O desenvolvimento tecnológico transformou estruturalmente a sociedade contemporânea, impactando os indivíduos, alterando os relacionamentos, modificando o mundo do trabalho, gerando novos instrumentos de estudo e de absorção do conhecimento, criando oportunidades, novos consumidores, novos modelos de negócios e inaugurando uma nova sociedade, marcada pela incerteza e pelo medo.
Nesta sociedade, dominada pelo desenvolvimento tecnológico, encontramos novos conflitos nas sociedades, a democracia, anteriormente, que era vista como o porto seguro para estabilizar os conflitos sociais, vem perdendo espaço em todas as regiões do mundo, abrindo caminho para modelos autoritários e violentos, aumentando seus defensores e difundindo seus ganhos sociais e, ao mesmo tempo, se esquecendo, de propósito, das agruras dos modelos autoritários.
Nesta sociedade, encontramos o aumento substancial do ressentimento nos seres humanos, as transformações cotidianas, motivadas pelo desenvolvimento tecnológico e pelo poder do capital financeiro estão alterando os comportamentos pessoais, estimulando o individualismo e gerando uma desesperança generalizada, onde o futuro se torna, cada vez mais nebuloso, sombrio e fortemente assustador, aumentando os ressentimentos, incrementando a violência urbana e os medos cotidianos.
As mudanças em curso na sociedade estão transformando o mundo do trabalho, levando trabalhadores a perderem espaço nas organizações, os governos incentivam processos de enxugamento de funcionários e passam a exigir metas impossíveis de serem alcançadas, gerando instabilidades e incertezas crescentes que impactam negativamente sobre a produtividade dos profissionais, com isso, reduzem seus rendimentos e demitem estes indivíduos, criando desequilíbrios emocionais e passando a tachar estes profissionais de incompetentes.
Vivemos numa sociedade marcada pelo crescente ressentimento, indivíduos que trabalharam durante décadas acreditando que, com o envelhecimento físico, encontrariam espaços para o descanso e para a felicidade, se veem impactados por uma realidade sombria, onde seus parcos rendimentos servem apenas para bancar seus inúmeros remédios e, em muitos casos, para financiar empréstimos consignados para alimentar seus grupos familiares, gerando uma espiral crescente de ansiedade, medo e desesperança.
Vivemos numa sociedade onde todos os agentes do mercado financeiro e os donos dos conglomerados das mídias comerciais sabem, rapidamente, as causas das nossas mazelas sociais, recitando o discurso neoliberal e defendendo o Estado mínimo para melhorar as condições sociais, se tornando um mantra da contemporaneidade, a novidade é que, onde pessoas mais humildes, empobrecidas, degradadas e exploradas passam a defender as políticas que aumentam os rendimentos das elites financeiras e, pasmem, defendem o chicote que sempre foi utilizado para degradar a dignidade dos trabalhadores.
Nesta sociedade, os donos do poder criticam as políticas sociais e defendem o ajuste fiscal, desde que este ajuste impacte fortemente sobre o lombo dos trabalhadores. Se eximem de suas responsabilidades, pagando seus apaniguados para defender seus interesses e seus benefícios hereditários, evitando projetos que podem gerar prejuízos monetários e impedem a taxação de seus compadres e garantem suas isenções fiscais e tributárias, garantindo suas benesses que passam de pais para filhos.
Enquanto os grupos sociais mais privilegiados da sociedade brasileira, marcados pelos ganhos estratosféricos, isenções fiscais e pelos penduricalhos polpudos e generosos permanecerem, continuaremos construindo presídios, encarcerando cidadãos e subfinanciando as escolas, suprimindo direitos fundamentais e transformando os profissionais da educação em categorias degradadas e descartáveis, desta forma, nosso futuro será marcado pelo crescimento dos ressentimentos, dos medos e das desesperanças.
Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

