Parasitismo

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A sociedade contemporânea tem atitudes interessantes e reveladoras do atraso civilizacional, de um lado, percebemos um estímulo crescente da competição, onde as crianças e os jovens estão crescendo em um ambiente concorrencial, sem privacidade, estimulados pelo consumo desenfreado e os ganhos materiais se transformaram em um verdadeiro prêmio que fica disponível para os melhores e os mais capacitados e, de outro lado, percebemos uma sociedade embrutecida, marcada pelo ódio e pelo ressentimento, onde os cidadãos sentem, na pele, os desequilíbrios emocionais e afetivos, o aumento da ansiedade e da depressão, gerando uma geração assustadora, apática e agressiva.

Ao estudarmos o capitalismo nacional percebemos um discurso centrado na defesa da concorrência nos setores econômicos nacionais, uma defesa constante da liberdade e da escolha dos agentes econômicos e, percebemos que essa concorrência é algo, totalmente, surreal, somos uma nação nascida na exploração de uma metrópole atrasada e fortemente conservadora, gerando uma elite econômica reacionária e imediatista. Construímos variados monopólios estatais, usamos a estrutura do Estado para construir uma sociedade mais moderna, defendemos o protecionismo governamental e sobrevivemos graças aos mais variados subsídios dos governos de plantão. Na real, percebemos que construímos uma elite parasitária, que sobrevive pregando empreendedorismo e inovação, pouco investe em ciência e em tecnologia, adora as nações empreendedoras e se satisfaz comprando produtos sofisticados no mercado internacional para satisfazer seus anseios de consumismo desenfreado.

Nesta sociedade, percebemos uma elite, que controla a nação, uma verdadeira ojeriza a investimentos em pesquisa, ciência e tecnologia, investir em educação é visto como um desperdício desnecessário, afinal, essa elite nunca, lembrem disso, correu riscos, sempre estimulou o Estado Nacional a fazer os investimentos mais agressivos e arriscados e, posteriormente, usou seus instrumentos políticos pouco republicanos para degradar os investimentos anteriores, estimulando a terceirização dos ativos estatais e, posteriormente, adquirindo os ativos nacionais via privatização a preço de banana, embolsando grandes lucros, criando monopólios privados e oferecendo serviços de péssimas qualidades.

 Essa mesma elite parasitária que domina a sociedade nacional há séculos e que compactua abertamente com a grande corrupção e a ineficiência administrativa, denuncia em seus canais de comunicação tradicional e em seus canais digitais os dispêndios, vistos como exagerados, das políticas públicas governamentais, as bolsas famílias e seus congêneres, se esquecendo, deliberadamente, dos bilhões de reais adquiridos via taxas de juros estratosféricos e os recursos garantidos através dos subsídios e das isenções governamentais, recursos estes, pouco transparentes e servem para enriquecer poucos grupos privilegiados em detrimento de uma parcela substancial da sociedade que recebe migalhas e, neste cenário atual, podem perder estes benefícios para garantir, perpetuamente, os ganhos dos donos do capital.

Neste cenário internacional marcado pelo desenvolvimento tecnológico e pelos agressivos investimentos em ciência e tecnologia, percebemos que vamos continuar sendo importadores de produtos sofisticados e de alto valor agregado e, vamos perpetuar, nosso papel de exportadores de produtos primários de baixo valor agregado, afinal, abrimos mão, historicamente, de nosso potencial científico e tecnológico, haja vista Embraer, Petrobrás e Embrapa. E neste futuro imediato, muito imediato, essa elite parasitária e predatória, vai continuar garantindo seus grandes recursos, pagando salários miseráveis, explorando a classe trabalhadora, devastando os sindicatos, garantindo seus subsídios elevados e isenções fiscais.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

Ary Ramos
Ary Ramos
Doutor em Sociologia (Unesp)

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