia para a ditadura, é um fator relevante por trás da guerra civil. Por quê? Múltiplos estudos que analisaram fatores econômicos, políticos e geográficos perceberam que a transição era um dos dois mais importantes. Ou seja, se o governo do país é uma democracia parcial —nem totalmente autocrático nem totalmente democrático—, pode-se pensar em uma democracia fraca.

Se for uma autocracia que tenta se democratizar, o desmonte do aparelho repressivo cria uma oportunidade para que organizações ou pessoas se mobilizem para tentar capturar o governo. Foi o que vimos com o fim da Iugoslávia.

Mas também pode acontecer no sentido oposto, como vimos na Ucrânia. Quando o governo democrático entra em declínio, os cidadãos percebem que começa a se fechar uma janela para fazer suas reivindicações por meios não violentos. Isso cria um impulso para tentar evitar que se instale uma autocracia de fato.

Faz diferença a velocidade dessa mudança, seja para perto, seja para longe da democracia. Uma mudança rápida aumenta o risco. Não sabemos bem o motivo, mas suspeitamos que seja porque a mudança rápida indica um governo mais fraco, cercado de incertezas.

O outro fator que a sra. menciona no livro é a criação de facções. Como distinguir facções de grupos políticos? A faccionalização tem uma característica muito única. ela é racial, étnica ou religiosa. Nos Estados Unidos, os partidos estavam muito polarizados na década de 1960, mas um americano branco naquela época tinha tanta chance de ser democrata quanto republicano.

Isso não acontece mais hoje em dia. O Partido Republicano é quase 80% branco e, quase exclusivamente, cristão evangélico. Isso em um país multiétnico, multirracial e multirreligioso.

Ou seja, o partido fala apenas para um grupo racial e um grupo religioso. Essa é a diferença entre uma facção e uma simples polarização ideológica.

Além disso, quando Barack Obama foi eleito, a classe trabalhadora branca deixou de ser democrata para se tornar republicana. Se essas pessoas realmente se importassem com a ideologia, isso não faria sentido. O Partido Republicano quer desmontar a rede de segurança social e econômica que beneficia a classe trabalhadora.

A razão para a classe trabalhadora branca migrar para o Partido Republicano não tem a ver com ideologia; tem a ver com o fato de o Partido Republicano apelar ao nacionalismo étnico branco. Isso é uma facção.

Isso também se aplica ao Brasil? Pergunto porque os eleitores de Bolsonaro têm um certo perfil demográfico, mas o fator que mais parece agregá-los é o sentimento anti-PT. Eles são espertos.

Isso é apenas uma fachada para imigrantes, negros ou não brancos. Eu acho que há muitas semelhanças entre os Estados Unidos e o Brasil. Trump chegou ao poder, e seu partido se tornou cada vez mais nacionalista branco, pois demograficamente os brancos estão em declínio.

A parcela da população que tem formado milícias, que atacou o Capitólio e que nega eleições é formada de pessoas brancas que se sentem ameaçadas pelo fato de os brancos deixarem de ser maioria. Essas pessoas consideram um dever patriótico garantir que os cristãos brancos continuem no controle, mesmo que esse segmento se torne minoria, o que acontecerá por volta de 2045.

Isso já aconteceu no Brasil. Os brancos deixaram de ser maioria, e Bolsonaro entendeu o poder disso. Homens brancos ricos são os mais propensos a perder privilégios e poder.

Isso é uma facção? Ou está a caminho de se tornar uma facção. Quando um partido político passa esta mensagem: “Você é branco, deve votar em uma pessoa branca e, se eu for eleito, garantirei que as pessoas não brancas não tenham poder”, isso é muito diferente de “se você acredita no conservadorismo e deseja criar incentivos para as pessoas trabalharem duro, vote em mim porque essa é nossa visão de uma sociedade saudável”.

Em seu livro e nesta entrevista, a sra. cita Bolsonaro como exemplo de político que degradou a democracia e aumentou o risco de guerra civil. Poderia explicar melhor? Os estudos sobre guerra civil mostram que elas são mais prováveis em países com democracias parciais e com partidos baseados em uma identidade. O que Bolsonaro fez?

Ele quer enfraquecer a democracia do Brasil, apela cada vez mais para a raça. Ele não tem uma plataforma realmente baseada em ideologia. Ele está criando uma facção de brasileiros que cada vez mais acreditam que imigrantes são ruins, que brancos devem governar, que eles precisam tomar o país de volta.

Se ele tivesse sido reeleito, o risco aumentaria? Ele dobraria a aposta em sua estratégia, de modo que as duas condições para a guerra civil —democracia parcial e apelos à identidade— teriam continuado. Sabemos que, a cada ano que passa dentro dessas condições, o risco de guerra civil aumenta.

A derrota dele significa que não existe mais risco? Não. A situação não depende de uma pessoa específica, mas sim da força da democracia e dos tipos de partidos políticos existentes. Nos Estados Unidos, temos sorte de ter um presidente que acredita na democracia e não piora a situação, mas ele não conseguiu implementar reformas institucionais.

Que reformas precisam ser feitas? A coisa mais importante é regular as mídias sociais.
Como fazer isso sem ameaçar valores democráticos? Líderes de grandes empresas de tecnologia, como Mark Zuckerberg, se escondem atrás da primeira emenda da Constituição americana e dizem que regulamentar as mídias sociais representa um ataque à liberdade de expressão.

Isso é besteira. Todas as outras mídias são regulamentadas. Sabemos como fazê-lo.

Mas vamos aceitar o argumento. Vamos deixar as pessoas colocarem o que quiserem na internet. É só regular os algoritmos. É só não permitir que as empresas projetem algoritmos que divulguem as informações mais odiosas, assustadoras e negativas.

O que os algoritmos fazem é selecionar informações específicas e disseminá-las quase instantaneamente para milhões de pessoas. Isso não é um direito protegido pela Constituição. É aquela citação: “liberdade de expressão não é o mesmo que liberdade de alcance”.

BARBARA F. WALTER, 58
Professora de assuntos internacionais na Escola de Políticas e Estratégias Globais da Universidade da Califórnia em San Diego. Doutora pela Universidade de Chicago, com pós-doutorado pelas universidades Colúmbia e Harvard, é consultora dos departamentos de Defesa e Estado dos EUA e desenvolve pesquisas no campo da segurança internacional, com ênfase em extremismo, grupos rebeldes e guerras civis. Autora, entre outros livros, de “Como as Guerras Civis Começam e Como Impedi-las”.