Divisões constantes

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Vivemos momentos de grandes divisões na sociedade contemporânea, poucos assuntos criam consensos na sociedade atual, na grande maioria das conversas percebemos o incremento da intolerância, das agressões e das violências generalizadas, evitando debates importantes e, desta forma, postergamos decisões imprescindíveis e inadiáveis, com isso, percebemos a incapacidade de construirmos um projeto de país, vivemos na incerteza, na escuridão e desdenhamos decisões importantes num futuro imediato.

Ideias interessantes, discussões ricas e valorosas são deixadas de lado, as redes sociais, palco das discussões estéreis e desnecessárias, estimulam as violências crescentes e impedem uma discussão mais sólida e mais consistente, o que percebemos é o incremento da lacração, o crescimento das mentiras, das fake news e dos ressentimentos, espalhando medos, pavores e cancelamentos, deixando a impressão de que estamos numa nau sem rumo, sem horizontes, sem perspectivas e neste cenário, cada indivíduo defende seus interesses imediatos, criando um guerra de todos contra todos.

 Os setores políticos se digladiam abertamente, todos os dias, os poderes que foram construídos para fortalecer os laços da sociedade, criar um ambiente de respeito e harmonia, para estruturarmos uma sociedade marcada por regras, justiça e solidariedade. Ao contrário, percebemos uma guerra de todos contra todos, cada um observando seus interesses imediatos, cada poder usa seus instrumentos para garantir seus benefícios financeiros, seus penduricalhos, suas emendas parlamentares e suas indicações políticas, gerando uma verdadeira batalha campal entre os poderes da República, onde a sociedade, de forma geral, é o grande prejudicado, desta forma, estamos perpetuando um atraso institucional e aprimorando os privilégios que dominam a sociedade.

No setor produtivo este conflito cresce de forma acelerada, estimulando uma divisão estrutural na sociedade. Setores que demandam juros baixos, crédito abundante e ambiente salutar para o investimento produtivo, perdem espaço na sociedade e deixam de gerar empregos de qualidade e melhorar o bem-estar social da comunidade, em detrimento, percebemos o fortalecimento de setores que vampirizam as riquezas nacionais e crescem com taxas de juros estratosféricas, estimulando a agiotagem, as aplicações financeiras improdutivas, as empresas de bets e dos setores ligados asjogatinas desenfreadas, além das fintechs, muitas delas patrocinadas pelo crime organizado que atuam diretamente para lavar dinheiro, financiar corrupção e esconder falcatruas.

Numa sociedade marcada por grandes transformações como a contemporânea, onde a tecnologia está transformando todas as arestas sociais, redefinindo o futuro imediato, alterando os valores e devastando o mundo do trabalho, encontramos uma sociedade cindida, sem projeto para o futuro, onde os grupos se digladiam em busca de seus interesses privados, fugindo das discussões estruturais e naturalizando as agruras sociais que perpetuam nosso atraso histórico e desastre institucional.

Neste cenário, encontramos uma sociedade amorfa, uma elite agressiva e individualista, sem nacionalismo aparente, sem projeto de país e louca para leiloar a nação, entregando nossas riquezas naturais e vendendo todo o patrimônio público, esperando valores monetários suculentos, acreditando que, com este leilão será agraciada com recursos financeiros gigantescos e que possam garantir, apenas para seus grupos políticos, uma aposentadoria vultosa e garantida, mais uma vez, uma parceria estratégica com os donos do poder financeiro global, perpetuando uma condição desigual e recorrente,  que condena a sociedade a pobreza e ao eterno subdesenvolvimento.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

Ary Ramos
Ary Ramos
Doutor em Sociologia (Unesp)

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