Vivemos momentos de grandes transformações na sociedade internacional, em todas as regiões estamos percebendo o aumento da riqueza agregada, novas tecnologias e novos modelos de negócios e, ao mesmo tempo, um incremento da desigualdade, do medo e da preocupação com o futuro, gerando insatisfação, insegurança e ressentimento.
Na Europa, estamos percebendo o crescimento de movimentos que estão se espalhando para inúmeras capitais do velho continente e, posteriormente, essas movimentações tendem a se espalhar para toda a sociedade global, deixando claro, a insatisfação dos jovens e dos adolescentes e a preocupação sobre o futuro, onde os valores da solidariedade, do respeito e da harmonia social, vêm sendo substituídos rapidamente, por valores transitórios baseados no individualismo, no imediatismo e no hedonismo.
Nesta nova sociedade, cunhada e constituída pelas estruturas dos donos do capital, os valores se baseiam na concorrência e na competição, se esquecendo, que os indivíduos partem de oportunidades e trajetórias diferentes. Na contemporaneidade, todas as estruturas sociais estão sendo devastadas, as famílias perderam a centralidade na vida dos indivíduos, o mundo do trabalho passa por grandes transformações, a tecnologia está construindo novas ocupações e destruindo empregos tradicionais, os relacionamentos amorosos e sentimentais estão vivendo uma verdadeira revolução, tudo isso, contribui, direta ou indiretamente, para compreender os desequilíbrios emocionais e afetivos, além das frustrações econômicas, salários reduzidos, ausência de empregos de qualidade e o medo crescente do futuro, dos relacionamentos humanos e das transformações no meio ambiente.
Estamos vivendo uma sociedade onde o futuro é cada vez mais incerto e indeterminado, neste ambiente, a imprevisibilidade se tornou a grande tônica dominante, onde as famílias perdem as certezas que foram construídas anteriormente, o futuro é cada vez mais sombrio e, ao mesmo tempo, percebemos desfilar, nas redes sociais, indivíduos, famílias e criadores de conteúdos pregando uma vida marcado pela ostentação, desfilando um cenário impossível de realização, criando um ambiente de ressentimento e angústia constante e, desta forma, para viver estas experiências, as pessoas fazem de tudo, absolutamente tudo, para participar deste ambiente de festas, ostentações variadas, ganhos materiais, desperdícios crescentes, orgias e prazeres constantes, deixando de lado a ética, a moral e se esbaldam nos valores transitórios dos donos do capital.
Os jovens e os adolescentes vivem este ambiente de ambivalência, os prazeres decantados estão distantes da maioria da população, a compra da casa própria está cada vez mais distante, a aquisição de seu primeiro automóvel se tornou um sonho impossível, o ensino superior se tornou um valor longínquo, afinal, numa economia que cresce pouco e grande parte da riqueza é auferida por poucos grupos, o diploma superior pode gerar retornos monetários reduzidos e contribuindo, diretamente, para a indiferença e a frieza dos jovens.
Neste cenário, estamos hipotecando o futuro da sociedade global, estamos criando um ambiente sombrio e preocupante, onde poucos grupos sociais tendem a sobreviver de forma digna e decente, criando uma multidão de descontentes, fomentando um caldo de revoltas, de agressões e ressentimentos. Os jovens e os adolescentes que, neste momento, estão movimentando a Europa, embora muitos setores critiquem chamando-os de ociosos, preguiçosos e improdutivos, podem, neste momento, estar catalisando um movimento global contra a ditadura do capital financeiro e improdutivo, além de garantir nuvens de esperanças de um futuro melhor e mais consistente.
Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

